Friday, March 13, 2015

Ainda Raymond Carver

Happiness                                                                    
Raymond Carver

So early it's still almost dark out.

I'm near the window with coffee,
and the usual early morning stuff
that passes for thought.

When I see the boy and his friend
walking up the road
to deliver the newspaper.

They wear caps and sweaters,
and one boy has a bag over his shoulder.

They are so happy
they aren't saying anything, these boys.

I think if they could, they would take
each other's arm.

It's early in the morning,
and they are doing this thing together.

They come on, slowly.

The sky is taking on light,
though the moon still hangs pale over the water.

Such beauty that for a minute
death and ambition, even love,
doesn't enter into this.

Happiness.
It comes on
unexpectedly.
And goes beyond, really,
any early morning talk about it.


A felicidade

Tão cedo ainda é quase escuro lá fora.

Estou perto da janela com o café,
e as coisas habituais de manhã cedo
que passam pelo pensamento.

Quando  vejo o menino e seu amigo
caminhando pela estrada
para entregar o jornal.

Eles usam bonés e camisas,
e um dos meninos tem uma mochila
por cima do ombro.

Eles estão tão felizes
que não estão dizendo nada,
esses meninos.

Eu penso que se pudessem,
eles tomariam o braço do outro.

É no início da manhã,
e eles estão fazendo essas coisas juntos.

Eles vêm, lentamente.

O céu está assumindo a luz,
embora a lua pálida ainda paira sobre a água.

Tal beleza que, por um minuto
É morte, ambição, e também amor,
não entra nisto.

A felicidade.
Vem
de modo inesperado
e vai além, na realidade,
de qualquer manhã, bem cedo, que se fale sobre isso.

Ilustração: www.mobypicture.com

Thursday, March 12, 2015

Uma poesia de Raymond Carver

Late Fragment                                               

Raymond Carver

And did you get what
you wanted from this life, even so?
I did.

And what did you want?
To call myself beloved, to feel myself
beloved on the earth.

Fragmento tardio

E você conseguiu o que
desejava desta vida, mesmo assim?
Eu consegui.

E o que você quer?
Ser chamado de amado, sentir-me
amado sobre a terra.


Ilustração: diannedejarjayes.deviantart.com

Uma poesia de Francisco Luis Bernárdez

 Silencio

Francisco Luis Bernárdez

No digas nada, no preguntes nada.
Cuando quieras hablar, quédate mudo:
Que un silencio sin fin sea tu escudo
Y al mismo tiempo tu perfecta espada.
No llames si la puerta está cerrada,
No llores si el dolor es más agudo,
No cantes si el camino es menos rudo,
No interrogues sino con la mirada.
Y en la calma profunda y transparente
Que poco a poco y silenciosamente
Inundará tu pecho de este modo,
Sentirás el latido enamorado
Con que tu corazón recuperado
Te irá diciendo todo, todo, todo.

Silêncio

Francisco Luis Bernárdez

Não me digas nada, não perguntes nada.
Quando quiseres falar, quedá-te mudo:
Que um silêncio sem fim seja teu escudo
E, ao mesmo tempo, tua perfeita espada.
Não chames se a porta está fechada,
Não chores se a dor for mais aguda,
Não cantes se é melhor o caminho a trilhar
Não interrogues senão com o olhar.
E na calma profunda e transparente
Que pouco a pouco e silenciosamente
Inundará teu peito deste modo
Sentirás o grito enamorado
Com que teu coração recuperado
Te irá dizendo tudo, tudo, tudo.


Mais uma vez Cortázar


BOLERO 

Julio Florencio Cortázar

Qué vanidad imaginar
Que puedo darte todo, el amor y la dicha,
Itinerarios, música, juguetes.
Es cierto que es así:
Todo lo mío te lo doy, es cierto,
Pero todo lo mío no te basta
Como a mí no me basta que me des
Todo lo tuyo.

Por eso no seremos nunca
La pareja perfecta, la tarjeta postal,
Si no somos capaces de aceptar
Que sólo en la aritmética
El dos nace del uno más el uno.

Por ahí un papelito
Que solamente dice:

Siempre fuiste mi espejo,
Quiero decir que para verme tenía que mirarte.

Bolero

Que vaidade imaginar
Que posso dar-te tudo, o amor e a sorte,
Intinerários, músicas, joguinhos.
É certo que é assim:
Tudo que é meu te dou, é certo,
Porém, tudo que é meu não te basta
Como a mim não basta que me dês
Tudo que é teu.

Por isto não seremos nunca
O par perfeito, o cartão postal,
Se não somos capazes de aceitar
Que só em aritmética
O dois nasce do um mais um.

Por aí um papelzinho
Que somente diz:

Sempre fostes meu espelho,
Quero dizer que, para ver-me, teria que te olhar.


Ilustração: en.wikipedia.org

Wednesday, March 11, 2015

Máscara

É todo este mistério que te cerca.
É toda esta saudade que me invade.
É esta a busca, a busca é esta
Que me nega a marca da verdade.

É todo o teu passado que é neblina.
É toda tua chuva de pecados.
É esta ilusão que se dissemina
Que dá uma aparência de felicidade.

