Thursday, August 07, 2025

Uma poesia de Mario Luzi

 


Mario Luzi

Scrive lui,

                 ripercorre

cioè

l’immemorabile scrittura,

s’immette in quelle tracce

nitide o inselvate,

entra in quella logia,

                                    filtra in quella grafia,

ne segue gli aculei e le volute,

ripete le sue cifre.

                                Scrive

lui scriba

                   il già scritto da sempre

eppure mai finito,

mai detto, detto veramente.

                     Chi suscita quei semi,

chi anima quel firmamento?

                                                   Opera

la sua propria genitura,

                                        si risveglia

a se stesso il morto segno.

L’autore? Non sa niente di sé,

l’autore – Mia è la prova, mio il martirio –

pensa lui che scrive

- o è questa la creazione,

                                                  lui che scrive appunto?

 

Escreve ele,

isto é, retraço

a imemorial escrita,

se intromete nesses traços,

nítidos ou selvagens,

entra nessa lógica,

filtra nessa grafia,

segue seus espinhos e espirais,

repete suas cifras.

Escreve ele,

o escriba,

o que sempre foi escrito,

mas nunca terminado,

nunca dito, verdadeiramente dito.

Quem semeia essas sementes,

quem anima esse firmamento?

Opera

o seu próprio nascimento,

reaviva

o sinal morto para si mesmo.

O autor? Ele nada sabe de si mesmo,

o autor-Minha é a prova, meu o martírio-

pensa aquele que escreve-

ou é esta a criação,

daquele que escreve com precisão?

Ilustração: Perícia Forense.

Outra poesia de Alfredo Lavergne

 


DISCURSO

Alfredo Lavergne

Que no me conocen y no comprenden
Le dije a un amigo un día:
Cuando leo No regreso Nada cambia
Si estamos a favor de signos
O en contra del asedio de un villorrio.
Con la realidad de las cosas
O con terribles
Tiranos Colaboradores Cooperantes
Y digo que he protestado A los libros
Con los cuales comparto mi rastro
Y los saludos que envía la madre naturaleza.

DISCURSO

Que não me conhecem e não me entendem

Disse a um amigo um dia:

Quando leio, não retorno. Nada muda.

Se estamos a favor de sinais.

Ou contra o cerco de uma aldeia.

Com a realidade das coisas.

Ou com terríveis.

Tiranos. Colaboradores. Cooperadores.

E digo que protestei. Aos livros.

Com os quais compartilho meu rastro.

E às saudações que envio à Mãe Natureza.

Ilustração: Portal Ambiente Legal.

Wednesday, August 06, 2025

Um poema de Dimitri Fulignati

 


1)

 Dimitri Fulignati

Durante il sonno i bambini imparano l’astrazione.

 

Azione incontrollata che permette di percepire le

informazioni come legami, come sintomi.

 

L’invenzione dello spontaneismo, la cancellazione della retorica.

 

La concentrazione ha bisogno della distrazione come una strategia obliqua.

 

La messa a morte del capro espiatorio,

pensiamo troppo ai corsi e poco ai percorsi.

 

Gli esperti della scientifica di Pensacola sostengono che

sui tacchi alti il polpaccio, rivolto a ovest ma diretto a est, si esalta.

 

E’ terminata l’era preironica:

nella pianura dei lussureggianti canneti un maialino

di cinta senese grigliato e i mormorii

dei polsi di donne gravide.

 

Cargo libico fermo per panne ai motori, destinazione incerta.

1)

 

Durante o sono, os meninos aprendem a abstração,

 

Uma ação incontrolada que lhes permite perceber a

informação como uma cadeia, em forma de sintoma.

 

A invenção da espontaneidade, a ausência de retórica.

 

A concentração requer a distração como uma estratégia obliqua.

 

Condena a morte o bode expiatório,

pensamos demais no objetivo e pouco no trajeto.

 

Os especialistas científicos de Pensacola sustentam que

sobre os saltos altos os músculos gêmeos, dirigidos para o

oeste, porém, diretos a este, se exaltam.

