Saturday, April 10, 2021

Três poeminhas de Ogden Nash

 


CELERY

Ogden Nash

Celery, raw

Develops the jaw,

But celery, stewed,

Is more quietly chewed.

AIPO

Aipo cru

Desenvolve a mandíbula,

Porém aipo, cozido,

É melhor para calmamente ser mastigado.

 

MY DREAM

Ogden Nash

This is my dream,
It is my own dream,
I dreamt it.
I dreamt that my hair was kempt.
Then I dreamt that my true love unkempt it.

 

MEU SONHO

Este é o meu sonho,

É meu próprio sonho,

Eu o sonhei.

Eu sonhei que meu cabelo estava penteado.

Então eu sonhei que meu verdadeiro amor o despenteava.


INTROSPECTIVE REFLECTION

Ogden Nash

would live all my life in nonchalance and insouciance

Were it not for making a living, which is rather a nouciance.

 

REFLEXÃO INTROSPECTIVA

viveria toda a minha vida indiferente e despreocupado

Não fosse ter que ganhar a vida, o que é antes uma nostalgia.

Ilustração: https://blogdoguida.wordpress.com.

Friday, April 09, 2021

XX

 


Uma baratinha passou por mim.

Talvez por humanidade, piedade,

quem sabe mesmo por preguiça,

como não havia ninguém para dar um gritinho,

não peguei o chinelo

nem usei o inseticida

para acabar com a sua vida.

Passou por mim e seguiu seu caminho

indiferente

até encontrar um esconderijo-

não sei onde-

em que ficou quietinha

para viver o resto de sua vidinha,

nem sei mesmo se contente,

de barata!

Ilustração: https://essa-vale-a-pena-ver.blogspot.com/.

(Do livro inédito "Cem Poemas em Cem Dias"). 

Outra poesia de Rafael Courtoisie

 


 

EL AMOR DE LOS LOCOS

 

Rafael Courtoisie

 

Un loco es alguien que está desnudo de la mente. Se ha despojado de sus ropas invisibles, de esas que hacen que la realidad se vele y se desvíe. Los locos tienen esa impudicia que deviene fragilidad y, en ocasiones, belleza. Andan solos, como cualquier desnudo, y con frecuencia también hablan solos («Quien habla solo espera hablar con Dios un día»).
Más difícil que abrigar un cuerpo desnudo es abrigar un pensamiento. Los locos tienen pensamientos que tiritan, pensamientos óseos, duros como la piedra en torno a la que dan vueltas, como si se mantuvieran atados a ella por una cadena de hierro de ideas.
El cerebro de un pájaro no pesa más que algunos gramos, y la parte que modula el canto es de un tamaño mucho menor que una cabeza de alfiler, un infinitésimo trocillo de tejido, de materia biológica que, con cierto aburrimiento, los sabios escrutan al microscopio para descifrar de qué manera, en tan exiguo retazo, está escrita la partitura.
Pero desde mucho antes, y sin necesidad de microscopio ni de tinciones, el loco sabe que el canto del pájaro es inmenso y pesado, plomo puro que taladra huesos, que se mete en el sueño, que desfonda cualquier techo y no hay cemento ni viga que pueda sostener su hartura, su tamaño posible. Por eso algunos locos  despiertan antes de que amanezca y se tapan los oídos con su propia voz, con voces que sudan de adentro, de la cabeza.
Los pensamientos del loco son carne viva, carne sin piel. En el desierto del pensamiento del loco el pájaro es un sol implacable. El canto cae como una luz y un calor que le picara al loco en la carne misma de la desnudez.
Pero la desnudez del loco es íntima: de tanto exhibirla queda dentro. Es  condición interior, pasa desapercibida a las legiones de cuerdos cuya ánima está cubierta por completo de  tela basta, gruesa, trenzada por hilos de la costumbre.
El único instrumento posible para el loco, para defender su desnudez, es el amor. El amor de los locos es una vestimenta transparente. Esos ojos vidriosos, ese hilo ambarino que orinan por las noches, ese fragor y ese sentimiento copioso y múltiple que no alteran lasbenzodiazepinas, que no disminuye el Valium, permanecen intactos en el loco por arte del amor.
Es un martillo, y una cuchara, y un punzón. Es todo menos un vestido, no cubre sino que atraviesa, no mitiga sino que exalta. El amor de los locos tiene una textura, un porte y una sustancia.
La sustancia se parece al vidrio, pero es el vidrio de una botella rota.

