Monday, March 22, 2021

Uma poesia de Rafael Courtoisie

 

                                  
FOSA DE CHARLES ATLAS

 

Rafael Courtoisie

 

Pienso en el hierro. Es un oscuro pensamiento
que vuelve, intermitente, como un mar duro.
A veces, las cortinas dejan pasar un hilo
se descubre la luz estallando en los objetos
frente a una idea que tiene esa certeza
disuelta.

 

¿Cómo será el hierro dentro del hierro?

 

Pienso en su alma
llena de nudos
pienso en una constelación musculosa,
en un tejido
de misterio donde cada fibra me recuerda
lo que soy:
mi fragilidad, mi blandura, mi invencible
debilidad.

 

No tengo alma
como ese centro, no tengo el alma del hierro
ni oscuridad que se parezca
ni nudo
ventral que simule, por un momento, la solidez
el tiempo endurecido de su médula.

 

Frente a esa profundidad
sólo puedo callar.

 

Huelo una hoja de cedrón
recién arrancada
de la mañana
de la vida

 

fresca y ya
pudriéndose

 

dañada
por el sol de las cosas.

 

Huelo esa hoja
y sé que está
sostenida
no por mi mano, por el hierro
invisible

 

del aroma.

 

Todo es más fuerte que yo.

A FOSSA DE CHARLES ATLAS

Penso em ferro. É um escuro pensamento

que volta, intermitente, como um mar duro.

Às vezes, as cortinas deixam passar um fio

que descobre a luz explodindo nos objetos

frente uma ideia que tem essa certeza

dissolvida.

 

Como será o ferro dentro do ferro?

 

Penso na sua alma

cheia de nós

Penso em uma constelação muscular,

num tecido

de mistério onde cada fibra me recorda

o que sou:

minha fragilidade, minha bondade, minha invencível

debilidade.

 

Não tenho alma

como este centro, não tenho a alma de ferro

nem escuridão que parece

sem nó

dorsal que simule, por um momento, a solidez

o tempo endurecido de sua medula.

 

Frente à esta profundidade

só posso calar.

 

Sinto uma folha de verbena de limão

recém arrancada

da manhã

da vida

fresca e já

apodrecendo

 

danificada

pelo sol das coisas.

 

Cheiro esta folha

e sei que está

sustentada

não por minha mão, pelo ferro

invisível

do aroma.

 

Tudo é mais forte do que eu.

Ilustração: https://images.absolutdrinks.com/.

LXXXV


 


Sei que estou estranho,

indiferente, silencioso, apático,

quase um vegetal humano.

Nem penso

que me comporto

como se enfiasse um punhal no teu peito-

e isto, bem sei, não é direito.  

 

Sei que deveria ter te procurado, 

estar do teu lado,

ter contigo almoçado,

sem ficar assim tão depressivo,

tão sem forças,

tão contente em nada fazer,

sem motivo,

exceto dormir e comer.

 

Talvez, nem me queiras mais,

cansada, que sei que estás,

de esperar por algum sinal meu.

E aqui continuo inerme,

preguiçoso, dormindo,

esperando os dias passarem

em lenta agonia.

 

E me justifico, 

antes de apagar a luz e ir dormir :

talvez não seja o dia, 

talvez não seja a hora, 

e, em profunda letargia,  

afirmo é culpa da pandemia!

Ilustração: https://www.uwell.it/articoli-stile-di-vita/. 

 

 

Sunday, March 21, 2021

E de volta Sir Leonard Cohen

 


Hey, That's No Way To Say Goodbye 

 Leonard Cohen 

I loved you in the morning, our kisses deep and warm,
your hair upon the pillow like a sleepy golden storm,
yes, many loved before us, I know that we are not new,
in city and in forest they smiled like me and you,
but now it's come to distances and both of us must try,
your eyes are soft with sorrow,
Hey, that's no way to say goodbye.
I'm not looking for another as I wander in my time,
walk me to the corner, our steps will always rhyme
you know my love goes with you as your love stays with me,
it's just the way it changes, like the shoreline and the sea,

but let's not talk of love or chains and things we can't
untie,
your eyes are soft with sorrow,
Hey, that's no way to say goodbye.
I loved you in the morning, our kisses deep and warm,
your hair upon the pillow like a sleepy golden storm,
yes many loved before us, I know that we are not new,
in city and in forest they smiled like me and you,
but let's not talk of love or chains and things we can't
untie,
your eyes are soft with sorrow,
Hey, that's no way to say goodbye.

