Monday, December 13, 2021

Hai-Kais quase filosóficos

 


Eu, que não me diferenciava de outras coisas,

Um dia, descobri com alegria, o que era.

E também que isto seria por um tempo apenas.

 

Não preciso acreditar em Deus. Eu sei.

E é tão difícil explicar e intuitivo.

Tão certo quanto um dia não serei.

 

A minha fé é feita de tantas incertezas

que me parece como uma bolha no ar.

É da inconsistência que se nutrem as belezas.

 

A vida é como uma pedra suspensa no ar.

Ninguém duvida de que a queda é certa,

Mas, ainda assim procura se sustentar.

Ilustração: Blog de Giancarlo Vizzotto

Sunday, December 12, 2021

MEMÓRIAS DE NAPOLEÃO


  “É melhor não ter nascido do que viver sem glória”

 (Napoleão Bonaparte


Ah, nascer numa ilha da Córsega, 

Apesar do meu pequeno tamanho,

Talhado para a grandeza,

Não é para qualquer um.

Para conquistar a Europa e criar a realeza 

Com uma liderança tão forte e delicada, 

Que misturava o amor e a espada, 

Me tornou um ser dominador: 

O homem de todas as mulheres 

E a mulher de todos os homens! 

Claro que a inveja sempre tece Intrigas

 e o poder traz desamor e ódio, 

Tanto que falavam do meu nariz de palha 

E coisas mais absurdas como, por exemplo, 

Que minha mulher foi a maior prostituta da França,

Quando somente tinha uma forte volúpia. 

Por mais generosa que fosse 

(E ela era, mesmo sendo uma mulher doce) 

Não poderia dar aos doze, em pares,

E usavam até análise combinatória para denegrir 

(o que até me fazia desdenhar e sorrir) 

Que, na sua carne, teriam se hospedado mais homens 

Que todos os meus batalhões! 

Queriam derrubar minha glória

Com coisas tão irrisórias em vão.

Só em Waterloo explodiram minha história.

Mas soldados e cavalos por mim tombaram

E, mesmo assim, não ofuscaram Austerlitz

Não seria um Champollion chinfrim, 

Que apenas decifrou hieróglifos 

Em festins devassos, que sufocaria meus feitos.


Nem na Ilha de Elba o legado foi desfeito.

Meu poder imperial somente sucumbiu 

No exílio letal de Santa Helena. 

Porém jamais poderão afirmar 

Que minha herança foi pequena. 

Ilustração: https://www.portaldalideranca.pt/. 

LXXXV

 


Sei que estou estranho,

indiferente, silencioso, apático,

quase um vegetal humano.

Nem penso

que me comporto

como se enfiasse um punhal no teu peito –

e isto, bem sei, não é direito.

 

Sei que deveria ter te procurado,

estar do teu lado,

ter contigo almoçado,

 

sem ficar assim tão depressivo,

tão sem forças,

tão contente em nada fazer,

sem motivo,

exceto dormir e comer.

 

Talvez, nem me queiras mais,

cansada, que sei que estás,

de esperar por algum sinal meu.

E aqui continuo inerme,

preguiçoso, dormindo,

esperando os dias passarem

em lenta agonia.

 

E me justifico,

antes de apagar a luz e ir dormir:

talvez, não seja o dia,

talvez, não seja a hora,

e, em profunda letargia,

afirmo que é culpa da pandemia!





 

Hai-kais quase pessoais

 


Ela ainda quer me modificar

mesmo que reze para ser o mesmo. 

Ela não acredita que não vou mudar. 


Uma indicação sobre o futuro? 

Sorri, feliz, a vidente. 

É evidente: vai me pagar, juro!


Senhor, comprovante de vacina. 

Logo de mim, o medroso. 

São os cruéis que me empurram na piscina. 


Ah! Que grande e tão democrático!

E me obriga a fazer o que não quero?

Ah! Senhor, é só este meu lado sádico!


Ainda Hai-kus de Allen Ginsberg

 


 Allen Ginsberg

Drinking my tea
Without sugar-
No difference.

The sparrow shits
upside down
--ah! my brain & eggs

Looking over my shoulder
my behind was covered
with cherry blossoms.

Winter Haiku
I didn't know the names
of the flowers--now
my garden is gone.

I slapped the mosquito
and missed.
What made me do that?

 

Bebendo meu chá

Sem açúcar

Nenhuma diferença.

 

O pardal cagou

de cabeça para baixo

--ah! meu cérebro e ovos

  

Olhando por cima do meu ombro

meu traseiro estava coberto

com flores de cerejeira.

 

Haiku de inverno

Eu não sabia os nomes

das flores - agora

meu jardim se foi.

 

Eu dei um tapa no mosquito

e errei.

O que me fez fazer isto?

Ilustração: https://semfiltross.blogs.sapo.pt/. 

