Sunday, November 27, 2011

Viver é doer


Eu te amo ainda quando não te vejo.
Eu te amo mais porque aqui não estais.

Eu te amo por esta solidão em que vivemos,
por sermos assim no espaço separados,
porque este longo tempo que perdemos
ainda assim nos faz parecer mais vida ter.
Te amo porque te perdi sem ter,
no inexistente tempo em que não te pude amar,
e não te tendo ainda assim não te perdi...

Eu te amo porque mesmo distante
penso em ti como se não estivesses longe
e sei que basta te chamar para todo amor voltar...

Eu te amo por ser este nosso amor,
um amor bandido, que nos rouba mais que dá,
porém, não saberia viver sem ti, sem ele,
por mais que este amor conjugue o verbo torturar
e tenha, nas carícias que não fazemos, tanta dor
que, muitas vezes, chamo sofrer de amor
e, ainda assim, só esta dor poderia desejar.

Ainda Francisco Pino


Y la vida

Y la vida, la vida es un instante
mas cual millones de mayos perdura,
cae pronto y se levanta
pronto. No es un olvido.

Quien ve amanecer ve lo bastante;
una luz, el rocío,
ese Dios que ahora calla
dentro. No es un olvido.

Un instante lo es todo si oscurece.
Quien ve oscurecer contempla como
la muerte de una rosa que no muere
nunca. No es un olvido,

es un rostro que ciego ve una flor.

De "Cuaderno salvaje" 1983

E a vida

E a vida, a vida é um instante,
mas, que milhões de maios permanece
cai logo e se levanta
em breve. Não é um esquecimento.

Quem vê o amanhecer vê o bastante;
uma luz, o orvalho,
este Deus que agora cala
dentro. Não é um esquecimento.

Um momento em que tudo se escurece.
Quem vê o escurecer o contempla como
a morte de uma rosa que não morre
nunca. Não é um esquecimento,

é um rosto que cego vê uma flor.

Ilustração: De Frida Kahlo "O sol e a vida"

Francisco Pino


Ausência

Francisco Pino

Solitario campo.
Me encuentro conmigo.
Soy mi descampado.

Solitario cielo.
Me encuentro conmigo.
Soy mi desanhelo.

Solitario alud.
Me encuentro conmigo.
Soy mi multitud.

De "Versos para distraerme" 1982

Ausência

Solitário campo.
Me encontro comigo.
Sou meu descampado.

Solitário céu.
Me encontro comigo.
Sou meu desencanto.

Solitária avalanche.
Me encontro comigo.
Sou minha multidão.

Ilustração: http://jorgebichuetti.blogspot.com/2011/09/poesia-para-alem-do-ego-uma-multidao-de.html

Gibrán Jalil Gibrán


Que o melhor de ti

Gibrán Jalil Gibrán

Que lo mejor de ti sea para tu amigo.
puesto que él conoce tu bajamar
deja que también conozca tu pleamar.
Y no lo busques para matar las horas
sino para vivir las horas.
Porque su papel es llenar tus necesidades
pero no tu vacío.
Y que en la dulzura de la amistad haya
risas y placeres compartidos.
Porque en el rocío de las pequeñeces
el corazón encuentra su mañana y se refresca".


Que o melhor de ti seja para teu amigo.
posto ele conhece tuas marés
deixa que também conheça a preamar.
E não o queiras para matar as horas,
mas, para viver as horas.
Porque seu papel é o de atender às tuas necessidades,
mas, não o teu vazio.
E que, na doçura da amizade, haja
risos e prazeres compartilhados.
Porque no orvalho das pequenas coisas
o coração encontra sua manhã e se refresca.

Saturday, November 19, 2011

Maya Angelou


A Conceit

Maya Angelou

Give me your hand

Make room for me
to lead and follow
you
beyond this rage of poetry.

Let others have
the privacy of
touching words
and love of loss
of love.

For me
Give me your hand.

Uma opinião

Me dê sua mão

Faça o quarto para me
liderar que vou seguir
você
além desta fúria da poesia.

Deixe que os outros tenham
a privacidade das
palavras sensíveis
e o amor à perda
do amor.

Me dê sua mão
para mim.

Ilustração: gothamist.com

Vício virtuoso


Teu corpo foi feito para os meus beijos
e tem o sabor de frutas, de doces, de iguarias.
Teu beijo é uma doce selvageria
que detona adrenalina no meu coração
e faz de cada momento de amor uma vitória.
E se tremo, estremeço, e me perco em emoção,
como se um sopro de Deus convulsionasse a terra,
é que o prazer despertado jamais em si mesmo se encerra.
És muito mais do que uma bandeja de frutas,
um banquete, uma orgia ou um carnaval.
És um manjar que meus lábios nem mereciam
posto, como um milagre, todo dia ao meu dispor
como um manancial inesgotável de amor,
um remédio milagroso,uma poderosa magia
que me enche de vida e de alegria.

Ilustração: http://amorbandidu.blogspot.com/2011/08/que-loucura.html

Tuesday, November 15, 2011

Antonio Martínez Sarrión mais uma vez


Riquezas

Antonio Martínez Sarrión

Unos sostienen sus huertos oreados,
sus panales, sus eras y sus viñas,
mas no conocen las fases del mosto.
Yo no te tengo más que a ti.
Otros tienen sus flotas y arsenales
y capean temporales en la Bolsa
durmiendo entre unos brazos mercenarios.
Yo no te tengo más que a ti.

Los demás tienen prisas y negocios
y tratan de llegar pronto a una cita
para que esta demencia continúe.
Yo no te tengo más que a ti.

"El centro inaccesible" 1975 – 1980

Riquezas

Uns sustentam suas hortas adubadas,
seus pentes, suas heras e as suas vinhas,
a maioria não conhece as etapas do vinho.
Eu não tenho mais do que a ti.
Outros têm suas frotas e arsenais
e investigam temporais na Bolsa
dormindo entre uns braços mercenários.
Eu não tenho mais do que a ti.

Os outros têm pressa e negócios
e tentam chegar rápido a um encontro
para que esta loucura continue.
Eu não tenho mais do que a ti.

Ilustração: http://sonhosdeareia.blogs.sapo.pt

Antonio Martínez Sarrión


Carpe Diem

Antonio Martínez Sarrión

Qué dispendioso pulular de nombres,
de ateridas esperas mientras la madrugada
difuminaba taxis en una sucia niebla.
Qué lástima de tiempo barajando
naipes ya de textura ala de mosca
cuando el sol meridiano, más de un punto granado,
no sabe de demoras, admite alistamientos
sin requisito alguno,
por ahogado de sombra que llegue el aspirante,
para entregar a cambio manos como paneles,
ríos de campanillas, zureos de palomas,
terco mundo presente,
que fulgura y se esfuma tan tranquilo,
negándose de plano -y con cuánto derecho-
al deshonesto oficio de pañuelo de lágrimas.

