Monday, November 15, 2021

A Roda da Insensatez

 


Os deuses sempre combateram em vão
Contra
a loucura dos homens
Ainda que se saiba que, no sono da razão,
Se multiplicam, dos monstros, os gens.

O saber e o conhecimento que dão o alerta
São sufocados sempre pelo aplauso
Dos tolos e espertos que vêem a porta aberta
E da consciência fazem pouco caso.

A insensatez gosta da mediocridade
E, muitas vezes, do ruim faz unanimidade
Entre os preguiçosos que odeiam ter de pensar,

Porém, se os homens pensam como horda,
Como um relógio aos embusteiros dão a corda
Com que um dia voltam sempre a se enforcar.

Ilustração: https://exame.com/.

Monday, November 08, 2021

Outra poesia de Jaime Cedillo

 


AL VUELO 

Jaime Cedillo

Un poema aletea

delante de tus ojos,

se posa en tu nariz,

huye un segundo antes

de que lo atrapes. Vuelve

con un verso en la boca.

Te lo deja en un hombro,

cuando miras no está. Ríe

desde las sombras. Sabe

que ha de entregarse pronto.

La poesía también

es lo que ocurre antes

de interrumpir el vuelo.

AO VOO 

Um poema treme

diante de teus olhos,

pousa no teu nariz,

foge um segundo antes

que o consigas pegar. Volta

com um verso na boca.

Te deixa em um ombro,

quando olhas, não está. Ri

das sombras. Sabe

que há de se entregar em breve.

A poesia também

é o que acontece antes

de interromper o vôo.

Ilustração: https://pt.dreamstime.com/. 


Sunday, November 07, 2021

XXVI

 


Sim, é verdade.

Querendo aparecer

coloquei um abacaxi na cabeça,

e na minha noia,

imerso na bebida,

por chalaça,

dancei xaxado

na praça do Baú.

Andava meio perdido

e carente

tanto que meu olhar,

que não é de falar,

dizia: -Quer eu pra tu?

Muitas vezes

mais do que aplausos,

reconhecimento ou poesia

na vida nos valia

apenas um pouco amor.

Pode dizer que me ama, por favor?

Ilustração: https://www.spiritfanfiction.com/

(De "Cem Poemas em Cem Dias", Editora Viseu, 2021).  

Thursday, November 04, 2021

Uma poesia de Jaime Cedillo

 


ME HABRIA GUSTADO, PADRE

Jaime Cedillo

«Me habría gustado, padre, que vinieras.

Contemplar tu silueta traslúcida a lo lejos

a través del cristal de aquella sala

donde vine a morir.

¿Por qué me abandonaste

a la vida?»,

me diría mi hijo si naciera.

EU HAVERIA GOSTADO, PAI

"Eu haveria gostado, pai, se tivesse vindo.

Contemplar a tua silhueta translúcida à distância

através do vidro daquela sala

onde vim a morrer.

Por que me abandonastes

à vida?",

me diria meu filho se nascido.

Ilustração: diocesedecampos.org.br.

Tuesday, November 02, 2021

Outra poesia de George Santayana

 


SONNET III

George Santayana

O world, thou choosest not the better part!
It is not wisdom to be only wise,
And on the inward vision close the eyes,
But it is wisdom to believe the heart.
Columbus found a world, and had no chart,
Save one that faith deciphered in the skies;
To trust the soul's invincible surmise
Was all his science and his only art.

Our knowledge is a torch of smoky pine
That lights the pathway but one step ahead
Across a void of mystery and dread.
Bid, then, the tender light of faith to shine
By which alone the mortal heart is led
Unto the thinking of the thought divine.

SONETO III

O mundo, tu não escolhes a melhor parte!

Não é sabedoria ser apenas sábio,

E sobre a visão interior feche os olhos,

Mas é sabedoria acreditar no coração.

Colombo descobriu um mundo, e não tinha gráfico,

Salvo aquele que a fé decifrou nos céus;

Por confiar na suposição invencível da alma

Que era toda sua ciência e sua única arte.

 

Nosso conhecimento é uma tocha de pinho fumegante

Que ilumina o caminho, mas um passo à frente

Através de um vazio de mistério e medo.

Ofereça, então, a suave luz da fé para brilhar

Pela qual somente o coração mortal é conduzido

Até o pensamento do pensar divino.

Ilustração: https://www.preparaenem.com/.

E o divagador Rubén Dario

 

DIVAGACIÓN

Rubén Darío

¿Los amores exóticos acaso...?

Como rosa de Oriente me fascinas:

me deleitan la seda, el oro, el raso.

Gautier adoraba a las princesas chinas.

