Monday, January 20, 2020

A SAUDADE É AMARELA


A luz enevoada da saudade baila sobre mim.     
Sinto que, apesar das luzes difusas, 
a cor não é confusa: 
a saudade é amarela
como as folhas de outono.
E sinto apatia, frio, sono, 
uma vontade imensa de correr
para você.
E continuo a olhar a cidade indiferente
pela janela
com a saudade me parecendo,
cada vez mais, amarela.
Me vem a lembrança do calor,
da chuva, do céu e até dos mosquitos,
então, chega o cansaço
a certeza de que a vida é uma loucura 
sem teu amor e ternura, 
durmo. 
E sonho que a saudade é amarela.

Ilustração: https://www.elo7.com.br/.

Friday, January 17, 2020

E volta também Francisco Quevedo






A la brevedad de la vida

Francisco Quevedo


¡Cómo de entre mis manos te resbalas!
¡Oh cómo te deslizas, vida mía!
¡Qué mudos pasos tras la muerte fría
con pisar vanidad, soberbia y galas!
Ya cuelga de mi muro sus escalas,
y es su fuerza mayor mi cobardía:
Por vida nuevo tengo cada día,
que el tiempo cano nace entre las alas.
 ¡Oh mortal condición! ¡Oh dura suerte!
¡Que no puedo querer ver el mañana
sin temor de si quiero ver mi muerte!
 Cualquier instante de esta vida humana
es un nuevo argumento que me advierte
cuán frágil es, cuán mísera y cuán vana.

A BREVIDADE DA VIDA

Como de entre minhas mãos tu resvalas!
Oh! como te deslizas, minha vida!
Que mudos passos trás a morte fria
com o pisar da vaidade, soberba e galas!
Já balança no meu muro suas escalas,
e é sua força maior minha covardia:
Para uma nova vida tenho cada dia,
que o tempo cano nasce entre as asas.
Oh! Condição mortal! Oh! Dura sorte!
Que não posso querer ver o amanhã
sem temor de assim ver minha morte!
Qualquer instante desta vida humana
é um novo argumento que me adverte
quão frágil é, quão miserável e tão vã.

E, volta, o grande poeta Mario Benedetti



Amor de tarde                                          


Mario Benedetti

Es una lástima que no estés conmigo
cuando miro el reloj y son las cuatro
y acabo la planilla y pienso diez minutos
y estiro las piernas como todas las tardes
y hago así con los hombros para aflojar la espalda
y me doblo los dedos y les saco mentiras.

Es una lástima que no estés conmigo
cuando miro el reloj y son las cinco
y soy una manija que calcula intereses
o dos manos que saltan sobre cuarenta teclas
o un oído que escucha como ladra el teléfono
o un tipo que hace números y les saca verdades.

Es una lástima que no estés conmigo
cuando miro el reloj y son las seis.
Podrías acercarte de sorpresa
y decirme "¿Qué tal?" y quedaríamos
yo con la mancha roja de tus labios
tú con el tizne azul de mi carbónico.


Amor de fim de tarde

É uma pena que não estejas comigo
quando olho para o relógio e já são quatro horas
e acabo a planilha e penso dez minutos
e estiro as pernas como em todas as tardes
e faço assim com os ombros para aliviar as costas
e dobro os dedos e conto mentiras.  

É uma pena que não estejas comigo
quando olho para o relógio e já são cinco horas
e sou apenas uma máquina que calcula juros
ou duas mãos que dançam sobre quarenta teclas
ou um ouvido que escuta como toca o telefone
ou um tipo que faz números e deles extrai verdades.

É uma pena que não estejas comigo
quando olho para o relógio e já são seis horas.
Bem que poderias chegar de surpresa
e dizer-me: "Que tal?" e ficaríamos
eu com a mancha vermelha de teus lábios
tu com o risco azul da minha fuligem de carbono.

Ilustração: https://br.freepik.com/fotos-vetores-gratis/flores-cor-de-rosa.

