Saturday, April 24, 2021

Sem Perdão


Impossível é pensar em ti

sem pensar em traição.

Assim mesmo

pego na tua mão

e sigo a teu lado

como se tudo fosse passado

e não é não.

Meu coração magoado

não pode esquecer

das longas noites sem você

e o teu perfume,

que me traz o despertar do desejo,

tem a memória dos beijos

que não foram os meus.

 

A sombra de outro amor tira o brilho dos dias

e escurece meu amor e a poesia.

 

Por mais que te ame é uma agonia.

Escorre, sem querer, da minha boca uma palavra: -Vadia!

Ilustração: https://paroquiadesaojudastadeu.org.br/.

 


Pedro Salinas de volta

 


FE MÍA

Pedro Salinas

No me fío de la rosa

de papel,

tantas veces que la hice

yo con mis manos.

Ni me fío de la otra

rosa verdadera,

hija del sol y sazón,

la prometida del viento.

De ti que nunca te hice,

de ti que nunca te hicieron,

de ti me fío, redondo

seguro azar.

 

MINHA FÉ

Não confio na rosa

de papel,

tantas vezes que a fiz

eu com as minhas mãos.

Não confio na outra

rosa verdadeira,

filha do sol e dos temperos,

a prometida do vento.

De ti que nunca te fiz

de ti que que nunca fizeram,

de ti confio, redondo

seguro, ao sabor da sorte.

Monday, April 19, 2021

E, mais uma vez, Ogden Nash

 


OLD MEN

 Ogden Nash

People expect old men to die,

They do not really mourn old men.

Old men are different. People look

At them with eyes that wonder when…

People watch with unshocked eyes;

But the old men know when an old man dies.


VELHO HOMEM

As pessoas esperam que os velhos morram,

Eles realmente não lamentam os velhos.

Os velhos homens são diferentes. As pessoas olham

Para eles com olhos que buscam saber quando ...

As pessoas observam com olhos sem espanto;

porém os velhos  homens sabem quando um velho homem morre.

Ilustração: Pixabay.

Sunday, April 18, 2021

Uma poesia Pedro Valle

 


MI LIBRO 

Pedro Valle

Lo escribo con el calendario de los árboles

y con los pasos de salvajes inocencias

y con un canto primigenio hecho de semillas y miel

Tiene hojas donde un río cabalga mis andares

y ortografías inventadas en la palabra amor

Tiene entierros madurando nuevos sueños

y lluvias que reclinan en mi sangre sus ventanas

Inconcluso de silencios risas y luciérnagas

lo abro a la vida y de la cintura de los días

nacen versos como pájaros

MEU LIVRO

Escrevo-o com o calendário das árvores

e com os passos das selvagens inocências

e com um canto primal feito de sementes e mel

Tem folhas onde um rio cavalga meus andares

e ortografias inventadas na palavra amor

Tem enterros amadurecendo novos sonhos

e chuvas que reclinam no meu sangue suas janelas

Inconclusos de silêncios, risos e vaga-lumes

abro-o para a vida e na cintura dos dias

versos nascem como pássaros

Ilustração: http://www.luizcarlosbill.com.br/.

 

Thursday, April 15, 2021

Outra poesia de Pedro Salinas

 


AYER TE BESÉ EN LOS LABIOS

Pedro Salinas

Ayer te besé en los labios.

Te besé en los labios. Densos,

rojos. Fue un beso tan corto,

que duró más que un relámpago,

que un milagro, más. El tiempo

después de dártelo

no lo quise para nada ya,

para nada

lo había querido antes.

Se empezó, se acabó en él.

 

Hoy estoy besando un beso;

estoy solo con mis labios.

Los pongo

no en tu boca, no, ya no…

-¿Adónde se me ha escapado?-.

Los pongo

en el beso que te di

ayer, en las bocas juntas

del beso que se besaron.

Y dura este beso más

que el silencio, que la luz.

Porque ya no es una carne

ni una boca lo que beso,

que se escapa, que me huye.

No.

Te estoy besando más lejos.

 

ONTEM TE BEIJEI NOS LÁBIOS

 

Ontem te beijei nos lábios.

Te beijei nos lábios. Densos

vermelhos. Foi um beijo tão rápido

que durou mais que um relâmpago,

que um milagre, mais. O tempo

de dá-lo

não o quis para nada já,

para nada querido antes.

Começou e se acabou nele.

 

Hoje estou beijando um beijo;

estou só com os meus lábios.

Os ponho

não em tua boca, não, já não...

Aonde me hão escapado?

Os ponho

no beijo que te dei

ontem, nas bocas juntas

do beijo que se beijaram.

E dura este beijo mais

que o silêncio, que a luz.

Porque já não és uma carne

nem uma boca o que beijo,

que se escapa, que me foge.

Não.

Te estou beijando mais longe.

Ilustração: https://www.hypeness.com.br/. 