"Horizontes desde la rada" 1983

Carpe Diem

Que dispendioso pulular de nomes,
de temerosas esperas pelo amanhecer
turvando os táxis na névoa suja.
Que lástima de tempo embaralhando
naipes já de textura das asas de mosca
quando o sol ao meio-dia, além de um punhado de romãs,
não sabe de demoras, admite inscrições
sem requisito algum,
afogado na sombra que chega ao candidato,
para entregar em troca as mãos como painéis,
rios de sinos, arrulhar dos pombos,
o teimoso mundo presente,
que brilha e desaparece tão tranquilo,
negando-se de pronto- e com todo o direito-
ao desonesto ofício de lenço de lágrimas.

Ilustração: http://diocesedeuruacu.com.br

Sunday, November 13, 2011

Louquinhos de amor


Eu bem sei que o nosso amor é uma loucura.
Porém, ela me diz, num e-mail, que me ama.
E,se me acaricia, jura
Que, cada vez mais, é melhor.
E a verdade é que, com ela, me sinto tão bem
Que, se for ser louco, for ser assim
Melhor para ela,
Melhor para mim.
E, até onde sei,
O mal que faz é nos dar prazer,
Prazer demais!

Ilusttração: http://alcoolgel.wordpress.com

Luis Perez


De todos los dioses

Luis Perez


De todos los dioses
con los que me enfrento
en esclavo me convierto
cegado de sonrisas piadosas
sin piedade me pagan com desprecios

De favor les debo la vida
confundiendo castigo com caricias
tan lleno de dudas y desconcierto
como falto de luces a nada me atrevo
porque quien suplica nada promete

Lejos ando de beneficiarme
de mi miserias e ensueños
tratando de hallar
las claves de la vida eterna
descrído y sin fuerzas
ya no querré pagarme
ni un buen enterro.

De todos os deuses

De todos os deuses
com os quais lido
em escravo me converto
cego de sorrisos piedosos
sem piedade me pagam com desprezo

De favor lhes devo a vida
confundindo castigo com carícias
tão cheio de dúvidas e desconcertos
como falto de luzes a nada me atrevo
porque quem suplica nada promete

Longe ando de me beneficiar
de minhas misérias e sonhos
tratando de encontrar
as chaves da vida eterna
descrente e sem forças
já não querem me pagar
nem um bom enterro.

Ilustração: http://www.fotolog.com.br/seiyart/4305255

Jack Kerouac


149th Chorus

Jack Kerouac


I keep falling in love
with my mother,
I dont want to hurt her
-Of all people to hurt.

Every time I see her
she's grown older
But her uniform always
amazes me
For its Dutch simplicity
And the Doll she is,
The doll-like way
she stands
Bowlegged in my dreams,
Waiting to serve me.

And I am only an Apache
Smoking Hashi
In old Cabashy
By the Lamp.

Choro 149

Eu continuo apaixonado
pela minha mãe,
Eu não quero magoá-la
-Entre todos é a que menos desejo ferir.

Toda vez que eu a vejo
ela parece mais velha.
Mas, seu uniforme sempre
me espanta
por sua simplicidade holandesa
e a boneca que ela é,
a boneca-como forma
ideal-
pernas arqueadas em meus sonhos,
esperando para me servir.

E eu sou apenas um apache
fumando haxixe
numa velha cabana
sob a lâmpada.

Ilustração: http://prensada.blogspot.com

Charles Bukowski



A Smile To Remember

Charles Bukowski


we had goldfish and they circled around and around
in the bowl on the table near the heavy drapes
covering the picture window and
my mother, always smiling, wanting us all
to be happy, told me, 'be happy Henry!'
and she was right: it's better to be happy if you
can
but my father continued to beat her and me several times a week while
raging inside his 6-foot-two frame because he couldn't
understand what was attacking him from within.

my mother, poor fish,
wanting to be happy, beaten two or three times a
week, telling me to be happy: 'Henry, smile!
why don't you ever smile?'

and then she would smile, to show me how, and it was the
saddest smile I ever saw

one day the goldfish died, all five of them,
they floated on the water, on their sides, their
eyes still open,
and when my father got home he threw them to the cat
there on the kitchen floor and we watched as my mother
smiled

Um sorriso para relembrar

Nós tinhamos peixinhos dourados que circulavam ao redor e ao redor
da bacia em cima da mesa perto das cortinas pesadas
tapava as pinturas da janela e
minha mãe, sempre sorrindo, querendo que todos nós
fossemos felizes, me dizia: 'seja feliz Henry! "
e ela estava certa: é melhor ser feliz se você
pode,
mas, meu pai continuou a bater nela por várias vezes por semana, enquanto
corria dentro de seu quarto de seis metros e dois sem poder
entender o porque estava a atacá-la ali dentro.

minha mãe, pobre peixe,
querendo ser feliz, apanhando duas ou três vezes por
semana, me dizendo para ser feliz: "Henry, sorria!
por que você não nunca sorri? "

e, em seguida, ela sorria, para me mostrar como, e foi o
mais triste sorriso que eu já vi

um dia o peixinho dourado morreu, todos os cinco deles,
flutuavam sobre a água, em seus lados, seus
os olhos ainda abertos,
e quando meu pai chegou em casa atirou-os para o gato,
lá no chão da cozinha, e nós assisitmos como a minha mãe
sorriu.

Ilustração: olhares.aeiou.pt

Thursday, November 10, 2011

Rafael Duyos


SONETO

Rafael Duyos

Ese perfume de tu piel que inunda
los poros de la mía si te abrazo,
deja en mi sueño el venturoso trazo
del rosal que, a mi mano se fecunda....
Otra cosa no soy, si no profunda
semilla, polen sobre tu regazo,
estambre de clavel que aprieta el lazo
que te injerta a mi carne vagabunda...
Hueles, Amor, igual que los jardines
de mi Levante moro de azahares....
Hueles, Amor, a algas de mis mares
revolcada en la arena entre jazmines...
Y a nardo, a muerta, a estío en los pinares
¡y a la espuma que anuncia a los delfines!

Soneto

Este perfume de tua pele que inunda
os poros da minha se eu te abraço,
deixa no meu sonho o venturoso traço
da rosa que, na minha mão se fecunda
Outra coisa não sou, se não a profunda
semente, pólen em teu regaço,
estame de cravo que aperta o laço
que te injeta a minha carne vagabunda...
Cheiras, amor, igual aos jardins
de laranjeiras aos montes, de suas flores ....
Cheiras, amor, a algas de meus mares
revolta na areia entre os jasmins....
E a nardo, a murta, ao verão entres os pinheiros
E a espuma que anuncia os delfins!