Thursday, January 16, 2020

E ainda mais uma vez a rude e verdadeira poesia de Charles


THE FINEST OF THE BREED                
Charles Bukowski

there’s nothing to
discuss
there’s nothing to
remember
there’s nothing to
forget
it’s sad
and
it’s not
sad
seems the
most sensible
thing
a person can
do
is
sit
with a drink in
hand
as the walls
wave
their goodbye
smiles
one comes through
it
all
with a certain
amount of
efficiency and
bravery
then
leaves
some accept
the possibility of
God
to help them
get
through
others
take it
staight on
and to these
I drink
tonight.

OS MELHORES DA RAÇA

Não há nada para
discutir
Não há nada para
relembrar
Não há nada para
esquecer
É triste
e
não é
triste
Parece que a
coisa mais
sensível
que uma pessoa pode
fazer
é
sentar com um drinque
na mão
enquanto as paredes
em ondas de sorrisos
dizem adeus.
Alguns passam por
tudo
com uma certa
soma de
eficiência e
bravura
e, então,
vão embora
Alguns aceitam
a possibilidade de
Deus
os ajudar a suportar.
Outros
aguentam o tranco
e, para estes,
eu bebo esta noite.



QUEIXA INÚTIL


A tua formosura,                                                                              
A tua formosura
Provém de coisas que sei
E que não sei.
Provavelmente nunca saberei
Porque te amo, ó doce criatura.


A tua formosura,
A tua formosura,
Que tento explicar é inexplicável.
E só sinto como é tanta e notável
Quando descubro
Que me roubaram mais um dia
Em que fiquei sem tua companhia.




Eis de novo Charles Bukowski


HOW IS YOUR HEART?                        
Charles Bukowski

during my worst times
on the park benches
in the jails
or living with
******
I always had this certain
contentment-
I wouldn't call it
happiness-
it was more of an inner
balance
that settled for
whatever was occuring
and it helped in the
factories
and when relationships
went wrong
with the
girls.
it helped
through the
wars and the
hangovers
the backalley fights
the
hospitals.
to awaken in a cheap room
in a strange city and
pull up the shade-
this was the craziest kind of
contentment
and to walk across the floor
to an old dresser with a
cracked mirror-
see myself, ugly,
grinning at it all.
what matters most is
how well you
walk through the
fire.


COMO ESTÁ SEU CORAÇÃO?

durante meus piores tempos
nos bancos da praça
nas cadeias
ou vivendo com
prostitutas
eu sempre tive um certo contentamento –
eu não diria de
felicidade –
era mais como um equilíbrio
interno
que balanceava
qualquer coisa que estivesse ocorrendo
e ajudava-me nos
compromissos
e quando os relacionamentos
davam errados
com as
mulheres.
Ajudou-me
através
das guerras e das
ressacas
as brigas em becos
os
hospitais.
Ao acordar num quarto barato
numa cidade estranha e
levantar as cortinas –
este era o tipo mais louco de
contentamento.
e andar pelo chão
até uma pia velha com um
espelho rachado –
ver a mim mesmo, feio,
sorrindo de tudo.
O que mais importa é
quão bem você
caminha através
do fogo.

Ilustração: amantesmaravilhosas.com.br. 

Wednesday, January 15, 2020

PROMESSA INESPERADA


Quem és tu que vens de forma inesperada,                                         
Parecendo nem pisar no chão, com doce mansidão,
Tumultuar a placidez das noites enluaradas?

A tua formosura precedida do perfume bom de amor e vida,
Preenche o tempo com a prometida plenitude
Para a qual as coisas haviam sido destinadas.

E, absorto na tua beleza, contrário minha própria natureza,
Te estendendo, num gesto ousado, as mãos,
Na esperança de que não sejas mais uma ilusão.


Ilustração: sonhodereflexao.blogspot.com/2010/02/segredo-de-uma-promessa-danielle-steel.html.


Uma poesia de Fernando Gril


Lo que yo quisiera hacer                                                                      

 

Fernando Gril

lo que yo quisiera hacer contigo
ya no es un amor convencional y
despampanante no es siquiera esa foto
para que nos envidien las abuelas ajenas
lo que quisiera hacer es tan atroz y sencillo
tan de mi y de mis demencias que supongo
te escandalizaria tanto como
cuando te propongo reivindicar el silencio
lo que quisiera hacer contigo no lo ha hecho nadie todavía
es una forma de descostilliarnos
de replantear nuestras certezas 
lo que quisiera hacer contigo
claraboya del presente calcomanía de superman
mujer de película hablada
es una metafisica de las carencias.

