Monday, September 19, 2022

Uma poesia de Aliah Lavonne Tigh

 


Pathogenesis

Aliah Lavonne Tigh

Sea of strangers exhales.              

                                              Something natural

 reorders us                without consent.           We reorder        

             the coastline.               My therapist:        

                                                            what do you feel

  in your stomach?     In your chest?    I feel nothing.  Nothing

 matters. I touch nothing.    I’m angry.   Stop

 asking.                 Have you ever stood on a shore,

felt the water change heights?  Felt the wet sand rush to squeeze

 your legs too tight?

                               In each of us:

                                             possibility,  a knife wedged

            under the mattress, a new strangeness, an undiscovered way

        we could touch each other, a bird never heard before

   singing, an untaken path,

                                     or genesis.

 

PATOGÊNESE

Mar de estranhas exalações

 

                                               Alguma coisa natural

nos reordena sem consentimento. Nós reordenamos

              o litoral. Meu terapeuta:

                                                             o que você sente

no seu estômago? No seu peito? Eu não sinto coisa alguma. Nada

matéria. Eu não toco em coisa alguma. Estou com raiva. Pare

de perguntar. Você já parou em uma praia,

sentiu a água trocar de altura? Sentiu a areia molhada correr para espremer

suas pernas muito apertadas?

                                 Em cada um de nós:

                                           a possibilidade, uma faca cravada

             debaixo do colchão, uma nova estranheza, um caminho desconhecido

     nós   poderíamos tocar um ao outro, um pássaro nunca ouvido antes

    cantando, uma trajetória não percorrida,

                                      ou a gênese.

Ilustração: São Paulo Secreto.

Uma releitura de Raúl Gómes Jattin

 


DESLUMBRAMIENTO POR EL DESEO

Raúl Gómes Jattin

Instantáneo relámpago
tu aparición
Te asomas súbitamente
en un vértigo de fuego y música
por donde desapareces

Deslumbras mis ojos
y quedas en el aire

DESLUMBRAMENTO PELO DESEJO

Relâmpago instantâneo

tua aparição.

Tu surges subitamente

numa vertigem de fogo e música

Por onde desapareces.

Deslumbras meus olhos

e permaneces no ar.

Ilustração: Purepeople.

Sunday, September 18, 2022

Um poema de Caitlin Makhlouf

 

YOU LEFT

Caitlin Makhlouf

You left to skate across the scabs. You left to hike around
the bush. To postpone. You left to repopulate Kentucky with
rabbits.You left to reconsider, to recalculate, to mask the S&M
in “activism”. You left to clear your mind, to bust your ass 24/7.
You left to reassess. To ascertain the concept of the “commune”.
On the transnational highway of white privilege, you left to
steer your social drive in a rental car —Thelma & Louise

May Alcott. “No phone reception”, “in the middle of nowhere”
—with your sporadic texts in neo-Braille, you left to mince
your words like meat. You left to be who you are. You left to
be yourself. Who you should be, if you had been who you
thought you were or thought you could be. You left to deftly
pack up everything in boxes, suitcases. To trick your stomach
full. You left with your bags of tricks and your organic smoke
bombs. You left to find your forest fire. Toward your national
park. Into your rangers’ arms.

VOCÊ SE FOI

Você se foi a patinar pelas crostas feridas. Você se foi para passear pelo o mato. Adiar. Você foi para repovoar Kentucky com

coelhos. Você foi para reconsiderar, recalcular, mascarar o S&M

em “ativismo”. Você foi para clarear sua mente, para rebentar sua bunda 24 horas por dia, 7 dias por semana. Você foi para reavaliar. Averiguar o conceito de “comuna”. Na estrada transnacional do privilégio branco, você foi para

dirijir seu impulso social num carro alugado -Thelma & Louise

 

Maio Alcott. “Sem recepção de telefone”, “no meio do nada”

-com seus textos esporádicos em neo-braille, você deixou de picar

suas palavras como carne. Você deixou de ser quem você era. Você deixou de ser você mesmo. Quem você deveria ser, se você tivesse sido quem você pensou que era ou pensou que poderia ser. Você foi habilmente embalando tudo em caixas, malas. A enganar teu estômago cheio. Você foi com suas bolsas de truques e suas bombas de fumaça orgânica. Você se foi para encontrar teu incêndio florestal. Em direção ao teu parque nacional. Nos braços de seus patrulheiros.

Ilustração: Dicas de Cancún.

