Tuesday, December 15, 2015

Canção da vidinha insossa



Não quero mais discutir nada.             Hoje só tenho esta dor danada
Me pedindo para esquecer
Para continuar a viver
Mesmo quando tudo parece sem sentido
E toda a música se resume no silêncio
Ou no soar sem ouvidos.

Hoje não tenho o abraço amigo
Nem nada do querer antigo
E o beijo da mulher,
Que antes era todo o objetivo,
Parece ser como uma obrigação,
Mera e protocolar ação
De quem bate o ponto,
Ou continência,
Mera necessidade de cumprir as exigências.

Hoje há este cansaço do mundo...
Esta consciência de que tudo é inútil
Como quem busca rimar inconsútil
Ou abusar de um desejo fútil
Como se valesse a pena.

Hoje a vida me parece tão pequena!

Ilustração: palavrassemsentido.wordpress.com

Volta Cortázar

Esta ternura                                                                        
Julio Florencio Cortázar

Esta ternura y estas manos libres,
¿A quién darlas bajo el viento? Tanto arroz
Para la zorra, y en medio del llamado
La ansiedad de esa puerta abierta para nadie.
Hicimos pan tan blanco
Para bocas ya muertas que aceptaban
Solamente una luna de colmillo, el té
Frío de la vela la alba.
Tocamos instrumentos para la ciega cólera
De sombras y sombreros olvidados. Nos quedamos
Con los presentes ordenados en una mesa inútil,
Y fue preciso beber la sidra caliente
En la vergüenza de la medianoche.
Entonces, ¿nadie quiere esto,
Nadie?


Esta ternura

Esta ternura e estas mãos livres,
A quem dá-las sob o vento? Tanto arroz
Para a cadela, e no meio do chamado
A ansiedade dessa porta aberta para ninguém.
Fizemos um pão tão branco
Para bocas já mortas que aceitavam
Apenas um luar de presas, chá
Frio da vela do amanhecer.
Tocamos instrumentos para a raiva cega
De sombras e chapéus esquecidos. Ficamos
Com os presentes organizados numa mesa inútil
E foi preciso beber a cidra quente
Na vergonha da meia-noite.
Então, ninguém quer isto,

Ninguém?

Monday, December 14, 2015

Uma poesia de Andrea Cote Botero

                                                             SI SUPIERAS

Andrea Cote Botero

que el río no es de agua
y no trae barcos
ni maderos,
sólo pequeñas algas
crecidas en el pecho
de hombres dormidos.

Si supieras que ese río corre
y que es como nosotros,
o como todo lo que tarde o temprano
tiene que hundirse en la tierra.

Tú no sabes,
pero yo alguna vez lo he visto
hace parte de las cosas
que cuando se están yendo
parece que se quedan.

Se soubesses

que o rio não é de água
e não traz barcos
ou madeiras,
apenas pequenas algas
crescidas no peito
de homens dormidos.

Se soubesses que este rio corre
e que é como nós somos,
ou como tudo que, cedo ou tarde,
tem que se fundir à terra.

Tu não sabes,
porém,  eu alguma vez já o vi
fazer parte das coisas
que, quando se estão vendo
Parece que permanecem.


Ilustração: www.forumespirita.net

Uma poesia de Silvia Arazi

De harinas y de aromas                                                      
(Para esa mujer, mi madre)

Silvia Arazi

-Cuando mi madre habla de zapallos,
de mazapán, de ollas, de manzanas,
todo se enciende en sus ojitos grises.
Por eso a veces,
le pido que me diga
cómo debo elegir las berenjenas.

“¿Las más sabrosas?”, pregunta, agradecida,
“¡Las de cáscara negra, las pequeñas!”

Ella habla largo
de harinas y de aromas.
(inagotable mujer entre fulgores)
Y luego vuelvo a preguntarle todo,
acerca del perejil, del pan
o de la albahaca.

Lo hago, en verdad, de puro gusto,
para encenderla toda, para que arda.

Porque me gusta ver
cómo se enciende,
por el gusto, nomás, de que me cuente.

De farinhas e aromas

Quando a minha mãe fala de abóboras,
de maçapão, de folhas, de maçãs,
tudo se acende em seus olhinhos cinzentos.
Por isto, às vezes,
Peço-lhe que me diga
Como devo escolher berinjelas.

“As mais saborosas?", pergunta, agradecida,
"As de casca negra, pequenas!"

Ela fala muito
de farinhas e aromas.
(inesgotável mulher entre os brilhos)
E logo volto a perguntar-lhe tudo
Acerca de salsa, de pão
ou do manjericão.

