Tuesday, February 17, 2015

Aqui..tão longe da minha cidade!


Minha cidade, que era como meu porto de descanso,
lugar de repouso das angústias, terra santa dos amores,
da cumplicidade e de tudo que me era familiar
me parece, agora, uma estranha.
Não tenho mais
a mesma sensação de segurança
ao percorrer suas ruas,
nem mais posso
andar pelas noites
sentindo às carícias do luar.
Até o mirante
de onde, muitas vezes,
contemplei o por do sol, inebriado,
não tenho mais acesso
nem posso mais,
como no passado,
brincar o carnaval
sem que uma confusão
faça o que era brincadeira
se tornar um inferno
como se o diabo,
vestindo terno,
viesse infernizar o carnaval.
Minha cidade,
de repente,
é esta cidade estranha,
de onde se foi a paz.
Minha cidade e eu,
infelizmente,
estamos em crise
e, como um casal que se perdeu,
moramos juntos,
mas, não nos amamos mais!
Para encerrar o caso 
só falta a lápide com “Um amor de quase 40 anos aqui jaz...”


Ilustração: www.skyscrapercity.com

Monday, February 16, 2015

Poemas mal comportados

Homem bom já nasce morto               


Todos os homens são iguais sob o velho sol.
E todos são:
Todos bebem, gostam de futebol,
cansam de tudo, zapeiam na televisão
e, em geral, são silenciosos,
inconfiáveis, preguiçosos.
Homens, como quadros na parede, 
devem ser postos no seu lugar,
como quem cuida de uma criança,
com algumas pancadas e carinho
regado com uma leve esperança.
Há uma notável diferença entre eles:
alguns vão embora e não voltam
E há os que sempre vão voltar.
Por este detalhe minha mãe
sempre dizia:
-Filha fica com o teu.
Esta é uma raça que não tem salvação.
É de bom senso ficar no labirinto em que se meteu
e não achar a entrada para a boca do leão.
Trocar de homem é trocar de confusão!

Ilustração: http://chiqsland.uol.com.br/

Sunday, February 15, 2015

Outra poesia de Fernando Luis Pérez Poza

 
MIRÉ EN TUS OJOS                                             
Fernando Luis Pérez Poza

Miré en tus ojos
y había mar abierto,
olas desbocadas, sueños,
vértigo desnucado.

Me fijé en tus manos,
llenas de juegos malabares,
lunas incendiarias, versos
que vuelan de piel a piel.

Acaricié tus pechos
de harina amasada,
la tierra cálida del placer,
fértil teatro de la espuma.

Y entonces…
Me pregunté tu nombre,
pero no supe qué decir.
Pasó volando una gaviota
y se llevó tu alma
como si sólo hubieras sido
un frágil pensamiento de la luz.

Olhei nos teus olhos

Olhei em teus olhos
e havia o mar aberto,
ondas furiosas, sonhos,
vertigem desnorteada.

Me fixei em tuas mãos,
cheias de malabares,
luas incendiárias, versos
que voam de pele a pele.

Acariciei teus seios
de farinha amassada,
a terra cálida do prazer,
fértil teatro da espuma.

E então ...
Me perguntei o teu nome,
porém, não soube o que dizer.
Passou voando uma gaivota
e levou sua alma
como se só tivesses sido
um frágil pensamento da luz.


Ilustração: mihkiane.blogspot.com

Amor de carnaval





Chegou sorrindo tão linda              
quanto era desconhecida,
e, nos meus braços prendida,
jurou ser minha toda vida…

Para sempre!– Exaltava a sorte
do destino ter nos conjugado.
E a escutei, acima do som, emocionado,
Me dizer que o amor ia além da morte.

O que seria imortal
este amor perfeito e pouco…
Foi nosso grande amor, afinal,

(Porém, fugaz, datado e fatal!)
Feliz em ser rápido e louco,
- como todo amor de carnaval…


Saturday, February 14, 2015

Um poema de Fernando Luis Pérez Poza

HOY TODO ME CANSABA                                
Fernando Luis Pérez Poza

Hoy todo me cansaba
y me salí de dentro
y me quedé solo, sin piel,
sin voz, sin esqueleto.
Los días morían
atrapados en el cuerpo,
uno tras otro,
en esa cárcel
llamada calendario
que se deshoja cada mes
y al año sufre doce otoños.
Y volé transparente,
cegado por la luz de un espejo
que me llamaba:
-Ven, poeta, no temas.
Agarra el papel, la pluma,
todos tus bártulos y ven.
Aquí te espero, poeta-
Pero yo me negué a ir
porque no se debe
complacer a la muerte.