Saturday, September 17, 2022

Uma poesia de Fernando Beltrán

 


LA BOCA DEL LEÓN

Fernando Beltrán

¿Os acordáis de niños, en el circo?

 

El domador metía de pronto la cabeza

en la boca del león, y todos tras un ohhh

de espanto, apretando los puños,

conteníamos un siglo la respiración.

 

Se detenía el mundo.

 

Era sólo un segundo, pero duraba un miedo

que aún me despierta a veces en mitad

de la herida,

 

ahora mismo otra vez, y es la peor

cuando veo y recuerdo mi cabeza al fondo

de un pasillo muy largo, quieta, rota, dolida,

 

aterrada también,

 

suspendida en las fauces

siempre abiertas

de la vida o la muerte.

 

Un momento crucial.

 

Los niños, pulmones del mundo,

conteníamos la respiración.

Doblaba el domador un poco sus rodillas

inclinándose atrás, dejaba caer el látigo

 

como si fuera necesario

añadirle a la escena

todavía más riesgo,

 

quizás mi rendición,

 

y entraba con mi cabeza a solas,

 

selva, pánico, hijas, mi cuerpo por delante,

apretando los dientes, en aquella

 

boca oscura de un túnel

 

donde me juego todo

A BOCA DO LEÃO

Recordais das crianças, no circo?

 

O domador metia de repente a cabeça

na boca do leão, e todos depois de um ohhh

de espanto, apertando os punhos,

contivemos a respiração por um século.

 

Se deteve o mundo.

 

Foi apenas um segundo, porém durava um medo

que ainda hoje me acorda às vezes em metade

da ferida,

 

agora mesmo outra vez, e é o pior

quando vejo e recordo a minha cabeça ao fundo

de um corredor muito largo, quieta, rota, doída,

 

aterrorizada também

 

suspensa nas garras

sempre abertas

da vida ou da morte.

 

Um momento crucial.

 

As crianças, pulmões do mundo,

contínhamos a respiração.

Dobrava o domador  um pouco os seus joelhos

inclinando-se para trás, deixava cair o chicote

 

como se necessário

adicionar à cena,

todavia mais risco

 

talvez minha rendição,

 

e entrava com minha cabeça só,

 

selva, pânico, filhas, meu corpo adiante,

apertando os dentes, naquela

 

boca escura de um túnel

 

onde me jogo todo            

Ilustração: Momento Novo.

Friday, September 16, 2022

XI


Não sei o que seria sem ti.

Sem ti não sei onde estaria. 

E sigo neste dilema e agonia 

de não saber

o que será de mim contigo

e onde estou.

Na minha obsessão 

e dependência total de ti,

que preciso superar,

nesta órbita errônea

de satélite sem destino-

igual a menino que se perdeu-

me pergunto a toda hora

quem sou eu. 

Ilustração: Rodrigo Santos Escritor. 

(Do livro "Cem Poemas em Cem Dias", Maringá, Editora Viseu, 2021).   

Uma releitura de um poema de Nicoletta Fazio

 


Nicoletta Fazio

 

“Non é vero che i morti non sanno”

                                                               Tonia Giansante

 

La tua assenza

è un lago di nebbia

che non si attraversa.

Resto

sull’orlo della riva

a immaginare

come un cieco

l’altra sponda.

 

                       "Não é verdade que os mortos não sabem"                 

                                                           Tonia Giansante

A tua ausência

é um lago de nevoa

que não se atravessa.

Descanso

na beira da margem

a imaginar

como um cego

o outro lado.

LXIV


Se não for possível 

discutir com o destino,

me resigno. 


Me resigno, 

mas não me acomodo. 

Continuo

calado e mudo,

buscando fazer as coisas

do meu modo. 

Ilustração: Psico.Online. 

(Do livro "Cem Poemas em Cem Dias", Maringá, Editora Viseu, 2021). 

Um poema de Miguel Hernández

 


      CANCIÓN ÚLTIMA

      Miguel Hernández

      Pintada, no vacía:

      Pintada está mi casa

      Del color de las grandes

      Pasiones y desgracias.

      Regresará del llanto

      Adonde fue llevada

      Con su desierta mesa,

      Con su ruinosa cama.

      Florecerán los besos

      Sobre las almohadas.

      Y en torno de los cuerpos

      Elevará la sábana

      Su intensa enredadera

      Nocturna, perfumada.

      El odio se amortigua

      Detrás de la ventana.

      Será la garra suave.

      Dejadme la esperanza.

      ÚLTIMA CANÇÃO

      Pintada, não vazia.

      Pintada está minha casa

      Da cor das grandes

      Paixões e desgraças.