O que eu quis fazer

 o que eu quis fazer contigo
 já não foi um amor convencional e
 inebriante não foi sequer essa foto
 de modo que invejem as avós estranhas
 o que quis fazer é tão atroz e sensível
 tão meu e de minhas demências que suponho
 te escandalizaria tanto quanto
 quando te proponho reivindicar o silêncio
 o que quis fazer contigo ninguém o fez todavia
 é uma forma de nos descosturarmos  
 de replantar nossas certezas
 o que quis fazer contigo  
 clarabóia do presente, imagem de superhomem
 mulher de cinema falado
 é uma metafísica das carências.

Ilustração: elarpamagica.blogspot.com.


Mais uma poesia de Stephen Crane




A GOD IN WRATH                                                

Stephen Crane

A god in wrath
Was beating a man;
He cuffed him loudly
With thunderous blows
That rang and rolled over the earth.
All people came running.
The man screamed and struggled,
And bit madly at the feet of the god.
The people cried,
"Ah, what a wicked man!"
And --
"Ah, what a redoubtable god!"

Um deus em fúria

Um deus em fúria
Estava batendo num homem;
Ele algemou-o em voz alta
Com golpes estrondosos
Isto ecoou e rolou sobre a terra.
Todas as pessoas vieram correndo.
O homem gritava e se debatia,
E se mordeu loucamente aos pés do deus.
O povo gritou:
"Ah, o que é um homem mau!"
e -
"Ah, o que é um deus temível!"

Ilustração: Pinterest.

SAUDAÇÃO AO NOVO ANO




Ah! O ano novo!
Serão outras pequenas pílulas de esperança,
Talvez, de desilusões, de ausências...
Um período de outras tentativas,
Que, no fundo, são as mesmas.
O ano novo é como abrir uma janela:
Embora a paisagem, os caminhos sejam os mesmos.
Sempre nos parece que há uma nova forma de olhar,
Que, por alguma razão inexplicável,
O fato de se mudar de posição nos abre novos horizontes.
Vem, ano novo, vem!
Que possamos te olhar depois com saudade
E que não seja como este que se foi
Que se vai deixando duras marcas,
Cicatrizes e vazios irreparáveis.
Vem, ano novo, vem!
De qualquer forma
Nós, sobreviventes, não temos escolha:
Temos mais 365 dias
Para renovar nossas esperanças
E agonias.

Poeminhas do livro "Águas Passadas"


Corrida infinita                                                                         

Todas as vezes que te procurava
Era para correr como um desesperado
Atrás de uma sombra que sempre corria mais.
Era uma corrida contínua e sem esperança
Ainda mais que uma voz me perseguia
Gritando com feroz autoridade
Que seria melhor esquecer antes que fosse tarde,
Mas, teimosamente, ainda assim persistia
E nem a corrida nem o pesadelo acabava
E lembro que era a vida que acabava
Sem que jamais conseguisse te esquecer.




Sucinto


Quem morre, morre sozinho
Segue, segue
O teu caminho.


 

Molequinha


O verde, sinal da esperança,
Nos teus olhos de alegria dança.
Grande mulher...tão criança!




Cotidiano

Um dia, quem sabe, como se enjoa do sal

Até serei capaz de fazer coisas diferentes,

Mas, hoje, monótono, faço tudo sempre igual.


Ilustração: Globo Esporte. 

Tuesday, January 14, 2020

INSTANTÂNEO


A ternura que vi no teu olhar                                               
No momento de dizer adeus
Vive, agora, a me torturar
E a entristecer os dias meus.

Sei ser tarde pra voltar atrás
Que errei e que errar assim
Se paga muito e até o fim
É um erro que não se apaga mais.

Vejo e revejo na fotografia
Nossos tempos de felicidade
E pergunto pela alegria
Que sem dó só virou saudade.



Ilustração: experimentalphotoarts.blogspot.com.

GRANDEZA


Sinto que o amanhã                                    Não mais será
Capaz de nos legar
A grandeza que tentamos alcançar.