 

EI, ISTO NÃO É MANEIRA DE DIZER ADEUS

Eu te amei de manhã, nossos beijos profundos e quentes,

teu cabelo sobre o travesseiro como uma sonolenta tempestade dourada,

sim, muitos amaram antes de nós, eu sei que não somos novos,

na cidade e na floresta eles sorriam como eu e tu,

porém, agora estão distantes e nós dois devemos tentar,

teus olhos são suaves de tristeza,

Ei, isto não é maneira de dizer adeus.

Eu não estou procurando por outra enquanto vagueio no meu tempo,

acompanha-me até a esquina, nossos passos sempre estarão no ritmo

tu sabes que meu amor vai contigo enquanto teu amor fica comigo,

é apenas a maneira como muda, como a praia e o mar,

porém, não vamos falar de amor ou correntes e coisas que não podemos desatar,

teus olhos são suaves de  tristeza,

Ei, isto não é maneira de dizer adeus.

Eu te amei de manhã, nossos beijos profundos e quentes,

teu cabelo sobre o travesseiro como uma sonolenta tempestade dourada,

sim muitos amaram antes de nós, sei que não somos novos,

na cidade e na floresta eles sorriam como eu e tu,

porém não vamos falar de amor ou correntes e coisas que não podemos desatar,

teus olhos são suaves de tristeza,

Ei, isto não é maneira de dizer adeus.

Ilustração: http://sr-24.blogspot.com/. 

Outra poesia de John Burnside

 


Agoraphobia 

John Burnside 

My whole world is all you refuse:
a black light, angelic and cold
on the path to the orchard,
fox-runs and clouded lanes and the glitter of webbing,
little owls snagged in the fruit nets
out by the wire
and the sense of another life, that persists
when I go out into the yard
and the cattle stand round me, obstinate and dumb.
All afternoon, I've worked at the edge of your vision,
mending fences, marking out our bounds.
Now it is dusk, I turn back to the house
and catch you, like the pale Eurydice
of children's classics, venturing a glance
at nothing, at this washed infinity
of birchwoods and sky and the wet streets leading away
to all you forget: the otherworld, lucid and cold
with floodlights and passing trains and the noise of traffic
and nothing like the map you sometimes
study for its empty bridlepaths,
its hill-tracks and lanes and roads winding down to a coast
of narrow harbors, lit against the sea

 

AGORAFOBIA

Meu mundo todo é tudo que você recusa:

uma luz negra, angelical e fria

no caminho para o pomar,

corridas de raposa e pistas nubladas e o brilho de teias,

pequenas corujas presas nas redes de frutas

pelo arame

e o sentido de outra vida, que persiste

quando eu saio para o quintal

e o gado me rodeia, obstinado e mudo.

Durante toda a tarde, trabalhei no limite de sua visão,

consertando cercas, demarcando nossos limites.

Agora é o crepúsculo, eu volto para a casa

e te pegar, como a pálida Eurídice

dos clássicos infantis, arriscando um olhar

em nada, neste infinito lavado

de bétulas e céu e as ruas molhadas que levam para longe

a todos que você esquece: o outro mundo, lúcido e frio

com holofotes e trens passando e o barulho do tráfego

e nada como o mapa que você às vezes

estuda para seus caminhos desenfreados,

suas trilhas nas colinas, caminhos e estradas serpenteando até a costa

de portos estreitos, iluminados contra o mar.

Ilustração: http://www.adrianabiase.it/.

