Monday, December 18, 2023

Outra poesia de Mina Loy

 


[THERE IS NO LIFE OR DEATH,]

Mina Loy

There is no Life or Death,

Only activity

And in the absolute

Is no declivity.

There is no Love or Lust

Only propensity

Who would possess

Is a nonentity.

There is no First or Last

Only equality

And who would rule

Joins the majority.

There is no Space or Time

Only intensity,

And tame things

Have no immensity.

NÃO HÁ VIDA OU MORTE

Não há Vida ou Morte,

Só atividade

E no absoluto

Não há declive.

Não há amor ou luxúria

Só propensão.

Quem irá possuir

É uma nulidade.

Não existe Primeiro ou Último

Só igualdade

E quem irá governar

Junta-se à maioria.

Não há espaço ou tempo

Só intensidade,

E domesticar as coisas

Não tem imensidão.

Ilustração: Pão de Canela e Prosa.


Saturday, December 16, 2023

Ignorante Globalizado

 


Neste mundo globalizado de meu Deus

onde já despontam tantas coisas 

que já não entendemos mais

como os chats GPT, Perplexity

ou Microsoft Bing Ai

e até o pin da Humane Ai

como alternativa para os celulares,

penso que, talvez, os melhores lugares

sejam Porto Velho, Barra da Tabatinga, Santa Tereza,

Londrina, Porto de Galinhas ou Alter do Chão,

ou não.

Quem sabe o metaverso

ou ser um avatar 

num lugar que ninguém possa imaginar.

Hoje, sem querer, sou obrigado 

a me igualar a Sócrates: 

Só sei que nada sei.

E a minha única lei 

é definitiva: 

viver até a última gota,

de forma sensitiva, 

a vida e o prazer, 

antes de nada ser,

é o que me motiva!

Uma poesia de Nancy Kuhl

 


FAMILY SECRET

Nancy Kuhl

Too many cracks precede

the spectacular breaking. Each

 

story begins in a different dark-

ness. And light: think how it catches

 

on any surface (pane or

hinge or keyhole) and

 

out of night (out of nothing),

all at once: a window,

 

a door. It’s a metaphor

(and then it isn’t), darkness.

 

When I dream again

it’s the old kitchen—I

 

open the oven and sound,

like ropes of heat, drifts

 

out; a shimmering. Familiar

and confusing. Uncanny,

 

and then unmistakable: our

voices, recorded. Playback

 

and loop, now-every aching

word we whispered here.

SEGREDO DE FAMÍLIA

Muitas rachaduras precedem

a quebra espetacular. Cada

 

a história se inicia numa diferente escuri-

dão. E leve: pense como pega

 

sobre qualquer superfície (painel ou

dobradiça ou buraco de fechadura) e

 

fora da noite (do nada),

de uma vez: uma janela,

 

uma porta. É uma metáfora

(e então não é), escuridão.

 

Quando eu sonho de novo

é a velha cozinha - eu

 

abro o forno e som,

como cordas de calor, montes de neve

 

saem; uma centelha. Familiar

e confusa. Estranho,

 

e então inconfundível: nossas

vozes, gravadas. Reprodução

 

e laço, agora - cada dor

palavra que sussurramos aqui.

​Fonte: imdb.com.

Um Não Poema de Carla Badillo Coronado

 


THIS IS NOT A POEM

Carla Badillo Coronado 

Me gusta hacer listas inútiles

sobre olores exactamente iguales

entre cosas tan disímiles.

 

Hoy solo conseguí anotar uno

mientras limpiaba el refrigerador:

 

 

1. culantros pasados que huelen a mierda

         o a muerto

         etc etc

 

Mis listas son cada vez más cortas

e inútiles

pero siempre revelan tanto:

 

1. el olor a muerto es difícil quitarse de las manos

2. entre escribir y tachar se nos va la vida.

ISTO NÃO É UM POEMA

Gosto de fazer listas inúteis

quase exatamente com os mesmos cheiros

entre coisas tão diferentes.