      Regressará chorando

      Aonde foi levada

      Com sua mesa deserta,

      Com sua arruinada cama.

      Florescerão os beijos

      Sobre as almofadas.

      E em torno dos corpos

      Elevará a savana

      Sua imensa trepadeira

      Noturna, perfumada.

      O ódio se ameniza

      Detrás da janela.

      Será a garra suave.

      Deixa-me a esperança.

      Ilustração: Tumbrl.


Tuesday, September 13, 2022

XXIX


Um beija-flor

no deserto de Atacama,

para sobreviver ao frio, 

por um metabolismo inexplicável,

para todo o seu organismo

e adormece como se morresse

para reviver no outro dia!

Assim sou eu

sem a tua companhia. 

Imerso na minha animação suspensa,

só volto à vida intensa

com o teu beijo!

Ilustração:  https://gochile.com.br/flora-fauna/beija-flor-gigante.htm.

(De "Cem Poemas em Cem Dias", Maringá, Editora Viseu, 2021). 

CANETA PERDIDA

 


A caneta se perdeu 

pelas linhas e escritas tortas.

E ficaram só as letras mortas 

pedindo música e piedade de Deus. 

Ilustração: Twitter. 

Um poema de Theophile Gautier

 


Fumée

Theophile Gautier

Là-bas, sous les arbres s'abrite

Une chaumière au dos bossu ;

Le toit penche, le mur s'effrite,

Le seuil de la porte est moussu.

 

La fenêtre, un volet la bouche ;

Mais du taudis, comme au temps froid

La tiède haleine d'une bouche,

La respiration se voit.

 

Un tire-bouchon de fumée,

Tournant son mince filet bleu,

De l'âme en ce bouge enfermée

Porte des nouvelles à Dieu.

FUMAÇA

Sob os abrigos das árvores

Uma cabana encurvada;

O telhado pende, o muro desmorona,

A soleira coberta de musgo.

 

A janela, um abano na boca;

Mas da choupana, como no frio

O hálito quente de uma boca,

A respiração se vê.

 

Um saca-rolhas de fumaça,

Girando sua fina rede azul,

E assim alma neste antro encerrada

Traz novidades a Deus.

Ilustração: Tech Tudo.

XXXVIII


Nem sei o que é a alma.

Sei que ela voa por aí

nas noites, 

pelo espaço sem fim,

me olha, desembaraçada, e ligeira,

de cima para baixo, 

desdenhando do que acho

e, muitas vezes, ri de mim,

da minha humana pretensão

de não saber que o corpo é a ilusão

da matéria finita

e, para me assustar, grita: 

-o que não podes mudar

é que tudo vai passar!

Ilustração: Superinteressante. 

(Do livro "Cem Poemas em Cem Dias", Maringá, Editora Viseu, 2021). 

Outra poesia de Ricardo Carballo

 

ALTO NOMBRE

Ricardo Carballo

Nombre de suave lienzo y blanco lino,

paisaje donde nevó rosas heladas,

primavera cuajada en amor joven.

Cuántas huidas, cuántos escalofríos

entre tú y yo levantaron nuestro puente.

Puente de plata o tela de araña, dulce,

donde al amanecer la niebla se columpia.

Mi vida es un acercarse a la tuya.

Al morder la primera fruta de oro,

el zumo por los labios resbalaba.

Era la pasión como una novia antigua.

Nombre de limpio vidrio y aire tamizado,

en soledad arrodillada encendido,

de campana en campana por los campos vuelas.

Como un animal sagrado vagabas;

alto zumbido de otoños olvidados

bajo tus pies, arcángel de los pies blancos.

Esparciendo luz y oliendo a flor,

Planeas sobre mí, ángel en ruinas.

¿Qué brisa, qué amor, qué pena deshojada,

qué fuente dorada o qué cristal de estrella

sueña tus sueños cuando estoy dormido?

Al latirte el corazón de viento,

florezco bajo tus alas desnudas.

NOME ALTO

Nome de suave tela e linho branco,

paisagem onde nevou rosas geladas,

primavera coagulada no amor jovem.

Quantas fugas, quantos calafrios

entre tu e eu levantaram nossa ponte.

Ponte de prata ou teia de aranha, doce,

onde ao amanhecer a névoa se balançava.

Minha vida é um acercar-te da tua.

Ao morder a primeira fruta dourada,

o suco pelos lábios escorregou.

Era paixão como uma noiva antiga.

