Monday, September 19, 2016

Uma poesia de Marilina Rébora


 


 

La ley de la vida

 

Marilina Rébora

 

Quisiera estar de acuerdo con la ley de la vida

—Tal vez, la de la selva, al instinto fiada—,

Según la cual se vive de acuerdo a la comida:

La bestia menos fuerte ha de ser devorada.

 

Y quisiera también aceptar la partida

—Ya que sin consentirlo nos viene la llegada—,

Sufrir sin execrar al que odia u olvida,

Como al rico que abruma a quien no tiene nada.

 

Y tan profunda siento la triste disidencia

Que rechazo reacia tan duras condiciones:

Mas vivir no es posible opuesta a la existencia,

Las manos temblorosas apretando las sienes,

Pese al compás armónico de nuestros corazones

Y al amor que te tengo y que también me tienes.

 

A LEI DA VIDA

 

Quisera estar de acordo com a lei da vida

-Talvez, a da selva, ao instinto confiada-,

Segundo a qual se vive de acordo com a comida:

A fera menos forte há de ser devorada.

 

E quisera também aceitar a partida

-Já que sem consentirmos nos vem à chegada-,

Sofrer sem execrar ao que se odeia ou é esquecida,

Como o rico que esmaga a quem não tem nada.

 

E tão profunda sinto a triste dissidência

Que rechaço relutante tão duras condições:

Mas, viver não é possível se opondo à existência,

As mãos trêmulas apertando as faces,

Pesam ao compasso harmônico de nossos corações

E ao amor que te tenho e que também me tens.

 

Ilustração: http://3.bp.blogspot.com.

Sunday, September 18, 2016

MAIS UM POEMA DE CARLOS GARGALLO




NADA SIN TI
                                  ( para Ángela )
Carlos Gargallo

Llegas amor, cuando la vida nada  me ofrecía,
tu eres rosa, yo, espinas.

Que cada mañana amaneces  de rocío
húmeda tierra azulada
dando al tiempo sus minutos,
sus relojes encendidos,
y me ofreces todos los frutos dorados
de tu piel, la rojez de tus besos, millones de suspiros.

Nada había sin ti,
ni un sueño transformado en vida.

NADA SEM TI

Chegas amor, quando a vida nada me oferecia,
tu és rosa, eu, espinho.

Que a cada manhã amanheces orvalhada
úmida terra azulada
dando ao tempo seus minutos,
seus relógios acesos,
e me ofereces todos os frutos dourados
de tua pele, da vermelhidão de teus beijos, milhões de suspiros.

Nada havia sem ti,
nem um sonho transformado em vida.


Ilustração: tribunadoceara.uol.com.br

Mais um poema de T.S. Eliot


Fragmentos

T. S. Eliot

[...]

You say I am repeating
Something I have said before. I shall say it again.
Shall I say it again? In order to arrive there,
To arrive where you are, to get from where you are not,
You must go by a way wherein there is no ecstasy.
In order to arrive at what you do not know
You must go by a way which is the way of ignorance.
In order to possess what you do not possess
You must go by the way of dispossession.
In order to arrive at what you are not
You must go through the way in which you are not.
And what you do not know is the only thing you know
And what you own is what you do not own
And where you are is where you are not.

FRAGMENTOS

[…]

Você diz que eu estou me repetindo
Alguma coisa eu tenho dito. E irei dizer isto novamente.
Como poderia dizer outra vez? Na seqüência para chegar lá,
Para partir para onde você está, para obter o que você não tem,
Eu preciso ir por um caminho que não é o do êxtase.
Na seqüência para alcançar o que você não sabe
Eu preciso ir por um caminho que é o da ignorância.
Na seqüência para possuir o que não possuis
Eu preciso ir pelo caminho dos despossuídos.
Na seqüência para chegar até onde você não está
Eu preciso ir através do caminho em que você não está.
E o que você não sabe é a única coisa que você sabe
E o que você possui é o que você não possui
E onde você está é onde você não está.

