Saturday, March 13, 2021

Uma poesia de Serge Gainsbourg

 


LA CHANSON DE PRÉVERT 

Serge Gainsbourg

 

Oh je voudrais tant que tu te souviennes

Cette chanson était la tienne

C'était ta préférée, je crois

Qu'elle est de Prévert et Kosma

 

Et chaque fois les feuilles mortes

Te rappellent à mon souvenir

Jour après jour les amours mortes

N'en finissent pas de mourir

 

Avec d'autres bien sûr je m'abandonne

Mais leur chanson est monotone

Et peu à peu je m'indiffère

A cela il n'est rien à faire

 

Car chaque fois les feuilles mortes

Te rappellent à mon souvenir

Jour après jour les amours mortes

N'en finissent pas de mourir

 

Peut-on jamais savoir par où commence

Et quand finit l'indifférence

Passe l'automne vienne l'hiver

Et que la chanson de Prévert

 

Cette chanson, Les Feuilles Mortes

S'efface de mon souvenir

Et ce jour là, mes amours mortes

En auront fini de mourir

 

 

A CANÇÃO DE PRÉVERT

 

Oh, eu queria tanto que pudesse se lembrar

Esta canção era a tua

Era tua favorita, eu creio

Que é de Prévert e Kosma

 

E toda vez que as flores mortas

Te lembram em minha memória

Dia após dia os amores mortos

Não terminam de morrer

 

Com outros, é claro, me abandono

Mais a música deles é monótona

E aos poucos fico indiferente

E não há nada o que fazer

 

E, cada vez que as folhas morrem

Te lembram na minha memória

Dia após dia os amores mortos

Não terminam de morrer

 

Nunca sabemos onde começar

E quando terminar a indiferença

Passa o outono vem o inverno

E a canção de Prévert

 

Esta canção, As Flores Mortas

Desaparece da minha memória

E neste dia, meus amores mortos

Terão acabado de morrer

 

Ilustração: https://www.noticiasdejardim.com/.

Uma poesia de Giovanni Quessep

 


ESFINGE

 

Giovanni Quessep


Feliz tú que no miras
los ojos de la Esfinge,
y no ves que es azul el laberinto
de su arena; terrible
conocimiento de una vida amarga
el que nos dan los últimos jardines.
Feliz tú que no sabes
quién teje la ilusión de tus tapices,
ni quién es la hilandera de tus días,
vendimiadora que da un vino triste.
Cantas tu himno, loco de esperanza,
y no sabes si mueres o si vives.

ESFINGE

Feliz tu que não olhas

os olhos da Esfinge,

e não vês que o azul é o labirinto

de sua areia; terrível

conhecimento de uma vida amarga

daquele que nos dão os últimos jardins.

Feliz tu que não sabes

quem tece a ilusão de suas tapeçarias,

nem quem é a fiandeira dos seus dias,

a colhedora de uva que dá um vinho triste.

Cantas teu hino, louco de esperança,

e não sabes se morres ou se vives.

Ilustração: https://1.bp.blogspot.com/.

DIVAGAÇÕES SOBRE A SEPULTURA DE SANTO INÁCIO DE LOYOLA

 


Oh! Grande Loyola, predestinado homem de fé, 

nem seriam preciso exercícios espirituais, 

noites escuras, ter trilhado caminhos tão tortuosos

para que tua obra deixasse marcas indeléveis. 

Não hesitastes, nem por um momento, 

com o teu elevado pensamento, 

em mostrar, ao se vestir com um saco, 

que a salvação esta longe da opulência. 

Notável ter criado a Companhia de Jesus, 

e se disciplinar com paciência, 

ainda que os néscios,

incapazes de enxergar o próprio umbigo, 

vissem na tua pobreza 

um sinal de perigo. 

Oh! Loyola!

Só imagino que teu disciplinado cadáver, 

que para a riqueza nunca deu pelotas, 

deve, vez por outra, dar cambalhotas 

com o esplendor de tua sepultura!  



