Thursday, January 10, 2019

Uma poesia de León Felipe


Como tú                        

León Felipe

Así es mi vida,
piedra,
como tú; como tú,
piedra pequeña;
como tú,
piedra ligera;
como tú,
canto que ruedas
por las calzadas
y por las veredas;
como tú,
guijarro humilde de las carreteras;
como tú,
que en días de tormenta
te hundes
en el cieno de la tierra
y luego
centellas
bajo los cascos
y bajo las ruedas;
como tú, que no has servido
para ser ni piedra
de una Lonja,
ni piedra de una Audiencia,
ni piedra de un Palacio,
ni piedra de una Iglesia;
como tú,
piedra aventurera;
como tú,
que, tal vez, estás hecha
sólo para una honda,
piedra pequeña
y
ligera ...


COMO TU

Assim é Minha Vida,
pedra
como tu; como tu,
pedra pequena;
como tu,
pedra ligeira;
como tu,
canto que roda
para as estradas
pelas calçadas;
como tu,
seixo humilde das estradas;
como tu,
que em dias tempestuosos
se funde
na lodo da terra
e logo
cintilas
sob os cascos
e sob as rodas;
como tu, você não serviu
para ser pedra
de um mercado de peixes,
nem pedra de uma audição,
nem pedra de um palácio,
nem pedra de uma igreja;
como tu,
pedra aventureira;
como tu,
que, talvez, seja feita
apenas para uma funda,
pequena pedra
e
ligeira ...

Ilustração: Perguntas e respostas sobre a Bíblia.

Fragmentos de uma poesia de Alaíde Foppa


Elogio de mi cuerpo                                      
(Fragmentos)
 Alaíde Foppa

12. La piel

Es tan frágil la trama
que la rasga una espina,
tan vulnerable
que la quema el sol,
tan susceptible
que la eriza el frío.
Pero también percibe
mi piel delgada
la dulce gama
de las caricias,
y mi cuerpo sin ella
sería una llaga desnuda.

13. Los huesos

Alabo
el tibio ropaje
la apariencia
el fugitivo semblante.
Y casi olvido
la obediente armazón
que me sostiene,
el maniquí ingenioso,
el ágil esqueleto
que me lleva.

14. El corazón

Dicen que es del tamaño
de mi puño cerrado.
Pequeño, entonces,
pero basta
para poner en marcha
todo esto.
Es un obrero
que trabaja bien,
aunque anhele el descanso,
y es un prisionero
que espera vagamente
escaparse.

ELOGIO DO MEU CORPO


12. A pele

É tão frágil a trama
que um espinho a rasga,
tão vulnerável,
que a queima o sol,
tão suscetível
que a eriça o frio.  
Porém, também percebe,
minha pele fina,
a doce gama
das carícias
e meu corpo sem ela
seria chaga nua.

13. Os ossos

Louvo
A frágil roupagem
a aparência
o fugitivo semblante.
E quase esqueço
a obediente armação
que me sustenta,
o manequim engenhoso,
o ágil esqueleto
que me leva.

14. O coração

Dizem que é do tamanho
do meu punho fechado.
Pequeno, então,
Porém, basta
para por em marcha
tudo isto.
É um operário
que trabalha bem,
ainda que anseie o descanso,
e é um prisioneiro
que espera vagamente
escapar.

Ilustração: A mente é maravilhosa.

Wednesday, January 09, 2019

Um poema de Alessio Brandolini


 Alessio Brandolini                                                                            

Limitarsi a poco, sussurri
e io subito penso: virgole
sì, magari ogni tanto
qualque bel punto.
Scavare
un fossato di scolo
un pozzo
per l’acqua piovana
mettere il palo dritto
per sostenere
il giovane albicocco
e il tempo che passa
enumerarlo
scandirlo
senza rifargli il trucco.
Nelle tue mani
c’è un sole
non troppo luminoso
ma chiaro e necessario
che calmo s’addormenta
nella sua luce opaca.
No aggiungi altro
già metti in moto
corri a dare alle viti
l’acqua ramata.


Limitar-se a pouco, sussurros
e eu súbito penso: vírgulas
sim, quem sabe, de vez em quando
um belo ponto.
Escavar
em um fosso
um poço
para a água da chuva
meter a estaca em pé
para amparar
o novo damasqueiro
e o tempo que passa
enumerá-lo
escandi-lo
sem repetir a trama.
Nas tuas mãos
há um sol
não tão luminoso,
mas, claro e necessário
que calmo adormece
na sua luz opaca.
Não ajunte outro
te põe em movimento
e corre a dar às vinhas
a água que exigem.

E García Lorca retorna


El poeta pide a su amor que escriba  

García Lorca

Amor de mis entrañas, viva muerte,
en vano espero tu palabra escrita
y pienso, con la flor que se marchita,
que si vivo sin mí quiero perderte.

El aire es inmortal. La piedra inerte
Ni conoce la sombra ni la evita.
Corazón interior no necesita
la miel helada que la luna vierte.

Pero yo te sufrí. Rasgué mis venas,
tigre y paloma, sobre tu cintura
en duelo de mordiscos y azucenas.

Llena, pues, de palabras mi locura
o déjame vivir en mi serena
noche del alma para siempre oscura.

O poeta pede ao seu amor que escreva

Amor das minhas entranhas, viva morte
em vão eu espero por tua palavra escrita
e penso,  como a flor que murcha,
que se viver sem mim quero perder-te

O ar é imortal. A pedra inerte
Nem conhece a sombra nem a evita.
Coração interior não necessita
o mel gelado que a lua verte.

Mas, eu te sofri. Eu rasguei minhas veias
tigre e pombo, sobre tua cintura
em duelo de lírios e mordidas.