 

¡Oh bello amor de mil genuflexiones:

torres de kaolín, pies imposibles,

tasas de té, tortugas y dragones,

y verdes arrozales apacibles!

 

Ámame en chino, en el sonoro chino

de Li-Tai-Pe. Yo igualaré a los sabios

poetas que interpretan el destino;

madrigalizaré junto a tus labios.

 

Diré que eres más bella que la Luna:

que el tesoro del cielo es menos rico

que el tesoro que vela la importuna

caricia de marfil de tu abanico.

 

DIVAGAÇÃO

O amor exótico qualquer coisa assim ...?

Como a Rosa do Oriente me fascinas:

Tenho prazer de seda, ouro, cetim.

Gautier adorava as princesas chinas.

 

Oh! Belo amor de mil genuflexões:

torres de caulim, pés impossíveis,

taças de chá, tartarugas e dragões,

e verdes arrozais tão aprazíveis!

 

Ama-me em chinês, o sonoro chino

de Li-Tai-Pe. Eu igualarei aos sábios

poetas que interpretam o destino;

e madrigalizarei junto a teus lábios.

 

Direi que és mais bela do que a lua:

que o tesouro do céu é menos rico

que o tesouro que a vela te importuna

como a carícia de marfim de teu abano.

Ilustração: https://divagarentrepinturaseoutrasartes.blogspot.com/.

Monday, November 01, 2021

Outra poesia de Gilberto Owen

 


EL RECUERDO 

Gilberto Owen

Con ser tan gigantesco, el mar, y amargo,

qué delicadamente dejó escrito

-con qué línea tan dulce

y qué pensamiento tan fino,

como con olas niñas de tus años-,

en este caracol, breve, su grito.

 

A RECORDAÇÃO

 

Por ser tão gigantesco, o mar, e amargo,

que delicadamente deixo escrito

-com que linha tão doce

e que pensamento tão fino,

como com as ondas meninas de teus anos-,

neste caracol, breve, seu grito.

Ilustração: https://artrianon.com/.

Sunday, October 31, 2021

INTUIÇÃO

 


O teu perfume, minha amada,
É como o nascer na primavera
Um mundo encantado, quimera
Sutil, surpreendente como espada,

E, no entanto, só perturba, embriaga,
A paixão de todo adormecida
Que se acende na esperança vaga
De captar todo o sumo da vida.

E assim, por te querer, por amar tanto
Surpreso exploro em meu receio
Cada espaço, pele, dobra e canto
Quando o mel, tão bem sei, está no meio.

Ilustração: https://anime21.blog.br/.

(De Águas Passadas, Editora Per Se, 2013)> 

 

Uma poesia de Gilberto Owen


 CANCIÓN

Gilberto Owen

De la última estrella

a la primera

fue para oler las rosas.

 

Vuelta, al revés, del mundo,

abierta la memoria

de la primera estrella

a ti -mujer, idea-,

¿hasta cuándo la última?

 

CANÇÃO

Da última estrela

à primeira

fui pelo aroma das rosas.

 

Volta, ao contrário, do mundo,

aberta à memória

da primeira estrela

a ti-mulher, ideia,

até quando a última?

Ilustração: https://www.artstation.com/.

Uma poesia de George Santayana

 


SONNET V

George Santayana

Dreamt I today the dream of yesternight,

Sleep ever feigning one evolving theme -

Of my two lives which should I call the dream?

Which action vanity? Which vision sight?

Some greater waking must pronounce aright,

If aught abides still of the things that seem,

And with both currents swell the flooded stream

Into an ocean infinite of light.

 

Even such a dream I dream, and know full well

My waking passes like a midnight spell,

But know not if my dreaming could break through

Into the deeps of heaven and of hell.

I know but this of all I would I knew:

Truth is a dream, unless my dream is true.

SONETO V

Hoje eu sonhei o sonho de ontem,

Dormi sempre fingindo ser uma evolução do tema -

Das minhas duas vidas, qual devo chamar de sonho?

Qual ação vaidade? Qual olhar visão?

Algum despertar maior deve ser pronunciado corretamente,

Se alguma coisa permanece das coisas que parecem,

E em ambas as correntes, o fluxo inundado

Dentro de um oceano infinito de luz.

 

Até tal sonho que eu sonho, e sei muito bem

Meu despertar passa como um feitiço da meia-noite,

Mas não sei se meu sonho poderia irromper

Dentro das profundezas do céu e do inferno.

Eu sei, mas de tudo o que eu gostaria de saber:

A verdade é um sonho, exceto se meu sonho for verdade.

Ilustração: Mascha Tace / Shutterstock.com.

