Saturday, October 15, 2022

Uma poesia de Tobi Kassim

  


A BLIND SPOT, AWASH

Tobi Kassim

And if I give up on consequences

is that despair 

or passion? I can’t protect 

myself from either. The lantern swinging 

bearing down, pressing the dark 

to a sliver 

of shade at the edges of my field 

of vision. My body alight in 

the seat of this question and indecisive-

if to be moved through,

                         de-throated, 

the groove in the thoroughfare.

 

I felt reduced waking up

 

crumpled by the water, an amniotic curve

along the shore. My only shape

was having been carried,

left at rest. And everything

I thought I could lose—

when I followed the rushes back, resurfaced.

 

Wings tucked just so or grasses threaded

gently from ear to ear, rewiring their small

skulls. I understood the first mercy 

             of diving is blindness, those parachutes blooming

                        the drag that yanked me back

to my body, almost touching my lungs.

 

UM PONTO CEGO, INUNDADO

E se eu desistir das consequências

é aquele desespero

ou paixão? Eu não posso proteger

a mim mesmo de outros. A lanterna balançando

derrubando, pressionando o escuro

por uma lasca

de sombra nas bordas do meu campo

de visão. Meu corpo aceso com

a sede desta questão e indeciso-

se mover além,

                          degolado,

o sulco na via.

 

me sinto reduzido ao acordar

 

amassado pela água, uma curva amniótica

ao longo da costa. Minha única forma

estava sendo levada,

deixada em repouso. E tudo

Eu pensei que poderia perder-

quando eu segui os juncos de volta, ressurgiu.

 

Asas dobradas assim ou gramas enfiadas

suavemente de orelha a orelha, religando seus pequenos

crânios. Eu entendi a primeira misericórdia

              do mergulho é a cegueira, aqueles pára-quedas florescendo

                         o arrasto que me puxou de volta

para o meu corpo, quase tocando meus pulmões.

Ilustração: Dreamstime.

Wednesday, October 12, 2022

Canção do Amor Demais


Vem,

que te quero tanto que me dói.

O coração, o corpo, a alma dói.

Vem,

que meu sangue se esvai sem furo algum

com tanta saudade como não deve ter amor nenhum.

Vem, 

que este amor,

que é tão grande em mim,

doendo tanto assim, 

quer apenas, com tua flor, 

aprender o prazer de ser 

e florescer com  tanto amor 

para fazer, da cama, um jardim. 

Ilustração: O segredo. 

 

POR TRÁS DAS LUZES



Hoje tudo a todo instante

se deseja mostrar on-line.

Se o presidente coça o saco, 

se a primeira dama rasga a saia, 

se o primeiro ministro cospe, 

o velório do anônimo do momento,

da rainha no esquecimento,

se alguém que joga bem

larga o taco

e descobre que bom 

é mudar de buraco

ou se a CIA paga à AT&T

milhões para vigiar dados eletrônicos,

que criam a sensação de que seja capaz

de controlar espiões e grupos guerrilheiros

pagos para espiar também.

De fato sempre é preciso 

mostrar serviço

para justificar que existam agências, 

que nunca nos salvarão do perigo.

Mas a mídia, os políticos e os mafiosos, 

exigem o medo e os segredos

para que, de alguma forma,

se mantenha o povo crente 

de que está seguro, 

apesar das brumas do mundo escuro, 

da dark deep,

de que já andam entre nós 

os andróides 

e esta sensação angustiante

de que vem, em direção a nós,

um asteróide, 

porém, que as manchetes 

garantem que foi destruído,

mesmo ouvindo 

da explosão 

o imenso ruído!

Ilustração: Cinéfilos para Sempre. 

Monday, October 10, 2022

Versinhos sobre a beleza das tuas pernas

Até as moscas gostam das tuas pernas

e os carapanãs picar as adoram 

com a sofreguidão 

dos que amam as coisas gostosas.  

Elogio que são belas

e você me manda dormir

como se bêbado estivesse!

Mas, antes, sem poder usufruir

também delas,

sinto-me como um Van Gogh 

diante das telas

e faço esses versinhos bobos, 

que por aí irão circular, 

sobre tuas pernas

na esperança de que, pelo menos, 

nas palavras 

sejam eternas,

porque sou incapaz de pintar!