Uma poesia de Cristobalina Fernández de Alarcón

 


Quintillas a San Ignacio de Loyola y San Francisco Javier

 

Cristobalina Fernández de Alarcón

 

Como en rayo de luz pura
Al sol, planeta mayor,
Cuando alumbramos procura
Le acompaña el resplandor
Y aumenta su hermosura,
Así por la sombra fría
Del que de Dios se desvía,
Estos rayos suyos dos,
Abriendo camino a Dios
Hacen a Dios compañía...

 

QUINTANILHAS A SANTO INÁCIO DE LOYOLA E SÃO FRANCISCO XAVIER

Como em um raio de luz pura

Ao sol, planeta maior,

Quando iluminado procura

Lhe acompanhar o brilho

E aumenta sua formosura,

Então, pela sombra fria

Daquele que de Deus se desvia,

Estes seus dois raios,

Abrem o caminho para Deus

Fazem a Deus companhia...

Ilustração: http://informacionimagenes.net/. 

Friday, March 12, 2021

E retorna Goliarda Sapienza


 Goliarda Sapienza

Un volo e in un attimo la stanza

fu colma d’un sentore acre d’estate.

La tua voce si spense con la luce

che moriva nel nero del fogliame.

Un fiato caldo alitava ci cingeva

e restammo supine ad aspettare.

 

Um vôo e o quarto num instante

foi povoado de um odor acre de verão.

A tua voz apagou-se com a luz

que morria no preto da folhagem.

Um hálito quente soprando nos envolveu

e  nos deitamos de costas para esperar.

 

Ilustração: http://meredithnoeladams.blogspot.com/

Uma poesia de Isabel González Gil


LA CHICA DEL TAMBOR

Isabel González Gil

En el sueño no nos compromete esta escena.

Quién puede pedirme cuentas

por recibirte en mi cama

si llegas huyendo de una persecución,

o a ti por ser un bebedor matutino.

Después de todo, eso lo vi

en una película al acostarme.

Nadie puede achacarnos

que utilice tu cara para representar

el papel de ese espía tan perturbador.

Las palabras no pesan en los días sucesivos,

aun así, no recuerdo que confieses

haberme amado nunca,

ni aquello que intuía tras tu desamparo.

Siempre son aventuras breves

y un poco enloquecidas.

Con todo, me alegro de encontrarte

en este teatro de sueños,

aunque haya pasado tiempo

y tú hayas formado algo más sólido

que esta etérea realidad que compartimos.

El tacto de la piel no cambia en el recuerdo

aunque no pueda evitar que te deshagas

y ya no estés al despertarme

ni podamos pedir cuentas

a los instantes que mudan

por su fugacidad.

 

A GAROTA DO TAMBOR

No sonho não nos compromete a cena.

Quem pode me pedir contas

por receber-te em minha cama

se chegas correndo de uma perseguição,

ou a ti por ser um bebedor matutino.

Depois de tudo, isso vi

num filme ao me deitar,

ninguém poderá me acusar

que utilizei o teu rosto para representar

o papel daquele espião perturbador.

As palavras não pesam nos dias sucessivos,

Ainda assim, não lembro que confesses

haver me amado nunca,

nem aquilo que intuía por trás de teu desamparo.

Sempre são aventuras breves

e um pouco enlouquecidas.

Contudo, me alegro em ti encontrar

neste teatro de sonhos,

ainda que haja passado o tempo

e tu tenhas formado algo mais sólido

que esta etérea realidade que compartilhamos.

O toque da pele não mudou na lembrança

ainda que não possa impedir que te desfaças

e já não esteja aqui ao despertar

nem podemos pedir contas

aos instantes que mudam

por sua fugacidade.

Ilustração: https://bachmannfashion.blogspot.com/.

Uma poesia de Ruben Echague

 


NOCHEBUENA

Ruben Echague

(Hoy por ser Nochebuena la

Bondad se despertó, pero como

lo haría una Blancanieves

envuelta en telarañas,

bostezó con fastidio y retornó

a su letargo milenario).