Wednesday, November 09, 2011

José Carlos Becerra


Ritmo de viaje

José Carlos Becerra

Este cuerpo que yo acaricio lentamente extendiendo la noche,
este cuerpo donde yo he penetrado en mi propia distancia,
en mi sofocamiento de sombra.

Este vientre donde el amor abarca a la noche,
estos senos donde la luz altera los signos,
este cuerpo al que ahora me entrelazo, este cuerpo al que ahora me solicito.

Este cuerpo conmigo se traspone, se vence,
se lleva consigo a la noche y sus altares,
sus caminos ardiendo por su propia señal,
su oleaje, sus costas encendidas...

Esta mujer donde la noche descifra sus juegos ocultos,
este amor al que no debemos llamar amor sino adentro de sus aguas.
Este amor, este amor,
este instante donde el infinito es la obra de los que se aman,
de aquellos que llegan al estanque de cada caricia como buzos sagrados.
Este ritmo, este ritmo de viaje,
esta navegación entre la bruma,
todo lleva consigo su bandera extraviada,
su aurora boreal...

Ritmo de viagem

Este corpo que acaricio lentamente estendendo a noite,
este corpo onde eu hei penetrado na minha própria distância,
no meu sufocamento de sombra.

Este ventre onde o amor abarca a noite,
estes seios onde a luz altera os signos,
este corpo ao qual agora me entrelaço, este corpo ao qual agora me solicito.

Este corpo que comigo se transpõe, se vence,
se leva consigo à noite e seus altares,
seus caminhos ardendo por seu próprio sinal,
sua oleagem, suas costas acendidas....

Esta mulher onde a noite decifra seus jogos ocultos,
este amor ao qual não devemos chamar de amor senão dentro de suas águas.
Este amor, este amor,
este instante onde o infinito é a obra dos que se amam,
daqueles que chegam ao compartimento de cada carícia como búzios sagrados.
Este ritmo, este ritmo de viagem,
esta navegação entre a bruma,
tudo leva consigo sua bandeira extraviada
sua aurora boreal....

Ilustração: feriasetemposlivres.com

Juan Gelman


Las maravillas y miserias del amor

Juan Gelman

Las maravillas y miserias del amor.
Sus oscuros fulgores, sus catástrofes.
Caminar por el filo de la pérdida.
Dar lo que no se tiene.
Recibir lo que no se da.
El amor a la poesía,
a la madre, a la mujer,
a los hijos, a los compañeros
que cayeron por una esperanza,
a la belleza todavía de este mundo.
Como cualquier hombre,
amé y amo todo eso.
Algo de todo eso tal vez
tiemble en los poemas que siguen,
escritos a lo largo de 50 años.
La muerte me enseñó
que no se muere de amor.
Se vive de amor.

De: En el hoy y mañana y ayer

As maravilhas e as misérias do amor


As maravilhas e as misérias do amor.
Seus brilhos escuros, suas catástrofes.
Caminham pelo fio da perda.
Dar o que não se tem.
Receber o que não se dá.
O amor à poesia,
à mãe, à mulher,
aos filhos, aos companheiros
que caíram por uma esperança,
pela beleza, todavia, deste mundo.
Como qualquer homem,
Eu amei e amo tudo isto.
Algo de tudo isto talvez
treme nos poemas que foram
escritos por mais de 50 anos.
A morte me ensinou
que não se morre de amor.
Se vive de amor.

Ilustração: http://weheartit.com/entry/14557780

Tuesday, November 08, 2011

Ser feliz é viver louco de paixão..


Traçado

O destino, caminho
de pedras e flores,
me faz e desfaz
sonhos e amores.

Brinca como uma criança
com o que desejei, ou não,
e me dá a humana condição
de ter sempre, ainda, esperança.

Há sempre uma voz
que as desilusões releva
e de desistir de seguir
me leva, mesmo, se não entendi.

E se, falhei no que fiz,
conquistei ou perdi,
não importa, nem conta
-sigo até às tontas-
em busca de ser feliz.

Monday, November 07, 2011

Elizabeth Bishop

One Art

Elizabeth Bishop

The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster,

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three beloved houses went.
The art of losing isn't hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.

-- Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) a disaster.

Uma arte

Na arte de perder não é difícil ser mestre;
Tantas coisas parecem cheias de intenção
de perdê-las que perder não é um desastre,

Perca alguma coisa todo dia. Aceite o tinir
das chaves das porta perdidas, a hora mal gasta.
Na arte de perder não é difícil ser mestre.

Então pratique perder mais, perder mais rápido:
lugares, e nomes, e a escala subsequente
para viajar. Nada disto irá trazer o desastre.

Perdi o relógio de minha mãe. E olhe! Nem quero
Lembrar a perda de três casas excelentes.
Na arte de perder não é difícil ser mestre.

Perdi duas cidades, lindas mesmo. E, o mais vasto
império que era meu, dois rios, e mais um continente.
Sinto falta deles, mas não foi um desastre.

- Mesmo perder você (a voz brincalhona , um gesto
que amo) não muda nada. É evidente
na arte de perder não é difícil de ser mestre
embora possa parecer (Escreve!) um desastre.

Tomas Tranströmer ...traindo o traidor


After a Death

by Tomas Tranströmer
(translated by Robert Bly)

Once there was a shock
that left behind a long, shimmering comet tail.
It keeps us inside. It makes the TV pictures snowy.
It settles in cold drops on the telephone wires.

One can still go slowly on skis in the winter sun
through brush where a few leaves hang on.
They resemble pages torn from old telephone directories.
Names swallowed by the cold.

It is still beautiful to hear the heart beat
but often the shadow seems more real than the body.
The samurai looks insignificant
beside his armor of black dragon scales.

Depois da morte

Uma vez foi como um choque
que deixou atrás uma longa e brilhante cauda de cometa.
Que nos mantém inseridos. Faz os quadros da TV gélidos.
Instalou-se em gotas frias nos cabos telefônicos.

Ainda se pode ir devagar em esquis no sol de inverno
através do pincel, onde algumas folhas penduravam-se.
Elas assemelhavam-se a páginas arrancadas de antigas listas telefônicas.
Nomes engolidos pelo frio.

Ele permanecia belo ao ouvir o coração bater,
mas, muitas vezes, a sombra parece mais real que o corpo.
O samurai parece insignificante
ao lado de sua armadura de escamas negras de dragão.

Saturday, November 05, 2011

Cristina Peri Rossi


Bitácora

Cristina Peri Rossi

No conoce el arte de la navegación
quien no ha bogado en el vientre
de una mujer, remado en ella,
naufragado
y sobrevivido en una de sus playas.
"Linguística general" 1979

Armário da bússola

Não conhece a arte da navegação
quem não há navegado no útero
de uma mulher, remado nela,
naufragado
e sobrevivido em uma das suas praias.