 

Hoje consegui anotar um

enquanto limpava a geladeira:

 

1. coentro velho que cheira a merda

          ou morto

          etc etc

 

Minhas listas são cada vez mais curtas

e inúteis

porém sempre revelam tanto:

 

1. o cheiro do morto é difícil de sair das mãos

2. entre escrever e riscar, vai a nossa vida.

Ilustração: São Jerônimo de Caravaggio. 

Thursday, December 14, 2023

Eu Não Gosto de Você Papai Noel


Eu não gosto de você, Papai Noel.

Não por causa de sua roupa vermelha

espalhafatosa,

nem por sua barba branca,

imitação barata de neve,

uma espécie de refletor do tempo. 


Eu não gosto de você, Papai Noel. 

Não por ser apenas um chamariz 

comercial.

Por ser, como sei, uma ficção,

uma venda massiva de ilusão. 


Eu não gosto de você, Papai Noel.

Não por não descer do céu

( e, às vezes, até desce).

O motivo real de minha ojeriza

é que você não oferece nada 

para quem mais precisa,

exceto uma imensa desilusão.

Ilustração: Admirável Mundo Inventado.  



 

Volta Jos Charles com um poema

 

A POEM

Jos Charles

It is not normal, a woman says

Never has been, another said

Ordinary, the men women make

In parks, corners of street, rhyme Daily,

I shut the window I pass messages by

The so-called tender seed of birch blows quietly by

It will be crushed in the office of living

and still may take root So crush

what is given The tender too carry guns

Do not forgive the too forgiven

UM POEMA

Não é normal, a mulher diz

Nunca foi, o outro disse

Comum, os homens as mulheres fazerem

Nos parques, nas esquinas das ruas, rima diariamente,

Fecho a janela e passo mensagens

A chamada semente tenra de bétula sopra quietamente

Será esmagada no escritório de viver

e ainda pode criar raízes. Então esmague

o que é dado. O delicado também carrega armas

Não esqueça o muito que foi esquecido

 

HUMANOS

Por ter tantos sentimentos

tão frequentemente

é que sou sentimental

e eu me reconheço mesmo

como tal.


Porém, tudo o que vivemos,

somos é por termos  

emoções à flor da pele

o que nos impele

a sentir algo 

como essencial.

É sermos humanos, afinal. 

Ilustração: MIT Sloan Review Brasil.  


Revisando uma poesia de Eugenio Gerardo Lobo

 

DEFINE UN AMANTE SU AMOR Y DECLARA SU CUIDADO

Eugenio Gerardo Lobo

Arder en viva llama, helarme luego,

mezclar fúnebre queja y dulce canto,

equivocar la risa con el llanto,

no saber distinguir nieve ni fuego.

 

Confianza y temor, ansia y sosiego,

aliento del espíritu y quebranto,

efecto natural, fuerza de encanto,

ver que estoy viendo y contemplarme ciego;

 

la razón libre, preso el albedrío,

querer y no querer a cualquier hora,

poquísimo valor y mucho brío;

 

contrariedad que el alma sabe e ignora,

es, Marsia soberana, el amor mío.

¿Preguntáis quién lo causa? Vos, Señora.

DEFINE UM AMANTE SEU AMOR E DECLARA SEU CUIDADO

Arder em chama viva e gelar logo,

mesclar fúnebre queixa e doce canto,

confundir o riso com o pranto,

não saber distinguir neve nem fogo.

 

Confiança e temor, ânsia e sossego,

alento do espírito e quebranto,

efeito natural, força de encanto,

veja que estou vendo e contemplar-me cego;

 

a razão livre, preso o arbítrio,

querer e não querer a qualquer hora,

pouquíssimo valor e muito brio;

 

contrariedade que a alma sabe e ignora,

és, Marsia soberana, meu amor.

Perguntais quem o causa? Vós, Senhora.

Ilustração: Wikipédia.

Sunday, December 10, 2023

O Mágico sem mágica

 


Quando era criança

(não sei explicar a razão)

sei que mudava o mundo 

com o estalar dos dedos. 

E ria de todos os fantasmas 

e dos medos

fazendo os monstros desaparecem 

com um simples abracadabra.

Não sei quando a mágica se desfez. 

Só sei que não consigo mais 

mudar nada. 