Felicidad que el calendario del

papa Gregorio nos manda

disfrutar cada 24 de diciembre…

Felicidad redactada en cursiva

inglesa, y teñida de

fementida purpurina dorada…

Felicidad comprada con tarjeta de

crédito, en doce cuotas sin recargo.

Felicidad de prender y apagar,

que en unos días más volverá a su

ostracismo sórdido,

en lo más profundo del ropero:

¡Hasta la Nochebuena que viene!

 

NATAL

(Hoje por ser véspera de Natal

a bondade despertou, porém como

o faria uma neve branca

envolta nas teias de aranha,

bocejou com fastio e retornou

à sua letargia milenar).

A felicidade que o calendário do

Papa Gregório nos manda

desfrutar todo dia 24 de dezembro ...

Felicidade redigida em itálico

inglês e tingida

de fermentada purpurina dourada ...

Felicidade comprada com cartão

de crédito, em doze vezes sem acréscimo.

Felicidade de ligar e desligar,

que em mais alguns dias voltará ao seu

ostracismo sórdido,

no fundo do armário:

Até a próxima véspera de Natal!

Ilustração: https://www.tuacasa.com.br/🤳

Sunday, March 07, 2021

E Roberto Juarroz reaparece


16

Roberto Juarroz


El centro no es un punto.
Si lo fuera, resultaría fácil acertarlo.
No es ni siquiera la reducción de un punto a su infinito.

El centro es una ausencia,
de punto, de infinito y aun de ausencia
y sólo se acierta con ausencia.

Mírame después de que te hayas ido,
aunque yo esté recién cuando me vaya.
Ahora el centro me ha enseñado a no estar,
pero más tarde el centro estará aquí.

16

O centro não é um ponto.
Se o fosse, resultaria fácil acertá-lo.
Não é nem sequer a redução de um ponto a seu infinito.

O centro é uma ausência, 
de ponto, de infinito e ainda de ausência
e só se acerta com ausência. 

Olha-me depois que tiveres ido, 
ainda que eu esteja aqui quando for embora.
Agora o centro me ensinou a não estar, 
porém, mais tarde o centro estará aqui. 

Ilustração: https://leandromd.blogspot.com/. 

LVXXXIII

 


Em certos dias é só a tristeza

o que me resta

até parece que fui o único convidado

para uma festa

que não aconteceu. 

Soube hoje que mais um 

grande amigo morreu.

E só desejo dormir, 

esquecer

no sono 

da beleza e da dor do viver.

Vai tristeza, vai

com a minha lágrima que cai, 

agora, 

ao menos adormecido, 

sem consciência, 

é possível ter conforto,

enquanto também não chega, 

e para todos vem, 

minha hora

de também não ser ninguém. 

Ilustração: https://www.bedrina.com/. 

(Do livro inédito "Cem Poemas em Cem Dias") 

E o sempre poético Benedetti de volta

 


FUEGO MUDO

Mario Benedetti

A veces el silencio

convoca algarabías 

parodias de coraje

espejismos de duende 

tangos a contrapelo 

desconsoladas rabias 

pregones de la muerte

sed y hambre de vos 


pero otras veces 

es solamente silencio 

soledad como un roble 

desierto sin oasis 

nave desarbolada 

tristeza que gotea 

alrededor de escombros

fuego mudo

FOGO  MUDO

Às vezes, 

o silêncio convoca burburinhos 

paródias de coragem

miragens de duendes

tangos à contrapelo 

raivas desconsoladas

pregões de morte,

sede e fome de você,


porém, outras vezes 

é somente silêncio,

solidão como um carvalho 

deserto sem oásis, 

navio desgovernado,

tristeza que goteja

em volta de destroços 

fogo mudo

Um haikai de Borges

 


HAIKAI

Jorge Luis Borges

¿Es un império 

esa luz que se apaga

o uma luciérnaga?

HAIKAI

É um império

essa luz que se apaga 

ou um vagalume? 

Ilustração: https://valmais5.wordpress.com/. 