Ilustração: http://www.igorpaskual.com

Idea Vilarino


LO QUE SIENTO POR TI

Idea Vilarino

Lo que siento por ti es tan difícil.
No es de rosas abriéndose en el aire,
es de rosas abriéndose en el agua.

Lo que siento por ti. Esto que rueda
o se quiebra con tantos gestos tuyos
o que con tus palabras despedazas
y que luego incorporas en un gesto
y me invade en las horas amarillas
y me deja una dulce sed doblada.

Lo que siento por ti, tan doloroso
como pobre luz de las estrellas
que llega dolorida y fatigada.

Lo que siento por ti, y que sin embargo
anda tanto que a veces no te llega.

O que eu sinto por ti

O que eu sinto por você é tão difícil.
Não é de rosas abrindo-se no ar,
é de rosas abrindo-se na água.

O que eu sinto por ti. Isto que rola
ou se quebra com tantos gestos teus
ou com palavras despedaçadas
e que, logo, incorporas num gesto
e me invade nas horas amarelas
e me deixa uma doce sede dobrada.

O que eu sinto por ti, é tão doloroso
como a pobre luz das estrelas
que chegam doloridas e fatigadas.

O que eu sinto por ti, e que, sem embargo,
anda tanto, que, às vezes, não te chega.

Thursday, November 03, 2011

Jack Prelutsky


Be Glad Your Nose is on Your Face

by Jack Prelutsky

Be glad your nose is on your face,
not pasted on some other place,
for if it were where it is not,
you might dislike your nose a lot.

Imagine if your precious nose
were sandwiched in between your toes,
that clearly would not be a treat,
for you'd be forced to smell your feet.

Your nose would be a source of dread
were it attached atop your head,
it soon would drive you to despair,
forever tickled by your hair.

Within your ear, your nose would be
an absolute catastrophe,
for when you were obliged to sneeze,
your brain would rattle from the breeze.

Your nose, instead, through thick and thin,
remains between your eyes and chin,
not pasted on some other place--
be glad your nose is on your face!

Ser feliz é ter seu nariz no rosto

Ser feliz é ter o seu nariz no rosto,
Não colocado em algum outro lugar,
pois, ficaria onde não deveria estar,
e você desgostaria de seu nariz muito.

Imagine se o seu precioso nariz
fosse imprensado nos seus pés, nos dedos,
quão claramente não teríamos medo,
de ser forçado a cheirar o odor infeliz.

Seu nariz seria uma fonte de temor
se fosse no topo da cabeça, que horror!
Seria um desespero em meio a tanto pelo;
sempre agarrado a um monte de cabelo.

Se dentro de sua orelha, seu nariz seria
uma catástrofe absoluta, e iria,
quando fosse obrigado a espirrar,
tornar seu cérebro um chocalho de ar.

Seu nariz, em vez disto, para o bem ou mal,
entre os seus olhos e o queixo, segue igual.
Onde deveria e não em algum outro lugar -
ser feliz é ter o seu nariz onde deve estar!

Ilustração: http://meucazzzulo.blogspot.com

Wednesday, November 02, 2011

Carlos Canã


Amada

Carlos Canã

Yo te escribo en secreto
mi ángel, mi flor amada.
y tener
de tu amor o boceto
en mi alma ilusionada.

y quisiera poner
una luna en tu piel,
y del cielo traer
un gran beso de miel.

y en tu pecho nacer
mi flor de alborada.

Amada

Eu te escrevo em segredo
meu anjo, minha flor amada.
e ter
de teu amor o esboço
anima toda minha alma.

e quisera por
uma lua na tua pele,
e do céu trazer
um grande beijo de mel.

e no teu peito nascer
a minha flor do amanhecer.

Ilustração: http://mayluescalada.blogspot.com

Dois poemas de Carlos Gagliardo


puede ser

Carlos Gagliardo

que en ese coma feroz
pase el resto de los días,
obnubilado
por tu cuerpo que respiro.

Pode ser

Que neste coma feroz
passe o resto dos dias,
encoberto
por teu corpo que respiro.

De una vez

Carlos Gagliardo

las nubes,
se alcanzaron en el cielo
y algo dejó
de ser como era.
Las huellas del dolor
están siempre.

De uma vez

As nuvens,
foram alcançadas no céu
e algo deixou
de ser como era.
As trilhas da dor
permanecem.

Ilustração: http://elmundosara.blogspot.com

Monday, October 31, 2011

Elizabeth Bishop


Conversation

Elizabeth Bishop

The tumult in the heart
keeps asking questions.
And then it stops and undertakes to answer
in the same tone of voice.
No one could tell the difference.

Uninnocent, these conversations start,
and then engage the senses,
only half-meaning to.
And then there is no choice,
and then there is no sense;

until a name
and all its connotation are the same.

Conversa

Um tumulto no coração
me impede de fazer perguntas.
E então ele pára e se compromete a responder
no mesmo tom de voz.
Ninguém poderia dizer a diferença.

Inocentemente, esses iniciar de conversas,
e depois de envolver os sentidos,
é só metade do significado.
E então não há escolha,
e então não há nenhum sentido;

até que um nome
e todos os seus sentidos são os mesmos.

Ilustração: http://blogdogaviao.blogspot.com/2009/03/discutindo-relacao.html

Saturday, October 29, 2011

Iván Segarra Báez


X

Iván Segarra Báez

"El mejor placer de la vida es hacer lo que la gente te dice que no puedes hacer" Walter Bagehot

Y la vida se hace un rostro de tinieblas muertas
donde no hay un "Ave María" que te salve
de la desgracia absoluta de los hombres.
Y el camino se pierde para seguir a los hombres.
Cada noche respeta esta soledad tan amarga,
tan dura, hecha de rosas que tienen espinas.
Donde el pecado caído es el amor
y te lastima
y en sus cenizas tú te enredas con la muerte pequeña
que todos llevamos dentro del alma moribunda
y la palabra se hace misterios de la noche,
un refugio sin sol, un eco sin dicha
y lo banal es el espejo
de todo lo que vivimos
del recuerdo a la sombra de la vida,
de la nostalgia sin vida de la muerte fría
que no acaba jamás
con la palabra
"Melancolía".

X

"O maior prazer da vida é fazer o que as pessoas dizem que você não pode fazer" Walter Bagehot

E a vida se faz um rosto de trevas mortas
onde não há uma "Ave Maria" que te salve
da desgraça absoluta dos homens.
E o caminho se perde para seguir aos homens.
Cada noite respeita esta solidão tão amarga
tão dural, feita de rosas que têm espinhos.
Onde cair no pecado é o amor
e te lastima
e nas suas cinzas te enredas com a morte pequena
que todos nós levamos dentro da alma moribunda
e a palavra se torna mistérios da noite,
um refúgio sem sol, um eco sem dito
e o banal é o espelho
de todos os que vivemos
da recordação da sombra da vida,
da nostalgia sem vida da morte fria
que não acaba jamais
com a palavra
"Melancolia".

