Sunday, January 23, 2022

Um poema de Mina Loy

 


SONGS TO JOANNNES, VII

Mina Loy

My pair of feet

Smack the flag-stones

That are something left over from your walking

The wind stuffs the scum of the white street

Into my lungs and my nostrils

Exhilarated birds

Prolonging flight into the night

Never reaching.

CANÇÕES PARA JOANNES, VII

Batem meus pés

Nas pedras da bandeira

Isto foi alguma coisa que restou da sua caminhada

O vento estufa a escória da rua branca

Em meus pulmões e minhas narinas

Pássaros exuberantes

Prolongando o voo dentro da noite

Nunca alcançando.

Ilustração: Wordpress.

Saturday, January 22, 2022

XV

 


É esta dor que me dói

como se não fosse passar nunca.

É este não ter volta,

nem ter como fazer qualquer mágica

que possa avançar ou retroceder no tempo.

É esta lacuna impreenchível,

este vazio que enche todos os dias

e a saudade infinita

que me faz fingir que tenho paz.

É o inevitável, o incompreensível

que me habita

desde que soube, minha linda,

que sua vida estava finda.

Uma poesia de Raúl González Tuñón

 


UN JUGUETE ROTO EN EL BASURAL

Raúl González Tuñón

Un poema está en el sueño. También fuera del sueño.
A veces está allí donde el poeta mira.
Y nada más poético que ese juguete roto
—extraña flor brotada a la intemperie—
que junto a los residuos de los inquilinatos
grises y fraternales
y la hierba menuda del baldío
recatado en el bosque de cemento
piensa cuando jugaba con él un dulce niño
que después fue soldado.

Nunca vuelven.

Y un poema está allí, donde no está el poeta.

UM BRINQUEDO QUEBRADO NO LIXO

Um poema está no sonho. Também fora do sonho.

Às vezes está ali de onde o poeta olha.

E nada mais poético que esse brinquedo quebrado

-estranha flor brotada ao ar livre—

que junto aos resíduos dos inquilinos

cinzas e fraternais

e da grama pequena do deserto

recatado na floresta de cimento

pensa quando brincava com uma doce criança

que depois foi soldado.

Nunca voltam.

 

E um poema está ali, onde não está o poeta.

Ilustração: Papoinverso.

Uma poesia de Karen Head

Venus de Milo: On Being Rediscovered

Karen Head

like that moment,

hairIt’s mussed,

teeth coated

in the stale air

of the morning after

when rushing

for a taxi,

pantyhose

and shoes

in hand,

you encounter

anyone who

thinks they

know you.

VÊNUS DE MILO: SOBRE SER REDESCOBERTO                                                   

É como aquele momento,

cabelo bagunçado,

dentes cobertos

no ar rançoso

da manhã depois

de correr

para um táxi,

colante

e sapatos

na mão,

você encontra

alguém que

pensa que eles

sabem quem é você.

Ilustração: Elo7. 

Wednesday, January 19, 2022

Outra poesia de Mauricio Bacarisse

 

LECTURA

Mauricio Bacarisse


Corazón mío, no te exaltes.
Fija los ojos en el libro;
Mira las gráciles letras, en la celulosa,
Como las momias en los siglos.

Olvida el canto y la medalla.
Aún le han de crecer al libro muchas yemas cuando
Estés perdido en el reposo.


Todo será para la cifra.
Han de cifrarse tus latidos,
Y han de ser piedras, como las que descansan
En las meditaciones de los ríos.

LEITURA

Coração meu, não te exaltes.

Fixa os olhos no livro;

Olha as graciosas letras, na celulose

Como as múmias nos séculos.

 

Esquece o canto e a medalha

(O riso com aroma de mel de outono.)

Ainda dão de crescer ao livro muitas gemas quando

Estiveres perdido no repouso

 

Tudo será para a cifra.

Hão de cifrar-se teus batimentos.

E hão de ser pedras, como as que descansam

Nas meditações dos rios.

Ilustração: Ilustração: Estante Virtual.


Monday, January 17, 2022

XXXII


 

Há este desejo de estar em teus braços

quando só existe mesmo

o céu azul, o mar aberto e a distância

que criei sem pensar.

