Saturday, November 18, 2023

Outra poesia de Alexander Posey

 


THE CALL OF THE  WILD

Alexander Posey

I’m tired of the gloom 

In a four-walled room; 

Heart-weary, I sigh 

For the open sky, 

And the solitude 

Of the greening wood; 

Where the bluebirds call, 

And the sunbeams fall, 

And the daisies lure

The soul to be pure. 

 

I’m tired of the life

In the ways of strife; 

Heart-weary, I long 

For the river’s song, 

And the murmur of rills 

In the breezy hills; 

Where the pipe of Pan-

The hairy half-man-

The bright silence breaks 

By the sleeping lakes.  

O CHAMADO DA NATUREZA

Estou cansado da escuridão

Numa sala de quatro paredes;

Cansado do coração, eu suspiro

Para o céu aberto,

E a solidão

Da madeira verdejante;

Onde os pássaros azuis cantam,

E os raios de sol caem,

E as margaridas atraem

A alma, que deve ser pura.

 

Estou cansado da vida

Nos caminhos da discórdia;

Cansado do coração, anseio

Pela canção do rio,

E o murmúrio dos riachos

Nas montanhas arejadas;

Onde o cachimbo de Pã-

O meio-homem peludo-

O silêncio brilhante quebra

Perto dos adormecidos lagos.

​Ilustração: Organics New Brasil.

Thursday, November 16, 2023

DEU A LOUCA NO MUNDO

 


Se os cegos veem

Se os mudos cantam

Se os moucos ouvem, 

certamente, os mortos vivem.

E os vivos onde estarão? 


Fugindo pelas ruas, mar e ar

loucos sem entender e a gritar

fortemente, com intensa emoção,

que o mundo anda louco. 

Meu bem, tudo acho pouco

depois que você me deixou. 



Outra poesia de Robert Desnos

 


CONTE DE FÉES

Robert Desnos

Il était un grand nombre de fois

Un homme qui aimait une femme

Il était un grand nombre de fois

Une femme qui aimait un homme

Il était un grand nombre de fois

Une femme et un homme

Qui n'aimaient pas celui et

celle qui les aimaient

 

Il était une fois

Une seule fois peut-être

Une femme et un homme

qui s'aimaient

CONTO DE FADAS

Havia muitas vezes

um homem que adorava uma mulher.

Havia uma vez (e foram muitas vezes)

que uma mulher a um homem idolatrava.

Houve uma vez (e foram muito mais vezes)

que uma mulher e um homem que não amavam

ou aquele ou aquela que os adoravam.

 

Houve uma vez

(talvez uma vez só)

uma mulher e um homem

que se amavam.

Ilustração: TechTudo.

Outra poesia de Gonzallo Millán

 


PISCIS

Gonzallo Millán

Los ojos de los peces

estaban

siempre mirándonos,

abiertos y voraces,

desmesurados como soles.

Y lo ignoramos

con nuestra ceguera

de gusanos,

atentos unicamente

a1 dolor del anzuelo.

PEIXES

Os olhos dos peixes

estavam

sempre nos olhando,

abertos e vorazes,

desmesurado como sóis.

E os ignoramos

com a nossa cegueira

de vermes,

atentos unicamente

à dor do anzol.

Ilustração: Pesca na Lagoa.

Uma poesia de Alexander Posey

 


THE  BLUEBIRD

Alexander Posey

A winged bit of Indian sky

Strayed hither from its home on high.

O PÁSSARO AZUL

Um pedaço alado do céu índio

Desviou-se para cá de sua casa nas alturas.

Ilustração: Lindseyaraujo-Wordpress.com

Tuesday, November 14, 2023

BRASILEIRO, PROFISSÃO ESPERANÇA

 


O Brasil não é para principiantes” (Tom Jobim).

Eu sempre acreditei

que ia dar certo,

mesmo quando via

tudo andar errado.

 

Talvez seja a crença tola

do brasileiro

que até o último instante

espera acontecer

o gol

que nunca sai.

 

Quem sabe

pela mesma razão

de que nunca desisti

na vida

alimentando sempre

uma ilusão

do milagre

que não veio.

 

E agora,

quando o tempo

da escuridão se aproxima,

ainda olho para cima

à espera de um milagre-

mesmo quando sei

que não há!!

E, de volta, Miguel Hernández

 


CANCIÓN ÚLTIMA

Miguel Hernández

Pintada, no vacía:

Pintada está mi casa

Del color de las grandes

Pasiones y desgracias.

Regresará del llanto

Adonde fue llevada

Con su desierta mesa,

Con su ruinosa cama.

Florecerán los besos

Sobre las almohadas.

Y en torno de los cuerpos

Elevará la sábana

Su intensa enredadera

Nocturna, perfumada.

El odio se amortigua

Detrás de la ventana.

Será la garra suave.

Dejadme la esperanza.

ÚLTIMA CANÇÃO

Pintada, não vazia:

pintada está minha casa

da cor dos grandes

paixões e infortúnios.