José Gorostiza


PAUSAS I

José Gorostiza

¡El mar, el mar!
Dentro de mí lo siento.
Ya sólo de pensar
en él, tan mío,
tiene un sabor de sal mi pensamiento

Pausas I

O mar, o mar!
Dentro de mim o sinto.
E só de pensar
nele, tão meu,
tem um gosto de sal meu pensamento

Thursday, October 27, 2011

Anais Nin


Risk

Anais Nin

And then the day came,
when the risk
to remain tight
in a bud
was more painful
than the risk
it took
to Blossom.

Risco

E então veio o dia,
quando o risco
de permanecer firme
como um botão
era mais doloroso
que o risco
de virar
flor.

Ainda Ho Xuan Huong


Confession III

Ho Xuan Huong

Her lonely boat fated to float aimlessly
midstream, weary with sadness, drifting.

Her hold overflowing with duty and feeling,
bow rocked by storms, adrift and wandering.

She rows on, not caring who tries to dock,
sails on, not caring who tries the rapids.

Whoever comes on board is pleased
as she plucks her guitar, sad and drifting

Confissão III

Seu barco solitário foi destinado a flutuar sem rumo
pelo meio da correnteza, cansado, tristemente, à deriva.

Seu domínio superava, com o dever e sentimento,
o arco abalado por tempestades à deriva e vagando.

Ela seguia adiante, não se importando em experimentar docas,
velas adiante, sem temor de tenta enfrentar as corredeiras.

Quem quer que fosse a bordo teria o prazer
de ver como como tocava seu violão, triste e à deriva.

Um poeta vietnamita


Autumn Landscape

Ho Xuan Huong

Drop by drop rain slaps the banana leaves.
Praise whoever sketched this desolate scene:

the lush, dark canopies of the gnarled trees,
the long river, sliding smooth and white.

I lift my wine flask, drunk with rivers and hills.
My backpack, breathing moonlight, sags with poems.

Look, and love everyone.
Whoever sees this landscape is stunned.

Paisagem de outono

Gota a gota a chuva bate nas folhas de bananeira.
Louvo quem desenhou esta cena desoladora:

exuberantes, a copa escura das árvores retorcidas,
o longo rio, deslizando suave e branco.

Eu levanto minha taça de vinho, bebida com rios e montanhas.
Minha mochila, respirando o luar, tonto com poemas.

Olho, e amo a cada um.
Quem vê esta paisagem fica embriagado.

Ilustração: http://peregrinacultural.wordpress.com/2009/06/28/quadrinha-para-uso-escolar-lua/

Wednesday, October 26, 2011

Ainda Miguel D'Ors


Calendario perpetuo

Miguel D’Ors

El lunes es el nombre de la lluvia
cuando la vida viene tan malintencionada
que parece la vida.

El martes es que lejos pasan trenes
en los que nunca vamos.

El miércoles es jueves, viernes, nada.

El sábado promete, el domingo no cumple
y aquí llega otra vez -o ni siquiera otra:
la misma vez- la lluvia de los lunes.

De "La música extremada"

Calendário perpétuo

Segunda-feira é o nome da chuva
quando a vida vem tão mal-intencionada
que parece a vida.

Terça-feira é que longe passam os trens
nos quais nunca vamos.

Quarta-feira é quinta-feira, sexta-feira, nada.

O sábado promete, o domingo não cumpre
e aqui chega outra vez, ou nem sequer outra:
a mesma vez, a chuva das segunda-feiras.

Miguel D’Ors


Como el agua

Miguel D’Ors

Como el agua
se afana
callada
bajo el trigo,

como la tierra,
humilde,
elabora
metales
y eleva
hasta la rosa
la hermosura,

así, de esa manera,
escribirás
tus versos:
sólo en hondo
silencio
germinan
las palabras
luminosas.

De "La música extremada"

Como a água

Como a água
esforça-se
calada
sob o trigo,

Como a terra,
humilde,
elabora
os metais
e eleva
até a rosa,
a formosura,

assim, dessa maneira,
escreverás
teus versos:
somente em profundo
silêncio
germinam
as palavras
luminosas.

Tuesday, October 25, 2011

Ruben Dário


La canción de la noche en el mar

Ruben Dário

¿Qué barco viene allá?
¿Es un farol o una estrella?
¿Qué barco viene allá?
Es una linterna tan bella
¡y no se sabe adónde va!
¡Es Venus, es Venus la bella!
¿Es un alma o es una estrella?
¿Qué barco viene allá?
Es una linterna tan bella…
¡y no se sabe adónde va!
¡Es Venus, es Venus, es Ella!
Es un fanal y es una estrella
que nos indica el más allá,
y que el Amor sublime sella,
y es tan misteriosa y tan bella,
que ni en la noche deja la huella
¡y no se sabe adónde va!

A canção da noite no mar

Que barco vem lá?
É um farol ou uma estrela?
Que barco vem lá?
É uma lanterna tão bela
E não se sabe onde vai!
É Venus, é Venus, a bela!
É uma alma ou é uma estrela?
Que barco vem lá?
É uma lanterna tão bela ...
E não se sabe onde vai!
É Venus, é Venus, é ela!
É uma luz e é uma estrela
que indica mais além
e que é o amor sublime sela,
e é tão misteriosa e tão bela
que nem na noite deixa rastro
E ninguém sabe onde vai!

Ilustração: settingsbia.blogspot.com

Juan Juaristi


Las ollas de Egipto

Juan Juaristi

Qué inútil el recurso a los recuerdos
o al consuelo banal de otras caricias,
porque has perdido para siempre a aquélla
que devastó tu carne enamorada.

(Sólo el remordimiento prevalece).

"Diario de un poeta recién cansado" 1985

As panelas do Egito

Como é inútil é o recurso das recordações
ou ao conforto banal de outras carícias,
porque perdestes para sempre aquela
que devastou tua carne enamorada.

(Somente a culpa prevalece).

Sunday, October 23, 2011

Eduardo Milán


Por qué amo tu locura...

Eduardo Milán


¿Por qué amo tu locura,
tu desparpajo, tu falta
de reloj y tus atajos
cuando estoy prácticamente a punto
de caer de cabeza en el abismo?

O sea en ti. Pero no sólo
eso: hay mucho más de ti que quiero
y no revelo. Esa lámpara
que enciendes en el fondo.

Porque amo a tua loucura ...

Porque amo a tua loucura
teu desajeitamento, a tua falta
de relógio e teus atalhos
quando estou praticamente a ponto
de cair de cabeça no abismo?

Ou seja, em ti. Porém, não é só
isto: há muito mais de ti que quero
e não revelo. Esta lâmpada
que acendes lá no fundo.