É todo este intrincado de palavras.
É toda esta certeza das ações.
É este fogo que lento me consome
Que torna fraca e fria as intenções.

É todo mundo que me diz mentiras.
És tu que dizes mais que todo mundo.
É a própria vida que me corta em tiras
Que vai criando a máscara em meu rosto.

De "Apocalypse", Editora Per Se, 2013. 
Ilustração: 3.bp.blogspot.com 

Monday, March 09, 2015

Uma poesia de Julio Cortázar

La mosca                                                                       
Julio Cortázar
Te tendré que matar de nuevo.
Te maté tantas veces, en Casablanca, en Lima,
en Cristianía,
en Montparnasse, en una estancia del partido de Lobos,
en el burdel, en la cocina, sobre un peine,
en la oficina, en esta almohada
te tendré que matar de nuevo,
yo, con mi única vida.

A mosca

Te terei que matar de novo,
Te matei tantas vezes, em Casablanca, em Lima,
em Cristiania,
em Montparnasse, numa estância do partido de Lobos,
num bordel, na cozinha, sobre um pente,
numa oficina, na almofada
te terei que matar de novo,
eu, com minha única vida.


Ilustração: http://www.soespanhol.com.br/

Outra poesia de Miguel Hernández Gilabert

Lhegó tan hondo el beso      


Miguel Hernández Gilabert

Llegó tan hondo el beso
Que traspasó y emocionó los muertos.
El beso trajo un brío
Que arrebató la boca de los vivos.
El hondo beso grande
Sintió breve los labios al ahondarse.
El beso aquel que quiso
Cavar los muertos y sembrar los vivos.

Foi um beijo tão profundo

Foi um beijo tão profundo
que ultrapassou e emocionou os mortos.
O beijo trouxe um valor
que  arrebatou a boca dos vivos.
O profundo beijo grande
sentiu logo os lábios afundaram-se.
O beijo, aquele que quis
cavar os mortos e semear os vivos.


Ilustração: mfda.wordpress.com

Sunday, March 08, 2015

Uma poesia de Miguel Hernández Gilabert

Casida del sediento                                                

Miguel Hernández Gilabert

Arena del desierto
Soy, desierto de sed.
Oasis es tu boca
Donde no he de beber.
Boca: oasis abierto
A todas las arenas del desierto.
Húmedo punto en medio
De un mundo abrasador
El de tu cuerpo, el tuyo,
Que nunca es de los dos.
Cuerpo: pozo cerrado
A quien la sed y el sol han calcinado.

Canção do sedento

Areia do deserto
sou, deserto de sede.
Oásis é a tua boca
Onde não hei de beber.

Boca: oásis aberto
a todas as areias do deserto.

Ponto úmido no meio
de um mundo escaldante
e de teu corpo, o teu,
que nunca é dos dois.

Corpo:  poço fechado
a quem tem sede e o sol queimou.


Ilustração: www.maisturismo.net

Saturday, March 07, 2015

Um passeio pelo non sense


O significado de ploft

Lá vem você de novo!
Não cansa de me arranjar confusão?
Parece com estas pessoas loucas,
Que chamam de povo,
Que vive a reclamar -
Por mais que suemos a camisa
Para lhes dar um governo melhor-
De que tudo está de pernas para o ar!
Tenha dó!
Como é que ainda tem a coragem
de me perguntar
qual o significado da palavra “ploft”...
É só olhar as letras
que você vê: ploft é ploft-
além de ser ploft, o que quer mais você?
Um ploft onomatopeico ou pictórico? 
De fato somente se compreende ploft
quando menos se espera e...ploft!


Ilustração: cadernosdabea.blogspot.com

Friday, March 06, 2015

Pedro Miguel Obligado



No tiene importância 

Pedro Miguel Obligado

Esta pena mía
No tiene importancia.
Sólo es la tristeza de una melodía,
Y el íntimo ensueño de alguna fragancia.
-Que todo se muere,
Que la vida es triste,
Que no vendrás nunca, por más que te espere,
Pues ya no me quieres como me quisiste-.
No tiene importancia…
Yo soy razonable;
No puedo pedirte ni amor ni constancia:
¡Si es mía la culpa de no ser variable!
¿Qué valen mis quejas
Si no las escuchas;
Y qué mis caricias desde que las dejas
Quizá despreciadas porque fueron muchas?
¡Si esta pena mía
No es más que el ensueño de alguna fragancia,
No es más que la sombra de una melodía!
Ya ves que no tiene ninguna importancia…

Não tem importância

Esta pena minha
Não tem importância.
É apenas a tristeza de uma melodia,
E o sonho íntimo de alguma fragrância.
-Que tudo morre,
Que a vida é triste,
Que não virás nunca, por mais que te espere,
Pois, já não me queres como me quisestes-.
Não tem importância ...
Eu sou razoável;
Não posso te pedir nem amor nem constância:
Se a culpa é minha de não ser variável!
De que valem as minhas queixas
Se não as escutas;
E as minhas carícias desde que as deixas
Talvez depreciadas porque foram muitas?
Se esta pena minha
Não é mais que o sonho de uma fragrância,
Não é mais que a sombra de uma melodia!
Já vês que não tem nenhuma importância ...