O faço, em verdade, por puro gosto,
para incendiá-la toda, para que arda.

Porque me gosta ver
como se acende,
pelo gosto, não mais, do que me conta.


Ilustração: http://caminhosdagula.com.br/blog/2015/09/09/ervas-temperos-e-sabores/

Thursday, December 10, 2015

Paul Valéry de volta

Cantique des colonnes                                                  
Paul Valéry

(...)
Filles des nombres d’or,
Fortes des lois du ciel
Sur nous tombe et s’endort
Un dieu couleur de miel.

Il dort content, le Jour,
Que chaque jour offrons
Sur la table d’amour
Etale sur nos fronts.

Sous nos mêmes amours
Plus lourdes que le monde
Nous traversons les jours
Comme une pierre l’onde !

Nous marchons dans le temps
Et nos corps éclatants
Ont des pas ineffables
Qui marquent dans les fables…

Cântico das colunas

(...)

Somos filha da proporção, da harmonia,
e somos fortes pelas leis do céu.
Sobre nós, outras, tomba e dorme
um deus cor de mel:
que feliz dorme aqui de Dia…

Incorruptíveis irmãs,
quase ardendo, quase frescas,
para bailar elegemos
brisa e folhas secas
e os séculos de dez em dez
e os povos do passado…

Caminhamos no tempo
e nossos corpos radiantes
avançam inefáveis 
a um passo que não se sente.


Ilustração: promotline.com

Wednesday, December 09, 2015

Ode a uma tradição de infância

Sim, eu gosto de leite de moça.         
Na infância, é verdade, já fui mais obsessivo
E, até pela fome, tinha mais motivos, para ser
Um guloso consumidor.
Cresci e, mesmo assim, o hábito se conservou,
Apesar das dificuldades de fornecedor.
Mas, não posso negar o que é evidente:
Eu gosto de leite de moça!
Devo dizer que o condensado
Também é bom,
Porém, o leite de moça ideal
Deve ser bebido ao natural. 

Ilustração: www.drogariavenancio.com.br

Mais uma poesia de Jorge Luis Borges

Susana Bombal                                                            
Jorge Luis Borges

Alta en la tarde, altiva y alabada,
Cruza el casto jardín y está en la exacta
Luz del instante irreversible y puro
Que nos da este jardín y la alta imagen
Silenciosa. La veo aquí y ahora,
Pero también la veo en un antiguo
Crepúsculo de Ur de los Caldeos
O descendiendo por las lentas gradas
De un templo, que es innumerable polvo
Del planeta y que fue piedra y soberbia,
O descifrando el mágico alfabeto
De las estrellas de otras latitudes
O aspirando una rosa en Inglaterra.
Está donde haya música, en el leve
Azul, en el hexámetro del griego,
En nuestras soledades que la buscan,
En el espejo de agua de la fuente,
En el mármol de tiempo, en una espada,
En la serenidad de una terraza
Que divisa ponientes y jardines.
Y detrás de los mitos y las máscaras,
El alma, que está sola.

Susana Bombal

Alta na tarde, altiva e
Cruza o casto jardim e está na exata
Luz do instante irreversível e puro
Que nos dá este jardim e a alta imagem
Silenciosa. A vejo aqui e agora,
Porém, também a vejo num antigo
Crepúsculo de Ur dos caldeus
Ou descendendo pelos lentos balcões
De um templo, que é inumerável pó
Do planeta e foi pedra e soberba
Ou decifrando o mágico alfabeto
Das estrelas de outras latitudes
Ou aspirando uma rosa na Inglaterra.
Esta onde há música, no leve
Azul, no hexâmetro grego,
Em nossas solidões que a buscam,
No espelho de água da fonte,
No mármore do tempo, em uma espada,
Na serenidade de um terraço
Que divisa poentes e jardins.
E detrás dos mitos e das máscaras,
A alma, que está só.  

Ilustração: vimeo.com




Tuesday, December 08, 2015

Agora Rafael Pombo

Un beso                                                                       
Rafael Pombo

Nube con nube fulminante choca:
¡Esa es la tempestad!
Estréllanse una boca y otra boca:
¡Esa es la muerte
O es la felicidad!
¡Dame un beso, alma mía! De esa suerte
Yo ansío en tus brazos desposar la muerte
Con la felicidad.

Um beijo

Nuvem com nuvem fulminante choca:
essa é a tempestade!
Estalando-se uma boca em outra boca:
essa é a morte
ou é a felicidade!
Dá-me um beijo, alma minha! Dessa sorte
eu anseio em teus braços desposar a morte
com a felicidade.