Uma poesia de Mia Kang

 


ABRACADABRA

Mia Kang

                 for Erich and Patricia

List of things to banish

Can include words, people, theoretical apparatuses

Can take the form of a grocery list, a scientific experiment, or a manifesto

Can read like a personal ad of unwanting

Can summon aid to help with banishing

Can be uncertain of what will remain

Can have no positive mission statement

Can be written in a language other than language

Can circulate amongst FRIENDS ONLY

Can evade being imagined, written, embodied, archived

Can go like this

Can make itself irrelevant

Can include buildings, brushstrokes, and other abominations

Can mean my way of life is unlivable

Can mean my life is as yet unlived

Can mean I must become a menace to my enemies

Can undo futurity forever in favor of *******

Can remake futurity into someone who doesn’t recognize herself

Can punctuate the present like a cup of coffee or a Monday

Can be dreamed up and shot down and elongated

Can tell us something

Can include forms and fantasies, even the ones getting us by

Can instigate an interregnum

Can be unfinished

Can include hope hopefully

Can be blank

But don’t kid yourself

It isn’t

And it can’t include

History

ABRACADABRA

Uma lista de coisas para banir

Pode incluir palavras, pessoas, teóricos aparatos

Pode ter a forma de lista de compras, de um experimento científico ou de um manifesto

Pode ser lido como um anúncio pessoal indesejável

Pode pedir apoio para ajudar no banimento

Pode ser incerto sobre o que permanecer

Não pode ter nenhuma declaração de missão positiva

Pode ser escrito em uma linguagem diferente da noss

Pode circular SOMENTE entre AMIGOS

Pode escapar de ser imaginado, escrito, incorporado, arquivado

Pode ir assim

Pode vir à ser irrelevante

Pode incluir edifícios, pichações e outras abominações

Pode significar que meu modo de vida é insuportável

Pode significar que minha vida ainda não foi vivida

Pode significar que devo me tornar uma ameaça para meus inimigos

Pode desfazer o futuro para sempre em favor do *******

Pode transformar o futuro em alguém que não se reconhece

Pode pontuar o presente como uma xícara de café ou uma segunda-feira

Pode ser sonhado, abatido e alongado

Pode nos dizer algo

Pode incluir formas e fantasias, mesmo aquelas que nos fazem sobreviver

Pode instigar um interregno

Pode ser inacabado

Pode incluir esperança, esperançosamente

Pode ficar em branco

Porém não se engane

Não é

E não pode incluir

História

​Ilustração: Spointe.

Uma poesia de Carlos Edmundo de Ory

 

 

MONÓLOGO

Carlos Edmundo de Ory

Lenguaje mi juramento

Mi venganza mi delirio

¿Qué hicieron de ti los hombres

sino sólo escupitajo?

 

Presencia inaudita Palabra

Joya ultramundana Umbral

Revelación de la paloma

que ninguna barbarie degüella

 

Rumias campaneas truenas

Embarcas fomentas electrizas

Gimes ruges oras gestas

Alumbras balbuceas hermanas

 

Solana de las tinieblas

Cubil de rayos solares

Cogollo de mi inspiración

Reptil de huevos cuadrados

MONÓLOGO

Linguagem meu juramento

Minha vingança meu delírio

Que fizeram de ti os homens?

Senão somente te cuspir?

 

Presença inaudita palavra

Jóia ultramundana umbral

Revelação da pomba

que nenhuma barbárie degola

 

Ruminações, sinos trovejantes

embarcações elétricas

Geme, ruges, ora realiza ações

Alumbras balbucia irmãs

 

Solário da escuridão

Covil dos raios solares

Coração da minha inspiração

réptil dos ovos quadrados.

Ilustração: Conceitos.

Saturday, December 09, 2023

O Fugitivo

 


Sou um fugitivo.

Mal havia nascido

e já me prenderam,

porém, veloz, fugi.


Sempre me canso

de ser quem sou,

do lugar onde estou,

de ser eu mesmo.


Tento ser vários

nos meus desvarios

e nunca me encontro

nos meus seres dispersos. 


Ser é uma prisão.

E não ser também. 

Viverei sempre o dilema

de ser muitos e ninguém. 

Ilustração: Omelete.