Hoje tudo me cansava

Hoje tudo me cansava
e me saí de dentro
e fiquei só, sem pele,
sem voz, sem esqueleto.
Os dias morriam
presos no corpo,
um atrás do outro,
neste cárcere
chamado calendário
que se desfolha a cada mês
e no ano sofre doze outonos.
E voei transparente,
cego pela luz de um espelho
que me chamava:
-Vem, poeta, não temas.
Pega o papel, a caneta,
todos os seus pertences e vem.
Aqui te espero, poeta

Porém, eu me neguei a ir
porque não se deve
agradar à morte.


Ilustração: lekaflores.blogspot.com

Friday, February 13, 2015

Uma poesia de Jesus Andres Pico Rebollo




 AÑO VIEJO 

Jesus Andres Pico Rebollo

Trescientos sesenta y cinco días asesinados
oficialmente a las doce de la noche.

Pero se han ido muriendo de inanición,
desgana y desaliento,
hora a hora, instante a instante.
Pero se han muerto lentamente
famélicos y enfermos,
o en bruscos atentados,
víctimas de sus propios sueños,
las guerras y el miedo,
devorados por la tierra
que de repente abrió sus fauces
y no pudo recoger más llanto
caído de los cielos.
Pero han ido quebrándose paso a paso,
rompiéndose en pedazos
que recogen y mezclan
-aún el año está en capilla-
periodistas y amigos de frías estadísticas,
recogen y maquillan políticos sin norte,
los dueños de las cosas.

Y hay muertos para todos,
cadáveres de días
felices, desgraciados, que por fin enterramos.

Ano velho

Trezentos e sessenta e cinco dias assassinados,
oficialmente, às doze da noite.

Porém, já vinham morrendo de inanição,
desengano e desalento,
hora a hora, instante a instante.
Porém, já estavam mortos lentamente
famélicos ou enfermos,
ou em bruscos atentados,
vitímas de seus próprios sonhos,
as guerras e o medo,
devorados pela terra,
que, de repente, abriu suas faces
e não pode recolher mais o pranto
caído do céu.
Porém, estavam vindo quebrando-se passo a passo,
rompendo-se em pedaços,
que recolhem e mesclam
-ainda o ano está na capela -
jornalistas e amigos de frias estatísticas,
recolhem e maquiam políticos sem norte,
os donos das coisas.

E há mortos para todos,
cadáveres de dias,
felizes, desgraçados, que, por fim, enterramos. 

Thursday, February 12, 2015

O amor é sempre uma busca incessante

  

Os maiores amantes do mundo

“Nossos companheiros perfeitos nunca têm menos de quatro patas” (Sidonie Colette).

Quando a amava sentia
Que a vida em mim se esvaía
E a vida se esvaía nela.
Eu sendo a tampa;
Ela, a panela.

Quando eu a amava sentia
Que a vida se completava
E em oração se transformava
Ainda que fosse uma batalha em que a cama
Fosse o altar de quem ama.

Houve um tempo
Em que não sabia mais
Se o nosso amor era uma emoção de normais
Ou se não passava de um espasmo conjunto de loucura
Que se desfazia em gemidos e ais.

Sem que percebêssemos o tempo passava
Cada dia em que o amor mais nos esvaziava
Enquanto nos sentíamos mais gloriosos e fortes
E o nosso amor se tornou sem igual
Assim, de forma natural,
Passamos a ser os maiores amantes do mundo
E, de gozo em gozo, passamos ao êxtase profundo
Que nos fez gozar além das próprias mortes! 

Ilustração: plus.google.com

Wednesday, February 11, 2015

Uma poesia de Marina Alessio


FELIZ

Marina Alessio

Acabo de ver una camisa de hombre cayendo por el aire desde la ventana
Caía desde un piso muy alto de un edificio muy alto
La tiró una esposa enojada
o se cayó de una soga
¿Será feliz la camisa como las banderas?
Porque ayer me dijeron eso, que las banderas son felices
Me lo dijo alguien que se ató un mantel al cuello y corrió por un bosque
y se sintió bandera
o se sintió feliz
o percibió la felicidad de su mantel que se sentía bandera

Salgo al balcón
y pienso que si me tirara yo también podría ser feliz
pero miro para adelante y veo a la camisa
tirada en el techo de un galpón bajito y feo
inmóvil, sin vida
Miro para abajo y pienso
que si me tirara de un cuarto piso
mi felicidad duraría muy poco
y después quedaría como la camisa
tirada inmóvil y sin vida
entonces vuelvo a entrar
me siento frente a la computadora
y entiendo
que para ser feliz hay que estar
atada a un cuello o a un palo.