Hoje, só desejaria te amar

calmamente

como quem se esquece

que os relógios tem hora

e só pensa

docemente

em te vestir de beijos

como se fosse uma

Nossa Senhora de amor inalcançado.

Ilustração: G1. 




 

Mais uma poesia de Blas de Otero

 

En el principio

Blas de Otero Muñoz

Si he perdido la vida, el tiempo, todo

Lo que tiré, como un anillo, al agua,

Si he perdido la voz en la maleza,

Me queda la palabra.

 

Si he sufrido la sed, el hambre, todo

Lo que era mío y resultó ser nada,

Si he segado las sombras en silencio,

Me queda la palabra.

 

Si abrí los labios para ver el rostro

Puro y terrible de mi patria,

Si abrí los labios hasta desgarrármelos,

Me queda la palabra.

No princípio

Se perdi a vida, o tempo, tudo

O que eu joguei, como um anel, na água,

Se perdi minha voz na ribanceira,

Me ficou a palavra.

 

Se sofri a sede, a fome, tudo

O que era meu e que acabou sendo nada,

Se fui ceifado nas sombras em silêncio,

Me ficou a palavra.

 

Se abri meus lábios para ver o rosto

Puro e terrível da minha pátria,

Se abri meus lábios até desvirtuá-los,

Me ficou a palavra.

Ilustração: Follow-up. com.br.

Saturday, January 15, 2022

Socorro na praia

 


Socorro salva-vidas,

socorro!

Salve aquela mulher linda,

que está se afogando,

antes que, meus sonhos,

também estejam se acabando.

Estarei aqui esperando

para salvá-la,

com a respiração boca a boca,

de tal forma que,

quando voltar a si,

verá que a salvei

e nunca a deixarei.

Seja rápido,

salva-vidas, seja.

Você pode ganhar,

depois do expediente,

umas cervejas,

elogios por a ter salvado

e ainda ser

um especial convidado

no meu casamento.

E, convenhamos,

no momento,

apenas esta cumprindo

sua obrigação.

Seja veloz, meu irmão!

Uma poesia de José Luis García Martin

 


DESPEDIDA

 José Luis García Martín

No me has querido y huyes por tus años
hacia un país en donde yo no existo,
pero cuánto me dejas al dejarme…
Otros verán tu vida deshacerse;
yo conservaré intacta la memoria
de una frágil belleza adolescente.
Pronto no has de ser tú, aunque no mueras;
aunque no vivas, vivirás en mí.
Siempre joven serás en mi recuerdo:
fíjate cuánto gano si te pierdo.

DESPEDIDA

Não me amastes e fugistes por teus anos

para um país onde eu não existo,

porém quanto me deixas ao deixar-me...

Outros verão tua vida desfazer-se;

eu conservarei a memória intacta

de uma frágil beleza adolescente.

Breve não serás tu, ainda que não morras;

ainda que não vivas, viverás em mim.

Sempre jovem serás em minha memória:

Veja quanto ganho se te perder.

        

Friday, January 14, 2022

SIGNIFICADO DAS AUSÊNCIAS



Algumas vezes 

estar perto é estar distante

e a tese inversa é também verdadeira

- ainda que os deuses riam de todas as teses. 


Se o amor é síntese 

- pelo menos, o poeta Mário Quintana

 pensava assim, 

então, é melhor, vez por outra, 

somar e multiplicar os momentos 

desaparecer só para ver se faz falta. 


Ah! Sei a distância maltrata. 

Devo dizer que, muitas vezes, 

a presença também.

 Sou o que sou:

 um ser todo errado

 e você não.


Apenas sei que o amor,

 o amor, o amor não é complicado, 

mas, as pessoas são. 

Algumas vezes 

se afastar 

é a única forma 

de conservar a flor da ilusão. 


Se o amor for mesmo amor

perdura, ou não?

Ilustração: Mensagens de Amor. 

(De "Poemas Malcomportados", Editora Litteris, 2021). 