ILustração; http://elefantedememoria.blogspot.com

Insaciável amor


Antes mesmo da nudez
Já estavas nua
Para os meus olhos que estarrecidos
Como se fossem raios X
Examinavam a pele tua
Com as luzes fortes do desejo.

Não sei nem se tu sabes,
Mas, o amor compreende
Muito mais que os rumores dos lençóis,
Os líquidos, o suor, os beijos, a saliva....
O amor é esta coisa viva
Que nos acende
E nos torna os devoradores das horas,
Dominadores dos corpos,
Conquistadores da carne
Exploradores da alma.

O amor é a violência e a calma
De querer ser e ter o outro
E sempre achar pouco.

Saturday, October 22, 2011

Ainda Grace Nichols


Invitation

by Grace Nichols

1
If my fat
was too much for me
I would have told you
I would have lost a stone
or two

I would have gone jogging
even when it was fogging
I would have weighed in
sitting the bathroom scale
with my tail tucked in

I would have dieted
more care a diabetic

But as it is
I’m feeling fine
feel no need
to change my lines
when I move I’m target light

Come up and see me sometime

2

Come up and see me sometime
Come up and see me sometime

My breasts are huge exciting
amnions of water melon
your hands can’t cup
my thighs are twin seals
fat as slick pups
there’s a purple cherry
below the blues
of my black seabelly
there’s a mole that gets a ride
each time I shift the heritage
of my behind

Come up and see me sometime

From Fat Black Woman’s Poems

Convite

1
Se a minha gordura
fosse demais para mim
Eu teria dito a você
Eu poderia perder uma pedra
ou duas

Eu teria ido fazer ginástica
mesmo que o tempo fosse nebuloso.
Eu poderia ter me pesado
sentada na escala do banheiro
com o meu rabo dobrado

Eu poderia fazer uma dieta
mais cuidadosa que um diabético

Mas, como está
estou me sentindo muito bem
não sinto necessidade
de mudar minhas linhas
e quando passo sou alvo das luzes

Venha para cima de mim e veja em algum momento

2

Venha para cima de mim e veja em algum momento
Venha para cima de mim e veja em algum momento

Meus seios são enormes e excitantes
cápsulas de melancia
que suas mãos não podem conter
minhas coxas são selos gêmeos
de gordura como filhotes de cachorro lisos
há uma cereja roxa
abaixo do azul
da profundidade preta da minha barriga
há uma toupeira que pega carona
cada vez que eu mudo o património
por trás da mim.

Venha para cima de mim e veja em algum momento

Ilustração: www.cotidianogordo.blogspot.com/

Grace Nichols


Beauty

Grace Nichols

Beauty
is a fat black woman
walking the fields
pressing a breezed
hibiscus
to her cheek
while the sun lights up
her feet

Beauty
is a fat black woman
riding the waves
drifting in happy oblivion
while the sea turns back
to hug her shape

Beleza

Beleza
é uma gorda mulher negra
andar nos campos
pressionando como uma brisa
um hibisco
no seu rosto
enquanto o sol ilumina
seus pés

Beleza
é uma gorda mulher negra
cavalgando as ondas
deslizando feliz no esquecimento
enquanto o mar reflui
para abraçá-la mansamente

Friday, October 21, 2011

Jorge Montoya Toro


La amada indefinible

Jorge Montoya Toro

No podría encontrar la verdadera
palabra que trazara tu figura.
Y a veces le pregunto a mi amargura:
¿Cómo era, Dios mío, cómo era?
¿Era un ángel que vino en primavera
en forma de azucena que perdura?
¿Un poco de candor entre la impura
materia terrenal, perecedera?
Mas por mucho que quiero, no defino
su encanto inmaterial, ese secreto
que encierra su mirar esmeraldino:
Y la llamo Azucena, Estrella, Rosa,
sin que en ningún vocablo halle completo
el perfume de su alma misteriosa.

A amada indefinível
Não podia encontrar a verdadeira
palavra para desenhar tua figura.
E, às vezes, perguntei à minha amargura:
Como era, Deus meu, como era?
Foi um anjo que veio na primavera
em forma de acuçena que perdura?
Um pouco de candura entre a impura
matéria terrestre, perecedora?
Mas, por mais que deseje, não defino
seu encanto imaterial, este segredo
que encerra o seu olhar esmeraldino:
E a chamo de açucena, estrela, rosa,
Sem que nenhum termo traga completo
o perfume de sua alma misteriosa.

Thursday, October 20, 2011

Novamente Antonio Veneziano


N° VIII, Siciliano

Antonio Veneziano

In parti dubbiu e in parti sicuru,
fra lu zertu e l'inzertu scurru e penzu
contemplu ora lu chiaru, ora lu scuru,
e dugnu or'unu ed ora un autru senzu;
pisu, assuttighiu, bilanzu, misuru,
criju, non criju, risolvu e ripenzu,
ogn'hura penzu e guastu, muru e smuru,
e sempri ddà finixxu, undi 'ncumenzu.

Nº VIII, Siciliano

Em parte duvido e em parte estou seguro,
Entre o certo e o incerto me pergunto e penso,
Contemplo ora o claro, ora ao escuro,
E tenho ora um, ora outro sentido;
Peso, abstraio, sopeso e meço,
Creio, não creio, resolvo e repenso,
Cada hora concebo e destruo, faço e desfaço,
E sempre acabo onde começo.

Antonio Veneziano


La Celia, II

Antonio Veneziano

Naxxi in Sardigna un’erba, anzi un venenu,
chi, cui ‘ndi gusta, di li risa mori;
né antitodi ci ponnu di Galenu,
né Esculapiu incantati palori.
Cuss’iu, senza rimediu terrenu,
unu su’ dintra e n’autru paru fori;
su’ tuttu mestu e mustrumi serenu:
la vucca ridi e chiangimi lu cori.

La Célia, II

Nasce na Sardenha uma erva, talvez um veneno,
Que, quem o prova, morre de rir;
Não há antídoto atestou Galeno,
E para Esculápio nem reza encantada.
Assim sou eu, sem remédio terreno,
Por dentro sou um e outro por fora;
Sou todo manso e me mostro sereno:
A boca ri, mas, o coração chora.

Wednesday, October 19, 2011

Ainda Langston Hughes


April Rain Song

Langston Hughes

Let the rain kiss you
Let the rain beat upon your head with silver liquid drops
Let the rain sing you a lullaby
The rain makes still pools on the sidewalk
The rain makes running pools in the gutter
The rain plays a little sleep song on our roof at night
And I love the rain.

Canção da chuva de abril

Deixe a chuva beijar você
Deixe a chuva cair sobre sua cabeça com gotas líquidas de prata
Deixe a chuva cantar para você uma canção de ninar
A chuva ainda cria poças na calçada
A chuva faz correr rios na sarjeta
A chuva tamborila uma música sonolenta no nosso telhado à noite
E eu amo a chuva.