Saturday, December 11, 2021

Outra poesia de César Dávila Andrade



ENCUENTROS

César Dávila Andrade

Nuestros encuentros no tienen mundo.
Se hacen
de pensamiento a pensamiento
en el éter
o en la vivacidad de los sepulcros,
a mil insectos por centímetro.

 

Nuestros encuentros se sirven
de microorganismos
y partículas de cobre.

 

Podemos esperar mil años, y aún más.
Nuestros encuentros se realizan en el Iodo
o entre el rumor de herraduras y lienzos
que precede
a las grandes migraciones:

 

Nuestros encuentros se hacen

en el ser instantáneo
que pasta y muere,
-como pastor y bestia-
entre surcos y siglos paralelos.

Nuestros encuentros no tienen
número ni punto.

 

ENCONTROS

Nossos encontros não tem mundo

se fazem

de pensamento a pensamento

no éter

ou na vivacidade dos sepulcros

a mil insetos por centrímetro.

 

Nossos encontros se servem

de microrganismos

e partículas de cobre.

 

Podemos esperar mil anos  e ainda mais.

Nossos encontros se realizam no iodo

ou entre o rumor de ferraduras e lenços

que precede as grandes migrações;

 

Nossos encontros se fazem

no ser instantâneo

que roça e morre,

-como pastor e besta-

entre sulcos e séculos paralelos.

 

Nossos encontros não têm

número ou ponto.

Ilustração: https://www.decoracaoacoracao.blog.br/.

Hai-kai do Azul Profundo


O encanto do azul profundo

É ter três terços de água 

Na bola chamada mundo.  

Ilustração: Superinteressante. 

Uma poesia de Maurice Scéve

 


Délie. Moins je la voy...

Maurice Scève

Moins je la voy, certes plus je la hays:

Plus je la hays, et moins elle me fasche.

Plus je l'estime, et moins compte j'en fais:

Plus je la fuys, plus veulx, qu'elle me sache.

En un moment deux divers traicz me lasche

Amour et hayne, ennuy avec plaisir.

Forte est l'amour, qui lors me vient saisir

Quand hayne vient et vengeance me crie:

Ainsi me faict hayr mon vain désir

Celle, pour qui mon coeur toujours me prie.

SOLTO. QUANTO MENOS EU A VEJO...

Quanto menos eu a vejo, com certeza, mais a odeio:

Quanto mais a odeio, menos me aborrece.

Quanto mais a estimo, menos considero isto:

Quanto mais fujo, mais quero que me conheça.

Duas saídas me lançam em um momento

Ódio e amor e tormento com prazer.

Forte é o amor, que então me vem reter

Quando me incita à vingança:

E devo odiar assim o vão querer

Por quem meu coração sempre balança.

Ilustração: https://www.televendasecobranca.com.br/.

Friday, December 10, 2021

PRESENTE








 





VIII

 


Há muitas coisas

que gostaria de saber.

Muitos lugares

onde gostaria de ir,

tantas coisas que não sei,

tantos livros para ler,

tantos filmes para assistir,

tantas e tantas coisas para fazer

que me dariam prazer

e não sinto  mais desejo

do que, novamente, sentir o gosto dos teus beijos,

beber mais vinho

e dormir.

Muitos chamam isso de indolência

ou de preguiça.

Minha falta de criatividade

toma essa inércia gostosa por felicidade!

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Hai-kais de Allen Ginsberg

 


Allen Ginsberg

Lying on my side

in the void:

the breath in my nose.

 

On the fifteenth floor

the dog chews a bone-

Screech of taxicabs.

 

A hardon in New York,

a boy

in San Fransisco.

 

The moon over the roof,

worms in the garden.

I rent this house.

 

Deitado de lado

no vazio:

a respiração no meu nariz.

 

No décimo quinto andar

o cachorro mastiga um osso.

Grito por táxis.

 

Um duro em Nova York,

um menino

em São Francisco.

 

A lua sobre o telhado,

vermes no jardim.

Eu alugo esta casa.

Ilustração: Duoflex. 

 

Thursday, December 09, 2021

OS LADOS INDISSOCIÁVEIS DE UM HOMEM FATIADO


#poemas #poesiabrasileira #poesiaamazonica #poesiarondonia #poesialondrina #poemasmalcomportados #silviopersivo #poesiaberadera 


Uma poesia de Hernan Bravo Varela

 

 


Hernan Bravo Varela

FUE entonces cuando, venido de quién sabe dónde, clausuró el carnaval y se echó a dormir sobre nosotros como un edificio que se desplomara estroboscópicamente. Quienes alcanzaron a salir, dieron gracias y se esfumaron entre institutos de especialidad y naves nodrizas.

Al principio, el aire transmitió empatía y estática; después, comerciales, una plaga y la inauguración de los Juegos Olímpicos. Los de adentro dibujamos banderas en el piso e inventamos países para cuando nos tocara desfilar.

Foi então que, vindo sabe-se lá de onde, enclausuraram o carnaval e adormeceu sobre nós como um prédio ruindo estroboscopicamente. Aqueles que conseguiram sair, deram graças e esfumaram entre os institutos de especialidades e as naves amas de leite.