Ilustração: francobeck.wordpress.com

Sunday, December 06, 2015

E, de volta, Charles Baudelaire

La Destruction                                                                    
Charles Baudelaire

Sans cesse à mes côtés s'agite le Démon;
Il nage autour de moi comme un air impalpable;
Je l'avale et le sens qui brûle mon poumon
Et l'emplit d'un désir éternel et coupable.

Parfois il prend, sachant mon grand amour de l'Art,
La forme de la plus séduisante des femmes,
Et, sous de spécieux prétextes de cafard,
Accoutume ma lèvre à des philtres infâmes.

Il me conduit ainsi, loin du regard de Dieu,
Haletant et brisé de fatigue, au milieu
Des plaines de l'Ennui, profondes et désertes,

Et jette dans mes yeux pleins de confusion
Des vêtements souillés, des blessures ouvertes,
Et l'appareil sanglant de la Destruction!

A destruição

Sem cessar a meu lado o demônio se agita;
flutua a meu redor como o ar impalpável;
o respiro, sinto, queima, meu pulmão irrita
e o enche de um desejo eterno e culpável.

Às vezes o prende, sabedor de meu amor à arte
na forma da mais sedutora das mulheres, 
e sob especiais pretextos falsos de sua parte
acostuma-me o gosto a nefandos prazeres.

Assim me conduz, para distante de Deus, o olhar,
ofegante de brisa fatigado, a no meio me deixar
das planícies do cansaço, profundas e desertas

e lança nos meus olhos, plenos de confusão
sujas vestimentas, feridas abertas
e o adereço sangrento da destruição!

Ilustração: www.fantasticwomans.com.br


Saturday, December 05, 2015

Lembranças soltas

Não era sábado.                                 Não era domingo.
Era um dia impreciso e sem noção.
Peguei, sem receio, tua mão
E pensei seja o que Deus quiser.
Deus é o sábio que é
Por ter inventado a mulher
Como forma de preservação da espécie,
De vez que o homem é um inútil sem ela.
Assim me agarrei na tua costela
E fiz uma prece
Antes de me aventurar no imponderável.
E fui, entre beijos e abraços,
Mergulhar no precipício
Que prometia tanto ser
Paixão como vício.


Ilustração: simplesmenteeli.blogspot.com

Friday, December 04, 2015

O inesquecível Juan Gelman


                                                        Oración


Juan Gelman

Habítame, penétrame.
Sea tu sangre una como mi sangre.
Tu boca entre a mi boca.
Tu corazón agrande el mío hasta estallar.
Desgárrame.
Caigas entera en mis entrañas.
Anden tus manos en mis manos.
Tus pies caminen en mis pies, tus pies.
ardeme, árdeme.
Cólmeme tu dulzura.
Báñeme tu saliva el paladar.
Estés en mí como está la madera en el palito.
Que ya no puedo así, con esta sed
Quemándome.

Con esta sed quemándome.

La soledad, sus cuervos, sus perros, sus pedazos.

Oração 

Habita-me, penetra-me.
Seja teu sangue um só com meu sangue.
Tua boca entre na minha boca.
Teu coração aumente o meu até estalar.
Rasga-me.
Caibas inteira em minhas entranhas.
Andem tuas mãos nas minhas mãos.
Teus pés caminhem em meus pés, teus pés.
Arde em mim, arde em mim.
Enche-me com tua doçura.
Banha-me tua saliva o paladar.
Estejas em mim como está a madeira no palito.
Que já não possa viver assim, com esta sede
Queimando-me.

Com esta sede queimando-me.

A solidão, seus corvos, seus cachorros, seus pedaços.

Ilustração: umlugarchamodomeu.blogspot.com

Fale o que quiser



Somente prá me machucar
Faz questão de falar,
Em qualquer lugar,
Que não vai voltar.
Somente pra me machucar
Voltou a usar
As roupas que cansei de criticar
E, despreocupada, soube que diz
Que se sente mais feliz
Do que podia imaginar,
Que tudo não passou de ilusão
E só viveu comigo
Por pura compaixão.
Não tenho orgulho nenhum.
Pode me humilhar
E, se fizer bem pro seu ego,
Conte que chorei a seus pés
Que não nego
Ou proclame que morro
Qualquer dia
Chorando por você na boêmia.
Use e abuse
De sua sinceridade
Pode fazer ironia
Ou ar de desdém,
Ao ouvir meu nome,
Se lhe convém.
O diabo é que não some
A chama que arde,
Queima,
Teima
E não deixa jamais
Que sua língua,
A meu respeito,
Repouse em paz.
Pode falar o que quiser,
Pode negar, mulher...
Eu, porém sei que é amor demais...