Saturday, March 20, 2021

Outra poesia de Giovanni Quessep

 


CERCANIA DE LA MUERTE

Giovanni Quessep

El hombre solo habita
Una orilla lejana
Mira la tarde gris cayendo
Mira las hojas blancas

Rostro perdido del amor
Apenas canta y mueve
La rueda del azar
Que lo acerca a la muerte

Extranjero de todo
La dicha lo maldice
El hombre solo a solas habla
De un reino que no existe

 

 

PERTO DA MORTE

Homem só habita

Uma praia distante

Olha a tarde cinzenta caindo

Olha para as folhas brancas

 

Rosto perdido do amor

Apenas canta e se move

A roda do acaso

Que o aproxima da morte

 

Estrangeiro de tudo

A sorte o amaldiçoa

O homem só a sós fala

De um reino que não existe

Ilustração: https://oasis-omeuoasis.blogspot.com/. 

 

Uma poesia de Manuel Ruiz Amezcua

DE LA RAZÓN CÍNICA

Manuel Ruiz Amezcua

Las apariencias no engañan
J. R. Jiménez

Son actores de reparto,

convertidos en guiñapos.

Son los mismos de siempre

en gira permanente.

No se les caen de la boca
las grandes palabras.

La retahíla es larga.

Libertad, justicia, igualdad, progreso,

dignidad, verdad, democracia y demás
compañeras de viaje.

Las escupen a diario

hasta en el baño.


Gracias a ellas, se colocaron

en la primera fila.

 

Gracias a ellas, prometen

la tierra prometida.

Son las mismas palabras

que usaron los de siempre
para honrar su justicia
y ocultar la injusticia.

Aunque todo ha sido una gran mentira,
con las mismas palabras
nos siguen prometiendo
la tierra prometida.

De esas grandes palabras sabe mucho

el dios de la mentira.

Son las palabras huecas

de la ética democrática,
que ni fue ética, ni es democrática.

Son las palabras fijas,

que también los tiranos
tuvieron de pupilas.


Como quien tiene el poder,

y puede hacer daño,

los viejos demonios
perseveran en su ser.

 

Su verdadera tradición
descansa en la traición.

 

DA RAZÃO CÍNICA

As aparências não enganam

J. R. Jiménez

São atores secundários,

convertidos em trapos.

 

São os mesmos de sempre

em turnê permanente.

 

Não lhes caem da boca

as grandes palavras.

 

O rosário é grande.

 

Liberdade, justiça, igualdade, progresso,

dignidade, verdade, democracia e demais

companheiras de viagem.

 

As esculpem diariamente

até no banheiro.

 

Graças a elas, se colocaram

na linha de frente.

 

Graças a elas, prometem

a terra prometida.

 

São as mesmas palavras

que usaram os de sempre

para honrar sua justiça

e esconder a injustiça.

 

Ainda que tudo tenha sido uma grande mentira,

com as mesmas palavras

eles seguem nos prometendo

a terra prometida.

Dessas grandes palavras sabe muito

o deus das mentiras.

 

São as palavras ocas

da ética democrática,

que nem foi ética nem democrática.

 

São as palavras fixas

que também os tiranos

tiveram como alunos.


Como quem tem o poder,

e pode fazer danos,

 

os velhos demônios

perseveram em seu ser.

 

Sua verdadeira tradição

Descansa na traição.

Uma poesia de Sharon Esther Lampert

 


FINITE 

Sharon Esther Lampert 

Days live and die.
Suns rise and set.
Flowers bloom and wither.
Fruits ripen and spoil.
Ice cream freezes and melts.
Candles shed light and darken.
Energies are generated and depleted.
Monies are made and spent.
Time is used and squandered.
Love burns eternal and passions wane.
Lives are breathed and become breathless.

FINITUDE

Os dias vivem e morrem.

Sóis nascem e se põem.

As flores desabrocham e murcham.

As frutas amadurecem e estragam.

O sorvete congela e derrete.

Velas iluminam e escurecem.

As energias são geradas e esgotadas.

O dinheiro é feito e gasto.

O tempo é usado e desperdiçado.

O amor é eterno e as paixões diminuem.

As vidas respiram e ficam sem fôlego.

Ilustração: https://universoup.es/.