                                       

O AMOR DOS LOUCOS

Um louco é alguém que tem a mente nua. Ele se desfez de suas roupas invisíveis, do tipo que faz a realidade velar e se desviar. O louco tem aquela ousadia que vira fragilidade e, às vezes, beleza. Andam sozinhos, como qualquer outro nu, e muitas vezes também falam sozinhos ("Quem fala só espera um dia falar com Deus").

Mais difícil do que abrigar um corpo nu é abrigar um pensamento. Os tolos têm pensamentos trêmulos, pensamentos ossudos, duros como a pedra em torno da qual giram, como se estivessem amarrados a ela por uma corrente de ferro de idéias.

O cérebro de um pássaro não pesa mais do que alguns gramas, e a parte que modula o canto é bem menor que a cabeça de um alfinete, um pedaço infinitesimal de tecido, de matéria biológica que, com certo tédio, os sábios examinam ao microscópio para decifrar como, em um tão exíguo espaço está escrita a partitura.

Porém desde muito antes, e sem a necessidade de microscópio ou coloração, o louco sabe que o canto do pássaro é imenso e pesado, puro chumbo que perfura os ossos, que adormece, que derruba qualquer teto e não há concreto ou viga que possa sustentar sua plenitude, seu tamanho possível. É por isso que alguns loucos acordam antes do amanhecer e tapam os ouvidos com a própria voz, com vozes que soam de dentro, de suas cabeças.

Os pensamentos do louco são carne crua, carne sem pele. No deserto do pensamento do louco o pássaro é um sol implacável. O canto cai como uma luz e um calor que vai picar ao louco na carne mesmo da nudez. Porém a nudez do louco é íntima: de tanto exibi-la, fica dentro. É uma condição interior, que passa despercebida às legiões dos sãos, cuja alma está coberta por completo por uma tela vasta e grossa, tecida por fios de costume.

O único instrumento possível para o louco defender sua nudez é o amor. O amor dos loucos é uma vestido transparente. Esses

olhos vidrados, esse fio âmbar que urina pelas noites, esse fragor e esse sentimento copioso e múltiplo que não alteram os benzodiazepínicos, que não diminui o Valium, permanecem intactos no louco pela arte do amor.

É um martelo, uma colher e um furador. É tudo menos um vestido, não cobre, sim atravessa, não mitiga sim exalta. O amor dos loucos tem uma textura, um porte e uma substância.

A substância se parece vidro, porém é o vidro de uma garrafa quebrada.

Ilustração: Revista Bula.

Mais uma poesia de Manuel Ruiz Amezcua

 


ÍTACA

Manuel Ruiz Amezcua

Los cantos de las sirenas

son el canto del misterio
del universo, que hace imposible
la huida de tu pasado.

Impulsados por la oscuridad
son una fuerza terrible.

Son el viaje al inframundo
y la historia del regreso
a un presente desterrado.

Es la antigua presencia,
que regresa de nuevo,
y a la que ya no puedes dominar.

Es una eternidad mirando a otra
la que tiene su centro
en los caminos de lo universal,
y a la que no podremos dominar.

Por ella circula la vida.
Sin miedo, y con deseo,
te ofrecerá el camino.

Míralo de nuevo, y echa a andar.

ÍTACA

Os cantos das sereias

são a canção do mistério

do universo, o que torna impossível

a fuga do teu passado.


Impulsionado pela escuridão

são uma força terrível.

São a viagem ao submundo

e a história do regresso

para um presente exilado.

É a antiga presença

que volta de novo,

e a que não pode mais dominar.

 

É uma eternidade olhando para outra

Que tem seu centro

nos caminhos do universal,

e que não podemos dominar.

 

Por ela circula a vida.

Sem medo e com desejo,

te oferecerá o caminho.

 

Olha de novo e toca a andar.

Ilustração: https://www.fragatasurprise.com/.

Thursday, April 08, 2021

Outra poesia de Kate Fagan

 

Through a Glass Lightly

Kate Fagan

Cento for Beginners


The nasturtium is to itself already

a memory. It opens its leaves

its fire

ribbed impression in the grass

that forms like shadow.

I see it plain

as a living fretwork

in the distortion of sound,

press a leaf to a winter dream

of your hand

translated, given.