Ilustração: www.tenini.com.br

Thursday, March 05, 2015

Poemas mal comportados


Louvando Momofoku Ando                                 
Que alguém tenha nascido em Chiayi, 
aqui, ali, talvez em Marte,
(ainda mais num distante 5 de março de 1910),
e nele tenham posto o nome de Gô Peh-hok,
que ninguém se invoque, 
para mim não faz o menor sentido,
nem me diz coisa alguma.
Mas, diferente é se me dizem
que é o aniversário de Momofoku Ando,
o Rei dos Macarrões,
sei que estarão falando
do gênio criador do macarrão instantâneo
que, chamamos popularmente de miojo!
Quem, por favor, dele não se socorreu
levante a mão?
É verdade! Não há não. 
Alguém que não comeu miojo
deve ser extraterreste,
mas, só aqui pra nós
e toda a abóbada celeste,
não consigo aturar, 
apesar de ser uma fritura exemplar.
Porém, sei que há pessoas que comem até miojo com ovo.
É por tal razão que Momofoku louvo, 
no entanto, 
tenho que falar senão vou me engasgar:
-Miojo é um nojo! 

Ilustração: br.recepedia.com

Uma poesia de Gabriel Celaya


 
EN TI TERMINO                                                                                 

Gabriel Celaya

Este objeto de amor no es un objeto puro;
Es un objeto bello, y creo que eso basta.
Bellos son sus brazos, sus hombros, sus senos;
Bellos son sus ojos (¡y qué bien me mienten!)

Deseable, me engaña, o furtiva, resbala
suave, suavemente, con física dulzura,
o gravita hacia un centro más secreto que el alma;
o duele con un fuego más real que el cariño.

Si la beso, no hablo; si la toco, no creo;
Y me quedo callado mirándola muy cerca,
o me duermo en sus brazos, o me muero en su espasmo,
y en aniquilarme hallo cierto descanso.

Em ti termino

Este objeto de amor não é um objeto puro;
É um objeto belo, e creio que isto basta.
Belos são os teus braços, teus ombros, teus seios
Belos são os teus olhos (e que bem me mentem!)

Desejável, me engana, ou furtiva, resvala
suave, suavemente, com física doçura,
ou gravita até um centro mais secreto do que a alma;
ou dói com um fogo mais real que o carinho.

Se a beijo, não falo; se a toco, não creio;
E me quedo calado olhando-a de muito perto,
ou adormeço em seus braços, ou mato-me em seu espasmo,
e  em aniquilar-me estou certo de encontrar algum descanso.

Ilustração: outraspalavras.net

Monday, March 02, 2015

A tempestade que nos envolve....


O desencanto do exilado

Os homens de areia
inundaram com uma tempestade
a minha terra.
E tudo ficou triste, sem esperança, estranho.
Nada mais me é familiar.
Sou um proscrito,
um exilado,
um perseguido,
acima de tudo um sem esperança
na minha própria terra
e, apesar de tudo,
escrevo.
Escrevo para que entendam
que existe exílio
sem que se precise dar um passo lá fora.
Escrevo por ainda acreditar
que, como outros tempos tenebrosos passaram,
estes também passarão.
Escrevo,
quem sabe, na crença
de que a areia desaparecerá,
ainda que sinta na pele o seu açoite constante.
Escrevo
para conservar a sanidade, 
para que a lógica volte a ser lógica,
para que as palavras voltem a ter sentido
e a estranheza venha a se dissipar
nos permitindo reconhecer, de novo, o céu azul...
Hoje, porém, caminho trôpego
no meio das sombras,
tateio em busca de algo conhecido,
vagando temeroso
do tempo e da violência
de homens que já supus
que fossem irmãos
e rezo, 
logo eu que não sou de rezar, 
por um amanhã mais familiar 
e a volta a uma pátria 
da qual jamais sai...



Ilustração: www.dominiosfantasticos.com.br

Sunday, March 01, 2015

Um poema de Fernando Luis Pérez Poza

 
SER Y ESTAR                                                        
Fernando Luis Pérez Poza

Yo soy el que soy,
el único que seré,
el mismo que he sido,
el que siendo es
y el que será siendo
porque ha sido.
A fin de cuentas
todo se reduce
al verbo ser,
que es distinto de estar,
pues se puede ser y no estar
y se puede estar y no ser
y se puede ser y estar
y no estar y no ser
como todos aquellos
que ya fueron algún día
y no son y no están
y ya no volverán a ser,
y ya no volverán a estar.

Ser e estar

Eu sou o que sou,
o único que serei,
o mesmo que fui,
o que sendo é
e o que será sendo
porque tem sido.
Ao fim das contas
tudo se reduz
ao verbo ser
que é distinto de estar,
pois, se pode ser e não estar
e se pode estar e não ser
e se pode ser e estar
e não estar e não ser
como todos aqueles
que já foram algum dia
e não são e não estão
e não voltarão a ser
e não voltarão a estar.


Ilustração: www.blendspace.com