No princípio, o ar transmitiu empatia e estática; depois, comerciais, uma praga e a inauguração dos Jogos Olímpicos. Nós lá dentro desenhamos bandeiras no piso e inventamos países para quando tivermos de desfilar.

Thursday, December 02, 2021

CANÇÃO DA IMATERIALIDADE


(De "Poemas Malcomportados, Editora Litteris, 2021) #poemas #poemasamazoncios #poesiabrasileira #poesiarondonia #poesialondrina #poesiaberadera #silviopersivo #poetry #brazilianpoetry #amaxonpoetry 







 

XLIV

 


São essas coisas tão simples,

que ninguém vai entender,

que me fazem ver

como viver contigo é tão bom.

O beijo pela manhã,

a discussão sobre o que teremos na refeição,

as visões diferentes sobre a vida,

esta tua forma tão louca e tão querida

de, às vezes, me dizer

como devia ser melhor.

Ainda que saiba

que não tem jeito

procuras ensinar ao velho papagaio

novos truques

com a obsessão das boas professoras

e me castigas com beijos,

enquanto bebemos vinho

e me dizes

que serei teu último homem –

o que não acredito –

e que com outro

não poderá mais ser feliz

zombando do tamanho

do meu nariz.

Ilustração: Me Apaixonei. (De "Cem Poemas em Cem Dias", Editora Viseu, 2021). 




Isabel Zapata não é mesmo daqui

 


YO NO SOY DE AQUÍ 

Isabel Zapata

Cuando por las noches sube la marea
la playa se vuelve un pasillo del mercado:
pañales, galletas de mar, caparazones de erizo,
huevos de tiburón tejidos con alga al litoral.

Considera ese artefacto de colágeno y curvas suaves.

Los tiburones ponen huevos en forma de tornillo:
espirales que se enroscan al suelo marino para quedarse en su lugar.

Mira cómo respiran a través de su cáscara traslúcida.

Considera su violenta geometría.

En algunos se agita una semilla viva, un embrión que
habita esa fosa de humedad y que, visto a contraluz,
palpita como diciendo:

Yo no soy de aquí.

EU NÃO SOU DAQUI

Quando pelas noites sobe a maré

a praia se torna um corredor do mercado

painéis, biscoitos de mar, cascas de ouriço,

ovos de tubarão tecidos com alga de litoral.

 

Considera este artefato de colágeno e curvas

suaves.

 

Os tubarões põem ovos em forma de parafusos:

espirais que se enroscam em solo marinho para ficar em seu lugar.

 

Olhe como respiram através de sua concha translúcida.

 

Considera sua violenta geometria.

 

Em alguns se agitam uma semente viva, um embrião

que habita este poço de umidade e que, visto, à contraluz, palpita como dizendo:

 

Eu não sou daqui

 

 

 

Wednesday, December 01, 2021

LXXXIX

    


   Amanheço

com esta infelicidade toda

se espalhando,

se derramando pelo país.

Com tantas pessoas

espumando ódio,

cuspindo fogo,

largando brasas pelo nariz.

Nem sei mais se quero mesmo

sair de casa,

nem se voltarei a ser feliz.

Nem sei mais o que sou

neste limbo em que estou.

Já me rotularam de tantos clichês.

E até tento ser negacionista

por causa desta saudade de você,

porém, tenho mesmo,

sem perceber,

é de ser equilibrista

para sobreviver.

   Ilustração: Expressões Idiomáticas.
   (De "Cem Poemas em Cem Dias", Editora Viseu, 2021.



Uma poesia de María Auxiliadora Balladares

 


PECES EN LA PECERA

María Auxiliadora Balladares 

eran cuatro en la pecera
un día precario de febrero
tres amanecieron flotando
quedó uno vivo
el más pequeño
el más feo
el mío

PEIXES NO AQUÁRIO

Eram quatro no aquário

um dia precário de fevereiro

três amanheceram flutuando

ficou um vivo

o menor

o mais feio

o meu

Ilustração: https://portalmie.com/.

Tuesday, November 30, 2021

De "Poemas Malcomportados"

Poemas malcomportados, audaciosos, atrevidos na sua forma de falar, no seu querer dizer a verdade sem medo, sem pudores, sem velar uma linha sequer.
Poemas que batem de frente com a verdade, com a realidade, lembram e relembram o passado, sem jamais deixar de falar e até cultuar o presente.
São poemas que não fogem ao seu destino, viscerais que são falam do mundo em que vivemos de forma nada pueril, simplesmente porque eles querem a todo custo contar e gritar as verdades que estão por aqui escondidas em guetos, tentando fugir do medo e da fragilidade, mostrando que a palavra tem seu poder, sem comportamento indomável.


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(https://www.livrarialitteris.com.br/?departamento/28/2_-_Lancamentos.) 

De "Cem Poesias em Cem Dias"

 


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https://www.eviseu.com/