Uma poesia de Marwa Helal

 


the poem is a dream telling you its time

Marwa Helal

 

is a field 

             as long as the butterflies say 

                                                                       it is a field 

 
with their flight

 
                                         it takes a long time 

to see

                         like light or sound or language

                                                                                      to arrive

and keep 
                         arriving

 
 
                                       we have more

than six sense dialect

                                                                      and i

am still

              adjusting to time

 
                              the distance and its permanence

 
i have found my shortcuts

 
                             and landmarks

                                                          to place

 
where i first took form

                                                                                           in the field

 

O POEMA É COMO UM SONHO CONTANDO

é um campo

             sobre o qual as borboletas dizem

                                                                       é um campo

 com seus vôos

                                         tomam um longo tempo

para ver

                         como luz ou som ou linguagem

                                                                                 para  chegar

e guardar

                         a chegada

                                       nós temos mais

do que dialeto dos seis sentidos

                                                                      e eu

ainda estou

              ajustando-me ao tempo

                              à distância e sua permanência

eu encontrei meus atalhos

                             e marcos

                                                          dos locais

onde eu tomei forma pela primeira vez

                                                                                          no campo

Ilustração: Tavares, Lotes e Terrenos.

Uma poesia de Luis Carlos López

 


VERSOS A LA LUNA

Luis Carlos López

¡Oh, luna, que hoy te asomas al tejado

de la iglesia, en la calma tropical,

para que te salude un trasnochado

y te ladren los perros de arrabal!

 

¡Oh, luna! . . . ¡En tu silencio te has burlado

de todo! . . . En tu silencio sideral,

viste anoche robar en despoblado

. . . ¡y el ladrón era un Juez municipal!

 

Mas tú ofreces, viajera saturnina,

con qué elocuencia en los espacios mudos,

consuelo al que la vida laceró,

 

mientras te cantan, en cualquier cantina,

neurasténicos bardos melenudos

y piojosos, que juegan dominó. . .

 

VERSOS À LUA

Oh! Lua que hoje surges no telhado

da igreja, na calma tropical,

para que te saúde um tresnoitado

e te latem os cães de um bairro marginal.

 

Oh!Lua, em teu silêncio te hás burlado

de tudo!... Em teu silêncio sideral,

viste ontem na noite roubar um despovoado

.....e o ladrão era um juiz municipal!

 

Mas, tu ofereces, viajante saturnina,

com que eloquência nos espaços mudos,

consolo aos que a vida lacerou,

 

Enquanto cantam, em qualquer cantina,

neurastênicos bardos cabeludos

e piolhentos que jogam dominó...

Ilustração: Brasil-Escola-UOL.

Sunday, October 09, 2022

Outra poesia de Samantha Barendson

 


SOUVENIR 4

Samantha Barendson

 

Elle m’embrasse

elle monte dans la voiture

avec toutes ses valises

et ce grand type

 

Je crie

je rage

je pleure

je me débats

dans les bras

de ma grand-mère

qui me retient

 

La voiture

s’éloigne

sur la route

grise

 

Je me dis

que c’est foutu

que j’ai perdu

ma mère

 

LEMBRANÇA 4

 

Ela me beija

sobe no carro

com todas as suas malas

e este grandalhão

 

eu grito

enfureço

choro

me debato

nos braços

da minha avó

que me retém

 

O carro

vai embora

pela estrada

cinzenta

 

me digo

que me danei

que eu perdi

minha mãe

Ilustração: Leiturinha. 

VIAJANTE


Entre nós há céus e desertos,

que, com desejos, terão que ser vencidos.

Importante é navegar

por ruas desoladas,

importante é voar 

por mares desconhecidos, 

arriscando o olhar,.

que busca pelo novo. 

É a aventura, que nos leva 

aos caminhos

como uma recompensa 

que, logo, se desfaz.

Contemplo todo o caminho,

longo caminho, 

percorrido e por percorrer, 

e nada sei dizer,

exceto que minha virtude

consiste em prosseguir. 

Ilustração: Viagens Merecidas. 

 

MALVADA


Ah! Eu me sinto desprezado por teu amor,

apesar de ter te enviado tanta flor

e rezado para acabar com a minha dor.

Sinto frio com tão imenso calor

se, distante de mim, manda dizer

que só comigo pode ter prazer,

mas, foge como se eu fosse a luz,

alho  ou alguma espécie de cruz.

