Sunday, March 06, 2022

Mais um chapeúzinho perdido


Ó céus! Perdi mais um chapéu. 

É falta de atenção. Lamento, 

ter cabeça de vento! 

Ilustração: soqueriaterum.com.br. 

Ode às Mentirinhas

 


Mais do que social ou político-

e isto não critico-

o homem é, por natureza, um mentiroso.

Mentir, para o homem, é tão natural

quanto respirar,

ir no banheiro ou amar.

E a mentira faz mais falta que o ar.

Há quem minta dizendo que diz a verdade

assim como quem, de tanto mentir,

faz da mentira sua realidade.

O fato é que mentir,

acima de todas as coisas,

é uma qualidade humana.

Dizer sempre a verdade é uma virtude sobre-humana.

Há quem pensa ser verdadeiro,

mas, se engana.

A arte de mentir na pessoa humana é uma segunda natureza

tanto que o sumo do mentir, sua maior beleza

é mentir para si mesmo

e acreditar

que só diz a verdade.

Andei tendo uma queda neste fosso-

digo com naturalidade-

e, hoje, por ironia

projeto como meta,

uma coisa de esteta,

mentir somente uma vez por dia!

Uma poesia de Robin Ekiss

                                


                                  EDISON IN LOVE

Robin Ekiss

Thomas Edison loved a doll

with a tiny phonograph inside

because he made her speak.

 

Is there any other reason

to love a woman? Did she say

the ghost of my conception

 

or something equally demure?

It’s hard to be sure how he feels

when he holds me, I fall apart.

 

I’m projecting here. He didn’t feel

her first transgression

was in having no expression.

 

René Descartes, too, traveled alone

with a doll-in-a-box

he called his daughter. Francine,

 

Francine... is it better to be silent

and wait for everything

we were promised?

 

Or should we love them back,

the way a train loves its destination,

as if we have the machinery necessary for it?

 

EDISON APAIXONADO

Thomas Edison amou uma boneca

com um reduzido fonógrafo no seu interior

porque ele a fez falar.

 

Existe algum outra razão

para amar uma mulher? Ela disse

o fantasma da minha concepção

 

ou algo igualmente reservado?

É difícil estar seguro de como ele se sente

quando me abraça, me despedaço.

 

Estou me projetando aqui. Ele não sentiu

que sua primeira transgressão

era não ter expressão.

 

René Descartes também viajava

com uma boneca numa caixa

a quem chamava sua filha. Francine,

 

Francine... é melhor ficar calado

e esperar por tudo

aquilo que nos foi prometido?

 

Ou devolver-lhes em troca seu amor,

como um trem ama seu destino,

        como se tivéssemos o maquinário necessário para isso?     

         Ilustração: megacurioso.com.br.

 

Uma poesia de Martin Newell

 


IN PRAISE OF POETRY

Martin Newell

Poetry is no less than this:

An unexpected workplace kiss

The brandy in the spirit cage

A salve upon our wounded age

That lustful swell, the secret damp

The yellow of the attic lamp

The drifting, smoky, hazel haze

Of wooded hills on autumn days

Between the thoughts of summer lost

And anvil of the winter frost

EM LOUVOR DA POESIA

A poesia nada mais é do que isso:

Um inesperado beijo no local de trabalho

O conhaque na gaiola do espírito

Um bálsamo sobre nossa idade ferida

Esta onda lasciva, a umidade secreta

O amarelo da lâmpada do sótão

A névoa à deriva, esfumaçada e avelã

De colinas arborizadas em dias de outono

Entre os pensamentos de verão perdidos

E as vibrações da geada do inverno

Ilustração: Brasil Travel News. 

Friday, March 04, 2022

Poeminha da ilusão continuada


Se me esquecestes, ou não,

nem importa.

Ainda bate o coração, 

bem lá no fundo, 

com uma emoção, 

quando penso em você.

que me faz capaz de mudar o mundo. 

E, como o acaso não acontece sem motivo,

foi só te olhar para ficar cativo 

e falar contigo para arranjar correntes 

que, até hoje, me prendem. 

Ainda espero te rever

e, quem sabe, no mar de alegria 

me perder,

quando isto acontecer. 

Sei que o tempo passa,

mas, o amor é uma massa

que, com a batida da vida, 

só cresce. 

Ah! Amor, o pão da fantasia,

pelo menos, 

nossa ilusão merece! 

Ilustração: Notícias do Mundo.

Thursday, March 03, 2022

QUASE MOEDA

 


Se o amor é uma moeda falsa

é tão aceito no mercado

que já nem importa

se tem, ou não, valor.

O amor nem tem

das criptomoedas

a virtude de ser limitado,

enfim, o amor,

no nosso mercado,

está em um processo altamente inflacionário.

É, por incrível que pareça,

a moeda mais valorizada

pelos otários,

inclusive eu.

Afinal o amor,

mesmo sem valor,

proporciona sonhos, beijos e abraços

e a maior ilusão que se pode ter:

que é ser depósito de bem querer!

Ilustração: GettyImagens. 

Ainda a poesia de Elizabeth Alexander

 


Ars Poetica #100: I Believe

Elizabeth Alexander

Poetry, I tell my students,

is idiosyncratic. Poetry

 

is where we are ourselves

(though Sterling Brown said

 

“Every ‘I’ is a dramatic ‘I’”),

digging in the clam flats

 

for the shell that snaps,

emptying the proverbial pocketbook.

 

Poetry is what you find

in the dirt in the corner,

 

overhear on the bus, God

in the details, the only way

 

to get from here to there.

Poetry (and now my voice is rising)

 

is not all love, love, love,

and I’m sorry the dog died.