Ilustração: fashionatto.literatortura.com

SENTIMENTOS INCONSCIENTES

Muitas vezes                                       Te amei com um ódio
sem tamanho
que tudo confundia.

Certas vezes te vi anjo
ou demônio
e subi aos céus
e desci ao inferno
violento ou terno.

Muitas vezes
te amei com um amor
tão sem limites
que tudo se embaralhava.

Certas vezes
dormi sem desejo ou cansaço
e gozei como um devasso
ou fui puro como um santo
imerso no pecado.

Muitas vezes
não tive a menor
noção do que fosse o amor
e, para mim, tudo era só sexo.

Certas vezes
tive a sensação
de que amar ou odiar
era só uma ilusão
que nem importava
ser pecador ou santo.

Tantas vezes
te amei
que o amor se tornou um hábito
e, um dia, dormi com uma amante
e acordei com uma irmã.

Ilustração: irresistivel.com.br




Ciranda da Embriagadinha

                                                            Eu sou uma embriagadinha
Muito linda e feiticeira
Ando tonta pelas ruas
Procurando quem me queira.

Eu sou uma embriagadinha
Vivo de cerva e cachaça
Ando solta pelas ruas
E abusei foi da manguaça.

Refrão dos pastores:

Beba menos, minha bebinha,
Caia fora deste bar
Cê não abuse da caninha
Que o negão vai te pegar!


Ilustração: asdigital.tv.br

Monday, September 12, 2016

Uma poesia de Luis Gonzaga Urbina

Metamorfosis                                
Luis Gonzaga Urbina

Era un cautivo beso enamorado
De una mano de nieve que tenía
La apariencia de un lirio desmayado
Y el palpitar de un ave en agonía.
Y sucedió que un día,
Aquella mano suave
De palidez de cirio,
De languidez de lirio,
De palpitar de ave,
Se acercó tanto a la prisión del beso,
Que ya no pudo más el pobre preso
Y se escapó; mas, con voluble giro,
Huyó la mano hasta el confín lejano,
Y el beso, que volaba tras la mano,
Rompiendo el aire, se volvió suspiro.

Metamorfose

Era um cativo beijo apaixonado
De uma mão de neve que tinha
A aparência de um lírio desmanchado
E o palpitar de um pássaro em agonia.
E aconteceu que um dia,
Aquela mão suave
De palidez de um círio,
Da languidez de um lírio,
Do palpitar de um pássaro,
Se aproximou tanto da prisão de um beijo,
Que já não podia mais, este pobre prisioneiro,
E escapou, mas, com um volúvel giro,
Fugiu da mão para os confins distantes,
E o beijo, que voava atrás da mão,
Quebrando o ar, se tornou suspiro.


Ilustração: nelsonrivas.wordpress.com

LOUCO DE PEDRA

Pensei que estivesse são 
Da loucura não identificada
Que havia em mim,
Mas, não, não é assim.
Estou mais louco
Quando penso que sou são
E digo não e digo sim
E tanto faz
Rir ou chorar
Pois, afinal, não sei me comportar.
Quero é aprontar.
Não mexe comigo não
Que ilumino a escuridão
Escureço a luz, o farol, a lamparina.
Corre menina, corre,
Que não sei o que é pior
Na minha loucura
Quem estiver por perto
Não tem como se livrar
De minha doce doideira
De amar, de amar tanto
E tão sem fim
Todo este amor
Que existe em mim
Até por brincadeira! 

Friday, September 09, 2016

Uma poesia de Alda Merini



Alda Merini                                                                              

Se tu vedi il mio uomo
carezzagli dolcemente la fronte
è lì che abita il suo grande pensiero.
Se tu vedi il mio uomo
affondagli un coltello nel cuore
e fagli uscire il grumo di sangue
della donna che l’ha ingannato.
Se tu incontri il mio uomo
bagnagli dolcemente le labbra,
ha sete da tanto tempo.
Ma se tu vedi il mio uomo
stenditi dolcemente vicino a lui
è un uomo che sa amare.


