Thursday, August 23, 2012

Jorge Boccanera


MECANISMOS                                                     

Jorge Boccanera

Para entreabrir el árbol
hay que cerrar el viento.
Para entreabrir al sueño
hay que cerrar el día.
Para entreabrir al mundo
hay que cerrar la bomba.
Para entreabrir las manos
hay que cerrar pañuelos.
Para entreabrir el niño
hay que cerrar al hombre.
Para entreabrir al mar
hay que cerrar ciudades.
Para entreabrir la boca
hay que cerrar los ojos.

MECANISMOS

Para entreabrir a árvore
há que fechar o vento.
Para entreabrir o sono
há que fechar o dia.
Para entreabrir o mundo
há que fechar a bomba.
Para entreabrir as mãos
há que fechar lenços.
Para entreabrir a criança
há que fechar o homem.
Para entreabrir o mar
há que fechar as cidades.
Para entreabrir a boca
há que fechar os olhos.

Ilustração: palavrearintenso.blogspot.com

Tuesday, August 14, 2012

Outra vez Leo


                                                     
Leo Zelada

I
Ciervo azul.
La danza de la noche
Rozó el cielo

II
Cabellos blancos
Despides al invierno
Danza la luna

III
Cae el dragón
Anuncias los otoños
Flor del durazno

IV
Rugen los dioses
La lira del poeta
Acalla el hielo.

Haikas da noite

I
Cervo azul.
A dança da noite
Roçou o céu

II
Cabelos brancos
Adeuses de inverno
A lua dança

III
Cai o dragão
Anuncios de outonos
Flor de pêssego

IV
Rugem os deuses
A lira do poeta
Silencia o gelo.

Leo Zelada


Percival

«el que ama, obedece»
Chretien de Troyes
siglo XII

soy el oscuro caballero andante
que camina silencioso entre las sombras
y se desvanece taciturno sobre la niebla
aquel que lucha por absurdas ilusas cruzadas
y sólo encuentra la mirada amarga del exilio
no obstante el que al pie de una solitaria torre
espera a su doncella -orden de las rosas-
en la vasta inmensidad de la noche

Percival

"Aquele que ama, obedece"
Chrétien de Troyes,
Século XII

Eu sou o cavaleiro negro andante
que caminha silencioso entre as sombras
e desaparece taciturno na névoa,
o que luta por absurdas cruzadas de ilusão
e só encontra o olhar amargo do exílio,
não obstante, o que, ao pé de uma torre solitária
espera sua donzela-ordem das rosas-
na vasta imensidão da noite

Ilustração: Boys King Arthur - N. C. Wyeth - p214.jpg

Sunday, August 12, 2012

Poemas mal comportados




Erro de profissão

Que todo homem é bobo,
meu pai me dizia,
com uma ironia,
de quem sabia também ser.

É verdade que me ensinou
a bobo ser com a sabedoria
de um encantador de serpentes,
pois, me julgava um idiota, certamente. 

Creio que, com o tempo,
não o desapontei, agora sei,
que só fui grande por auto-referência
e que a bobagem sempre foi minha essência.

Só errei de profissão:
ser palhaço era a minha vocação. 

Ilustração: blogfalandofrancamente.com 

Mariachiara Franceschini



Gocce di pioggia

Mariachiara Franceschini

La pioggia
bussò ai vetri
chiusi.

Penetrò
la barriera
di cristallo

Cadde candida
sul mio volto
si ferì
e pianse dai miei occhi
amari di sale

Pianse fino a terra
e svanì
nel nulla di un istante
nell'eternità di un momento...


Pingos de chuva

A chuva
bateu no vidro
fechado.

penetrando
na barreira
de vidro

caiu cândida
o meu rosto
ferindo
e  dos meus olhos sairam
lágrimas amargas

que caíram lentas na terra
e sumiram
no nada de um instante
na eternidade de um momento ...

Ilustração: projetopalavras.blogspot.com

Antonia Astarita


Inquietudine                                                              

Antonia Astarita

Spiccioli di inquietudine
In questa notte fonda
Nemmeno l'estasi di un amore
Può farmi svanire
La rabbia addentrata dentro me
Sono troppo esausta
Per felicitarmi.

Inquietude 

Sinais de inquietude
Nesta noite profunda
Nem mesmo o êxtase do amor
Pode me fazer sumir
A raiva entranhou dentro de mim
Estou por demais exausta
Para me felicitar.

Ilustração:  otemporeina.blogspot.com

Lamento domingueiro


Diga-me o que comes e eu te direi quem és-        
disse Brillat-Savarin-
Num século em que se sabia
Que a comida era a vida.

Já mamãe, Maria Celeste, pernambucana,
filosofa irreconhecida do agreste,
dizia que “Da vida só se leva o que se come,
o que se bebe, o que se goza”.

