Sunday, June 19, 2016

Bem-vindas ovelhas perdidas

Há o fato lídimo e insofismável         de que os pássaros voam.
Os elefantes tem dificuldade de voar, mas, nem todo bicho gordo é imprestável,
nem as palavras, por mais doces que soam,
fazem o concreto, efetivamente, se realizar.
Em tudo há necessidade de projeto
sejam nas coisas grandes ou banais
e ninguém pode ser assim tão correto
que escape dos mexericos dos jornais.
Embora estejamos colocados
bem no meio de uma época pré-solar
não se percebe inocentes nem culpados
nem como tal confusão há de acabar.
Há uma certeza, porém, que nos alegra
e nos enche de fé na alma e no coração
é que, com tanta gente, esperta nas cadeias
não cessarão os cantos das sereias,
mas, podemos esperar, sem ilusão,
que as penitências e rezas aumentarão
e nas igrejas teremos, em crescente sucessão,
pastores novos e irmãos em recuperação. 

Ilustração: www.youtube.com

Friday, June 17, 2016

Outra poesia de Miguel Hernández Gilabert

Llegó tan hondo el beso                                                
Miguel Hernández Gilabert

Llegó tan hondo el beso
Que traspasó y emocionó los muertos.

El beso trajo un brío
Que arrebató la boca de los vivos.

El hondo beso grande
Sintió breve los labios al ahondarse.

El beso aquel que quiso
Cavar los muertos y sembrar los vivos.

Foi tão profundo o beijo

Foi tão profundo beijo
Que trespassou e emocionou os mortos.

O beijo trouxe uma vontade
Quem arrebatou a boca dos vivos.

Um grande e profundo beijo
Sentiu, logo, os lábios ao se afogarem.

O beijo, aquele que quis 
Para cavar os mortos e semear os vivos.

Ilustração: apimentando.comunidades.net



Wednesday, June 15, 2016

OS VOOS DO SENTIR (FINAL)


XI

De concreto há somente o fato de que sou cruel.
Minha crueldade vem de que não sinto
pela vida que se esvai ou modifica
nada mais do que a indiferença,
quando muito tédio.
Bebo como todos bebem.
Amo como todos amam.
Faço o que todos fazem,
mas, não sinto o que todos sentem
nestes atos.
Tudo, para mim, são apagados retratos,
pálidas imagens, pinturas desbotadas
porque o meu sentir
sente a inutilidade,
como meu gosto,
o prazer me sabe a nada.

XII

Poderia, quem sabe, buscar emoções mais fortes.
Num certo momento da vida
me atraiu o suicídio,
a cocaína, o mariri, ser ermitão.
Tive laivos de fazer um grande assalto,
de sumir, mudar de nome, ser fanático...
Laivos...clarões de racionalização,
de vez que, lá bem dentro,
não havia, em mim, paixão,
nem, fora o pensamento, desejo de busca
e buscar algo, no homem, é sua razão
ou, então, igual a mim, não busca nada
nem nada sente,
mas, sem buscar não há como existir,
exceto se também nada sentir.

XIII

Assim prossigo neste imenso vazio
sentindo, a cada dia,
ainda menos sentir
e me disponho a rir.
De qualquer jeito
rir ou chorar
que diferença faz?
Só na inconsciência há satisfação e paz. 

XIV

Toda paz é sem vida.
A paz é não sentir,
mas, não o meu não sentir,
que pensa.
A paz só há na noite mais imensa
do que não se soube,
do que não se sabe,
do que nunca se saberá
tanto que ela está mais além
de mim, de você, do tempo.
A paz é a resposta mais sabida e ignorada
que, sem saber, procuro nesta infeliz vida
de não sentir nada
e se sentir, se isto for possível,
sentirei que a paz é a companheira impossível,
a que nos espera silenciosa, impiedosa e calada,
sabendo que não há como fugir
de que sentir, existir e viver é lutar
cultivando a esperança que não há
de que do inexorável possamos escapar
até quando nos faltar o último ar.