Langston Hughes


50-50

Langston Hughes

I’m all alone in this world, she said,
Ain’t got nobody to share my bed,
Ain’t got nobody to hold my hand—
The truth of the matter’s
I ain’t got no man.

Big Boy opened his mouth and said,
Trouble with you is
You ain’t got no head!
If you had a head and used your mind
You could have me with you
All the time.

She answered, Babe, what must I do?

He said, Share your bed—
And your money, too.

50-50

Eu estou sozinho neste mundo, ela disse:
Não tenho ninguém para compartilhar a minha cama,
Não tenho ninguém para segurar a minha mão
A verdade material é
Eu não tenho ninguém.

O pequeno rapaz abriu a boca e disse:
O seu problema é
É que você não tem cabeça!
Se você tinha cabeça não usou sua mente.
Você poderia me ter com você
O tempo todo.

Ela respondeu: Rapaz, o que devo fazer?

Ele disse: Compartilhar a sua cama
E o seu dinheiro, também.

Ilustração: http://nomundomoderno.blogspot.com/2010/12/minha-vida-e-um-mar-de-rosas-em-tua.html

Tuesday, October 18, 2011

Ainda que a chuva ou o tempo nos separe ou não...



Corazón coraza

Mario Benedetti

Porque te tengo y no
porque te pienso
porque la noche está de ojos abiertos
porque la noche pasa y digo amor
porque has venido a recoger tu imagen
y eres mejor que todas tus imágenes
porque eres linda desde el pie hasta el alma
porque eres buena desde el alma a mí
porque te escondes dulce en el orgullo
pequeña y dulce
corazón coraza

porque eres mía
porque no eres mía
porque te miro y muero
y peor que muero
si no te miro amor
si no te miro

porque tú siempre existes dondequiera
pero existes mejor donde te quiero
porque tu boca es sangre
y tienes frío
tengo que amarte amor
tengo que amarte
aunque esta herida duela como dos
aunque te busque y no te encuentre
y aunque
la noche pase y yo te tenga
y no.

Coração, couraça

Porque te tenho e não
porque te penso
porque a noite está de olhos abertos
porque a noite passa e diz amor
porque viestes recolher tua imagem
e és melhor que todas as imagens
porque és bonita dos pés até à alma
porque és boa desd’a alma a mim
porque te escondes doce no orgulho
pequena e doce
coração couraça

porque és minha
porque não és minha
porque te olho e morro
e pior que morro
se não te olho, amor,
se não te olho

porque sempre existes onde queiras,
porém, existes melhor onde te quero
porque tua boca é sangue
e tens frio
tenho que amar-te amor
tenho que amar-te
ainda que esta ferida doa como duas
ainda que te busque e não te encontre
e ainda
que a noite passe e eu te tenha,
ou não.

Mario Benedetti


Todavia

Mario Benedetti

No lo creo todavía
estás llegando a mi lado
y la noche es un puñado
de estrellas y de alegría
palpo gusto escucho y veo
tu rostro tu paso largo
tus manos y sin embargo
todavía no lo creo
tu regreso tiene tanto
que ver contigo y conmigo
que la cábala lo digo
y por las dudas lo canto
nadie nunca te reemplaza
y las cosas más triviales
se vuelven fundamentales
por que estás llegando a casa
sin embargo todavía
dudo de esta buena suerte
porque el cielo de tenerte
me parece fantasía
pero venís y es seguro
y venís con tu mirada
y por eso tu llegada
hace mágico el futuro
y aunque no siempre he entendido
mis culpas y mis fracasos
en cambio sé que en tus brazos
el mundo tiene sentido
y si beso la osadía
y el misterio de tus labios
no habrás dudas ni resabios
te querré más
todavía.

Todavia

Não o creio, todavia,
estais chegando ao meu lado
e esta noite é um punhado
de estrelas e alegria
apalpo, gosto, ouço e vejo
teu rosto, o teu passo largo
tuas mãos e, sem embargo,
não o creio, todavia,
o teu retorno tem tanto
a haver contigo e comigo
que a cabala que digo
e, por via das dúvidas, canto
não há quem te substitua
e as coisas mais triviais
se tornam fundamentais
porque estais voltando à casa,
sem embargo, todavia,
duvido desta boa sorte
porque o céu de te ter
me parece fantasia,
porém, vens e é seguro
e vens com o teu olhar
e por isto tua chegada
faz mágico o futuro
e ainda que nem sempre entenda
minhas faltas e meus fracassos
em troca sei que em teus braços
o mundo tem um sentido
e se beijo a ousadia
e o mistério de teus lábios
não há dúvidas, nem ressentimentos,
te amo mais
todavia.

Monday, October 17, 2011

Julio Herrera y Reissig


Fiat lux

Júlio Herrera y Reissig

Sobre el rojo diván de seda intacta,
con dibujos de exótica graminea,
jadeaba entre mis brazos tu virgínea
y exangüe humanidad de curva abstracta...

Miró el felino con sinuosa línea
de opalo; y en la noche estupefacta,
desde el jardín, la Venus curvilínea
manifestaba su esbeltez compacta.

Ante el alba, que izó nimbos grosellas,
bajándose las últimas estrellas...
El Cristo de tu lecho estaba mudo.

Y como un huevo, entre el plumón de armiño
que un cisne fecundara, tu desnudo
seno brotó del virginal corpiño...

Fiat Lux

Sobre o sofá de seda vermelha intacta
com desenhos de exótica gramínea,
dançava entre meus braços tua virgínia
e cansada humanidade de curva abstrata ...

Olhei o felino com sinuosa linha
de opala, e na noite estupefacta,
desd’o jardim, a Venus curvilínea
manifestava sua esbeltez compacta.

Ante a manhã, que içou nimbos de groselhas,
despediram-se as última estrelas ...
o Cristo de teu leito estava mudo.

E como um ovo, entre as plumas de arminho
que um cisne fecundará, teu desnudo
seio brotou do virginal corpinho...

Ilustração: http://cidadevigiada.blogspot.com/2008/07/fiat-lux-no-corel-painter-x.html

Yolanda Bedregal


Tus manos

Yolanda Bedregal

Canción de la esperanza
en el camino inútil
de mi vida, tus manos
cruzan como dos alas
cargadas de ternura.

As tuas mãos

Canção da esperança
no caminho inútil
da minha vida, as tuas mãos
cruzam como duas asas
carregadas de ternura.

Ilustração: http://hagnus.arteblog.com.br/

Saturday, October 15, 2011

Oscar Wilde e a Balada do Cárcere de Reading


The ballad of Reading gaol

Oscar Wilde

He did not wear his scarlet coat,
for blood and wine are red,
and blood and wine were on his hands
when they found him with the dead,
the poor dead woman whom he loved,
and murdered in her bed.