(de PecésTriana Editorial, 2010)

Feliz

Acabo de ver a camisa de um homem caindo pelo ar de uma janela
caiu de um andar muito alto de um edifício muito alto
a atirou uma mulher com raiva
ou caiu de uma corda
Será feliz a camisa como as bandeiras?
Porque ontem alguém me disse isso, que as bandeiras são felizes
Me disse alguém que se amarro no pescoço e corro através de uma floresta
e me sinto uma bandeira
ou me sinto feliz
ou sinto a felicidade da toalha de mesa que se sente bandeira

Vou até a varanda
e penso que se me jogarem eu também poderia ser feliz
porém, olho adiante e vejo a camisa
largada no telhado de um galpão baixinho e feio
imóvel, sem vida
Olho para baixo e penso
que se me jogassem de um quarto andar
minha felicidade duraria muito pouco
e, depois ficaria como a camisa
largada, imóvel e sem vida
Então, volto a entrar
Sento-me em frente ao computador
e entendo
que para ser feliz é preciso estar
amarrado a um pescoço ou a um pedaço de pau.

Ilustração: http://www.radiosolaris.com.br/

Tuesday, February 10, 2015

A dor e a delícia de ser poeta....

Destiny                                                                              
                          

Todo poeta é um monstro de insensibilidade
Por só escrever o que sente
Sempre se afastando da verdade.

Todo poeta sempre é falso.
Não vive. Procurando palavras doces
Para enfeitar a vida
Ou esconde a dor de viver
Sem escrever.

Todo grande poeta é sempre triste
Por colocar em suaves versos
Toda a beleza de um amor que não existe!

Destiny

Todo poeta es un monstruo de la insensibilidad
Por tan sólo escribe lo que siente
Siempre se aleja de la verdad.

Todo poeta es siempre falso.
No vive. Buscando palabras dulces
Para decorar la vida
O oculta el dolor de vivir
Sin escribir.

Cada gran poeta es siempre triste
Ponga por líneas suaves
Toda la belleza de un amor que no existe!

Monday, February 09, 2015

Uma poesia de Montserrat Álvarez

 
TENGO UNA SERPIENTE                                                                   

Montserrat Álvarez

T
engo una serpiente entre las piernas
un enigma en la cara
Tengo una serpiente
Tengo una serpiente entre las piernas
un enigma en la cara
un as en la manga
Tengo una serpiente entre las piernas
un nudo en el cuello
una aparente calma
Un haz de luces que desdeña
todo lo que los necios ven y piensan
Un alma que sueña y que sueña
Tengo una serpiente entre las piernas
que muerde y envenena a los vivientes
que emponzoña las pieles de las bestias
Tengo una serpiente entre las piernas
que anhela devorarte con su alma de fiera
Soy aquella que se yergue en las tinieblas
aquella que no posee sino sus garras y dientes
y pese a todo quiere poseerte
Yo soy aquella que desnuda se yergue
a la desnuda luz de las estrellas
y sobre los huesos de los muertos muere
Porque tengo una serpiente entre las piernas como un río
de fuego
como un tenue demonio como un callado cielo
Como un callado cielo

Tenho uma serpente

Tenho uma serpente entre as pernas
um enigma no rosto
Tenho uma serpente
Tenho uma serpente entre as pernas
um enigma no rosto
e um ás na manga
Tenho uma serpente entre as pernas
um nó no pescoço
uma aparente calma
Um feixe de luzes que desdenha
tudo o que os néscios veem e pensam
Uma alma que sonha e sonha
Tenho uma serpente entre as pernas
que anseia devorar-te com sua alma de fera
Sou aquela que se desnuda nas trevas
aquela que não possui senão suas garras e dentes
e que, apesar de tudo, deseja possuir-te
Eu sou aquela que nua se ergue
na luz nua das estrelas
e sobre os ossos dos mortos morre
Porque tenho uma serpente entre as pernas como um rio
de fogo
como um tenue demônio, como um calado céu
Como um calado céu.


Sunday, February 08, 2015

Falsa mansidão


Minha mansidão não veio do medo.
Veio do cálculo, seco e frio,
de que pouco me custava
dar o que me pediam.
Mas, ainda assim
ficou doendo em mim
o nada ter feito
a sensação ruim de deter
a vontade incontrolável de bater
o desejo mal contido de ferir
de ver o sangue escorrer...