Tuesday, April 13, 2021

Uma poesia de Matilde Alba Swann

 


TAN HUMANO

 Matilde Alba Swann

Tienes algo de montaña...

A tu lado me he sentido leve y me he creído blanca.

Sin reparo te he mostrado mis llagas

y a tu cumbre nevada a veces traje barro,

y hecha pedazos mi alma.

Y he vuelto siempre limpia, y he vuelto siempre sana.

 

Tienes algo de planta..

es tan fresca tu sombra y es tan calma

la voz de tu follaje, y es tu raíz tan honda.

Al rumor de tu savia , descansé mi fatiga

y adormecí mis ansias...

 

Tienes algo de mar...

Toda la majestuosa distancia, del gigante de sal.

Espuma y linfa, por magia de tu espejo

mi cara entristecida, se ha visto cristalina.

Y cuando en hora perpleja llegué a tus orillas

tu verde voz me trajo de nuevo una olvidada

tibieza de regazo.

Eres tan humano que no pareces hombre

 

tan majestuoso y blanco, tan fresco y tan hondo

que pareces montaña, planta, mar...

y aunque te asombre tan humano eres

que no pareces hombre.

 

TÃO HUMANO

 

Tens algo de montanha ...

A teu lado me senti leve e acreditei ser branca.

Sem escrúpulos, mostrei-lhe minhas feridas

E, às vezes, a teu cume de neve, levei traje de barro,

e feita em pedaços minha alma.

E eu sempre voltei limpa, e sempre voltei saudável.

 

Tens algo de planta ...

és tão fresca tua sombra tão calma

a voz de tua folhagem, e é tua raiz tão profunda.

Ao som de tua seiva, eu descansei meu cansaço

e adormeci minhas ânsias ...

 

Tens algo de mar ...

Toda a majestosa distância, do gigante de sal.

Espuma e linfa, por magia do teu espelho

meu rosto entristecido se vê cristalino.

E quando em hora de perplexa cheguei nas tuas praias

tua voz verde me trouxe de novo uma esquecida

suavidade do colo.

És tão humano que não pareces homem.

 

tão majestoso e branco, tão fresco e tão profundo

que pareces uma montanha, uma planta, um mar ...

e ainda que te assombre, és tão humano

que não pareces homem.

E, de volta, Jack Prelutsky

 


THE VISITOR 

 Jack Prelutsky

 it came today to visit

and moved into the house

it was smaller than an elephant

but larger than a mouse

 

first it slapped my sister

then it kicked my dad

then it pushed my mother

oh! that really made me mad

 

it went and tickled rover

and terrified the cat

it sliced apart my necktie

and rudely crushed my hat

 

it smeared my head with honey

and filled the tub with rocks

and when i yelled in anger

it stole my shoes and socks

 

that's just the way it happened

it happened all today

before it bowed politely

and softly went away

 

O VISITANTE

veio hoje para me visitar

e mudou-se para a casa

era menor que um elefante

porém maior que um rato

 

primeiro estapeou minha irmã

então chutou meu pai

então empurrou minha mãe

Oh! Isto realmente me deixou louco

 

foi e arranhou a bicicleta

e apavorou o gato

cortou minha gravata

e rudemente pisou no meu chapéu

 

manchou minha cabeça com mel

e encheu a banheira com pedras

e quando eu gritei de raiva

roubou meus sapatos e meias

 

foi justamente assim que aconteceu

aconteceu isto tudo hoje

antes de se curvar polidamente

e suavemente ir embora para longe.

Monday, April 12, 2021

Pedro Salinas revisitado

Dez anos atrás traduzi este poema. Não gostei da tradução na época, inclusive com um erro, pois, na pressa de postar, esqueci de retirar uma palavra. Mas, fui esquecendo de refazer, apesar de um comentário correto que me fizeram sobre sua interpretação. Só agora, nem sei a razão, talvez, o ócio da pandemia, me fez voltar para traduzir melhor. E a poesia de Salinas é linda.  


LA VOZ A TI DEBIDA

Pedro Salinas

 

La forma de querer tú

es dejarme que te quiera.

El sí con que te me rindes

es el silencio. Tus besos

son ofrecerme los labios

para que los bese yo.

Jamás palabras, abrazos,

me dirán que tú existías,

que me quisiste: jamás.

Me lo dicen hojas blancas,

mapas, augurios, teléfonos;

tú, no.

Y estoy abrazado a ti

sin preguntarte, de miedo

a que no sea verdad

que tú vives y me quieres.

Y estoy abrazado a ti

sin mirar y sin tocarte.

No vaya a ser que descubra

con preguntas, con caricias,

esa soledad inmensa

de quererte sólo yo.

 

A VOZ A TI DEVIDA

 

Tua forma de me querer

é deixar-me que te queiras.

É assim como tu me rendes

com o silêncio. Teus beijos

se oferecem aos meus lábios

para que os beije eu.