Ilustração: www.mensagens10.com.br96







Um poema de César Vallejo


Algo te identifica..

 César Vallejo

Algo te identifica con el que se aleja de ti, y es la facultad común de volver: de ahí tu más grande pesadumbre.
   Algo te separa del que se queda contigo, y es la esclavitud común de partir: de ahí tus más nimios regocijos.
   Me dirijo, en esta forma, a las individualidades colectivas, tanto como a las colectividades individuales y a los que, entre unas y otras, yacen marchando al son de las fronteras o, simplemente, marcan el paso inmóvil en el borde del mundo.
   Algo típicamente neutro, de inexorablemente neutro, interpónese entre el ladrón y su víctima. Esto, así mismo, puede discernirse tratándose del cirujano y del paciente. Horrible medialuna, convexa y solar, cobija a unos y otros. Porque el objeto hurtado tiene también su peso indiferente, y el órgano intervenido, también su grasa triste.
   ¿Qué hay de más desesperante en la tierra, que la imposibilidad en que se halla el hombre feliz de ser infortunado y el hombre bueno, de ser malvado?


Algo te identifica

Algo te identifica com o que se alheia de ti, e é a faculdade comum de voltar: daí o teu maior pesadelo.
Algo te separa do que fica contigo, e é a escravidão comum de partir: daí os teus mais mínimos regozijos.
Me dirijo, nesta forma, as individualidades coletivas, tanto quanto as
coletividades individuais e aos que, entre umas e outras, jazem marchando ao som das
fronteiras ou, simplesmente, marcam o passo imóvel na borda do mundo.
Algo de tipicamente neutro, de inexoravelmente neutro, interpondo-se entre o ladrão e sua vítima. Isto, assim mesmo, pode discernir-se tratando-se do cirurgião e do paciente.
Horrível meia lua, convexa e solar, cobiça uns e outros. Porque o objeto furtado
tem também seu peso indiferente, e o órgão da intervenção, também tem sua graça triste.
Que há de mais desesperante na terra, que a impossibilidade em que encontra o homem feliz de ser infeliz e o homem bom de ser malvado? 

Tuesday, June 14, 2016

Outra poesia de Silvia Tomasa Rivera

 
VOY A MATARTE, AMOR    
Silvia Tomasa Rivera

Voy a matarte, amor,
hasta que tu muerte espolvoree sus polvos negros
sobre la tierra infértil del olvido.
Hasta que no quede ni un átomo de mí
que sufra la condena.
Cuando el golpe es certero
hay que caerse
lamer la tierra, juntar los vidrios para que un día
se vuelva a reflejar la luna
en la noche extraviada.
La noche, carne de cañón para el poeta,
zopilote en el alma del perdido
eternamente sorda como un árbol.
¿De qué se trata, puta, a qué jugamos?
Te puedo matar a ti también,
traigo un cuchillo
y una secadora de pelo en forma de pistola
que dispara directo a las cien
                                            cabezas del insomnio.

El hombre, tenía que ser el hombre
animal tozudo arrastrando a su dios
hasta la tumba.
Y la mujer desnuda a medioclaro, a mediomar,
flotando
a medioamar, a la mitad exacta del camino.
¿Hasta cuándo vamos a inventar un dios
que nos saque realmente del apuro?
¿Hasta cuándo vamos a pasar el trago amargo
a la mitad del vino?
Las preguntas nacen como espinas
y se entierran justo en el costado.

Basta, he dicho basta.
Nadie muere dos veces del mismo amor,
es más, nadie muere de nadie.
¿De qué se trata reina, a qué jugamos?
Porque tú eres la reina, sin noche y sin insomnio.
La nicotina ahora ya no importa, el alcohol menos.
Un valium sostiene tu universo.
¿A qué jugamos, reina?
Te la pasas amamantando lobos dorados.
Muévete, la casa de la vida nunca pierde.
¿Te pongo un jazz?
Hace falta que te mames un cáncer
para que aprendas que la muerte
                                no es sólo una palabra
es el fin de tu vida.
Ay por dios, muévete.