Me morda, minha vampira, 

ainda que, para me consumir,

vou morrer, feliz, a sorrir 

queimando na tua pira. 

Ilustração: Adoro cinema. 

Saturday, October 08, 2022

OSTENTAÇÃO DIGITAL

 


Guimarães Rosa disse que a vida é um risco. 

Olha que sua visão

foi de que o sertão era uma selva

e nem a Amazônia conhecia. 

Ave Maria!

Já achava a vida difícil,

quando o mundo era inocente,

imagine se vivesse recentemente

e pudesse ver num skype

que viver, hoje, 

é ter um perfil no Facebook, 

rabiscar três linha no Twitter, 

ter uma foto no Instagram

e tam-tam-tam,

até para comer 

é preciso fotografar o prato 

para todo mundo ver!

Ilustração: Imaginie. 

Friday, October 07, 2022

ALÉM DO DIGITAL

 


Você não leu os versos que te fiz

dizendo que o que importa é ser feliz. 

Não as jóias, o cabelo, o espelho 

                                           ou o pão-

até parece que escrevi em vão,

como quando falo para as paredes,

ainda que alimente a ilusão 

de que esqueça os celulares e as redes,

que a vida não se faz no Facebook,

nem de milhões de likes e acessos.

As mídias, meu amor, 

são o altar da solidão

e sem amor real não há sucesso! 

Ilustração: Meio & Mensagem. 


Uma poesia de Samantha Barendson

 


SOUVENIR 11

 Samantha Barendson

Je suis moins petite

et la maison est grande

je peux monter

et regarder les gens

de haut

 

Tapie

entre les marches

je regarde

ma mère

qui cuisine

qui est belle

qui est jeune

qui ne sait pas

 

que je la regarde

LEMBRANÇA 11 

Eu era um pouco menor

e a casa é grande

eu posso subir

e olhar as pessoas

lá do alto

 

Escondida 

entre os passos

eu espreito

minha mãe

que cozinha

e é bela

que é jovem

que não sabe

 

que olho para ela

 

E, mais uma vez, Fernando Linero

DILATO MI CANCIÓN

 Fernando Linero

 Con el sol que nutre los pliegues de tu risa

en la soledad de los Andes dilato mi canción.

Con los astros de la ira.

Con la edad que se posa en mis cabellos.

Porque la tierra no detiene sus espigas

en esta casa sostenida por pájaros

pulso el dolor de los huesos.

Con la misma materia de los días

que se disuelven con las nubes sobre las colinas.

Con el cuerpo adormecido

de aldeas sentadas al final de la tarde.

Y mi música es como una ciudad de casas blancas.

Como la polvareda que en diciembre

levantan los alisios sobre los cardonales

sobre los patios de la desesperanza.

Por encima de la muerte escribo

porque hay hombres que sufren el laberinto de las horas

tristeando en los asilos.

Porque sé de cálidas muchachas

que alimentan sus críos con la cosecha de sus senos.

Porque la tierra no detiene sus espigas

por encima de la muerte dilato mi canción

con la alta cometa del viento

y mi música es triste como una estación de trenes al mediodía.

 

DILATO MINHA CANÇÃO

 

Com o sol que nutre as dobras do seu riso

na solidão dos Andes, amplio minha canção.

Com as estrelas da raiva.

Com a idade que se instala no meu cabelo.

Porque a terra não tapa seus ouvidos

nesta casa sustentada por pássaros

Eu pulso a dor nos ossos.

Com as mesmas coisas do dia

que se dissolvem com as nuvens sobre as colinas.

Com o corpo dormente

de aldeias sentadas no final da tarde.

E minha música é como uma cidade de casas brancas.

Como a poeira que em dezembro

eles aumentam os ventos alísios sobre os cardonales

nos metros do desespero.

Acima da morte eu escrevo

porque há homens que sofrem o labirinto das horas

entristecer nos asilos.

Porque eu conheço garotas calorosas

que alimentam seus filhotes com a colheita de seus seios.

Porque a terra não tapa seus ouvidos

acima da morte, eu amplio minha música

com a pipa de vento forte

E minha música é triste como uma estação de trem ao meio-dia


Ilustração: Tem que ir.

Thursday, October 06, 2022

Até o fim

 


Subitamente

me encontro aqui:

um jovem velho

e cheio de sonhos

que, talvez, jamais

se cumpram. 