Our love calls and we lie

in the future of cells dividing,

a water drop

clean in its own shape.

A nasturtium between itself

and us, showing the light.

Time to be born.

 

ATRAVÉS DE UM VIDRO SUAVEMENTE

Cento para iniciantes

 

O flamboyant não é para si mesma

uma memoria. Abre suas folhas

de fogo

impressão nervurada na grama

que se forma como uma sombra.

Eu vejo isto claramente

como uma rede viva

na distorção do som,

pressionando uma folha para um sonho de inverno

de sua mão

traduzida, dada.

Nosso amor chama e nós mentimos

no futuro das células divididas,

uma gota d'água

limpa em sua própria forma.

Um flamboyant entre si

e nós, mostrando a luz.

É tempo de nascer.

Ilustração: https://agro20.com.br/flamboyant/.

Wednesday, April 07, 2021

Uma poesia de Dolores Veintimilla

 


A un reloj 

Dolores Veintimilla 

Con tu acompasado son
Marcando vas inclemente
De mi pobre corazón
La violenta pulsación...
¡Dichosa quien no te siente!

Funesto, funesto bien
Haces reloj... La venida
Marcas del ser a la vida,
Y así impasible también
La hora de la partida.

 A UM RELÓGIO

 Com teu compassado som

Marcando vais inclemente

Do meu pobre coração

A violenta pulsação ...

Feliz de quem não te sente!

 

Sinistro, bem sinistro

Fazes relógio ... a vinda

Marcas do ser para a vida,

E assim impassível também

A hora da partida.

Ilustração: https://wwwwilsonpontual33.blogspot.com/.

Monday, April 05, 2021

Uma poesia de María Antonieta Flores

 


VIENTO

 

 

 María Antonieta Flores

 

será sin compasión

 

esto que golpea tu piel y desordena tu cabello

 

rejas antiguas
borrada en el paisaje
de sus antiguos olores

 

la falda que la mano detiene
mientras desfallece la sólida línea de tu deseo

 

descubres en un largo pasillo dos cuerpos
y un abrazo abaratado

 

descubres que tus labios se abren sin precaución
y que lejos de aquellos lugares
amas

 

bajo un cuerpo que hace hebras la ternura
y te susurra

 

allá quedó el lugar donde la esquina era el comienzo
de la maldición

 

la rutina torpe de los que apenas comprenden sus pasos

 

el viento no te despeina sino sus manos

 

y su boca que te besa
detiene tu desorden


VENTO

 

será sem compaixão

 

isto que golpeia tua pele e desordena teu cabelo

 

bares antigos

apagados na paisagem

de seus antigos odores

 

a saia que a mão detém

enquanto desfalece a linha sólida do teu desejo

 

descobre em um largo corredor

e um abraço barato

 

descobrea que teus lábios se abrem sem precaução

e tão longe daqueles lugares

amas

 

debaixo de um corpo que exala ternura

e te sussurra

 

ali ficou o lugar onde a esquina era o começo

da maldição

 

a torpe rotina desajeitada de quem mal compreende seus passos

 

o vento não te incomoda sim suas mãos

 

e sua boca que te beija

detém tua desordem  

Ilustração: https://i1.wp.com/sonhoseguro.com.br, 

 

Sunday, April 04, 2021

De volta Emile Nelligan

 


Quelqu'un pleure dans le silence...

Emile Nelligan

Quelqu'un pleure dans le silence

Morne des nuits d'avril;

Quelqu'un pleure dans la somnolence

Longue de son exil;

Quelqu'un pleure sa douleur

Et c'est mon cœur !

ALGUÉM CHORA NO SILÊNCIO ...

Alguém chora no silêncio

Nas noites sombrias de abril;

Alguém chora de sonolência

Longe de seu exílio;

Algum chora de dor

E este é o meu coração!

Ilustração: Getty Imagens.

Saturday, April 03, 2021

Um poeminha de Maria Lorente Becerra

 


VI

Maria Lorente Becerra

Fuimos esa mirada,

conjunto indescifrable

de entrañas y silencio.

Estuve tan sin ti,

tan sin mí

e irremediablemente

fuimos más que todo.

 

VI

Fomos este olhar,

conjunto indecifrável

de entranhas e silêncio.

Estive tão sem ti

tão sem mim

e irremediavelmente

fomos mais que tudo.

Ilustração: https://elplacerdelalectura.com/.