Vou te matar, amor

Vou te matar, amor,
até que a tua morte espalhe os teus pós pretos
na terra infértil do esquecimento.
Até que não exista em mim um átomo
que sofra com a sentença.
Quando o golpe é certeiro
se deve cair
lamber o chão, juntar os vidros para que um dia
volte a refletir a lua
perdida na noite.
Noite, bucha de canhão para o poeta,
urubu na alma dos perdidos
eternamente surda como uma árvore.
De que se trata, cadela, o que jogamos?
Te posso matar a ti também,
trago uma faca
e um secador de cabelo em forma de pistola
que dispara direto nas cem
                                            cabeças da insônia.

O homem tinha que ser o homem
animal teimoso arrastando o seu deus
até a sepultura.
E a mulher nua, ao meio dia, ao meio mar,
flutuando
ao meio amar, na metade exata do caminho.
Até quando vamos inventar um deus
que realmente nos tire do apuro?
Até quando vamos tomar a pílula amarga
na metade vinho?
As perguntas nascem como os espinhos
e se enterram justo nas costas.

Basta, eu disse basta.
Ninguém morre duas vezes do mesmo amor,
e mais, ninguém morre de ninguém.
De que se trata rainha, o que jogamos?
Porque tu és a rainha, sem noite e sem insônia.
A nicotina agora já não importa, menos ainda o álcool.
Um Valium sustém o teu universo.
O que nós jogamos, rainha?
Tu passas amamentando lobos dourados.
Movimento, a casa da vida nunca se perde.
Te coloco um jazz?
Faz falta que te destrua um câncer
para que aprendas que a morte
                                não é só uma palavra
É o fim de tua vida.
Aí, por deus, te move.

Ilustração: virusdaarte.net

Monday, June 13, 2016

OS VOOS DO SENTIR (III)

VIII   
                                                
E não ficar significa não sentir
nada
já que a chegada é igual à partida
ou assim é
ou assim me parece
e, para mim, o que parece é
porque não tem sentido
se assim não for
e, se tem, pouco me importa.
Como não sinto
posso me dar ao luxo de ser objetivo
e não acreditar em mistérios e essências
nem que são precisos motivos
para sentir, ou não,
quando tudo é fugaz ilusão.

IX

As aparências! As aparências!
Único real.
Pedra é pedra.
Pau é pau.
Terra, terra.
Sinto que tudo é igual
por meu sentir
não sentir nada
se abstrai tanto
quanto as palavras
e a tudo se aplica.
Como tudo que não fica
o que complica
é que toda compreensão
pelos sentidos passa
e eles nos enganam- olha a graça-
mas, se assim é
as coisas não são o que são
por nada ser o que parece que é
e apenas aparentar.

X

Mas, o meu sentir onde está
que não sinto?
Será este não sentir
que tudo sente
que mente
quando na vida vê graça?
Abstração real.
Tudo me parece incerto, desigual
e, no fim, o sem sentido permanece
porque sentir ou não sentir
é sem importância,
pois, afinal
seja o saber ou a ignorância
seja de que tamanho for
não se pode medir
e tem o mesmo valor
por ser somente uma forma de sentir.

Ilustração: keepcalmbrazil.wordpress.com



Uma poesia de Alexander Pushkin


I loved you

Alexander Pushkin

I loved you, and I probably still do,
And for a while the feeling may remain...
But let my love no longer trouble you,
I do not wish to cause you any pain.
I loved you; and the hopelessness I knew,
The jealousy, the shyness - though in vain -
Made up a love so tender and so true
As may God grant you to be loved again.
Eu te amei

Eu te amei, e eu provavelmente ainda amo,
E por um tempo o sentimento pode permanecer ...
Mas, não deixe o meu amor criar problemas para você,
Eu não quero te causar nenhuma dor.
Eu te amei; e a desesperança que eu conheci,
O ciúme, a timidez - embora em vão -
Levaram-me a um amor tão terno e tão verdadeiro
Como só Deus pode conceder-te para ser amada de novo.