 

Está terminada a era pre-irônica:

a planícies de juncos exuberantes, um leitão

com marca de Sienna na grelha e sopros

de mulheres grávidas.

 

A carga libidinosa se estanca, rugem os motores,

o destino é incerto.

Ilustração: X.

Uma poesia de Eduardo Carranza

 


POESIA

Eduardo Carranza

Antonio, nuestro oficio es ir poniendo

las palabras, una tras otra,

como días y días, unos tras otros,

con su pausa nocturna de estrellas o silencio.

Trabajo que de pronto, tú lo sabes,

vuela de nuestras manos convertido

en radiante paloma o gerifalte.

La luz anda descalza en lo que hablamos,

pero también la noche y la tristeza.

Nuestra palabra, tú también los sabes,

suena a veces como un reloj

en una casa abandonada, oscura,

dando las horas para nadie.

Como la campanilla del teléfono

en la estancia vacía.

O como una campana en un desierto

tañendo para nadie.

Nuestro trabajo, Antonio, es ir cayendo

todos los días hacia el corazón.

Cierro tu libro y pienso: estamos solos

en el umbral de qué, de qué, Díos mío?

Y la noche nos lleva como un ciego

a otro ciego, del brazo, dulcemente.

POESIA

Antônio, nosso trabalho é ir colocando

as palavras, uma atrás da outra,

como dias e dias, uns atrás dos outros,

com sua pausa noturna de estrelas ou silêncio.

Trabalho que logo, tu o sabes,

voa de nossas mãos convertido

em radiante pomba ou falcão.

A luz anda descalça no que falamos,

porém também a noite e a tristeza.

Nossa palavra, tu também o sabes,

soa às vezes como um relógio

numa casa abandonada, escura,

marcando as horas para ninguém.

Como a campainha do telefone

na residência vazia.

Ou como um sino num deserto

badalando para ninguém.

Nosso trabalho, Antônio, é ir caindo

todos os dias rumo ao coração.

Fecho teu livro e penso: estamos sós

no umbral de quê? de quê, Deus meu?

E a noite nos leva como um cego

a outro cego, de braço, docemente.

Ilustração: Bible.com.

 

Tuesday, August 05, 2025

Uma poesia de Juan Ramón


VARIACIÓN FLORAL SOBRE UNA LETRA DE

Juan Ramón

Ella me preguntaba de rosas ignoradas

y yo le respondía de rosas imposibles.

VARIAÇÃO SOBRE UMA LETRA DE FLORES

Ela me perguntava de rosas ignoradas

e eu lhe respondia de rosas impossíveis.

Sunday, August 03, 2025

Sem Saída


Se Kant das coisas em si nada sabia

que saberei eu, um iletrado de periferia ?

Depois que, no Brasil, as palavras perderam seu significado

todo fenômeno se torna inexplicável. 

Toda definição, agora, é improvável.

Tudo que era certo está errado,

o mundo imprevisível, nebuloso,

o que era sólido, gasoso, 

tanto que não digo nada

com medo de levar pancada. 

É que o óbvio se tornou tão complicado-

com o que era não sendo o que é-

que para não ser como criminoso enquadrado,

diante da dissolução da semiótica, 

ou me declaro, logo, culpado

ou só me resta permanecer calado!

Ilustração: vocacionados WordExpress. 


Tuesday, July 29, 2025

Outra vez Gustavo Yuste

 


FUNCIÓN DE TRASNOCHE

Gustavo Yuste 

Veo una foto tuya,
mastico comida descongelada,
se empiezan a apagar las ventanas
de los vecinos.
Mi lámpara de bajo consumo
en medio de la noche:
el faro que necesita la angustia
para desembarcar
y empezar su conquista.

FUNÇÃO NOTURNA

Vejo uma foto tua,

mastigo comida descongelada,

começam a se apagar as janelas

dos vizinhos.

