Friday, November 09, 2018

Uma poesia de Russel Edson


Angels                                                             

 Russell Edson

They have little use. They are best as objects of torment.
No government cares what you do with them.

Like birds, and yet so human . . .
They mate by briefly looking at the other.
Their eggs are like white jellybeans.

Sometimes they have been said to inspire a man
to do more with his life than he might have.
But what is there for a man to do with his life?

. . . They burn beautifully with a blue flame.

When they cry out it is like the screech of a tiny hinge;
the cry of a bat. No one hears it . . .

 ANJOS

Eles têm pouco uso. Eles são melhores como objetos de tormento.
Nenhum governo se importa com o que você faz com eles.

Como pássaros, e ainda assim tão humanos. . .
Eles  se acasalam olhando, brevemente, um para o outro.
Seus ovos são como jujubas brancas.

Às vezes, eles dizem que inspiram um homem
a fazer mais com sua vida do que ele poderia ter.
Porém, o que há para um homem fazer com sua vida?

. . . Eles queimam lindamente com uma chama azul.

Quando eles gritam, é como o ranger de uma pequena dobradiça;
o grito de um morcego. Ninguém os ouve...

Ilustração: AMI - WordPress.com.

MOLEQUINHA


Você, que com um sorriso brejeiro       
colocou sol, alegria e risos no meu dia,
hoje, sorrindo, e com uma ponta de ironia,
me aconselha que devo esquecer.
Que não tento não posso dizer,
mas, o teu cheiro na fronha, na cama, no travesseiro
me traz tua imagem bem ligeiro
e o perfume presepeiro, molequinha,
parece estar na sala, no terraço, no ar
em todo lugar.
Finjo acreditar ser possível
não lembrar da beleza de teu riso,
dos teus olhos, que parecem céu e mar,
todavia, é novamente o teu cheiro
que, no jardim, parece das rosas brotar
e até na maçaneta do portão
sinto este perfume desalmado.
Ah! Molequinha,
meu coração dilacerado
sente o teu cheiro
no mundo inteiro!

Ilustração: Pais e Filhos.


Thursday, November 08, 2018

Outra poesia de Emilio Prados


Nuevo amor                                                           Emilio Prados

Este cuerpo que Dios pone en mis brazos
para enseñarme a andar por el olvido,
no sé ni de quién es.

Al encontrarlo,
un ángel negro, una gigante sombra,
se me acercó a los ojos, y entró en ellos
silencioso y tenaz igual que un río.

Todo lo destruyó con su corriente.
Los íntimos lugares más ocultos
visitó, alborotó; fue levantado,
violento, dulce, atropellado y roto,
a otro mundo en los bordes de mi beso:
única flor aún viva en el espacio,
que en más fecundo ardor cambió la ausencia.
Luego en mi carne abrió sus amplias alas,
clavándome sus plumas bajo el pecho
todo temblor y anuncio de otras dudas…

No sé qué vida, así, podrá encenderme
la entrada de este ángel.
Soy un templo
arruinado, desde que vino a mí:
farol vacío;
como puerta cerrada de lo eterno…

Y lo que fui no sé: quizás lo sepa,
cuando este cuerpo vuelva a abandonarme
y yo vuelva a nacer desde mis labios
despegado al calor que los concibe…

Mas hoy, por fin, he detenido al día
le he destrozado el corazón al tiempo,
aunque dentro de mí como una daga,
siento al ángel crecer, que me atormenta.

NOVO AMOR

Este corpo que Deus pôs nos meus braços
para ensinar-me a andar pelo esquecimento
Eu nem sei quem é.

Ao encontrá-lo
um anjo negro, uma sombra gigante
se acercou aos meus olhos e entrou neles
Silencioso e tenaz igual a um rio.

Tudo destruiu com sua corrente.
Os lugares íntimos mais ocultos
visitou, mexeu; foi levantado
violento, doce, atropelado e roto,
a outro mundo nas bordas do meu beijo:
única flor ainda viva no espaço,
que no mais fecundo ardor trocou  a ausência.
Logo na minha carne abriu as suas asas largas,
Cravando-me suas penas sob o peito
Todo o tremor e anúncio de outras dúvidas ...