Ilustração: parapreencher.com

Sunday, June 12, 2016

OS VOOS DO SENTIR (II)

IV                                                                                                         
No entanto, existo.
Existo, logo sinto
(provei a existência do sentimento).
Existir, sentir, pensar
são só palavras passageiras
e penso que não penso, não sinto, não existo
ou não existirei-
a diferença é nenhuma-
porque tudo existe para desaparecer,
logo existir é não existir,
ser, não-ser,
pensar, não-pensar,
pois, por mais que tudo exista,
tudo não existirá.

V

Eis o sumo do mundo: nada.
Meu sentir é um nada sentir.

VI

Meu sonho é sentir tudo
e nada sinto.
Nada sentir, contudo, é sentimento.
O sentimento de quem nada sente.
Assim nada sentir é sentir nada
e como nada sinto não sei sentir
e em não sentir meu sentimento se consome
como qualquer sentir
também em nada.

VII

Nada sentir é meu sentir real.
ser frio como gelo, um animal
não é comum.
E incomum entre os comuns me reconheço
tanto que não sou feliz ou infeliz
nem sinto alegria ou me aborreço.
Nada sou do que quero ou quis.
Sou o que sou-
assim me identifico-
e passo:
não sinto nem fico.

Ilustração: projetodespertar1111.wordpress.com



De volta Cuesta Porte-Petit

Tu ausencia viva a tu presencia invade                        
Jorge Cuesta Porte-Petit

Tu ausencia viva a tu presencia invade
Que lentamente mueren si se miran;
Pues no por verte más se acerca el horizonte de los ojos,
Más vacío mientras más profundo.
En la ventana, los cuadros y el espejo,
Un aire indiferente y helado se aleja
De tu respiración, que renueva su asfixia,
Inaccesible en ellos
El mundo inmóvil adonde no penetra
Tu vida, tu presencia presa en el movimiento
De tu muerte fugaz y paulatina.

Tua ausência viva à tua presença invade

Tua ausência viva a tua presença invade
Que lentamente morrem, se se vêem;
Pois, por não te ver mais se aproximam do horizonte dos olhos,
Quanto mais vazio quanto mais profundo.
Na janela, os quadros e o espelho,
Um ar indiferente e gelado se afasta
De tua respiração, que renova a sua asfixia,
Inacessíveis neles
O mundo imóvel onde não penetra
Tua vida, tua presença presa no movimento
De tua morte fugaz e paulatina.


Ilustração: www.sidneyrezende.com

Friday, June 10, 2016

OS VOOS DO SENTIR

I                                                  
Sinto que o meu sentir
não tem sentimento nenhum.
O meu sentir é um sentir
como não há
em homens, animais, plantas, luar.
O meu sentir é não sentir
como ninguém
que a vida tem a graça
que não tem.

II

E, como nada sinto,
choro e canto o choro e o canto de todos,
porém, sinto que tudo é falso
porque tudo não sinto
e minto o que não sei mentir
porque não minto nem sei mentir
o que não sinto
nem sei saber sentir.

III

E sinto que o saber também é uma mentira
e não me tira a sensação de sentir
que nada sei nem sinto,
Mas, minto que esta é a minha verdade
por não sentir a inocência ou a maldade
de ser assim, como sou, indiferente
ao sentir do que sente tanta gente
que não me toca nem sinto.


Ilustração: amenteemaravilhosa.com.br

Thursday, June 09, 2016

Mais um poeminha de Yeats

W.B. Yeats                                                                                        

 “Wine enters through the mouth,
Love, the eyes.
I raise the glass to my mouth,
I look at you,
I sigh.” 


O vinho entra pela boca,
O amor, pelos olhos.
Eu levanto o copo até os lábios,
Eu olho para você,
Eu suspiro.


Ilustração: www.mensagenscomamor.com