Friday, March 19, 2021

Mais uma vez Sawako Nakayasu

 


BATTERY

Sawako Nakayasu

We get lost in the desert, lost very lost, and although we aren't going to tell anyone that we can't possibly be any more than two miles from civilization, the .fact remains that we are lost very lost in the desert very desert, and the car very car is having a hard very hard very hard time getting started up again, and so we kick it very kick it in its ass very ass and the car is still having a hard very hard time and we are feeling lost all the more lost very lost in this desert very desert, and there is no one around us no no one very around us at all very all and there are birds very birds of which there are many very many, but the birds very birds don't know don't know how to help us and us and us help start the car very car and we are more lost more lost and we need help need very very help need very very help help and there is no no no one around us except if you count count count those ants in the ant hill that is all we have all we have are the ants very ants and then we wire them up yes wire them up yes I said wire wire wire and with the force of all the ants all wired all wired up and then on the count of three we all yell "CHARGE!"

 

BATERIA

Nos perdemos no deserto, perdidos muito perdidos, e embora nós não dissemos  a ninguém que não podíamos estar a mais de duas milhas da civilização, o fato é que permanecemos muito perdidos no deserto muito deserto, e o carro estava tendo muita dificuldade e muita dificuldade para dar partida novamente, então nós o chutamos muitas vezes na sua traseira e o carro ainda continuou passando por um momento muito difícil e estavámos nos sentindo perdidos ainda mais perdido, muito perdido neste deserto, muito deserto, e não havia ninguém ao nosso redor, ninguém em volta de nós, e havia pássaros, muitos pássaros, dos quais há muitos, muitos, mas os pássaros muito pássaros  não sabiam como nos ajudar e nós e nós ajudamos a dar a partida no carro e estávamos mais perdidos mais perdidos e precisando de ajuda, precisamos de muito, necessitando muito, necessitando muito, de ajuda, necessitando muito, de ajuda. E não há ninguém por perto, exceto se você contar, contar, contar aquelas formigas no formigueiro que é tudo o que temos, tudo o que temos são as formigas muito formigas e então ligamos o arame sim arame nelas sim eu disse arame arame arame e com a força de todas as formigas todas aramadas e depois na contagem de três todos nós gritamos "CARREGAR!”

Ilustração: https://www.em.com.br/.

Sunday, March 14, 2021

Uma poesia de John Burnside

 


SEPTUAGESIMA

 John Burnside

I dream of the silence

the day before Adam came
to name the animals,

The gold skins newly dropped
from God's bright fingers, still
implicit with the light.

A day like this, perhaps:
a winter whiteness
haunting the creation,

as we are sometimes
haunted by the space
we fill, or by the forms

we might have known
before the names,
beyond the gloss of things.

 

SEPTUAGÉSIMA

Eu sonho com o silêncio

um dia antes de Adam vir

para nomear os animais,

 

As peles de ouro recém-caídas

dos dedos brilhantes de Deus, ainda

implícitas com a luz.

 

Um dia como este, talvez:

uma inverno de brancura

assombrando a criação,


como somos alguns tempos

assombrados pelo espaço

preenchidos, ou pelas formas

 

que poderíamos saber

antes dos nomes,

além do brilho das coisas.

 

Ilustração: http://storage.ning.com

Uma poesia de Cecilio Acosta

 


MADRIGAL

 

Cecilio Acosta

 

Echó de menos la Aurora

Una vez su luz que dora,

Y como día tras día

Pálida siempre salía,

Dando quejas lastimosas,

Lloró perdidas sus rosas,

Y en encontrarlas se aferra

Corriendo cielos y tierra...

Delia, ya sé que es robado

El esplendor con que brillas,

Y que la Aurora ha encontrado

Sus rosas en tus mejillas.

 

MADRIGAL

 

Perdeu a hora a Aurora

Uma vez que sua luz doura,

E como um dia atrás do dia

Pálida sempre saia,

Dando queixas lastimosas

Chorou suas rosas perdidas,

E para encontrá-las se aferra

Correndo os céus e a terra ...

Delia, já sei que é roubado

O esplendor com que brilhas,

E que a Aurora há encontrado

Suas rosas em tuas bochechas.

Ilustração: https://mnscu.rschooltoday.com/.