I never saw a man who looked
with such a wistful eye
upon that little tent of blue
which prisoners call the sky,
and at every drifting cloud that went
with sails of silver by.

I walked, with other souls in pain,
within another ring,
and was wondering if the man had done
a great or little thing,
when a voice behind me whispered low,
"that fellows got to swing".

I only knew what hunted thought
quickened his step, and why
he looked upon the garish day
with such a wistful eye;
man had killed the thing he loved
and so he had to die.

Yet each man kills the thing he loves
by each let this be heard,
some do it with a bitter look,
some with a flattering word,
the coward does it with a kiss,
the brave man with a sword!

The Governor was strong upon
the Regulations Act:
the Doctor said that Death was but
a scientific fact:
and twice a day the Chaplain called
and left a little tract.

We sewed the sacks, we broke the stones,
we turned the dusty drill:
we banged the tins, and bawled the hymns,
and sweated on the mill:
but in the heart of every man
terror was lying still.

The warders with their shoes of felt
crept by each padlocked door,
and peeped and saw, with eyes of awe,
grey figures on the floor,
and wondered why men knelt to pray
who never prayed before.

The warders strutted up and down,
and kept their herd of brutes,
their uniforms were spick and span,
and they wore their Sunday suits,
but we knew the work they had been
by the quicklime on their boots.

And all the while the burning lime
eats flesh and bone away,
it eats the brittle bone by night,
and the soft flesh by the day,
it eats the flesh and bones by turns,
but it eats the heart alway.

In Reading gaol by Reading town
there is a pit of shame,
and in it lies a wretched man
eaten by teeth of flame,
in a burning winding-sheet he lies,
and his grave has got no name.

He did not wear his scarlet coat,

A Balada do Cárcere de Reading


Ele não usava o seu casaco escarlate,
porque o sangue e o vinho são vermelhos;
e o sangue e o vinho estavam em suas mãos
quando o encontraram com a morta,
a pobre mulher morta a quem amava
assassinada no seu leito.

Eu nunca vi na vida um homem que tivesse
com os olhos tão cheios de angústia,
ao contemplar o pedaço de azul
que os prisioneiros chamam de céu
e as nuvens que passavam à deriva,
como velas prateadas pelo ar.

Caminhava junto a outras almas penadas
dentro de outro pátio,
e me perguntava se o homem havia feito
algo grande ou pequeno,
quando, às minhas costas, uma voz sussurrou baixo:
"O homem tem que ser enforcado".

Eu só sabia que um pensamento o perseguia
e lhe acelerava o passo e porque
olhava o deslumbrante dia,
com os olhos tão cheios de angústia;
o homem havia matado o que amava
por isto teria que morrer.

Se bem que todo homem mata o que ama,
para que todos escutem bem,
alguns o fazem com o rosto amargurado,
outros com a palavra enganadora,
o covarde o faz com um beijo,
O valente com uma espada!

O governador era um homem inflexível
ao tratar-se das leis e regulamentos
o doutor disse que a morte não era senão
um fato científico
e, duas vezes por dia, o capelão o chamava
e lhe deixava um pequeno folheto.

Nós cosíamos sacos, quebrávamos pedras
Nós girávamos a broca poeirenta:
Nós batíamos latas e berrávamos hinos,
porém, no coração de cada homem
Havia um terror dormindo.

Os guardas, com seus sapatos de feltro,
deslizavam por portas com cadeados,
e apareciam para ver com olhos assombrados
as figuras cinzas sobre o solo,
e se perguntavam por que os homens se agacham para orar
mesmo os que antes nunca haviam rezado.

Os guardas iam acima e abaixo gabando-se
e vigiavam o seu rebanho de bestas
nos seus uniformes limpos e arrumados,
e vestiam seus trajes de gala de domingo,
mas, nós sabíamos que trabalho estavam fazendo
pelo cal vivo de suas botas.

E, para sempre, a cal ardente
corrói a carne e o osso,
corrói o osso frágil na noite,
e a carne suave pelo dia,
corrói a carne e o osso por turnos,
mas, come sempre o coração.

No cárcere da cidade de Reading
há um fosso de vergonha
em que jaz um homem desventurado
consumido por dentes de chamas,
numa mortalha abrasadora jaz
e sua tumba não tem nome.

Ele não usava seu casaco escarlate.....

Thursday, October 13, 2011

E ainda Angel González


Ya nada es ahora


Angel González

Largo es el arte; la vida en cambio corta
como un cuchillo
Pero nada ya ahora
-ni siquiera la muerte, por su parte
inmensa-

podrá evitarlo:
exento, libre,

como la niebla que al romper el día
los hondos valles del invierno exhalan,

creciente en un espacio sin fronteras,

ese amor ya sin ti me amará siempre.

Já nada é agora

Larga é a arte; a vida em troca corta
como uma faca.
Porém, nada há agora
-nem sequer a morte, por sua parte
Imensa-

poderia evitá-lo:
desgarrado, livre,

como a névoa ao amanhecer
que os profundos vales do inverno exalam,

crescente num espaço sem fronteiras,

este amor já sem ti me amará para sempre.

Ilustração: carolinadourado.tumblr.com

Esta do Angel Gonzalez já a publiquei, mas...


Vale a pena reeditar corretamente

Canción, glosa y cuestiones

Angel González

Ese lugar que tienes,
cielito lindo,
entre las piernas,
ese lugar tan íntimo
y querido,
es un lugar común.

Por lo citado y por lo concurrido.

Al fin, nada me importa:
me gusta en cualquier caso.

Pero hay algo que intriga.

¿Cómo
solar tan diminuto
puede ser compartido
por una población tan numerosa?
¿Qué estatutos regulan el prodigio?


Canção, glosa e questões

Este lugar que tens,
ceúzinho lindo,
entre as pernas,
este lugar tão íntimo
e querido,
é um lugar comum.

Por tão citado e concorrido.

Ao fim, nada me importa:
Eu gosto em qualquer caso.

Porém, algo me intriga.

Como
um local tão diminuto
pode ser tão compartilhado
por uma população tão numerosa?
Que leis regulam este prodígio?

Tuesday, October 11, 2011

Angel González

Epílogo

Angel González


Me arrepiento de tanta inútil queja,
de tanta
tentación improcedente.
Son las reglas del juego inapelables
y justifican toda, cualquier pérdida.
Ahora
sólo lo inesperado o lo imposible
podría hacerme llorar:

una resurrección, ninguna muerte.


Epílogo

Me arrependo de tanta queixa inútil,
de tanta
tentação improcedente.
São as regras do jogo, inapeláveis
e justificam toda, qualquer perda.
Agora
só o inesperado ou o impossível
poderia me fazer chorar:
uma ressurreição, nenhuma morte.