Jamais palavras, abraços,

me dirão que tu existias,

que me quisestes: jamais.

Me dizem as folhas brancas,

mapas, augúrios, telefonemas,

tu, não.

E estou abraçado a ti

sem te perguntar, com medo

de que não seja verdade

que tu vives e me queres.

E estou abraçado a ti

sem olhar e sem tocar-te.  

Não vou ser quem descubra

com perguntas, com carícias,

esta solidão imensa

de só eu te querer.

Ilustração:  https://www.spiritfanfiction.com/. 

 

 


Uma poesia de Ogden Nash

 


THE CENTIPEDE

  Ogden Nash

 I objurgate the centipede,

A bug we do not really need.

At sleepy-time he beats a path

Straight to the bedroom or the bath.

You always wallop where he's not,

Or, if he is, he makes a spot.

 

A CENTOPÉIA

Eu censuro a centopéia,

Um bicho que nós realmente não necessitamos.

Na hora de dormir, ele percorre um trajeto

Direto para o quarto ou para o banheiro.

Você sempre bate onde ele não está,

Ou, se ele está, ele deixa uma vaga.

Ilustração: https://www.elo7.com.br/

 

Ilustração: https://www.elo7.com.br/.

Sunday, April 11, 2021

LXXIX

 


O governador decretou calamidade pública.

O prefeito soltou a alcatéia de fiscais,

a Polícia Militar em peso vem nos fiscalizar

e não posso trabalhar mais.

O doutor em ciências políticas,

da própria sombra com medo,

me aponta o dedo:

-Fique em casa!

O dono, no Ecoville Park, da melhor mansão

me recrimina:

-Não seja sem noção.

Até a filhinha do ex-patrão, uma menina,

me chama atenção por trabalhar

ameaçando me dedurar. 

Não falta nem um estudante de esquerda

para dizer que se não sou suicida

sou genocida. 

E bradam os apresentadores e artistas de televisão:

-Fique em casa!

O pequeno dilema em que me vejo,

nada original,

é que, contra a necessidade e até o desejo,

nos oprime o espaço da residência, quase uma miniatura,

para sete almas. E a maior desventura, 

que me tortura;

a dispensa quase vazia e nenhum capital.

Assim, na pandemia, a escolha me consome:

Morrer de covid-19 ou morrer de fome!

Ilustração: Ipu Noticias. 

(Do livro inédito "Cem Poemas em Cem Dias", escrito durante a pandemia). 

Outra poesia de Jack Prelutsky

 


Last Night I Dreamed of Chickens

Jack Prelutsky

Last night I dreamed of chickens,

there were chickens everywhere,

they were standing on my stomach,

they were nesting in my hair,

they were pecking at my pillow,

they were hopping on my head,

they were ruffling up their feathers

as they raced about my bed.

 

They were on the chairs and tables,

they were on the chandeliers,

they were roosting in the corners,

they were clucking in my ears,

there were chickens, chickens, chickens

for as far as I could see...

when I woke today, I noticed

there were eggs on top of me.

 

ONTEM À NOITE EU SONHEI COM GALINHAS

Ontem à noite eu sonhei com galinhas,

haviam galinhas em todos os lugares,

elas estavam em pé na minha barriga,

elas estavam aninhadas no meu cabelo,

elas estavam bicando meu travesseiro,

elas estavam pulando na minha cabeça,

elas estavam bagunçando suas penas

enquanto elas corriam sobre a minha cama.

 

Elas estavam nas cadeiras e mesas,

elas estavam nos candelabros,

elas estavam empoleirados nos cantos,

elas estavam cacarejando em meus ouvidos,

haviam galinhas, galinhas, galinhas

até onde pude ver ...

quando acordei hoje, eu percebi

que haviam ovos em cima de mim.

Saturday, April 10, 2021

Mais uma poesia de Fernando Luis Pérez Poza

 


ESTA NOCHE

Fernando Luis Pérez Poza

Esta noche sueño como siempre;

y no quiero, compañera, despertar.

Esta noche es éter. ¿Por qué será?

El corazón se me vistió de ti, amor.

Esta noche has vuelto, disfrazada

de ternura, piedra derretida al sol.

Esta noche en que gotea el tempo

y el grifo del recuerdo balbucia

féretros de ayer como si fueran hoy,

te pienso y, así no más, sós realidad.

 

ESTA NOITE

Esta noite sonho como sempre;

e não quero, companheira, despertar.

Esta noite é éter. Por que será?

Meu coração me vestiu de ti, amor.

Esta noite tu voltaste, disfarçada

de ternura, pedra derretida ao sol.

Esta noite em que goteja o tempo

e o grifo das recordações balbucia

enterros de ontem como se fossem hoje,

te penso e, assim não mais, és a realidade.

Ilustração: mensagensbonitas.com.br.