Infelizmente os caminhos
Que trilhamos foram traiçoeiros.
No fim perdi toda delicadeza
E a flor que trago
Perdeu sua beleza.

Ainda posso dizer
Todas as palavras de amor
Que decorei para dizer,
Porém, eu já não sou eu,
Você não é você
E é bem possível
Que nem escute
O que tenho pra dizer.

Talvez o tempo tenha levado o momento
Ou o vento leve as palavras
Porque afinal tudo passa,
Inclusive o amor,
No longo palco do esquecimento.

E, quem sabe, fique a lenda ou mito
De como o nosso amor foi tão bonito!


Ilustração: https://www.pelisstar.com/.

Monday, January 13, 2020

Poema Terceiro do Vazio


Não estava muito seguro
(a certeza sempre foi seu ponto cego)
que pudesse existir
( e nunca nego)
algum conhecimento real.
Sabia
(se sabia alguma coisa)
que não havia nenhuma solidez
no mundo experiencial.
É certo que os seres vivos,
com ou sem motivos,
ao viver aprendem,
construindo o conhecimento
pela interação,
mas, ainda assim é preciso ter paixão.
Porém, a vida como se percebe,
além de ser inexplicável, estranha e temporal,
ri de todo animal,
de vez que pode ser um sonho, uma ilusão
e é um processo que sempre tem fim,
que sempre acaba no vazio.
Assim rio:
de tudo que me dá prazer,
ou que lamento,
da ignorância ou do conhecimento,
da humanidade toda, de você e até de mim!

https://perceptiveloculto.blogspot.com/2012/04/estrela-cadente.html.

Ilustração:

Canção do destino infeliz


Eu noto que estás bem diferente.
Que me tratas sem carinho, de repente;
que o amor, que foi tão grande,
antigamente,
agora se transforma em uma prisão.
Sei que passou o tempo da paixão,
mas, se o destino me pôs no teu caminho
não pode ter sido apenas por acaso
e me pergunto se tens um outro amor,
o que não vem ao caso.
Tendo ou não, seguirei sozinho.
Vou cuidar das minhas feridas,
da minha dor,
pois, sei que não dirás
que já não me queres mais
e te compreendo,
embora vá passar o resto da minha vida,
querida,
te esquecendo.

Ilustração: Vagalume.

Poema segundo do vazio

E, passou, como um sopro nas cortinas     
ou um olhar nas retinas, 
a surpresa e a alegria 
de se viver um novo dia, 
onde uma invisível tristeza, 
toldava toda beleza 
de sonhar e de querer. 
Tentou, como último recurso, 
fingir que a mágoa não existia, 
que o pensamento insistente
fosse uma ilusão, 
como uma sombra que se apaga, 
Porém, era tarde, muito tarde, 
tanto que avistou no tempo já nublado
toda a inutilidade do passado, 
do presente, do esperado
e se quedou esmagado
pelo peso inesperado
incomensurável, imenso do vazio!

Ilustração: Bing. 

Thursday, January 09, 2020

POEMA PRIMEIRO DO VAZIO


Que sua busca incluía
tudo o que não havia
nunca, nunquinha de encontrar,
ficava no ar.
Bem dentro de si sabia,
como da grandeza do mar,
mas, não desejava pronunciar
na ilusão de que o que não é dito
não iria se consumar.
E seguia a caminhar em frente
(volta do tempo não há),
de modo que suspensa no olhar
transmitia infindável melancolia
do que vivia a procurar.
E, para ele, claro como o dia
de mais puro azul e alegria,
se certeza havia,
seria de que em algum lugar,
em algum dia,
o vazio havia de encontrar.












Ilustração: obviousmag.org. 

Novamente Charles Bukowski


 

BE KIND                                                                                              


Charles Bukowski



we are always asked
to understand the other person's
viewpoint
no matter how
out-dated
foolish or
obnoxious.

one is asked
to view
their total error
their life-waste
with
kindliness,
especially if they are
aged.

but age is the total of
our doing.
they have aged
badly
because they have
lived
out of focus,
they have refused to
see.

not their fault?

whose fault?
mine?