De qualquer forma, comer é essencial.
E, neste domingo modorrento,
Só de cerveja me alimento
E por não poder gozar só escrevo e lamento.

Ilustração: gastrolandia.uol.com.br

Sindia Andretta


Un assassino sentimento

Sindia Andretta

Una beata voce
d'un angelico cuor,
a me vien
l'amor cantando.
Diavolo dall'animo angelico
quante pene soffrir farai ancor al mio cuor,
della tua scomparsa già dolente?
Come le sirene d'Ulisse
dolce sussurro diabolico,
l'ennesima spina tua
nel mio cuore
delicata, come un ago, porrai.
Rammenta:
udir non può
l'animo tuo
il disperato urlo
che dall'immenso mar, provvien.

Um sentimento assassino

Uma voz abençoada
de um coração angelical,
a mim vem
o amor cantando.
Diabo de ânimo angélico
quanta dor farás sofrer meu coração,
que já sofre ferido?
Como as sereias de Ulisses
doce sussurro diabólico,
a enésima vez toca
no  meu coração
delicado, como uma agulha, me chama.
Recorda:
não pode ouvir
tua mente
o desesperado rumor
que  do imenso mar, provém.

Ilustração: imprimis.arteblog.com.br

Thursday, August 09, 2012

Cid Corman


“Merely to walk”

Cid Corman

Merely to walk
on a cold clear Day
quick together

makes me want to cry
Here we are!-but
I realize that

each of us knows
in his own silence
how much each knows.


Simplesmente caminhamos

Simplesmente caminhamos
no frio de um dia claro
bem depressa juntos

senti vontade de gritar
Nós estamos aqui!- Mas,
percebi que

cada um de nós sabia
no seu próprio silêncio
o quanto cada um sabia. 

Ilustração:  circulandoporcuritiba.com.br

Provençal amazônico



Podem me acusar                                               
Do que não fiz,
Do que não faço,
Mas, é bom lembrar
Que o caçador que lança muitos laços,
E os distribui sem mapa e sem sistema,
Pode, acabar, ironia do destino,
Como o menino
Que, de tanto enganar,
Quando se afogou
Ninguém veio salvar.

Ilustração: joaofreitas.net.br

Derek Walcott



Midsummer, Tobago

Derek Walcott

Broad Sun-stoned beaches.

White heat.
A green river.

A bridge,
schorched yellow palms

from the Summer-sleeping house
drowsing through August.

Days I have held,
days I have lost,

days that outgrow, like daughters,
my harbouring arms.


Meio de verão em Tobago

Largas praias banhadas pelo sol.

Calor branco.
Um verde rio.

Uma ponte,
cercada de crestadas palmeiras amarelas

vindas da casa sonolenta de verão
cochilando através de agosto.

Dias em que vivo,
dias que perdi,

dias que, como filhas, se despregam
da enseada de meus braços.

Ilustração: vidaeestilo.terra.com.br 

Sunday, August 05, 2012

De novo Lugones


Leopoldo Lugones

Al ofrecerte una rosa
el jardinero prolijo,
orgulloso de ella, dijo:
no existe otra más hermosa.

A pesar de su color,
su belleza y su fragancia,
respondí con arrogancia:
yo conozco una mejor.

Sonreíste tú a mi fiero
remoque de paladín...
Y regresó a su jardín
cabizbajo el jardinero.


Canção da boca de flor

Ao oferecer-te uma rosa
o jardineiro prolixo
orgulhoso dela, disse:
nenhuma outra é mais formosa.

Apesar da sua cor,
sua beleza e fragrância,
respondi com arrogância:
eu conheço uma melhor.

Sorristes por me ver feroz
motejo de paladino, enfim...
Ele voltou a seu jardim
cabisbaixo e sem voz.

Ilustração: volume-maximo.blogspot.com

Leopoldo Lugones


LA NOCHE PURA

Leopoldo Lugones

Floreció, con la lluvia, en los jardines,
El cándido jazmín de primavera.
La noche, cual profunda enredadera,
Cuaja también en luz claros jazmines...

 A noite pura

Floresceu com a chuva, nos jardins,
o cândido jasmim da primavera.
A noite, qual profunda enredadeira,
coalha também de luzes claras os jasmins....

Thursday, August 02, 2012

Tristes trópicos



Eu vi, na paisagem tranqüila, um velho indiano
Como um presente para os meus olhos e a minha alma
E nem sei como tive calma
Para não seguir meu coração
E  me incorporar à beleza do lugar.
Mas, algo me diz que nada é tão fácil 
nem que, nesta vida, se pode ser feliz.
Que, para onde for, tranqüilo que seja,
Não há nada que me proteja
dos problemas e dos fantasmas.
O jardim dos outros é sempre mais bonito....
Agora que o nosso clima é ruim,
Meu bem, tanto sofro quanto acredito! 
Porém, não me peça para cantar 
"Vamos fugir"
que minha voz é especial para fazer rir. 

