Thursday, October 04, 2018

Uma poesia de Gilberto Owen


Espera, octubre                                     
Gilberto Owen

Espera, octubre.
No hables, voz. Abril disuelve apenas
la piel de las estatuas en espuma,
aún canta en flor el árbol de las venas,
y ya tu augurio a ras del mar, tu bruma
que sobre el gozo cuelga sus cadenas,
y tu clima de menta, en que se esfuma
el pensamiento por su laberinto
y se ahonda el laberinto del instinto.

No quemes, cal. No raye las paredes
de aire de abril de mi festín tu aviso.
Si ya me sabes presa de tus redes,
si a mi soñar vivir nací sumiso,
vuelve al sueño real de que procedes,
déjame roca el humo infiel que piso,
deja a mi sed el fruto, el vino, el seno,
y a mi rencor su diente de veneno.

Espejo, no me mires todavía.
Abril nunca es abril en el desierto,
y me espía tu noche todo el día
para que al verte yo me mire muerto;
Narciso no murió de egolatría,
sí cuando le enseñé que eres incierto,
que eres igual al hombre que te mira
y que al mirarse en ti ya no se mira.


ESPERA, OUTUBRO

Espera, outubro.
Não fale, voz. Abril dissolve apenas
a pele das estátuas em espuma,
ainda canta em flor a árvore das veias,
e já o seu augúrio ao nível do mar, tua bruma
que sobre o gozo pendura suas correntes
e seu clima de hortelã, em que se esfuma
o pensamento por seu labirinto
e se aprofunda o labirinto do instinto.

Não queimes, cal. Não risque as paredes
do ar de abril do meu banquete teu aviso.
Se já não me sabes presa de tuas redes,
se ao meu sonho de viver nasci submisso,
volta do sonho real de que procedes,
deixe-me afastar a fumaça infiel que piso
Deixa à minha sede o fruto, o vinho, o seio,
e ao meu rancor seu dente de veneno.

Espelho, não me olhes, todavia.
Abril nunca é abril no deserto
e me espia sua noite todo dia
para que, ao ver-te eu me veja morto;
Narciso não morreu de egolatria
sim, quando lhe ensinei que era incerto,
que era igual ao homem que te olha
e que  ao olhar-te em ti já não se olha.

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