Minha lâmpada de baixo consumo

no meio da noite:

o farol que necessita a angústia

para desembarcar

e começar sua conquista.

Ilustração: Psitto.

Uma poesia de Luigi Di Ruscio

 

 


Luigi Di Ruscio

Con la fine degli umani

i grattacieli si copriranno

improvvisamente di licheni spumosi

gli asfalti inizieranno fioriture

che richiameranno gli insetti più luminosi

nessun gatto

rischierà di venire castrato

nell’universo rimarrà lo splendente ricordo

di essersi visto con l’occhio umano.

 

Com o fim dos humanos,

os arranha-céus se cobrirão

imprevistamente de líquidos espumosos

o asfalto começará a florescer

o que atrairá os insetos mais luminosos

nenhum gato

correrá o risco de vir à ser castrado

no universo permanecerá a esplendorosa memória

de ter se visto com o olho humano.

Ilustração: Leaf Eco.

Uma poesia de Alfredo Lavergne

 


MELANCOLIA

Alfredo Lavergne

Retorno a mi país y llego a otro.
Soy el condenado a buscar...
Esa tierra que especifica mi alma
Esa raíz que no cambia de personalidad
Ese azote de los ojos al cerebro
Ese tiempo testimonial Esa gente que existe en mí
Y mi desesperación
Pasa por calles que tienen su sirena y sirenas.

MELANCOLIA

Retorno ao meu país e chego a outro.
Sou condenado a buscar...
Essa terra que especifica minha alma
Essa raíz que não muda de personalidade
Essa tragédia dos olhos ao cérebro
Esse tempo de testemunho Essa gente que existe em mim
E meu desespero
Passa por ruas que têm sua sirene e sirenes.

Ilustrações-Cópias de Arte.

Monday, July 28, 2025

Opção Única


Não me venha com  a vida real. 

Depois que inventaram o mundo digital

Desisti de viver no baixo-astral.  


Só me interessa o sonho.

Uma poesia de Djuna Barnes

  


I’D HAVE YOU THINK OF ME

Djuna Barnes

As one who, leaning on the wall, once drew

Thick blossoms down, and hearkened to the hum

Of heavy bees slow rounding the wet plum,

And heard across the fields the patient coo

Of restless birds bewildered with the dew.

 

As one whose thoughts were mad in painful May,

With melancholy eyes turned toward her love,

And toward the troubled earth whereunder throve

The chilly rye and coming hawthorn spray-

With one lean, pacing hound, for company.

EU QUERIA QUE VOCÊ PENSASSE EM MIM

Como quem, encostado na parede, certa vez, desenhou

Flores grossas, e ouviu o zumbido

De abelhas pesadas rondando suavemente a ameixeira molhada,

E ouviu através dos campos o arrulho paciente

De pássaros inquietos e perplexos com o orvalho.

 

Como alguém cujos pensamentos eram loucos num maio cheio de dor,

Com olhos melancólicos voltados para o seu amor,

E para a complicada terra onde, sob ela, fervilhavam

O centeio frio e os ramos de espinheiro que se aproximavam-

Com um cão magro, a passo largo, como companhia.

Ilustração: Dreamstime. 

Outro poema de Esdras Parra

 

 

SOBRE QUÉ MUROS APOYARÉ MI CABEZA...

Esdras Parra

¿Sobre qué muros apoyaré mi cabeza?

Mi memoria no retiene aún la imagen de esa

casa cerrada prestada al abismo

un botín arrancado a mi ilusión

ahora me apodero de su gracia

mis brazos no tienen fin

 

¿qué significa para mí el silencio, la apretada mordaza?

 

lo imprevisible no es presa fácil

enfrento, como siempre, una nueva máscara.

SOBRE QUE MUROS APOIAREI MINHA CABEÇA

Sobre que muros apoiarei minha cabeça?

Minha memória não retém ainda a imagem daquela

casa fechada emprestada ao abismo

um botim arrancado da minha ilusão

agora apodero de sua graça

meus braços são infinitos

 

o que significa para mim o silêncio, a apertada mordaça?