Trópico ardente

Há dias, como esses, assim                                                
em que, mesmo as esperanças, são torradas
num agosto de tardes e canções desesperadas
em que o futuro tende para o nada
ou se aproxima....
Na verdade, hoje, só me animava
o seu amor, minha menina,
a possibilidade de brincar com a flor
que só o perfume me deixa
com a ingenuidade de que rezar
pode lhe salvar do pecado.
Só o sorriso cálido e a promessa no ar
me faz ainda acreditar
que a beleza ainda há de brotar
neste imenso calor da tarde,
na areia quente que diviso,
com o lerdo sorriso,
e o olhar que se perde
até onde a vista pode alcançar

Ilustração: imprimis.artblog.com.br/22/

Mais uma vez Miguel Antonio Jiménez

Soneto com estrambote                                                                          


Miguel Antonio Jiménez

Senos peras parecen tus violines
desnudos en mi música los muerdo
como cuerpos en fuga los recuerdo
en la gimiente forma sus delfines

Son la carne redonda de sus curvas
que el sueño toca al aire suspendido
en la música forma del gemido
en el verde sombra de sus curvas

Inclina ya la tarde tus pezones
y a través de la música diluye
el mundo que consiente tus razones

Son formas pero son ondulante caricia
fundiéndose en la página que fluye
como tus dos sentidos de justicia

Soneto com estrambote

Seios de peras parecem teus violinos
nus na minha música os mordo
como corpos em fuga os recordo  
gemendo na forma seus golfinhos

São as carnes redondas de suas curvas
que o sono toca no ar suspendido
em música na forma de gemido
na verde sombra das suas curvas

Inclina já na tarde os seus mamilos
e através da música diluí
o mundo que consente tuas razões

São formas, porém,são ondulantes carícias
fundindo-se na página que flui
como teus dois sentidos de justiça

Ilustração julioribeirocortez.blogspot.com

Thursday, July 26, 2012

Eterno aprendiz

Só os teus olhos me consolam                        
De pouco ter visto o belo, o bonito.
Só o teu sorriso me conforta
ao atravessar tempos e portas
me mostrando que se pode ser feliz.
Só o teu jeito de menina
com todo teu conhecimento de mulher
a este pobre professor ensina
que viver é sempre tentar ser feliz
e continuar a ser um eterno aprendiz.

Ilustração: http://poetaeliasakhenaton.blogspot.com.br

E ainda Jiménez


Miguel Antonio Jiménez


Húmedo el movimiento de la rosa que silba
goteando desde el alba su vacío.

Fábula rosa  

Úmido o movimento da rosa que assobia
gotejando desde’ o amanhecer o seu vazio.







Ilustração:
wilmabarsotti.blogspot.com

De volta Miguel Antonio Jiménez


Miguel Antonio Jiménez

Tibia el alma arde en la brisa
afina el viento su breve latir
en tu cintura sueño a flor de agua
donde una luz seduce
el íntimo retozo de tu vuelo.

Morna na alma

Morna a alma arde na brisa
afina o vento no seu breve passar
na tua cintura sonho a flor de água
onde uma luz seduz
o íntimo volteio do teu voo.

Tuesday, July 24, 2012

E novamente Manuel Machado



Manuel Machado

Era un suspiro lánguido y sonoro
la voz del mar aquella tarde... El día,
no queriendo morir, con garras de oro
de los acantilados se prendía.

Pero su seno el mar alzó potente,
y el sol, al fin, como en soberbio lecho,
hundió en las olas la dorada frente,
en una brasa cárdena deshecho.

Para mi pobre cuerpo dolorido,
para mi triste alma lacerada,
para mi yerto corazón herido,

para mi amarga vida fatigada...
¡el mar amado, el mar apetecido,
el mar, el mar, y no pensar nada...!

Pôr do sol

Ele era um suspiro lânguido e sonoro
a voz do mar naquela tarde ... O dia,
não querendo morrer, com garras douradas
nos rochedos se prendia.

Porém,  seu seio o mar ergueu potente
e o sol, enfim, como em soberbo leito
afundou-se nas ondas douradas em frente
como  uma brasa em carvão desfeito.

Para o meu pobre corpo dolorido,
para a minha triste alma lacerada,
para meu duro coração ferido

para a minha vida amarga fatigada ...
O mar amado, o mar apetecido,
o mar, mar, e não pensar mais nada ...!

Ilustração: paraloucoseraros.blogspot.com