Saturday, December 09, 2023

Uma Canção Inocente de E.E. Cummings

 


CHANSONS INNOCENTES II

E. E. Cummings

hist     whist

little ghostthings

tip-toe

twinkle-toe

little twitchy

witches and tingling

goblins

hob-a-nob     hob-a-nob

 

little hoppy happy

toad in tweeds

tweeds

little itchy mousies

 

with scuttling

eyes     rustle and run     and

hidehidehide

whisk

 

whisk     look out for the old woman

with the wart on her nose

what she’ll do to yer

nobody knows

 

for she knows the devil     ooch

the devil     ouch

the devil

ach     the great

 

green

dancing

devil

devil

 

devil

devil

     wheeEEE

CANÇÕES INOCENTES II

História uíste

pequenas coisas fantasmagóricas

ponta dos pés

dedo brilhante

 

um pouco nervoso

bruxas e formigamento

duendes

cachola-um-duende cachola-um-duende

 

pequeno saltitante feliz

sapo em casacos

casaco

pequenos ratos que coçam

 

com fuga

olhos farfalham e correm e

esconder

sacudida

 

sacudida, cuidado com a velha

com a verruga no nariz

o que ela fará com você

ninguém sabe

 

pois ela conhece o diabo ooch

o diabo ai

o diabo

ah, o grande

 

verde

dançando

diabo

diabo

 

diabo

diabo

      uauuUUU.

Ilustração: Google Play. 

Wednesday, December 06, 2023

DESCONSOLO II

 


Nem sei se cometi alguma tolice.

Ou foi você quem fez, ou não fez, alguma coisa.

É que, sem que me desse conta,

nem você, eu penso,

ficou, entre nós, este espaço imenso,

apesar de estarmos tão perto,

e de carinhos, um deserto.

Sinto-me só,

com a paciência de Jô

e na garganta um nó.

Pateta sempre fui.

Parece que, no passado, um pateta mais contente.

O passado é sempre melhor na ilusão da gente.  

Bebo vinho, no frio.

Cerveja, no calor

e, me embriago, como uma compensação

para enganar a vida sem emoção.

E, em qualquer época, sinto falta de amor.

Mas, vou te dizer o quê?

Você todo dia reza por nós,

faz o almoço, foge para Netflix

para maratonar numa série

que sempre tem um final feliz.

Nenhum de nós se queixa nem diz

que a vida passa e não tem bis.

E nunca mais seremos

o que já fomos.

E a felicidade, agora,

Parece um filme

que passou da hora

e só nos resta ir embora.

Ilustração: Armajeur. 

Uma poesia de Katie Ford

 


INJURY ROOM

Katie Ford

Through my

little window, I

see one day

the entire bird,

the next just

a leeward wing,

the next

only a painful

call, which, without

the body, makes

beautiful attachments

by even

attaching at

all.

QUARTO FERIDO

Através de minha

pequena janela, eu

vejo um dia

o pássaro inteiro,

o próximo justamente

como uma asa contra o vento,

o próximo

somente um doloroso

chamado, que, sem

o corpo, faz

belos anexos

até mesmo

anexando a

todos.

Ilustração: Luso-Poemas.

Uma poesia de Carla Badillo Coronado

 


20

Carla Badillo Coronado 

La vida es un terreno salvaje

¡Acostúmbrate!

Serás dueño de tu circo

pero nunca faltarán payasos

que intenten matarte.

20

A vida é um terreno selvagem.

Acostuma-te!

Serás dono de teu circo

porém nunca faltarão palhaços

que intentem te matar.

Ilustração: Coluna Italo.

Tuesday, December 05, 2023

O RUMOR DO SILÊNCIO

 


Se perdeu no tempo
o momento em que adormecemos.

Não foi de repente
nem ficamos assustados
com a falta de risos, de ecos,
de vozes, luzes e palavras.

Houve só a hora
na qual falar perdeu o sentido
e, como pedras tombadas
no deserto,
permanecemos juntos, perto,
mas, incomunicáveis,
como a sombra e o objeto.

Ilustração: Visão.

Uma poesia de Cinzia Marulli

 


I PIEDI

Cinzia Marulli

Ci serve un po’ d’inchiostro

per macchiare questo bianco

un pennello di nero per coprire

l’apparenza, potremmo usare

anche il lucido da scarpe

che si secca sempre perché nessuno lo usa mai.

Tanto i piedi sono uguali alla testa

con entrambi si possono fare molti viaggi

solo che i piedi vanno piano, fanno passi lenti

la testa, invece, corre veloce

lì, dove nessuno può arrivare.

OS PÉS

Necessitamos de um pouco de tinta

para manchar este branco

um pincel negro para cobrir

à aparência, poderíamos usar

ainda um betume para calçado

que se seca sempre porque ninguém o usa mais.

Tanto os pés são iguais à cabeça

que, com os dois, se pode fazer muitas viagens

só que os pés andam devagar, dão passos lentos,

a cabeça, em troca, corre veloz

ali onde ninguém pode chegar.