Friday, April 02, 2021

Outra poesia de Manuel Ruiz Amezcua

 


FUEGO EN LO OSCURO

Manuel Ruiz Amezcua

                               [Para Sara, nuestra perra.]

Acaba de nacerle un hijo.

Lo ha llevado en su vientre

dos meses y unos días.

 

Va de acá para allá

con la locura del instinto,

con el desasosiego de la sangre,

con el temor de la tristeza.

 

Gruñe y jadea, mueve

el cuerpecillo inmóvil.

Sus ojos son el reino del espanto.

 

Hay algo que la enloquece,

que no entiende,

que no puede comprender.

 

Y mira desde otro mundo…

 

Se queda quieta, esperando a la vida.

Se queda sola, lamiendo a la muerte.

 

 

FOGO NO ESCURO

 

                       (Para Sara, nossa cadela)

 

Acaba de nascer-lhe um filho.

Que carregou em seu útero

dois meses e uns dias.

 

Vai daqui para lá

com a loucura do instinto,

com o desassossego do sangue,

com o temor da tristeza.

 

Grunhe e suspira, move-se

o corpito imóvel.

Seus olhos são o reino do espanto.

 

Há algo que a enlouquece

que não entende,

que não pode compreender.

 

E olha desde outro mundo ...

 

Se queda quieta, esperando pela vida.

Se queda só, lambendo a morte.

Ilustração:  https://vonbabricoshkennel.wordpress.com.

 


Cantiga da Biitinha

 


Menina, menininha

Que pegou meu coração

Seja bem comportadinha

Me dê um beijo e a mão.

 

Olha, meu querido amor,

Quem te fez bonita assim,

Se inspirou foi numa flor

Feitinha só para mim.

 

Biita, minha biitinha,

Por causa de ti não durmo

É tanta saudade, a minha

Que virei guarda noturno.

 

Florzinha do coração

Que nasceu pra me tentar

Só te canto esta canção

Na esperança de te amar.


Não te vi minha biitinha,

Mas, gemo só de saudade

Ah! Danada de lindinha!

Me salva, por caridade!

 


Mais uma poesia de Anna Marchesini

 


Anna Marchesini

La mia solitudine  

si sta così sublimando

che quando raggiungerò la perfezione:

compiacimento più partigiano di sé,

forse non mi lascerà più scampo

e non potrò che matrimoniarmi

alla più esotica

e ambigua

disperazione …

 

A minha solidão

é sim esta coisa tão sublimadora

que quando alcançar à perfeição:

a complacência partidária de si mesmo,

possivelmente não me deixará mais fugir

e só posso casar

para o mais exótico

e ambíguo

desespero ...

 

Thursday, April 01, 2021

Uma poesia de Luis Carlos Mussó

 

Telegrama

Luis Carlos Mussó

de indiana. a tantos de tantos.– En este naufragio sin olas, punto. Quise asentadas las huellas, punto. Pero no están las lumbres en la pupila ni en el húmedo azogue, punto. Y tanto ya no están, que en su lugar creció la demencia como idioma cuyas ramas fabrican una pizarra desbarrancada, punto. Y hallo un zodiaco que se remienda con exterminios negados a la derrota abierta, punto. Maestría y desamparo en este calidoscopio de pesadillas acuclilladas, punto. Aunque la amenaza del bufón sea el crimen más ligado a tu aliento –a la escasez de estas alforjas–, punto. Extenuados, un par de ángeles oscuros cierran mis ojos, punto. Les ha dado por medrar conmigo, punto

 

TELEGRAMA

de indiana. para tantos de tantos.– Neste naufrágio sem ondas, ponto. Quis assentar as trilhas, ponto. Porém não estão as luzes na pupila nem no úmido mercúrio, ponto. E tanto já não estão, que em seu lugar cresceu a demência como um idioma cujos ramos fabricam uma ardósia desbarrancada, ponto. E encontro um zodíaco que se remenda com extermínios negados à derrota declarada, ponto. Maestria e desamparo neste caleidoscópio de pesadelos agachados, ponto. Ainda que a ameaça do bobo da corte seja o crime mais ligado ao teu hálito - à escassez destes alforjes -, ponto. Extenuados, um par de anjos negros fecham meus olhos, ponto. Eles me foram dados para prosperar comigo, ponto.

Ilustração: http://www.anosdourados.blog.br/.