Ó céus! Perdi mais um chapéu.
É falta de atenção. Lamento,
ter cabeça de vento!
Ilustração: soqueriaterum.com.br.
Ó céus! Perdi mais um chapéu.
É falta de atenção. Lamento,
ter cabeça de vento!
Ilustração: soqueriaterum.com.br.
Mais do que social ou
político-
e isto não critico-
o homem é, por natureza,
um mentiroso.
Mentir, para o homem, é
tão natural
quanto respirar,
ir no banheiro ou amar.
E a mentira faz mais
falta que o ar.
Há quem minta dizendo que
diz a verdade
assim como quem, de tanto
mentir,
faz da mentira sua
realidade.
O fato é que mentir,
acima de todas as coisas,
é uma qualidade humana.
Dizer
sempre a verdade é uma virtude sobre-humana.
Há
quem pensa ser verdadeiro,
mas,
se engana.
A
arte de mentir na pessoa humana é uma segunda natureza
tanto
que o sumo do mentir, sua maior beleza
é
mentir para si mesmo
e
acreditar
que
só diz a verdade.
Andei
tendo uma queda neste fosso-
digo
com naturalidade-
e,
hoje, por ironia
projeto
como meta,
uma
coisa de esteta,
mentir
somente uma vez por dia!
EDISON IN LOVE
Robin
Ekiss
Thomas
Edison loved a doll
with
a tiny phonograph inside
because
he made her speak.
Is
there any other reason
to
love a woman? Did she say
the
ghost of my conception
or
something equally demure?
It’s
hard to be sure how he feels
when
he holds me, I fall apart.
I’m
projecting here. He didn’t feel
her
first transgression
was
in having no expression.
René
Descartes, too, traveled alone
with
a doll-in-a-box
he
called his daughter. Francine,
Francine...
is it better to be silent
and
wait for everything
we
were promised?
Or
should we love them back,
the
way a train loves its destination,
as
if we have the machinery necessary for it?
EDISON
APAIXONADO
Thomas
Edison amou uma boneca
com
um reduzido fonógrafo no seu interior
porque
ele a fez falar.
Existe
algum outra razão
para
amar uma mulher? Ela disse
o
fantasma da minha concepção
ou
algo igualmente reservado?
É
difícil estar seguro de como ele se sente
quando
me abraça, me despedaço.
Estou
me projetando aqui. Ele não sentiu
que
sua primeira transgressão
era
não ter expressão.
René
Descartes também viajava
com
uma boneca numa caixa
a
quem chamava sua filha. Francine,
Francine...
é melhor ficar calado
e
esperar por tudo
aquilo
que nos foi prometido?
Ou
devolver-lhes em troca seu amor,
como
um trem ama seu destino,
como se tivéssemos o maquinário
necessário para isso?
Ilustração: megacurioso.com.br.
IN
PRAISE OF POETRY
Martin
Newell
Poetry is no less than this:
An unexpected workplace kiss
The brandy in the spirit cage
A salve upon our wounded age
That lustful swell, the secret damp
The yellow of the attic lamp
The drifting, smoky, hazel haze
Of wooded hills on autumn days
Between the thoughts of summer lost
And anvil of the winter frost
EM
LOUVOR DA POESIA
A poesia nada mais é do
que isso:
Um inesperado beijo no local de trabalho
O conhaque na gaiola do espírito
Um bálsamo sobre nossa idade ferida
Esta onda lasciva, a umidade secreta
O amarelo da lâmpada do sótão
A névoa à deriva, esfumaçada e avelã
De colinas arborizadas em dias de outono
Entre os pensamentos de verão perdidos
E as vibrações da geada do inverno
Ilustração: Brasil Travel News.
Se me esquecestes, ou não,
nem importa.
Ainda bate o coração,
bem lá no fundo,
com uma emoção,
quando penso em você.
que me faz capaz de mudar o mundo.
E, como o acaso não acontece sem motivo,
foi só te olhar para ficar cativo
e falar contigo para arranjar correntes
que, até hoje, me prendem.
Ainda espero te rever
e, quem sabe, no mar de alegria
me perder,
quando isto acontecer.
Sei que o tempo passa,
mas, o amor é uma massa
que, com a batida da vida,
só cresce.
Ah! Amor, o pão da fantasia,
pelo menos,
nossa ilusão merece!
Ilustração: Notícias do Mundo.
Se o amor é uma moeda falsa
é tão aceito no mercado
que já nem importa
se tem, ou não, valor.
O amor nem tem
das criptomoedas
a virtude de ser limitado,
enfim, o amor,
no nosso mercado,
está em um processo altamente inflacionário.
É, por incrível que pareça,
a moeda mais valorizada
pelos otários,
inclusive eu.
Afinal o amor,
mesmo sem valor,
proporciona sonhos, beijos e
abraços
e a maior ilusão que se pode ter:
que é ser depósito de bem querer!
Ilustração: GettyImagens.
Ars Poetica #100: I
Believe
Elizabeth Alexander
Poetry, I tell my students,
is idiosyncratic. Poetry
is where we are ourselves
(though Sterling Brown said
“Every ‘I’ is a dramatic ‘I’”),
digging in the clam flats
for the shell that snaps,
emptying the proverbial pocketbook.
Poetry
is what you find
in
the dirt in the corner,
overhear
on the bus, God
in
the details, the only way
to
get from here to there.