I am asked to hide
my viewpoint
from them
for fear of their
fear.

age is no crime

but the shame
of a deliberately
wasted
life

among so many
deliberately
wasted
lives

is.





Seja gentil





Nós estamos sempre procurando

compreender o ponto de vista

das outras pessoas
não importa o quão
retrogrado
insensato ou
óbvio.  

Você é convidado
a ver
a soma dos erros  

de suas vidas- o lixo
com
delicadeza,
especialmente se forem
mais velhos.

mas, a idade é o total de
fazemos.
Então se estão  
mal nesta idade
foi porque
viveram
fora de foco,
eles se recusaram a
ver.

Eles não têm culpa?

Então de quem é a culpa?
minha?

Estão pedindo para esconder  
minha opinião
sobre eles por medo

ou medo deles.

idade não é crime

mas, a vergonha
de uma vida deliberadamente
jogada no lixo

entre tantas vidas
deliberadamente
desperdiçadas

é.



Ilustração: dfgames.net.

Thursday, January 02, 2020

CANÇÃOZINHA DE JANEIRO






Janeiro, janeirozinho!
Contigo começa, agora, 
a dança intensa das horas, 
dos dias, dos anos, talvez, 
que na vida ainda terei!

Janeiro, janeirozinho!
Cuida de mim com carinho.
Lembra como sou tão frágil
tão emotivo aos amores,
aos frios, aos calores,
aos sentimentos diversos.
Só tenho o amor e os meus versos
que não são lá essas coisas!

Janeiro, janeirozinho!
Sei que logo vai embora,
mas, cuida que meses afora,
a vida me dê, sem medo,
mais alegria e sossego,
se possível, mais dinheiro,
e muitos outros janeiros!

Janeiro, janeirozinho!
Devo, por fim, te dizer
que me sinto tão feliz 
de reencontrar com você
que já não peço quase nada: 
só risos, na madrugada, 
muito mais taças de vinho,
de amor mais um tantinho 
e, se isto for possível, mais prazer 
e mais carinho e mais paixão,
mesmo que seja ilusão,
para amar, meu bem querer
(seja lá quem possa ser)!

Ilustração: www.altoastral.com.br.


E, novamente, Carlos Marzal


LA NOCHE ANTES DEL 

Carlos Marzal

Deseo lo que habrá de venir, pero aún deseo más
que lo que haya de ser sea un recuerdo,
otro nuevo episodio que permita, en un breve futuro,
distintas noches previas al día de partida,
puesto que en esas horas el vivir se descubre
con una fuerza extraña que el viaje no conoce,
y que el deseo nunca podría contener.

La vida antes del viaje no parece vida,
sino un ofrecimiento
imposible de ser ya defraudado.
Nuestras fieles rutinas no conciernen
a quien se marchará, y el día de mañana, inabarcable,
excita los sentidos, aviva la esperanza
y nos impide el sueño. El tiempo cotidiano,
aunque nos pertenezca, en el recuerdo es torpe,
y ese distinto tiempo que se aguarda
tiene un lugar para creer posible
que otra será la vida que suceda.
Más próxima a la idea que tenemos
La noche antes del viaje.

Todavía unas horas demoran la partida
y ya quiero volver para esperar de nuevo.         


A NOITE ANTES DA VIAGEM


Desejo o que está por vir, porém,  ainda desejo mais
o que havia de ser uma recordação,
outro novo episódio que permita, num futuro breve,
noites diferentes anteriores ao dia da partida,
já que nessas horas a vida é descoberta
com uma força estranha que a viagem não conhece,
e o desejo nunca poderia conter.

A vida antes da viagem não parece vida,
porém, uma oferenda
impossível de ser decepcionada.
Nossas rotinas fiéis não dizem respeito
a quem vai sair e o amanhã inatingível,
excita os sentidos, acende a esperança
e nos impede de dormir.
O tempo cotidiano,
embora nos pertença, na memória é estranho,
e aquele tempo que  aguarda
tem um lugar para acreditar possível
que outra será a vida que o sucede.
Mais perto da ideia que temos
da noite antes da viagem.

Todavia algumas horas atrasam a partida
e já quero voltar para esperar de novo.