Não sei o que a vida, assim, poderá acender-me
a entrada deste anjo.
Sou um templo
arruinado, desde que veio para mim:
lanterna vazia;
como uma porta fechada do eterno ...

E o que fui não sei: quem sabe saiba
quando este corpo voltar a abandonar-me
e eu  volte a nascer desde meus lábios
desapegado do calor que os concebe ...

Mas, hoje, por fim, terminado o dia
hei destruído  meu coração a tempo
ainda que, dentro de mim, como uma adaga,
sinto o anjo crescer, que me atormenta.

Wednesday, November 07, 2018

Uma poesia de Emilio Prados


Cerré mi puerta al mundo                         

Emilio Prados

Cerré mi puerta al mundo;
se me perdió la carne por el sueño…
Me quedé, interno, mágico, invisible,
desnudo como un ciego.

Lleno hasta el mismo borde de los ojos,
me iluminé por dentro.

Trémulo, transparente,
me quedé sobre el viento,
igual que un vaso limpio
de agua pura,
como un ángel de vidrio
en un espejo.

Fechei minha porta para o mundo

Fechei minha porta para o mundo;
se me perdeu a carne pelo sonho ...
Me quedei interno, mágico, invisível
nu como um cego.

Pleno até mesmo na borda dos olhos,
me iluminei por dentro.

Tremulo, transparente
me quedei ao vento
igual a um copo limpo
de água pura,
como um anjo de vidro
num espelho



Ilustração: Sonhos.

E, de volta, a poesia de Blaise Cendrars


Paysage                                                           
Blaise Cendrars

La terre est rouge
Le ciel est bleu
La végétation est d'un vert foncé
Ce paysage est cruel dur triste malgré la variété infinie des formes végétatives
Malgré la grâce penchée des palmiers et les bouquets éclatants des grands arbres en fleurs fleurs de carême

PAISAGEM

A terra é vermelha
O céu é azul 
A vegetação é de um verde escuro  
Esta paisagem é cruel dura triste, apesar da variedade
de formas vegetais
Apesar da graça inclinada das palmeiras e dos ramos
brilhantes das grandes árvores em flores flores de quaresma

Ilustração: ongjacaresolteiro.blogspot.com.


Tuesday, November 06, 2018

Uma poesia de Denise Levertov


LOVE SONG                  
Denise Levertov

Your beauty, which I lost sight of once
for a long time, is long,
not symmetrical, and wears
the earth colors that make me see it.

A long beauty, what is that?
A song
that can be sung over and over,
long notes or long bones.

Love is a landscape the long mountains
define but don’t
shut off from the
unseeable distance.

In fall, in fall,
your trees stretch
their long arms in sleeves
of earth-red and

sky-yellow, a little
lop-sided. I take
long walks among them. The grapes
that need frost to ripen them

are amber and grow deep in the
hedge, half-concealed,
the way your beauty grows in long tendrils
half in darkness.


CANÇÃO DE AMOR

Tua beleza, que uma vez perdi de vista
por um longo tempo, muito longo,
não é simétrica, e veste
as cores da terra que me fazem vê-la.

Uma longa beleza, o que é isto?
Uma canção
que pode ser cantada muitas e muitas vezes
em longas notas ou longos ossos.

O amor é uma paisagem  que as longas montanhas
Definem, mas, não
separam da
imperceptível distância.

No outono, no outono
suas extensas árvores
esticam seus longos braços em mangas
de terra-vermelha e

céu amarelo, um pouco
assimétrica. Eu faço
longas caminhadas entre eles. As uvas
que precisam da geada para amadurecer

são âmbar e crescem profundamente na
sebe, meio-escondida,
como tua beleza cresce em longas gavinhas
no meio da escuridão.

Ilustração: Revista Blog de Escalada. 



Poesias de Gonzalo Millán


 
REZAGOS DE CARAVAGGIO: Pinceles               
 Gonzalo Millán

El perro Corneja  (1)

El pincel húmedo me lame los dedos
como mi perro Corneja,
peludo y negro como el carbón
rizado y con la lengua roja.

La brocha  ( 2)

Los pinceles lloran, se lamentan
de sus pecados a gritos.
Los colores deliran y vomitan.
La faz radiante de amor
limpia en el paño de pureza
la inmundicia de la brocha.