Thursday, January 13, 2022

XXI



Se as formigas pensam –

e sou dos que advogam que pensar

não é um privilégio da espécie humana –

devem também sonhar.

E sonho bom de formiga

deve ser com açúcar.

É o que concluo

quando as vejo malucas

em volta de um pote de mel.

Para elas, com certeza,

deve ser feito de doce o céu!

De "Cem Poemas em Cem Dias", Editora Viseu, 2021). 


 

Sunday, January 09, 2022

CIBERSEX

 


Ah! Meu amor,

real ou virtual,

nunca houve amor assim.

Ainda te sinto, sim,

pulsando

antes de tudo se transformar

na explosão sideral

do nosso gozo comum,

que foi um orgasmo de explosões estelares,

criatório de supernovas, um buraco negro

de estrelas,

o caos que deixou nossas roupas

e óculos flamejantes.

Ainda sinto no olfato

o perfume do teu corpo,

a quentura de tuas mãos

foi um fato,

e ainda me doem os ovos

do aperto de tuas mãos

no instante máximo de paixão

em que, do tempo, perdemos a noção.

Não há mesmo

fronteiras,

entre nós dois,

embora exista distância e espaço,

nem mesmo sei

o que virá depois,

mas, o prazer que tivemos

foi demais,

o máximo!

Só penso, agora,

em maratonar assim

como se a vida não tivesse fim

e só no metaverso 

tivesse começo!

Ilustração: Mulheres Bem Resolvidas. 

Uma poesia de Truong Tran

 


FROM “BEGIN AGAIN”

Truong Tran

it used  to  be  that  i  would  write  to  enact  a desire  for  isolation.   it  was  a  way  to  say.  want  to  be  left  alone.  to  my  thoughts.  with my words.  i  want you to leave me alone.  cant you see  that im trying.  im trying  to write.  im thirsty. im  writing  these  words to quench my thirst.  i  write alone in the hopes  that i  would write  myself into exhaustion.  into sleep.  i did just that. and that  was  when  you came to me. carrying   water   in   your  mouth.  you  leaned into.   you  passed  it   along   from   mouth   to mouth.  our  lips  did not touch. this was not  a kiss.   a kiss would not  have led me  here.  you woke  me  from  sleep by  quenching my  thirst. this  lasted  but  a  minute.  i  am  thirsty  again.  today  im  writing.  its  usually to someone.  Im writing  something.  i  want  to hear it read  out loud.   i  want to see it on a page,   in a book.   i want to see you inside  these words.  where are you. i am thirsty. how are you

DO COMEÇO DE NOVO

eu costumava escrever para representar um desejo de isolamento. era uma maneira de dizer. queria ser deixado sozinho. com os meus pensamentos. com minhas palavras. eu quero que você me deixasse sozinho. não poderia você ver que estou experimentando. estou experimentando escrever. estou com sede. estou escrevendo essas palavras para matar minha sede. eu escrevo sozinho na esperança de escrever até a minha exaustão. para dormir. eu fiz justamente isto. e foi então que você veio para mim. carregando água na sua boca. você se inclinou então. você passou água de boca em boca. nossos lábios não se tocaram. isto não foi um beijo. um beijo não teria me trazido aqui. você me tirou do sono matando minha sede. isto durou apenas um minuto. estou com sede novamente. hoje estou escrevendo. usualmente é para alguém. Estou escrevendo alguma. eu preciso ouvir em voz alta. preciso vê-lo em uma página, em um livro. eu quero ver você dentro destas palavras. Onde você está. Estou morrendo de sede. Como você está

Friday, January 07, 2022

Uma poesia de Emilio Adolfo Westphalen

  


Cuál es la risa leve cubierta de espuma

Emilio Adolfo Westphalen

Cuál es la risa leve cubierta de espuma

Que anuncia el amor

Cuál la túnica desvanecida que oculta

Los lentos puñales ciegos del amor

Cual el momento en el cual aparece indudable

Benévolo golpe de sangre sobre la arboleda

Y los trozos de un cuerpo en estado de putrefacción

Aún se hacen visibles sobre la muralla de mármol.