Porém, de tuas palavras,

de teu amor, de teus olhos

e de te haver conhecido,

mesmo sem ter merecido, 

jamais esquecerei!

Sem Remorso


Me aninhei em ti, sabendo que olhavas as estrelas

E, que, algum dia, partirias para muito longe.

Fui tão feliz que quando a hora veio

as lágrimas, se haviam, estavam secas

e somente muito depois senti saudade.  

Ilustração: Spotify. 

Tuesday, October 04, 2022

AMOR, AMAR, VIVER

 


Quem sabe o que é o amor? Quem o conhece
Que sem vergonha alguma abre as portas.
E pelas janelas imprevistas entra e não se esquece.
Quem sabe porque sempre por vias tortas?
O sonho que me despertas
Ao me fazer assim tanto te amar,
Ensina-me a sofrer e não gritar.

Vivo no ar como vivem os astronautas
Talvez na lua sem esperar o fim do dia

Ó vivo como uma maravilhosa flauta

Tocando a impossível melodia

Que o maestro diz que não ouvia,

Mas, a platéia de tanto gostar

Aplaude intensamente, sem parar.

 

Vivemos sim em distintos planos

Sem saber explicar muito bem

O fato de sermos seres humanos

Que, de repente, amar se querem,

Sem uma boa explicação também.

Sem razão, até mesmo sem pensar

Porque existe o impulso para amar.

 

É assim que todo amor imenso
Surge por qualquer coisa, por sentir
Que o amar, ainda se não penso;
É a razão profunda e real do existir.
Há mais amor do que se pensa por vir

Que os seres tem a propensão a amar

E sofrem quando tentam ignorar

Que o amor ninguém o desconhece

Já que desperta nas naturezas mortas

O fervor que nada tem de prece

E da paixão abre todas as comportas.

O amor é o sonho a que me exortas

Com um desejo que vive a gritar

Que viver é sinônimo de amar.

 

Não quero da vida nada mais

Que poder amar como ainda posso

Nem que seja somente uma vez mais.

Ter esses momentos todos nossos.

Depois se a morte nos levar

Levou apenas os restos, os destroços

Que o ápice glorioso foi amar.
Ilustração: Estante Virtual.

 

E, de volta, María Antonieta Flores

 


VIENTO

 

 María Antonieta Flores

 

será sin compasión

 

esto que golpea tu piel y desordena tu cabello

 

rejas antiguas
borrada en el paisaje
de sus antiguos olores

 

la falda que la mano detiene
mientras desfallece la sólida línea de tu deseo

 

descubres en un largo pasillo dos cuerpos
y un abrazo abaratado

 

descubres que tus labios se abren sin precaución
y que lejos de aquellos lugares
amas

 

bajo un cuerpo que hace hebras la ternura
y te susurra

 

allá quedó el lugar donde la esquina era el comienzo
de la maldición

 

la rutina torpe de los que apenas comprenden sus pasos

 

el viento no te despeina sino sus manos

 

y su boca que te besa
detiene tu desorden

 

VENTO

será sem compaixão

 

isto que golpeia tua pele e desordena teu cabelo

 

bares antigos

apagados na paisagem

de seus antigos odores

 

a saia que a mão detém

enquanto desfalece a linha sólida do teu desejo

 

descobres em um largo corredor dois corpos

e um abraço barato

 

descobres que teus lábios se abrem sem precaução

e tão longe daqueles lugares

amas

 

debaixo de um corpo que exala ternura

e te sussurra

 

ali ficou o lugar onde a esquina era o começo

da maldição

 

a torpe rotina desajeitada de quem mal compreende seus passos

 

o vento não te incomoda sim suas mãos

 

e sua boca que te beija

detém tua desordem  

Ilustração: Luso-Poemas.

Saturday, October 01, 2022

CANTO PARA MAMÃE


Mamãe, eu me lembro de você,

de avental, 

na cozinha fazendo feijoada,

o café matinal

ou enfeitando a árvore de Natal.

Mamãe, a vida tinha muito encanto

e nem sabia que te amava tanto

até sentir tua falta.

É por isto que, de saudades, canto

este amor sentido e incondicional,

que, apesar de doer

no velho animal, 

não adianta mais nada. 

Ilustração: Escola Games.