 

o imprevisível não é uma presa fácil

enfrento, como sempre, uma nova máscara.

Ilustração: Wondeland in Rave.

Saturday, July 26, 2025

Um poema sobre o escritor de Mario Luzi

 


Mario Luzi

Scrive lui,

                 ripercorre

cioè

l’immemorabile scrittura,

s’immette in quelle tracce

nitide o inselvate,

entra in quella logia,

                                    filtra in quella grafia,

ne segue gli aculei e le volute,

ripete le sue cifre.

                                Scrive

lui scriba

                   il già scritto da sempre

eppure mai finito,

mai detto, detto veramente.

                     Chi suscita quei semi,

chi anima quel firmamento?

                                                   Opera

la sua propria genitura,

                                        si risveglia

a se stesso il morto segno.

L’autore? Non sa niente di sé,

l’autore – Mia è la prova, mio il martirio –

pensa lui che scrive

- o è questa la creazione,

                                                  lui che scrive appunto?

 

Escreve ele,

isto é, retraça

a imemorial escrita,

se intromete nesses traços,

nítidos ou selvagens,

entra nessa lógica,

filtra nessa grafia,

segue seus espinhos e espirais,

repete suas cifras.

Escreve ele,

o escriba,

o que sempre foi escrito,

mas nunca terminado,

nunca dito, verdadeiramente dito.

Quem semeia essas sementes,

quem anima esse firmamento?

Opera

o seu próprio nascimento,

reaviva

o sinal morto para si mesmo.

O autor? Ele nada sabe de si mesmo,

o autor-Minha é a prova, meu o martírio-

pensa aquele que escreve-

ou é esta a criação,

daquele que escreve com precisão?

Ilustração: Blog do Colaborador Golin. 

A HORA MUDA

 


A engrenagem emperrou sem motivo
E a hora que viria ficou parada

O toque esperado do grande relógio
De algo minúsculo ficou cativo.

Apesar de tudo o tempo continuou
E a vida seguindo voou, voou....

(De “Águas Passadas”, Editora Per Se, 2013).

Ilustração: O Globo.

 

Outra Poesia de Olvido García Valdéz

 


GIRASOL, NEGRO PÁRPADO, MULTIPLICADA...
Olvido García Valdéz

Girasol, negro párpado, multiplicada
curva para el deslumbramiento. Somos
sólo cautivos,
presencias dentro de otros
que nos llevan. Allá, muy lejos,
el taxista le dijo: discúlpeme,
la ciudad es muy grande, sólo
manejo por las orillas.

GIRASSOL, PÁLPEBRA NEGRA, MULTIPLICADA

Girassol, pálpebra negra, multiplicada

curva para o deslumbramento. Somos

só cativos,

presenças dentro de outros

que nos levam. Além, muito longe,

o taxista lhe disse: desculpe-me,

a cidade é muito grande, só dirijo

nos arredores.

Ilustração: VTV News.

 

Amor Secreto por William Blake

 


LOVE’S SECRET

William Blake

Never seek to tell thy love,
  Love that never told can be;
For the gentle wind doth move
  Silently, invisibly.

I told my love, I told my love,
  I told her all my heart,
Trembling, cold, in ghastly fears.
  Ah! she did depart!

Soon after she was gone from me,
  A traveller came by,
Silently, invisibly:
  He took her with a sigh.

AMOR SECRETO

Nunca tente falar do seu amor,

Amor que nunca foi falado pode ser;

Pois o vento suave se move

Silenciosamente, invisivelmente.

 

Eu falei ao meu amor, eu falei ao meu amor,

Eu lhe falei com todo o meu coração,

Tremendo, frio, com terríveis medos.

Ah! Ela partiu!

 

Logo depois que ela se afastou de mim,

Um viajante passou,

Silenciosamente, invisivelmente:

Ele levou-a com um suspiro.

Ilustração: Wattpad.