Saturday, October 30, 2021

O CERNE DO REAL

 


"Se mesmo o positivo é sonho e controvérsia/Nem porvir, nem ninguém, coisa alguma desliga/A ciência que sonha e o verso que investiga" (Jorge de Lima).

Se sonho

É com o azul

das longas ondas

que se estendem pelo além.

 

Se sonho

É com a luminosidade

das manhãs largas

com um céu azul infinito

como querer alguém.

 

Há controvérsias

se sonho,

ou se não sonho.

É que teus risos,

como o verso e a ciência-

único real-

são feitos de coisas etéreas.

Ilustração: https://www.booking.com/.

 

Mais um poeminha de Francisco Álvarez

 


199

Francisco Álvarez

Hay lágrimas en mí cuando tú lloras,

y habrá sonrisas cuando tú sonrías;

permíteme que arranque de tus días

un ramillete de olvidadas horas,

para alargar tus noches, y las mías,

retrasando la luz de las auroras.

199

Há lágrimas em mim quando tu choras

e haverá sorrisos quando tu sorrires;

permita-me que arranque de teus dias

um buquê de esquecidas horas,

para alargar tuas noites, e as minhas,

atrasando a luz das auroras.

Ilustração: https://gooutside.com.br/.


Friday, October 29, 2021

Viagem

 


Tudo, ao fim e ao cabo,
Inútil salta
Ainda que o dizer verbalizado
Tente dar sentido
Ao resguardado
No fundo da alma,
No longínquo sentimento
Que em tristeza só se manifesta.

Hoje com o tempo livre
enrodilho-me no espaço das lembranças
como quem folheia
um manuscrito de outrora

um objeto do passado

procurando explicações,
chaves, formulas secretas,
reconstituições
do que já se perdeu....

Vago no olhar e no tocar

imóvel

pelos mistérios
de silêncio e paz

e, contudo,

Só me encontro
quando paro,
me deparo
com a sensação inexprimível
do nunca mais.

Ilustração: Youtube.

Mallarmé sempre Mallarmé

 


TOUTE L’ÂME RÉSUMÉE....

Stephane Mallarmé

Toute l’âme résumée

Quand lente nous l’expirons

Dans plusieurs ronds de fumée

Aboli en autres ronds


Atteste quelque cigare

Brûlant savamment pour peu

Que la cendre se sépare

De son clair baiser de feu

 

Ainsi le chœur des romances

A ta lèvre vole-t-il

Exclus-en si tu commences

Le réel parce que vil

 

Le sens trop précis rature

Ta vague littérature

TODA ALMA É RESUMIDA...

A alma inteira resumida

Quando lenta se expira

Em cada anéis de fumaça

Em outros círculos abolida

 

Atesta qualquer cigarro logo

Por pouco que queime a consciência

Que as cinzas é a decadência

De seu claro beijo de fogo

 

Assim, o coro dos romances

Que voa para o seu lábio

Exclua se você começar

O real porque vil

 

O significado muito preciso apaga

Sua literatura vaga

Ilustração: https://www.drogariasultrapopular.com.br.

Outra poesia de Wanda Phipps

 


MORNING POEM #40

Wanda Phipps

pink around a

circle of pink

around a shimmer

of found reason

pink around a

glimmering white

shaked around

a sound blue

somehow in the

touch of green

looped inside

loops abound

a bound ribbon

a hope bow bows

in a rare season

 

POEMA DA MANHÃ # 40

rosa em torno de um

círculo de rosa

em torno de um brilho

de encontrada razão

rosa em torno de um

um branco cintilante

chacoalhado

num som azul

de algum modo no

toque de verde

inserido dentro

de muitas voltas  

de uma fita amarrada

um arco de esperança se curva

em uma estação rara

Ilustração: https://www.elo7.com.br/.

ENSAIO DA MORTE

 


Para a morte ensaio todo dia
No sono inquieto e mesmo no acordar
E até em evitar gesto, palavra, ar...
Só por fome, ou sede, gasto energia.

Invejo, ao olhar pela janela, a pedra
Única coisa com que me identifico
Na sua mudez e permanente fico
Indiferente a erva que nela medra.

Imune aos viajantes, às vozes, cantos
ou ao calor do sol, à água ou ao vento.
Na dureza pétrea livre do pensamento
Só maleável ao passar dos anos, tantos...

Também me penso como um ser imóvel,
Mesmo obrigado aos esforços inúteis,
Resisto, desligando-me de modos sutis
De tudo que passa, fica e é provável.

Penso na morte e no seu significado
E na imobilidade em que o nada vigora.
Sonho com este tempo tão delicado
Que do fim da vida já não vejo a hora.