RETARDOS DE CARAVAGGIO: PINCÉIS

O cão Corneja (1)

O pincel úmido me lambe os dedos
como meu cachorro Corneja,
peludo e preto como o carvão
enrolado e com a língua vermelha.

A escova (2)

Os pincéis choram, se lamentam
dos seus pecados aos gritos.
As cores deliram e vomitam.
O rosto radiante de amor
limpa no pano da pureza
a sujeira do pincel.

Ilustração: eu.wikipedia.org.

Monday, November 05, 2018

Uma poesia de Isla Correyero


TRÍO                               
Isla Correyero

Propuso un trío al festejar su vuelta.
Puse de lujo vasos y vajilla,
rosas y lirios en la mesa grande,
blanco mantel de acanalados pájaros.

Llegó preciosa cuando vino el otro,
los dos entraron juntos en la casa,
uno inflamó las velas y visillos,
la otra llenó mi copa de ginebra.

Bebimos sin comer, los tres a un tiempo,
la mesa se cubrió de fuego y hojas,
mi amada me ofreció su pan mojado,
y yo comí de él. El pan sangraba.

El afecto nos hizo inseparables.

TRIO

Propus um trio para celebrar a sua volta.
Pus copos e louças de luxo
rosas e lírios na mesa grande,
Toalha branca com nervuras se pássaros.

Ficou lindo quando veio o outro
os dois entraram juntos na casa,
um acendeu as velas e cortinas,
o outro encheu meu copo de gim.

Bebemos sem comer, todos os três ao mesmo tempo,
a mesa estava coberta de fogo e de folhas,
minha amada me ofereceu seu pão molhado
e eu comi dele. O pão sangrava.

O afeto nos fez inseparáveis.

Ilustração: Kaeru Eventos.

Thursday, November 01, 2018

Uma poesia de Sandro Penna


Sandro Penna                              
Sotto il cielo di aprile la mia pace
è incerta. I verdi chiari ora si muovono
sotto il vento a capriccio. Ancora dormono
l’acque ma, sembra, come ad occhi aperti.

Ragazzi corrono sull’erba, e pare
che li disperda il vento. Ma disperso
solo è il mio cuore cui rimane um lampo
vivido (oh giovinezza) delle loro
bianche camicie stampate sul verde.


Sob o céu de abril a minha paz
é incerta. Os verdes claros se movem
sob o capricho do vento. Ainda dormem
as águas, mas, parecem como olhos abertos.

Os meninos correm na relva, e aparentemente
os dispersa o vento. Mas, disperso
só é meu coração que permanece um raio
vívido (oh, juventude) de suas
camisas brancas estampadas no verde.

Mais um poeminha de Rupi Kaur














Rupi Kaur                                                                         


What is stronger

than the human heat

which shatters over and over

and still lives  


O que é mais forte
que o coração humano
que se quebra, se despedaça
e, ainda assim, sobrevive 


Ilustração:  Dr. Mozart Morais.

Ainda a poesia de Dulce María Loynaz


ROSAS                          

Dulce María Loynaz

En mi jardín hay rosas:
Yo no te quiero dar las rosas
que mañana…
mañana no tendrás.

En mi jardín hay pájaros
con cantos de cristal:
No te los doy,
que tienen alas para volar …

En mi jardín abejas
labran fino panal:
¡Dulzura de un minuto…
no te la quiero dar!

Para ti lo infinito o nada;
lo inmortal o esta muda tristeza
que no comprenderás …
La tristeza sin nombre de no tener que dar
a quien lleva en la frente algo de eternidad …

Deja, deja el jardín…
No toques el rosal:
las cosas que se mueren
no se deben tocar.

ROSAS

No meu jardim há rosas:
Eu não quero te dar rosas
que amanhã ...
amanhã não terás.

No meu jardim há pássaros
com cantos de cristal:
Eu não os te dou
que tens asas para voar ...

No meu jardim abelhas
laboram um fino favo de mel:
doçura de um minuto ...
 não te quero dar!

Para ti o infinito ou nada;
o imortal ou esta tristeza muda
que você não compreenderás ...
A tristeza sem nome de não ter o que dar
que tem algo de eternidade na fronte ...

Deixa, deixa o jardim ...
Não toques na roseira:
nas coisas que morrem
não se deve tocar.

Ilustração: Tudo Ela.