Tuesday, March 02, 2021

Elicura Chihuailaf

 


INICIACIÓN


Elicura Chihuailaf

Mi Sueño se ha convertido

en la energía que vive y abre

las puertas de mi alma

Su aire estas palabras

el Azul que su canto sostiene.

INICIAÇÃO

Meu sonho se converteu

na energia que vive e abre

as portas da minha alma

Seu ar estas palavras

e o azul que seu canto sustenta.

 

Ilustração: https://www.cairnsartgallery.com.au/. 

 

DANIEL CALABRESE, POIS.

 


TÉCNICA DEL AUTORRETRATO

 

Daniel Calabrese

 

Fui construido en el 62.
Me sacaron bruscamente del cielo.
No de un cielo que después
sobrevolaron las gaviotas carroñeras.
No de un cielo blanco donde se pudre
la luz amarilla de una lámpara.
No de un cielo para que se revuelvan los aviones.
Me sacaron y tengo que decir quién soy.

 

Fui construido en el 62.
Las vueltas que dio el metal en cada reja.
Las que dio la sangre enterrada en este cuerpo.
Unos pocos se atrevieron a volver
al cielo más profundo (en esta época).
¿Has visto que la mayoría no se levanta
del cielo bajo, del que baña el horizonte?

 

Me sacarán bruscamente de la tierra.
De la tierra sobrevolada, revuelta.
Y tendré que volver a decir quién soy.

 

A TÉCNICA DO AUTORETRATO

Fui construído em 62.

Me sacaram bruscamente do céu.

Não de um céu que depois

sobrevoariam as gaivotas carniceiras.

Não de um céu branco de onde apodrece

a luz amarela de uma luminária.

Não de um céu onde evoluem os aviões.

Me sacaram e tenho que dizer quem sou.

 

Fui construído em 62.

As voltas que deu o metal em cada rede.

As que deu o sangue enterrado neste corpo.

Uns poucos se atreveram a voltar

ao céu mais profundo (nesta época).

Tens visto que a maioria não se levanta

do céu baixo, do que banha o horizonte?

 

Me sacaram bruscamente da terra.

Da terra sobrevoada, revolvida.

E terei que voltar a dizer quem sou.

 

Monday, March 01, 2021

Março se começa com Borges

 


INFERNO, V, 129

 Jorge Luis Borges

Dejan caer el libro, porque ya saben

que son las personas del libro.

(Lo serán de otro, el máximo,

pero eso qué puede importarles.)

Ahora son Paolo y Francesca,

no dos amigos que comparten

el sabor de una fábula.

Se miran con incrédula maravilla.

Las manos no se tocan.

Han descubierto el único tesoro;

han encontrado al otro.

No traicionan a Malatesta,

porque la traición requiere un tercero

y sólo existen ellos dos en el mundo.

Son Paolo y Francesca

y también la reina y su amante

y todos los amantes que han sido

desde aquel Adán y su Eva

en el pasto del Paraíso.

Un libro, un sueño les revela

que son formas de un sueño que fue soñado

en tierras de Bretaña.

Otro libro hará que los hombres,

sueños también, los sueñen.

 

INFERNO, V, 129

 

Deixam cair o livro, porque eles já sabem

que são as pessoas no livro.

(O serão de outra pessoa, no máximo,

Porém  com isto não se importam.)

Agora são Paulo e Francisca,

não dois amigos que compartilham

o sabor de uma fábula.

Se olham com admiração incrédula.

As mãos não se tocam.

Eles descobriram o único tesouro;

encontraram um ao outro.

Eles não traíram Malatesta,

porque a traição requer um terceiro

e existem apenas os dois no mundo.

Eles são Paulo e Francisca

e também a rainha e seu amante

e todos os amantes que foram

desde de Adão e sua Eva

na grama do Paraíso.

Um livro, um sonho lhes revela

que são formas de um sonho que foi sonhado

nas terras da Bretanha.

Outro livro fará que os homens,

sonhem também, os sonhe.

 

Ilustração: https://revistaideal.com.br/.