Ilustração: BlogSTZ-Studio Z.

Uma poesia de Fernando Linero

 


POÉTICA

 Fernando Linero

¿Para qué sirve el poema

ahora que la casa está sola

y la pócima del verano es más amarga?

¿Para hablar del egoísmo, de la torpeza?

¿Para agradecer el favor del hermano, del amigo?

¿Ahora que el paso ardiente de las tres de la tarde

se apoya en el saliente de la ventana para qué te sirve?

¿Cómo ayudar con el poema

a esa pobre mujer  que con dificultad

arrastra el duro fardo de la vida?

Al final de la tarde cuando el corazón se pierde

en las dunas de lo incierto

¿Para qué sirve? ¿Cómo te salva?

POÉTICA

Para que serve é o poema

agora que a casa está só

e a poção de verão é mais amarga?

Para falar do egoísmo, da torpeza?

Para agradecer o favor do irmão, do amigo?

Agora que o passo ardente das três da tarde

se apoia no parapeito da janela para que te serve?

Como ajudar com o poema

a essa pobre mulher que com dificuldade

arrasta o duro fardo da vida?

No final da tarde quando o coração se perde

nas dunas do incerto

Para que serve? Como te salva?

Ilustração: Brasil Escola-UOL.

De volta Estelle Fenzy

  
CHUT (extraits)

 Estelle Fenzy

 Chut

(Le monstre dort)

 

Buvons le galop des jours

Et la surprise de vivre

 

Dans le même verre

 

***

Bout du jardin

 

Eldorado

 

Dans ta musette

 

L’automne infusé

 

Aux flaques des terrasses

 

***

 

Dans ma

 

Maison sur pilotis

 

Loin du sel

 

Mes veines ma langue

 

Parlent de toi

 

Tu traverses les fenêtres

 

À dix mètres du sol

 

***

Silêncio

(O monstro dorme)

 

Bebamos ao galope dos dias

E a surpresa de viver

 

No mesmo copo

 

***

Fim de jardim

 

Eldorado

 

Na sua bolsa

 

Outono infundido

 

Nas poças dos terraços

 

 

***

 

Na minha

Mansão sobre pilotis

Longe do sal

 

Minhas veias, minha língua

 

Falam sobre ti

 

Tu atravessas as janelas

 

A dez metros do solo

 

***

Ilustração: 123RF

Uma poesia de Henry Scott Holland

 


DEATH IS NOTHING AT ALL

Henry Scott Holland

Death is nothing at all.

I have only slipped away to the next room.

I am I and you are you.

Whatever we were to each other,

That, we still are.

 

Call me by my old familiar name.

Speak to me in the easy way

which you always used.

Put no difference into your tone.

Wear no forced air of solemnity or sorrow.

 

Laugh as we always laughed

at the little jokes we enjoyed together.

Play, smile, think of me. Pray for me.

Let my name be ever the household word

that it always was.

Let it be spoken without effect.

Without the trace of a shadow on it.

 

Life means all that it ever meant.

It is the same that it ever was.

There is absolute unbroken continuity.

Why should I be out of mind

because I am out of sight?

 

I am but waiting for you.

For an interval.

Somewhere. Very near.

Just around the corner.

 

All is well.

 

A MORTE NÃO É NADA

A morte não é nada.

Eu apenas escapuli para a próxima sala.

Eu sou eu e você é você.

O que quer que fôssemos um para o outro,

Isto nós ainda somos.

 

Chame-me pelo meu antigo nome familiar.

Fale comigo da maneira mais fácil

como você sempre usava.

Não coloque nenhuma diferença em seu tom.

Não use um ar forçado de solenidade ou tristeza.

 

Ria como sempre rimos

nas pequenas brincadeiras que gostávamos juntos.

Brinque, sorria, pense em mim. Reze por mim.

Deixe meu nome ser sempre a palavra familiar

que sempre foi.

Que seja falado sem efeito.

Sem o traço de uma sombra sobre ele.

 

A vida significa tudo o que sempre significou.

É o mesmo que sempre foi.

Há uma continuidade absoluta e ininterrupta.

Por que eu deveria estar fora de mente

porque estou fora de vista?

 

Estou apenas esperando por você.

Por um intervalo.

Em algum lugar. Muito próximo.

Virando a esquina.

 

Tudo está bem.

Ilustração: Jornal da Mooca.

Uma Balada de Olga Orozco

 


BALADA DE LOS LUGARES OLVIDADOS

Olga Orozco

Mis refugios más bellos,

los lugares que se adaptan mejor a los colores últimos de mi alma,

están hechos de todo lo que los otros olvidaron.

 

Son sitios solitarios excavados en la caricia de la hierba,

en una sombra de alas; en una canción que pasa;

regiones cuyos límites giran con los carruajes fantasmales

que transportan la niebla en el amanecer

y en cuyos cielos se dibujan nombres, viejas frases de amor,

juramentos ardientes como constelaciones de luciérnagas ebrias.