Regressará do pranto

aonde foi levada

com sua deserta mesa,

com sua arruinada cama.

Florescerão os beijos

nos travesseiros.

e ao redor dos corpos

se elevarão a folha

sua intensa trepadeira

noturna, perfumada.

O ódio se amortece

detrás da janela.

será a garra suave.

Deixa-me a esperança.

Ilustração: Prime Vídeo.

Uma poesia de SM Stubbs

 


FAITH

SM Stubbs

For centuries, an order of Japanese monks

chose one of the elders to deliver prayers

to the island of an important Bodhisattva. They set

the elect adrift in a shrine shaped like a coffin

 

with a month of salted fish, rice crackers & water

while brothers on shore kept watch for signs of panic.

In many cases, the sacrifice tried to row home

but the others turned him, shoved him back

 

into the sea. A mirror of human existence:

each of us sent to beg forgiveness from whichever

gods we recognize while death patiently paces

the sky. As darkness swallows the world, imagine

 

the cry of gulls, glimpses of a distant horizon,

the slow groan of the casket atop the waves.

Durante séculos, uma ordem de monges japoneses

escolheu um dos mais velhos para fazer orações

para a ilha de um importante Bodhisattva. Eles colocaram

o eleito à deriva em um santuário em forma de caixão

 

com um mês de peixe salgado, biscoitos de arroz e água

enquanto os irmãos em terra ficavam atentos á sinais de pânico.

Em muitos casos, o sacrificado tentou remar para casa

porém os outros o viraram e o empurraram de volta

 

para o mar. Um espelho da existência humana:

cada um de nós foi enviado para pedir perdão a qualquer

dos deuses que reconhecemos enquanto a morte caminha pacientemente

 

o céu. Enquanto a escuridão engole o mundo, imagine

 

o grito das gaivotas, vislumbres de um horizonte distante,

o gemido lento do caixão sobre as ondas.

​Ilustração: Mindworks.

Monday, November 13, 2023

Um poeminha de Gabriel Aresti

 


VERDADES DE FERNANDO

Gabriel Aresti

Mi corazón

está a la izquierda

y su sangre

es

roja.

VERDADES DE FERNANDO

Meu coração

está à esquerda

e  seu sangue

é

vermelho.

Ilustração: Brasil Escola.

Sunday, November 12, 2023

Uma poesia de Gonzallo Millán

 


LATA

Gonzallo Millán

Ya no te bastan mis ojos

para corroborar tu belleza.

Buscas en las calles

ajenos espejos, otros ojos,

la cabeza de un clavo

es una luna diminuta.

Contemplas una lata

de sardinas con agua de lluvia.

LATA

Já não te bastam meus olhos

para corroborar tua beleza.

Buscas nas ruas

espelhos estranhos, outros olhos,

a cabeça de uma unha

és uma lua diminuta.

Contemplas uma lata

de sardinhas com água de chuva.

Ilustração: Dreamstime.

Monday, November 06, 2023

Mais uma vez Miguel Hernández

 


BESARSE

Miguel Hernández

Besarse, mujer,

Al sol, es besarnos

En toda la vida.

Ascienden los labios

Eléctricamente

Vibrantes los rayos,

Con todo el fulgor

De un sol entre cuatro.

Besarse a la luna,

Mujer, es besarnos

En toda la muerte.

Descienden los labios

Con toda la luna

Pidiendo su ocaso,

Gastada y helada

Y en cuatro pedazos.

BEIJAR-SE

Beijar-se, mulher,

ao sol, é nos beijarmos

em toda a vida.

Ascendem os lábios

eletricamente

Vibrantes os raios,

com todo o brilho

de um sol entre quatro.

Beijar-se ao luar,

Mulher, é nos beijarmos

em toda a morte.

Descendem os lábios

com toda a lua

pedindo seu ocaso,

gasto e congelado

e em quatro pedaços.

Ilustração: Veecteezy.

Sunday, November 05, 2023

MANJAR DOS DEUSES .

 


Eram, na sua trêmula inocência,
Bandeiras de delícia e de paixão
Tanto que mal ousei passar a mão,
Bem de leve, com tímida insistência.

Eram, na febre, pássaros quietos,
Avisos e pedidos de mil beijos,
Quietude e tempestade de desejos,
Armas da paixão, punhais eretos.

Doces! Deliciosamente indiscretos.
Mamões papaias de sublime gosto
Sabiam aos manjares mais secretos

Que algum deus guardara para si
E a mim, que neles afoguei o rosto,
Por, um momento, um deus me senti!

Ilustração: Correio da Manhã.

Outra poesia de Cécile Coulon

 


Á VENDRE

Cécile Coulon

C´est un morceau de terre noire entre deux vallées

entretenues par des troupeaux de vaches,

de brebis et des orages furieux ;

c´est dans le poing fermé des falaises

un minuscule caillou en forme de maison

que les arbres et la montagne auront

bientôt avalé.