 

QUAL É O RISO LEVE COBERTO DE ESPUMA  

Qual é o riso leve coberto de espuma

Que anuncia o amor

Qual é a túnica desbotada que oculta

Os lentos punhais cegos do amor

Qual é o momento no qual aparece indubitável

Benévolo golpe de sangue sobre a floresta

E os pedaços de um corpo em estado de putrefação

Ainda se fazem visíveis na parede de mármore.

Ilustração: https://orderfromnoise.wordpress.com/.

Thursday, January 06, 2022

Uma poesia de Armando Romero

 


VAGABUNDO

Armando Romero

Con la cabeza a pájaros
Ruedo por el mundo
Y así consigo el doble cielo
De la hoja y su contorno
No detengo mi camino
Cuando en el mar
Se perfilan los obenques
De contrario sigo
Y mis pies se llevan huellas
De la arena
Es el viento entonces
Tan metido en la piel
Y en los cabellos
Es el jugo de las frutas
Al abrirse eterno
El paraíso de su carne
Con la cabeza a pájaros
Ruedo por el mundo

VAGABUNDO

Com uma cabeça de pássaros

rodo pelo mundo

e assim consigo o dobro do céu

da folha e seu contorno

Não me detenho no caminho

quando no mar

as mortalhas se perfilam

ao contrário sigo

e meus pés vão pelas trilhas

de areia

É o vento, então,

então tão metido na pele

e nos cabelos

É o suco das frutas

ao abrir-se eterno

o paraíso de sua carne

Com cabeça de pássaros

rodo pelo mundo.

Ilustração: https://rick.jusbrasil.com.br/.


Wednesday, January 05, 2022

IV

 


É bem possível

que, hoje, sem tema

não consiga fazer um poema.

Não há de se perder

muita coisa, com certeza.

Mas mesmo sem inspiração nenhuma,

pensei na tua beleza,

no brilho intenso e doce de teus olhos,

e vi que, para superar os obstáculos,

preciso apenas aqui dizer –

o que é um prazer

dos dias meus –

que não há nada mais belo

que os olhos teus

e o poema está feito, e findo,

e para os olhos mais lindos.

Ilustração: https://incrivel.club/. 

Tuesday, January 04, 2022

DO MODO CORRETO DE SER CRUEL


Sim, meu bem, 

Fui, sou e serei cruel contigo

 Como os mais insensíveis verdugos. 

Esparramarei chocolate no teu ventre, no umbigo, 

Os teus seios cobrirei de doce

 E os teus pés, de vatapá, 

Para toda te lambuzar 

E toda, toda, te chupar 

Com a volúpia de um dragão. 

E me perderei em ti, 

Como um barco no alto-mar, 

Com a insensibilidade de quem 

A felicidade vai encontrar 

Em ser o mais cruel que se pode ser. 

E, depois de tudo, sem culpas ou pecados,

Me vangloriarei da maldade 

De ter te amado 

Do modo mais suave, terno e cruel.

E, como amante malvado, 

Ter experimentado na terra 

As delícias do céu!

Ilustração: Mensagens com Amor.

(De "Poemas Malcomportados", Editora Litteris, 2021). 

XXV

 

Papai do Céu,

hoje, estou me sentindo

uma criatura muito pura.

Não matei nenhuma mosca

e salvei uma formiguinha.

E, juro, tomei sopa de legumes

para salvar uma galinha.

Ilustração: Facebook.


 

Monday, January 03, 2022

Oração à rainha do mar


Neste dois de janeiro de ano novo,

na Barra de Tabatinga,  

venho, nas águas, saudar 

a rainha do mar, Iemanjá!

Trouxe azeite, sal, cebolas, 

milho branco, dos carneiros, as coxas

flores, para que, com sua aura e beleza, 

me livre das impurezas, 

e com seus fartos seios 

me garanta os meios 

para ter do mar, as riquezas, 

e a paciência de ir e voltar, 

quando necessário, 

mas, que sua falange nos proteja.

Odóia-

não paro de gritar

para que venha me ajudar!

Ó soberana mãe das águas

tenho fé que estarás comigo.

Omio omiodo ya!

Ilustração: Rafael Bernardes.