Ilustração: https://mensagenspoderosas.webnode.com.br/.

Um poema de Wanda Phipps

 


MORNING POEM #1

 Wanda Phipps

floating gray web pages

step into a crowded vacuum

clouds sweating

 

there's a gauzy scrim

in front of my eyes

between me and

the rest of the world

 

Afternoon birds

 

POEMA DA MANHÃ #1

Flutuando páginas cinzas da web

entre em um vácuo lotado

de suadas nuvens

 

há uma tela transparente

na frente dos meus olhos

entre eu e

o resto do mundo

 

Pássaros da tarde

Ilustração: https://lightfieldstudios.net/.

Outro poema de Francisco Álvarez

 


SÓLO TENEMOS UN BESO 

 Francisco Álvarez

Beso indeleble, beso insuficiente,

compendio de inseguras realidades

y perspectivas de fugacidades,

entre ayer y mañana estrecho puente.

 

A tu vida amarrada, dependiente

de tan inciertas eventualidades,

y víctima de mis perplejidades,

por no hacerme en tu vida permanente.

 

Hacia ti van mis aguas encauzadas,

con fuerza torrencial, o sosegadas,

pero siempre abocando a lo imposible.

 

Cómo duele en el alma esta distancia,

cómo me duele ser tu circunstancia,

amor de lejanía, inasequible.

SÓ TEMOS UM BEIJO

Beijo indelével, beijo insuficiente,

compêndio de inseguras realidades

e perspectivas de fugacidade,

entre o ontem e o amanhã estreita ponte.

 

A tua vida amarrada, dependente

de tão incertas eventualidades,

e vítima de minhas perplexidades,

por não me fazer em tua vida permanente.

 

Até a ti vão minhas águas canalizadas,

com força torrencial, ou sossegadas,

porém sempre abocanhando o impossível.

 

Como dói na alma esta distância,

Como me dói ser tua circunstância,

amor distante, inacessível.

Ilustração: http://www.blogdacarolchicorsqui.com/. 

Fora de ritmo

 


É ainda com o mesmo olhar de menino
Que procuro meus brinquedos
De homem velho.
Há, é certo, muito além
Da inocência de outrora
A urgência do desejo e da hora
E a maldade, envolta
Em palavras gentis e suaves,
Que examina as promessas,
Mesmo as mais reais,
Com incredulidade.
Não me alimento de saudade
Nem de esperança.
Sei que o mundo é uma dança
E vou me balançando como posso.

 

Tuesday, October 26, 2021

Outro poeminha de Francisco Álvarez

 


200

Francisco Álvarez

Cuántas veces mi cuerpo ha percibido

la magia y el calor de tu contacto,

y cuántas en el alma he recibido

tu entrega, sin haber firmado un pacto.

Tu impulso, generoso y decidido,

fue un estado de amor, no un sólo acto;

y habrá de prolongarse en permanencia

con  cada beso y cada confidencia.

200

Quantas vezes meu corpo percebeu

a magia e o calor do teu contato,

e quantas na alma há recebido

tua entrega, sem haver firmado um pacto.

Teu impulso, generoso e decidido,

foi um estado de amor, não só um ato;

e há se prolongar em permanência

com cada beijo e cada confidência.

Ilustração: https://medium.com/.


EM BUSCA DO PASSADO

 


Não! Não desejo lembrar
O tempo que passou...
Aquilo que era
Diz o verbo terminou...
Não venho reclamar
Ou mexer em velhas feridas.
Amar, deixar de amar
São coisas comuns nas vidas.
Não venho lhe pedir,
Nem se preocupe,
Para voltar
Nem cobrar palavras
Que perderam o sentido.
Passado é passado.
Perdido é perdido.
Se vim bater na sua porta,
É claro,
Que se trata de uma razão sentimental.
Sabe aquele vaso oriental
Que mamãe me deu?
Tá por aí ou você vendeu?

Ilustração: https://www.imperiodosantigos.com.br/.

(Poemas Malcomportados). 

Tuesday, October 19, 2021

DUALIDADE


Saberás que já não te amo muito tarde

Quando o fogo tiver o gosto extinto

De todas as coisas que ainda sinto

E do fogo que ainda em mim arde.

Eu não te amo por ainda assim amar-te,

Como se fosse apenas como o instinto

De buscar fazer verdade do que minto

Transformar em todo o que é só parte.

Te amo, e não te amo, como se tivesse

Nas mãos os sonhos frágeis da menina

Que a incerteza de frustrar me detivesse

E, é meu amor, que como um louco clamo,

Mas é loucura, justamente, por ser sina

Não te amar assim do jeito que te amo.

Ilustração: https://medium.com/.