 

Poetry (here I hear myself loudest)

is the human voice,

 

and are we not of interest to each other?

 

 

Ars Poetica #100: Eu Acredito

 

A Poesia, digo aos meus alunos,

é idiossincrática. A Poesia

 

é onde estamos nós mesmos

(embora Sterling Brown tenha dito

 

“Todo ‘eu’ é um ‘eu’ dramático”),

cavando nas baixadas de moluscos

 

atrás da concha que estala,

esvaziando a proverbial carteira.

 

A Poesia é o que você encontra

na sujeira do canto,

 

ouvir no ônibus, Deus

nos detalhes, a única maneira

 

para ir daqui para lá.

A Poesia (e agora minha voz vai subindo)

 

não é tudo amor, amor, amor,

e lamento o cachorro morto.

 

A Poesia (aqui me ouço mais alto)

é a voz humana,

 

e não somos cada um de interesse do outro?

Ilustração: Pensar Contemporâneo.

Wednesday, March 02, 2022

POEMINHA DO AMOR INSATISFEITO

 


Este desejo tão impuro e tão carnal

Que é puro amor por ti

Me faz dizer,

Nas noites em que rolo na cama,

Nomes e coisas imorais,

Que nem penso em te falar,

Mas, todas as palavras se traduzem em te amar

E te fazer de gato e sapato,

Quando te pegar,

Como se ainda fosse o que sei que não sou,

Contudo, me perdoa.

Isto é amor.

Ilustração: Quilombo Noroeste.


Outra poesia de Yves Bonnefoy


 

UNE VOIX 

Yves Bonnefoy

Quelle maison veux-tu dresser pour moi, 
Quelle écriture noire quand vient le feu?

J'ai reculé longtemps devant tes signes, 
Tu m'as chassée de toute densité.

Mais voici que la nuit incessante me garde, 

Par de sombres chevaux je me sauve de toi.

UMA VOZ

Que casa queres fazer para mim,

Que escrita negra quando vem o fogo?

 

Já recuei por longo tempo diante dos teus sinais,

Tu me baniste de toda densidade.

 

Mas, a voz que a noite incessante me guarda,

Por cavalos sombrios me salva de ti.

Ilustração: google.com.br.

Tuesday, March 01, 2022

MARCHA DO FIM DO MUNDO

 


Se houve carnaval não sei.

Marcha não ouvi, samba enredo não cantei,

não vi uma fantasia sequer

e ouvi falar que brincaram uns poucos

em algum lugar.

O mundo, meu amor,

se acabou e a humanidade não sabe

até a Pitombeira do Quatros Cantos

não saiu do lugar

e a Banda do Vai Quem Quer

nem em sonho desfilou..ô..ô..ô

O mundo se acabou!!!

Minha fantasia de palhaço

cheia de aranha e de poeira,

longe da brincadeira    

na rua não tem espaço.

Ri de mim no armário velho,

enquanto afogo as mágoas com Pitu

me lembrando que foi tão bom

brincar com tu.

Ah! Isto sim é o fim do mundo:

usar máscara o ano todo

por castigo

e, em fevereiro, não ter carnaval

e fingir que nem ligo.

A vida sem carnaval é perdição

como entrar na rua na contramão!

Ilustração: Bem Paraná.

Outra poesia de Elizabeth Alexander


             

CRASH

Elizabeth Alexander

I am the last woman off of the plane

that has crashed in a cornfield near Philly,

 

picking through hot metal

for my rucksack and diaper bag.

 

No black box, no fuselage,

just sistergirl pilot wiping soot from her eyes,

 

happy to be alive. Her dreadlocks

will hold the smoke for weeks.

 

All the white passengers bailed out

before impact, so certain a sister

 

couldn’t navigate the crash. O gender.

O race. O ye of little faith.

 

Here we are in the cornfield, bruised and dirty but alive.

I invite sistergirl pilot home for dinner

 

at my parents’, for my mother’s roast chicken

with gravy and rice, to celebrate.

 

QUEDA

Eu sou a última mulher a sair do avião

depois da queda em um milharal perto da Filadélfia,

 

pegando no meio do metal quente

minha mochila e bolsa de fraldas.

 

Sem caixa preta, sem fuselagem,

apenas a irmã piloto limpando fuligem de seus olhos,

 

Feliz por estar viva. Seus dreadlocks

vão segurar a fumaça por semanas.

 

Todos os passageiros brancos socorreram

antes do impacto, tão certa uma irmã

 

não conseguiu navegar no acidente. Ó gênero.

Ó raça. Ó vós de pouca fé.

 

Aqui estamos no milharal, machucados e sujos, mas vivos.

Eu convido a irmã da irmã piloto para jantar em casa

 

na casa dos meus pais, para o frango assado da minha mãe

com molho e arroz, para comemorar.

Ilustração: Blogdorium.com.br

 

Monday, February 28, 2022

O CARNAVAL ACABOU

 


O carnaval acabou, meu amor.

Já esqueci quando a última escola desfilou

e o som dos tamborins e das cuícas

só na minha memória fica.

Agora todo mundo anda mascarado

todo tempo

e as quadras não tem mais animação.

Nem se fala mais em fazer samba enredo

e fantasia só na imaginação.

Parece que os ricos

não querem deixar o pobre ser feliz

nem se pode mais ter futebol e carnaval.

Do jeito que andam

massacrando o nosso povo,

logo, logo aparece um decreto novo

cobrando imposto

para respirar pelo nariz.

O carnaval acabou, meu amor,

mas vou te beijar de qualquer jeito.

Pelo menos, por enquanto,

ao amor temos direito.

E é melhor aproveitar,

pois, do jeito que as coisas andam

vamos ter de andar de quatro

por ordem dos que mandam!