Se tu vires o meu homem
acaricia docemente a sua fronte
é ali onde vive o seu alto pensamento.
Se tu vires meu homem
enfia-lhe uma faca no coração
e deixa sair um coágulo de sangue
da mulher que o tenha enganado.
Se tu encontras o meu homem
molha-lhe docemente os lábios
que ele tem sede faz muito tempo.
Porém, se tu vires o meu homem
tendo-te docemente a seu lado
é um homem que sabe amar.

Ilustração: www.elhombre.com.br

Uma poesia de Isabel Bono


echo de menos ser inmortal

Isabel Bono

se acabó la prisa
quedan las hojas secas y el mantel puesto
la cama sin hacer y las horas insomnes

se acabaron las canciones
se acabó esa música que movía ciertas estrellas
quedan ciertos días de sol, atrincherados
como la fe dormida de un niño

se acabaron las ganas de correr hacia los charcos
no quedan pájaros ni frutos en las ramas
la huella de un pie desnudo
sobre las baldosas

todo se pierde
todo se gasta

todo se gasta

Ecos de não ser imortal

se acabou a pressa
ficam as folhas secas e a toalha posta
a cama por fazer e as horas insones

se acabaram as canções
se acabou a música que movia certas estrelas
ficam certos dias de sol, entrincheirados
como a fé de uma criança dormindo

acabou-se o desejo de correr pelas poças
não há pássaros nem frutas nos galhos
a trilha de um pé descalço
sobre as telhas

tudo se perde
tudo se gasta

tudo se gasta


Ilustração: papoclassea.blogspot.com

Thursday, September 08, 2016

Uma poesia de Eva Vaz

SECUELAS                             

Eva Vaz

El hambre por adelgazar
es más intensa
que el hambre por existir.

No soy más que un tubo de ensayo
y el hueco entre mis piernas
es un triunfo.

Sobreviví al osario de mi cuerpo
en un infierno de manzanas negras.

El vértigo de las formas
me cambió la vida.
E insiste.

Sigo comiendo
en los mismos platos pequeños
y con la misma cuchara,
aunque ahora no esté vacía.

El tiempo me devuelve
un rostro que no conozco
y me sorprendo en los espejos.

Todavía
“me toco los huesos
buscando la calma
de su vehemencia”.

Yo soy mi prisión.

CONSEQUÊNCIAS

A fome por emagrecer
é mais intensa
que a fome de existir.

Não sou mais que um tubo de ensaio
e o buraco entre minhas pernas
é um triunfo.

Sobrevivi ao ossuário de meu corpo
num inferno de maças negras.

A vertigem das formas
me modificou a vida
e insiste.

Sigo comendo
nos mesmos pratos pequenos
e com a mesma colher,
ainda que agora não esteja vazia.

O tempo me devolve
um rosto que não conheço
e me surpreendo com os espelhos.

Todavia
“me toco os ossos
buscando a calma
de sua veemência”.

Eu sou minha prisão. 

Utopia do pobrismo



“Utopia era como um sonho útil”
comentava Susan Sontag.
Hoje virou só uma boutade
que ainda se pode usar,
se algo faltar,
para fazer alguém sorrir.
A verdade é que a utopia,
ultimamente,
se tornou uma mercadoria tão rara
que somente se pode comprar
pelos olhos da cara.
E, apenas, para constatar
que se trata de uma armadilha.
A suprema utopia moderna,
olha que coisa mais terna,
é o Bolsa Família!