Nome do vidro limpo e ar filtrado,

na solidão ajoelhado aceso,

De sino em sino pelos campos voas.

Como um animal sagrado vagavas;

zumbido alto de outonos esquecidos

sob os teus pés, arcanjo dos pés brancos.

Espargindo luz e cheirando a flores,

pairas sobre mim, anjo em ruínas.

Que brisa, que amor, que pena desfolhada,

que fonte dourada ou que cristal estrela

sonha teus sonhos quando estou dormindo?

Ao vencer-te o coração de vento,

floresço sob tuas asas nuas.

Ilustração: http://bloomdip.com.br/conteudo/sem-cuidado-nada-floresce-como-cultivar-o-bem-estar/.

Sunday, September 11, 2022

E, cá esta Carl Sandburg

 


RIVER ROADS

Carl Sandburg

Let the crows go by hawking their caw and caw.

They have been swimming in midnights of coal mines somewhere.

Let ’em hawk their caw and caw.

 

Let the woodpecker drum and drum on a hickory stump.

He has been swimming in red and blue pools somewhere hundreds of years

And the blue has gone to his wings and the red has gone to his head.

Let his red head drum and drum.

 

Let the dark pools hold the birds in a looking-glass.

And if the pool wishes, let it shiver to the blur of many wings, old swimmers from old places.

 

Let the redwing streak a line of vermillion on the green wood lines.

And the mist along the river fix its purple in lines of a woman’s shawl on lazy shoulders.

ESTRADAS FLUVIAIS

Deixe os corvos irem espalhando o seu grasnar e cacarejos.

Eles estão nadando nas meia-noites das minas de carvão em algum lugar.

Deixe-os apregoar seu grasnar e cacarejo.

 

Deixe o pica-pau tamborilar e tamborilar em um toco de nogueira.

Ele tem nadado em piscinas vermelhas e azuis em algum lugar centenas de anos

E o azul foi para suas asas e o vermelho foi para sua cabeça.

Deixe sua cabeça vermelha tamborilar e tamborilar.

 

Deixe as poças negras segurarem os pássaros em um espelho.

E se a piscina quiser, que estremeça ao borrão de muitas asas, velhos nadadores de velhos lugares.

 

Deixe a asa vermelha riscar uma linha de vermelhão nas linhas verdes da madeira.

E a névoa ao longo do rio fixar sua púrpura nas linhas do xale da mulher em ombros preguiçosos.

Ilustração: Brasil Escola Uol.

APRENDIZADO

 


Eu nunca te direi

que foi nos braços teus

que despertei pra vida.

À meia luz no quarto

desesperado busquei

com pressa, e sem ouvir,

o corpo doce e quente

que me fez tão contente.

 

Depois fugi calado,

um pouco envergonhado,

pensando em ter gostado

do que era pecado

e foi amor somente.

Só a lembrança forte,

o desejo frequente

derreteu, de repente,

meu coração gelado.

 

E te procurei outra vez,

com a mesma ansiedade

e com mais vontade,

e de novo o amor se fez,

melhor com a assiduidade.

 

E aprendi sem medo,

contando meus segredos,

que o que o homem quer

é ser uma criança,

com sonhos e esperanças,

nos braços de uma mulher!

Ilustração: "Spring". Edward Okun. 1930.

Outra vez Blanca Varela

 


A MEDIA VOZ

Blanca Varela

la lentitud es belleza

copio estas líneas ajenas

respiro

acepto la luz

bajo el aire ralo de noviembre

bajo la hierba

sin color

bajo el cielo cascado

y gris

acepto el duelo y la fiesta

no he llegado

no llegaré jamás

en el centro de todo

esta el poema intacto

sol ineludible

noche sin volver la cabeza

merodeo su luz

su sombra animal

de palabras

husmeo su esplendor

su huella

sus restos

todo para decir

que alguna vez

estuve atenta

desarmada

 

sola casi

en la muerte

casi en el fuego

À MEIA VOZ

a lentidão é beleza

copio essas linhas alheias

respiro

aceito a luz

sob o ralo ar de novembro

sob a grama

sem cor

sob o céu descascado

e cinza

aceito o duelo e a festa

ainda não chegou

ou não chegará jamais

no centro de tudo

está o poema intacto

sol iniludível

noite sem voltar a cabeça

saqueio sua luz

sua sombra animal

de palavras

farejo seu esplendor

sua trilha

seus resíduos

tudo para dizer

que, em alguma vez,

estive atenta

desarmada

 

sozinha quase

na morte

quase pegando fogo

Ilustração: Mensagens de Amor.