Ilustração: http://mfcmamonas.no.comunidades.net/

Saturday, February 07, 2015

E mais uma poesia de Pablo Neruda

ES COMO UNA MAREA                                                            

Pablo Neruda

Es como una marea, cuando ella clava en mí
sus ojos enlutados,
cuando siento su cuerpo de greda blanca y móvil
estirarse y latir junto al mío,
es cómo una marea, cuando ella está a mi lado.

He visto tendido frente a los mares del Sur,
arrollarse las aguas y extenderse
inconteniblemente,
fatalmente
en las mañanas y al atardecer.

Agua de las resacas sobre las viejas huellas,
sobre los viejos rastros, sobre las viejas cosas,
agua de las resacas que desde las estrellas
se abre como una inmensa rosa,
agua que va avanzando sobre las playas como
una mano atrevida debajo de una ropa,
agua internándose en los acantilados,
agua estrellándose en las rocas,
agua implacable como los vengadores
y como los asesinos silenciosa,
agua de las noches siniestras
debajo de los muelles como una vena rota,
como el corazón del mar
en una irradiación temblorosa y monstruosa.

Es algo que me lleva desde adentro y me crece
inmensamente próximo, cuando ella está a mi lado,
es cómo una marea rompiéndose en sus ojos
y besando su boca, sus senos y sus manos.

Ternura de dolor, y dolor de imposible,
ala de los terribles deseos,
que se mueve en la noche de mi carne y la suya
con una aguda fuerza de flechas en el cielo.

Algo de inmensa huida,
que no se va, que araña adentro,
algo que en las palabras cava tremendos pozos,
algo que contra todo se estrella, contra todo,
como los prisioneros contra los calabozos!

Ella, tallada en el corazón de la noche,
por la inquietud de mis ojos alucinados:
ella, grabada en los maderos del bosque
por los cuchillos de mis manos,
ella, su goce junto al mío,
ella, sus ojos enlutados,
ella, su corazón, mariposa sangrienta
que con sus dos antenas de instinto me ha tocado!

No cabe en esta estrecha meseta de mi vida!
Es como un viento desatado!

Si mis palabras clavan apenas como agujas
debieran desgarrar como espadas o arados!

Es como una marea que me arrastra y me dobla,
es como una marea, cuando ella está a mi lado!


É como uma maré

É como uma maré, quando ela crava em mim
seus olhos tristonhos,
quando sinto o seu corpo de giz branco e móvel
esticar-se e palpitar junto ao meu,
é como uma maré, quando ela está comigo.

Já a vi estirada frente aos mares do Sul,
Arrojar-se nas águas, estender-se
incontívelmente,
fatalmente
nos amanheceres e entardeceres.

Água das ressacas sobre as velhas trilhas,
sobre os velhos rastros, sobre as velhas coisas,
água das ressacas que desde as estrelas
se abre como uma imensa rosa,
água que vai avançando sobre as praias
como uma mão atrevida sob a roupa,
água internando-se nas falésias,
água estalando-se sobre rochas,
água implacável como vingadores
e, como os assassinos, silenciosas,
Água das noites sinistras
debaixo  dos molhes como uma veia aberta,
como o coração do mar
num tremor e irradiação monstruosa.

É algo que me leva a partir de dentro e me cresce
imensamente próximo, quando ela está ao meu lado,
é algo como uma maré rompendo-se em seus olhos
e beijando sua boca, seus seios e suas mãos.

Ternura de dor, e dor impossível,
asa dos terríveis desejos,
que se move na noite da minha carne e na dela
com a aguda força de setas no céu.

Algo de imensa fuga,
que não se vai, que arranha dentro,
algo que nas palavras escava terríveis poços,
algo que contra tudo se choca, contra todos,
como os prisioneiros contra os calabouços!

Ela, talhada no coração da noite,
pela inquietação dos meus olhos alucinados:
ela, registrada nas árvores da floresta
pelas facas de minhas mãos,
ela, seu gozo junto ao meu,
ela, seus olhos tristonhos,
ela, seu coração, borboleta sangrenta
que com as suas duas antenas de instinto me tocaram!

Não cabe neste platô estreito da minha vida!
É como um vento desatado!

Se as minhas palavras apenas perfuram como agulhas
devem rasgar como espadas ou arados!

É como uma maré que me arrasta e me dobra,
é como uma maré, quando ela está ao meu lado!


Ilustração: www.sitedecuriosidades.com