E PUR SI MUOVE

Nunca mais o mundo será o mesmo-
o revolucionário gritou-
confiante no novo mundo que se abria,
sob o delírio da massa,
que o aplaudia,
e o havia ajudado a derrubar as grades.
Palavras proféticas!
O mundo, uma paródia da televisão,
vive sempre da próxima atração
e das imagens, que são sempre circulares.
E o revolucionário, agora conservador,
se revela um longevo ditador
que, hoje, depois que a utopia se perdeu,
se mostra ainda pior
do que tudo que já combateu!



Wednesday, September 07, 2016

Outro poema de Bukowski

Finish             

Charles Bukowski

We are like roses that have never bothered to
bloom when we should have bloomed and
it is as if
the sun has become disgusted with
waiting

FIM

Nós somos como rosas que nunca se preocuparam
em desabrochar e quando deveríamos ter florescido
é como se
o sol estivesse desgostoso 
de tanto esperar

Ilustração: slideplayer.com.br


Monday, September 05, 2016

Uma poesia de Norma Martiri



Jacaranda

Norma Martiri

September blooms of purple hues,
adorn the city street.
And in bright splendour praises Spring,
where limbs and feathers meet.

Amid soft purple hues I lay,
to rest my weary head.
In fantasies drifting away,
Upon a sprinkled spread.

JACARANDÁ

Flores de Setembro em tons de púrpura,
adornam a rua da cidade.
E no esplendor luminoso reza a primavera,
onde os galhos e as penas se encontram.

Em meio aos macios tons carmesins eu deito,
para descansar minha cabeça cansada.
Em fantasias flutuando sempre,
Como se propagando por aspersão.


Ilustração: www.depasseiopor.com

Sunday, September 04, 2016

ILHA

É o avesso da saudade   
que tua lembrança 
me traz.


É, como se a água fosse,
tua figura
me margeando
por todos os meus lados,
contendo-me, cercando-me
e me limitando
a ser uma ilha de mim mesmo.

Eu,
com o meu olhar de desalento,
contemplo
o resto de azul no fim da tarde
e peço, ao sol que se vai
na tarde que cai
que a lua no céu
seja, como o seu luar de mel,
uma prova de que
amanhã
hei de me afundar em ti.

Mesmo
sendo ilha

meu destino é o mar-
água da minha vida-
Só desejo te amar.


De: "Águas Passadas", Editora Per Se, 2013. 


Ilustração: eduardoaretakis.blogspot.com

E de volta Pedro Salinas

Fe mía                                                                                    
Pedro Salinas

No me fío de la rosa
de papel,
tantas veces que la hice
yo con mis manos.
Ni me fío de la otra
rosa verdadera,
hija del sol y sazón,
la prometida del viento.
De ti que nunca te hice,
de ti que nunca te hicieron,
de ti me fío, redondo
seguro azar.

Minha fé

Não me fio na rosa
de papel,
tantas vezes que a fiz
eu, com minhas mãos.
Nem me fio na outra
rosa verdadeira,
filha do sol e do tempero,
a prometida do vento.
De ti que nunca te fiz,
de ti que nunca fizeram,
de ti me fio, redondo
seguro azar.  

Ilustração: maisde-ti.blogspot.com



Saturday, September 03, 2016

POEMA DO QUE TINHA DE SER


O fato é que de ti só quero
o que tens de diferente, de parecido e de melhor,
Mas, o pior, contigo, é muito bom também.
Nem quero saber das coisas que não quiser me dizer
Embora esteja doido para te dizer
Muito mais do que queres saber:
Palavras amorosas, dengos e mesmo desejos pervertidos,
Que trago comigo.

Ah! Me pego pensando no teu rosto
Como será quando estiveres alvoroçada
Por pegar teus seios,
Que receios terás
Se te lamber mais do que devo
Numa fantasia única
De que és o sorvete
Que sonhei quando criança.

A realidade é que, perto de ti,
Todo olhar meu é pornográfico
Como um gráfico
De uma realidade inevitável,
De um destino
Que não se pode fugir.

De: "Águas Passadas", Editora Per Se, 2013.


Ilustração: www.omb100.com