Poetry
(and now my voice is rising)
is
not all love, love, love,
and
I’m sorry the dog died.
Poetry
(here I hear myself loudest)
is
the human voice,
and
are we not of interest to each other?
Ars Poetica #100: Eu Acredito
A Poesia, digo aos meus alunos,
é idiossincrática. A Poesia
é onde estamos nós mesmos
(embora Sterling Brown tenha dito
“Todo ‘eu’ é um ‘eu’ dramático”),
cavando nas baixadas de moluscos
atrás da concha que estala,
esvaziando a proverbial carteira.
A Poesia é o que você encontra
na sujeira do canto,
ouvir no ônibus, Deus
nos detalhes, a única maneira
para ir daqui para lá.
A Poesia (e agora minha voz vai subindo)
não é tudo amor, amor, amor,
e lamento o cachorro morto.
A Poesia (aqui me ouço mais alto)
é a voz humana,
e não somos cada um de interesse do outro?
Ilustração: Pensar Contemporâneo.
Este desejo tão impuro e
tão carnal
Que é puro amor por ti
Me faz dizer,
Nas noites em que rolo na
cama,
Nomes e coisas imorais,
Que nem penso em te
falar,
Mas, todas as palavras se
traduzem em te amar
E te fazer de gato e
sapato,
Quando te pegar,
Como se ainda fosse o que
sei que não sou,
Contudo, me perdoa.
Isto é amor.
Ilustração: Quilombo
Noroeste.
UNE VOIX
Yves Bonnefoy
Quelle maison veux-tu dresser pour moi,
Quelle
écriture noire quand vient le feu?
J'ai reculé longtemps devant tes signes,
Tu m'as
chassée de toute densité.
Mais voici que la nuit incessante me garde,
Par de
sombres chevaux je me sauve de toi.
UMA VOZ
Que casa queres fazer
para mim,
Que escrita negra quando vem
o fogo?
Já recuei por longo tempo diante dos teus sinais,
Tu me baniste de toda
densidade.
Mas, a voz que a noite
incessante me guarda,
Por cavalos sombrios me
salva de ti.
Ilustração: google.com.br.
Se houve carnaval não sei.
Marcha não ouvi, samba enredo não cantei,
não vi uma fantasia sequer
e ouvi falar que brincaram uns poucos
em algum lugar.
O mundo, meu amor,
se acabou e a humanidade não sabe
até a Pitombeira do Quatros Cantos
não saiu do lugar
e a Banda do Vai Quem Quer
nem em sonho desfilou..ô..ô..ô
O mundo se acabou!!!
Minha fantasia de palhaço
cheia de aranha e de poeira,
longe da brincadeira
na rua não tem espaço.
Ri de mim no armário velho,
enquanto afogo as mágoas com Pitu
me lembrando que foi tão bom
brincar com tu.
Ah! Isto sim é o fim do mundo:
usar máscara o ano todo
por castigo
e, em fevereiro, não ter carnaval
e fingir que nem ligo.
A vida sem carnaval é perdição
como entrar na rua na contramão!
Ilustração: Bem Paraná.
CRASH
Elizabeth Alexander
I am the last woman off of the plane
that has crashed in a cornfield near Philly,
picking through hot metal
for my rucksack and diaper bag.
No black box, no fuselage,
just sistergirl pilot wiping soot from her
eyes,
happy to be alive. Her dreadlocks
will hold the smoke for weeks.
All the white passengers bailed out
before impact, so certain a sister
couldn’t navigate the crash. O gender.
O race. O ye of little faith.
Here we are in the cornfield, bruised and
dirty but alive.
I invite sistergirl pilot home for dinner
at my parents’, for my mother’s roast chicken
with gravy and rice, to celebrate.
QUEDA
Eu sou a última mulher a sair do avião
depois da queda em um milharal perto da
Filadélfia,
pegando no meio do metal quente
minha mochila e bolsa de fraldas.
Sem caixa preta, sem fuselagem,
apenas a irmã piloto limpando fuligem de seus
olhos,
Feliz por estar viva. Seus dreadlocks
vão segurar a fumaça por semanas.
Todos os passageiros brancos socorreram
antes do impacto, tão certa uma irmã
não conseguiu navegar no acidente. Ó gênero.
Ó raça. Ó vós de pouca fé.
Aqui estamos no milharal, machucados e sujos,
mas vivos.
Eu convido a irmã da irmã piloto para jantar
em casa
na casa dos meus pais, para o frango assado da
minha mãe
com molho e arroz, para comemorar.
Ilustração: Blogdorium.com.br
O carnaval acabou, meu amor.
Já esqueci quando a última escola desfilou
e o som dos tamborins e das cuícas
só na minha memória fica.
Agora todo mundo anda mascarado
todo tempo
e as quadras não tem mais animação.
Nem se fala mais em fazer samba enredo
e fantasia só na imaginação.
Parece que os ricos
não querem deixar o pobre ser feliz
nem se pode mais ter futebol e carnaval.
Do jeito que andam
massacrando o nosso povo,
logo, logo aparece um decreto novo
cobrando imposto
para respirar pelo nariz.
O carnaval acabou, meu amor,
mas vou te beijar de qualquer jeito.
Pelo menos, por enquanto,
ao amor temos direito.
E é melhor aproveitar,
pois, do jeito que as coisas andam
vamos ter de andar de quatro
por ordem dos que mandam!