Enche, pois, de palavras minha loucura
ou deixa-me viver em minha serena
noite da alma para sempre escura.

Ilustração: Aqui te escrevo.

Uma poesia de José Miguel Gómez Acosta



VIAJE AL CENTRO DE LA TIERRA

José Miguel Gómez Acosta

En el fondo del hombre más apacible duermen los asesinos ojo alerta.
En el fondo reposa una tumba de hierba nunca hollada, occidente crepúsculo derrota.
Cartógrafos del humo que brota de la tierra, tus ojos dibujantes maestros de la palabra.
En el fondo del hombre, en sus costas lejanas, duermevela intranquilo el estratega
un plan para albergar los escondidos.
En el fondo del hombre una entrada señala el inicio descenso caída vuelo al centro
de la tierra.

VIAGEM AO CENTRO DA TERRA

No fundo do homem mais pacífico dormem os assassinos de olhos alerta.
No fundo repousa uma tumba de erva nunca pisada, ocidente crepúsculo derrota.
Cartografos da fumaça que brota da terra, teus olhos desenhadores maestros da palavra.
No fundo do homem, em suas costas distantes, semiadormecido intranquilo o estrategista faz um plano para hospedar os escondidos.
No fundo do homem uma entrada assinala o início da descida queda voo ao centro
da terra.

Ilustração: History.

Tuesday, January 08, 2019

Uma poesia de Conor O' Callaghan


 
January Drought

Conor O'Callaghan

It needn’t be tinder, this juncture of the year,  
a cigarette second guessed from car to brush.  

The woods’ parchment is given  
to cracking asunder the first puff of wind.  
Yesterday a big sycamore came across First  
and Hawthorne and is there yet.  

The papers say it has to happen,  
if just as dribs and drabs on the asbestos siding.  
But tonight is buckets of stars as hard and dry as dimes.  

A month’s supper things stacks in the sink.  
Tea brews from water stoppered in the bath  
and any thirst carried forward is quenched thinking you,  
piece by piece, an Xmas gift hidden  
and found weeks after: the ribbon, the box.  

I have reservoirs of want enough  
to freeze many nights over.


Seca de janeiro

Não preciso do Tinder, nesta conjuntura do ano,
um segundo cigarro saboreado para escovar o carro.

Ao pergaminho das madeiras é dado
quebrar o primeiro sopro de vento.
Ontem, um grande sicômoro encontrou o primeiro
e Hawthorne e ainda está lá.

Os jornais dizem que tem que acontecer
justos como pequenos furos no tapume do amianto.
Mas, esta noite são baldes de estrelas tão duras e secas quanto moedas.

Um mês, as coisas do jantar se acumulam na pia.
os aparelhos de chá imersos na água, no banho
e qualquer sede levada adiante é saciada pensando em você,
peça por peça, um presente de Natal escondido
que encontrei semanas depois: a fita, a caixa.

Eu tenho reservatórios de querer o suficiente
para esfriar muitas noites.

Ilustração: Urban Arts.

Uma poesia de Kim Addonizio sobre o ano novo


New Year’s Day                                                                 

Kim Addonizio

The rain this morning falls  
on the last of the snow

and will wash it away. I can smell  
the grass again, and the torn leaves

being eased down into the mud.  
The few loves I’ve been allowed

to keep are still sleeping
on the West Coast. Here in Virginia

I walk across the fields with only  
a few young cows for company.

Big-boned and shy,
they are like girls I remember

from junior high, who never  
spoke, who kept their heads

lowered and their arms crossed against  
their new breasts. Those girls

are nearly forty now. Like me,  
they must sometimes stand

at a window late at night, looking out  
on a silent backyard, at one

rusting lawn chair and the sheer walls  
of other people’s houses.

They must lie down some afternoons  
and cry hard for whoever used

to make them happiest,  
and wonder how their lives

have carried them
this far without ever once

explaining anything. I don’t know  
why I’m walking out here

with my coat darkening
and my boots sinking in, coming up

with a mild sucking sound  
I like to hear. I don’t care

where those girls are now.  
Whatever they’ve made of it

they can have. Today I want  
to resolve nothing.

I only want to walk
a little longer in the cold

blessing of the rain,  
and lift my face to it.

DIA DE ANO NOVO

A chuva esta manhã cai
depois da última da neve

e irá lavá-la. Eu posso sentir o cheiro
da grama de novo, e as folhas rasgadas

sendo pisadas na lama.
Os poucos amores que tive

devem ainda estarem dormindo
na costa oeste. Aqui na Virgínia

ando através dos campos com apenas
algumas vacas novas por companhia.

De ossos grandes e tímidos
elas são como garotas que eu lembro

do colegial, que nunca
falei, que mantinham suas cabeças

abaixadas e seus braços cruzados contra
seus novos seios. Aquelas garotas

terão quase quarenta agora. Como eu,
elas devem às vezes ficar

numa janela tarde da noite, olhando para fora
num quintal silencioso, numa

cadeira de gramado enferrujada vendo as paredes
das casas de outras pessoas.

Elas devem deitar algumas tardes
e chorar muito por quem ousou

tentar torná-las mais felizes,
e me pergunto como suas vidas

as levaram
tão longe sem nunca uma vez

explicar qualquer coisa. Eu não sei
porque eu estou saindo daqui

com meu casaco escurecendo
e minhas botas afundando, chegando

com um som suave de sucção
Eu gosto de ouvir. Eu não me importo

onde essas garotas estão agora.
O que quer que tenham feito

fizeram  o que podiam. Hoje não quero
resolver nadinha.

Eu só quero andar
um pouco mais no frio

abençoar a chuva,
e levantar meu rosto para isto.