 

Algunas veces pasan poblaciones terrosas, acampan roncos trenes,

una pareja junta naranjas prodigiosas en el borde del mar,

una sola reliquia se propaga por toda la extensión.

Parecerían espejismos rotos,

recortes de fotografías arrancados de un álbum para orientar a la nostalgia,

pero tienen raíces más profundas que este suelo que se hunde,

estas puertas que huyen, estas paredes que se borran.

 

Son islas encantadas en las que sólo yo puedo ser la hechicera.

 

¿Y quién si no, sube las escaleras hacia aquellos desvanes entre nubes

donde la luz zumbaba enardecida en la miel de la siesta,

vuelve a abrir el arcón donde yacen los restos de una historia inclemente,

mil veces inmolada nada más que a delirios, nada más que a espumas,

y se prueba de nuevo los pedazos

como aquellos disfraces de las protagonistas invencibles,

el círculo de fuego con el que encandilaba al escorpión del tiempo?

 

¿Quién limpia con su aliento los cristales y remueve la lumbre del atardecer

en aquellas habitaciones donde la mesa era un altar de idolatría,

cada silla, un paisaje replegado después de cada viaje,

y el lecho, un tormentoso atajo hacia la otra orilla de los sueños;

aposentos profundos como redes suspendidas del cielo,

como los abrazos sin fin donde me deslizaba hasta rozar las plumas de la muerte,

hasta invertir las leyes del conocimiento y la caída?

 

¿Quién se interna en los parques con el soplo dorado de cada Navidad

y lava los follajes con un trapito gris que fue el pañuelo de las despedidas,

y entrelaza de nuevo los guirnaldas con un hilo de lágrimas,

repitiendo un fantástico ritual entre copas trizadas y absortos comensales,

mientras paleada en las doce uvas verdes de la redención—

una por cada mes, una por cada año, una por cada siglo de vacía indulgencia—

un ácido sabor menos mordiente que el del pan del olvido?

 

¿Por qué quién sino yo les cambia el agua a todos los recuerdos?

¿Quién incrusta el presente como un tajo ante las proyecciones del pasado?

¿Alguien trueca mis lámparas antiguas por sus lámparas nuevas?

 

Mis refugios más bellos son sitios solitarios a los que nadie va

y en los que sólo hay sombras que se animan cuando soy la hechicera.

BALADA DOS LUGARES ESQUECIDOS

Meus mais belos refúgios,

os lugares que melhor se adaptam às cores definitivas da minha alma,

Eles são feitos de tudo que os outros esqueceram.

 

São lugares solitários escavados na carícia da grama,

numa sombra de asas; em uma canção passageira;

regiões cujas fronteiras giram em carruagens fantasmas

que carregam a névoa na madrugada

e em cujos céus se desenham nomes, velhas frases de amor,

juramentos ardentes como constelações de vaga-lumes ébrios.

 

Algumas vezes passam cidades terrenas, acampam trens roucos,

Um casal colhe laranjas prodigiosas à beira do mar,

uma única relíquia se espalha por toda a extensão.

Pareceriam miragens quebradas,

recortes de fotografias arrancadas de um álbum para guiar a nostalgia,

Mas eles têm raízes mais profundas do que este solo afundado,

essas portas que fogem, essas paredes que se apagam.

 

São ilhas encantadas onde só eu posso ser a feiticeira.

 

E quem mais sobe as escadas para aqueles sótãos entre nuvens

onde a luz zumbia excitada no mel da sesta,

reabre o baú onde jazem os restos de uma história implacável,

sacrificado mil vezes a nada além de delírio, nada além de espuma,

e se prova de novo os  pedaços

como aqueles disfarces dos protagonistas invencíveis,

o círculo de fogo com que deslumbrou o escorpião do tempo?

 

Quem limpa as janelas com o hálito e retira a luz do entardecer?

naquelas salas onde a mesa era um altar de idolatria,

cada cadeira, uma paisagem dobrada após cada viagem,

e a cama, um atalho tempestuoso para a outra margem dos sonhos;

câmaras profundas como redes suspensas no céu,

como os abraços intermináveis ​​onde deslizei até tocar as penas da morte,

até reverter as leis do conhecimento e cair?

 

Quem entra nos parques com o hálito dourado de todo Natal

e lava a folhagem com um pano cinza que serviu de lenço nas despedidas,

e entrelaça novamente as guirlandas com um fio de lágrimas,

repetindo um ritual fantástico entre copos quebrados e clientes absortos,

enquanto são colhidas as doze uvas verdes da redenção -

um para cada mês, um para cada ano, um para cada século de indulgência vazia –

um sabor ácido menos picante que o do pão do esquecimento?

 

Por que quem além de mim muda a água em todas as memórias?

Quem incorpora o presente como um golpe diante das projeções do passado?

Alguém troca minhas lâmpadas antigas por lâmpadas novas?

 

Meus refúgios mais lindos são lugares solitários onde ninguém vai

e onde só existem sombras que ganham vida quando eu sou a feiticeira.

Ilustração: Fandom.