Ilustração: www.mensagenscomamor.com

Outra vez Julio Flórez

Humana                                                                    
Julio Flórez Roa

Hermosa y sana, en el pasado estío,
Murmuraba en mi oído, sin espanto:
"Yo quisiera morirme, amado mío;
Más que el mundo me gusta el camposanto".
Y de fiebre voraz bajo el imperio,
Moribunda ayer tarde, me decía:
"No me dejes llevar al cementerio...
Yo no quiero morirme todavía".
¡Oh Señor... y qué frágiles nacimos!
¡Y qué variables somos y seremos!
¡Si la tumba está lejos... la pedimos!
¡Pero si cerca está...no la queremos!

Humana

Formosa e sã, no passado estio, 
Murmurava em meu ouvido: sem espanto:
“Eu quisera morrer, amado meu;
Mais que o mundo me gosta o campo santo”.
E ao império, sob uma febre voraz, se perdia,
Moribunda ontem à tarde, me dizia:
“Não me deixe levar ao cemitério...
Eu não quero morrer não, todavia”.
Oh!Senhor.. quão frágeis nós nascemos!
E que variável somos e seremos!
Se a tumba está longe...a pedimos!
Porém, se perto está...não a queremos!


Ilustração: provavelmenteestousobria.wordpress.com

Thursday, December 03, 2015

Mais uma poesia de Luis Lloréns Torre

Muerta                                     

Luis Lloréns Torre

Cuando yo más la queria,
Se fue para el camposanto.
Toda la sal de mi llanto
No sazona el alma mía.
En mi choza ya vacía,
El ave del luto arrulla.
Y el can del recuerdo aúlla
Las veces que en ansias locas
Por ir en pos de otras bocas
Dejé de besar la suya.

Morta

Quando eu mais a queria,
Se foi para o campo santo.
Todo o sal de meu pranto
Não sacia a minha alma.
Em minha casa já vazia,
A ave do luto arrulha
E o cão da recordação late
As vezes que, em ânsias loucas,
Por ir atrás de outras bocas
Deixei de beijar a sua.


Ilustração: www.mesagirante.com.br

Com vocês Gertrudis Gómez de Avellaneda

Las contradicciones                                                                
Gertrudis Gómez de Avellaneda

No encuentro paz, ni me permiten guerra;
De fuego devorado, sufro el frío;
Abrazo un mundo, y quédome vacío;
Me lanzo al cielo, y préndeme la tierra.

Ni libre soy, ni la prisión me encierra;
Veo sin luz, sin voz hablar ansío;
Temo sin esperar, sin placer río;
Nada me da valor, nada me aterra.

Busco el peligro cuando auxilio imploro;
Al sentirme morir me encuentro fuerte;
Valiente pienso ser, y débil lloro.

Cúmplese así mi extraordinaria suerte;
Siempre a los pies de la beldad que adoro,
Y no quiere mi vida ni mi muerte.

As contradições 

Não encontro paz, nem me permitem a guerra;
Do fogo devorado; sofro o frio;
Abraço um mundo, e quedo-me vazio;
Me lanço ao céu e prendo-me à terra.

Nem livre sou, nem a prisão me encerra;
Vejo sem luz, sem voz falar anseio;
Temo sem esperar, sem prazer rio,
Nada me dá valor, nada me aterra.

Busco o perigo quando auxilio imploro;
Ao sentir-me morrer me encontro forte,
Valente penso ser e débil choro.

Cumpre-se assim minha extraordinária sorte;
Sempre aos pés da beldade que adoro,
E não quero nem minha vida nem minha morte.

Ilustração: clubedahistoria.com.br


Sunday, November 29, 2015

Uma poesia de Luis Lloréns Torre

Barcarola                                                                               
Luis Lloréns Torre

Déjame, niña, bogar,
En el esquife de un verso,
Por el oleaje perverso
De tus pupilas de mar.
Quiero en ellas desafiar
Las rachas de tu ilusión,
Y que una ola de pasión
Me envuelva en sus espirales,
Me ahogue entre sus cristales.
Y me hunda en tu corazón.

Barcarola

Deixa-me, menina, remar
No barquinho de um verso
Pelo ondular perverso
De tuas pupilas de mar.
Quero nelas desafiar
As rachaduras de tua ilusão,
E que uma onda de paixão
Me envolva nos teus espirais,
Me afogue entre teus cristais.

E me afunde no teu coração.

Ilustração: Salvador Dalí