Un endroit comme un visage sans yeux

flanqué d´une pauvre route

où les hommes ont péri,

c´est peut-etre du feu de mon enfance

la dernière braise :

il n´y a plus de lumière blanche au plafond

ni de volets qui grincent aux fenêtres du salon,

c´est un carré d´argile irrégulier qui surplombe

un bras d´eau long comme une tige de coquelicot

vue du ciel.

Il faut marcher longtemps

pour atteindre la fontaine,

apporter à ta bouche séchée la source des rochers

et raviver la flamme

au cœur de ce morceau de terre tenu serré

dans la paume du soleil.

Nous sommes montés si haut pour, enfin, vivre hors du monde,

pour, enfin, s´approcher des oiseaux

et toucher les flocons

qu´il m´est impossible, à présent, de redescendre.

Les herbes ont tout dévoré,

la rambarde chancelante est couverte

de poussière et de toiles d´araignée ;

ils disent qu´il faudrait VENDRE

comme le reste

VENDRE

les bandes dessinées, la ferme, le lait, le terrain

le parc autour du petit manoir où nous enterré

le chien

VENDRE

mon corps, ma voix, la couleur de mes cheveux

tant qu´il est encore temps.

pendant qu´ils prennent de lourdes décisions

j´attends contre le vaisselier avec une cigarette

éteinte à la main

que je n´ose pas allumer

à cause de l´odeur, de la fumée ;

VENDRE

dehors le volcan voisin a mis ses laines d´hiver

il y a des taches noires dessus

et tandis qu´il s´agit, une fois encore,

de VENDRE,

je songe à ce morceau de terre entre deux vallées

où nous n´irons jamais ensemble.

À VENDA

É um  pedaço de terra negra entre dois vales
habitados por rebanhos de vacas,
de ovelhas e tempestades furiosas;
no punho cerrado dos rochedos
é um seixo minúsculo em forma de casa
que as árvores e as montanhas
de pronto haviam devorado.
Um lugar como um rosto sem olhos

onde os homens pereceram,

talvez seja o fogo da minha infância

a última brasa:

Já não há mais luz branca no teto

nem persianas rangendo nas janelas da sala,

é um quadrado de argila irregular que sobressai

um braço de água largo como um talo de papoula

vista do céu.

Há que andar muito tempo

para alcançar à fonte,
levar a tua boca seca o manancial das rochas
e reavivar a chama
no coração desse pedaço de terra sustentado,
apertado na mão do sol.
Subimos tão alto para, ao fim, viver fora do mundo,
para, ao fim, aproximar-se dos pássaros
e tocar os flocos,
que agora me é impossível descer.
A erva há devorado tudo,
a precária balaustrada se há coberto
de pó de  teias de aranha.
Eles dizem que teria que VENDER
que só me resta
VENDER

as histórias em quadrinhos, fazenda, leite, terra

o parque ao redor da pequena mansão onde enterramos

o cachorro

VENDER

meu corpo, minha voz, a cor do meu cabelo

enquanto ainda há tempo.

Enquanto eles tomam severas decisões.

Eu espero encostado na cômoda com um cigarro

extinto à mão

que não me atrevo a acender

por causa do odor, da fumaça;

VENDER

fora do vulcão vizinho vestiu sua lã de inverno
há posto sua roupa de inverno

e há manchas negras nela,

enquanto se trata mais uma vez

de VENDER,
Eu sonho   com este pedaço de terra entre dois vales
aonde nunca iremos juntos.

Ilustração: Sthe on Road.


Uma poesia de Juan Abel Echevarria

 



EL AVIÓN  

Juan Abel Echevarria

Águila real que en el cenit admiro,

Pasmo del genio creador, invento

Que en ti llevas, como alma, el pensamiento,

Que al éter te lanzó con raudo giro;

 

Lumbre de ciencias en tus alas miro,

Que te hacen navegar señor del viento,

Y eres bajo el cerúleo firmamento,

Cruz de nácar en fondo de zafiro.

 

Se encumbra, al par de ti, la inteligencia,

Y al corazón agita tu presencia,

Con temblor de ansias y bullir de anhelos,

 

Y en éxtasis el alma, a lo infinito

Vuela de adoración su ardiente grito:

¡Gloria a Dios en la altura de los cielos!

O AVIÃO

Águia dourada que no zênite admiro,

Espanto do gênio criador, invento

Que em ti levas, como alma, o pensamento,

Que ao éter lançou com um rápido giro;

 

Luz da ciência que em suas asas miro,

Que te fazem navegar, senhor dos ventos,

E és abaixo do azulado firmamento,

Cruz em madrepérola em fundo de safira.

 

Se alça do seu lado a inteligência,

E ao coração agita sua presença,

Com ferver de anseios e tremor de ânsias,

 

E em êxtase a alma, ao infinito

Voa de adoração ardente grito:

Glória a Deus do céu nas alturas!

Ilustração: Eu sem Fronteiras.