Thursday, April 14, 2016

Uma poesia de Paul Nougé

 
Passage de midi

Paul Nougé

Le parfum de ce corps écartait les vêtements trop faibles et la clarté oblique de la chair achevait de dénuder la femme blanche mollement étendue.
Les cloisons de la chambre ne résistaient pas davantage et bien que l’on fût à l’instant de midi, les fenêtres s’emplirent soudain d’une épaisse nuit sucrée.
Les mains parlaient à la blancheur abandonnée que l’on savait délicieusement tendue de sang et les ventouses des yeux en gorgeaient la tête avide.
Enfin, la forte roue de l’ivresse entraîna cet univers nouveau qui
Retrouvait ainsi la marche liquide des premiers instants du monde.

A passagem do  meio dia

O perfume de seu corpo separou as vestes muito ligeiras e a claridade oblíqua da carne acabou por desnudar a brancura da mulher molemente reclinada.
As paredes do quarto não resistiram mais, e, mesmo sendo um instante do meio-dia, as janelas se encheram, de repente, da espessura doce da noite.
As mãos falavam à brancura abandonada que se sabia deliciosamente tensa de sangue e e os olhos engoliram a gananciosa cabeça.
Por fim, a embriaguez da alta roda arrastou este universo novo
para retomar o curso líquido dos primeiros instantes do mundo.


Ilustração: www.insidelisbon.com

Wednesday, April 13, 2016

Outra poesia de José Asunción Silva

                                                                                    

Al oído del lector

José Asunción Salustiano Facundo Silva Gómez

No fue pasión aquello,
Fue una ternura vaga
Lo que inspiran los niños enfermizos,
Los tiempos idos y las noches pálidas.
El espíritu sólo
Al conmoverse canta:
Cuando el amor lo agita poderoso
Tiembla, medita, se recoge y calla.
Pasión hubiera sido
En verdad; estas páginas
En otro tiempo más feliz escritas
No tuvieran estrofas sino lágrimas.

Ao ouvido do leitor

Não foi paixão aquilo,
foi uma vaga ternura
o que inspirou os filhos doentios,
os tempos idos e as noites pálidas.
O espírito só
ao comover-se canta:
quando o amor o agira poderoso
treme, medita, se recolhe e cala.
Paixão tinha sido
Na verdade; estas páginas
em outro tempo mais felizes escritas
não tiveram estrofes e sim lágrimas.


Ilustração: estilohomem.blog.com

Uma poesia de José Asunción Silva




Estrellas fijas

José Asunción Salustiano Facundo Silva Gómez

Cuando ya de la vida
El alma tenga, con el cuerpo, rota,
Y duerma en el sepulcro
Esa noche, más larga que las otras,
Mis ojos, que en recuerdo
Del infinito eterno de las cosas,
Guardaron sólo, como de un ensueño,
La tibia luz de tus miradas hondas,
Al ir descomponiéndose
Entre la oscura fosa,
Verán, en lo ignorado de la muerte,
Tus ojos... destacándose en las sombras.

Estrelas fixas
Quando já da vida
a alma tenha, com o corpo, partido,
e durma na sepultura
nessa noite, mais larga que as outras,
meus olhos, que em recordação
do infinito eterno das coisas,
guardarão somente, como de um sonho,
a suave luz de teus olhares profundos,
ao ir decompondo-se
entre o escuro fosso,
verão, no ignorado da morte,
teus olhos...destacando-se entre as sombras.


Ilustração: www.pensamentosereflexoescristas.com

Monday, April 11, 2016

Uma poesia de Juan Ramón Saraiva

 
El hombre siembra el mundo en su jardín

Juan Ramón Saravia

Cada mañana
el hombre saluda uno por uno los rincones de su casa,
abraza con el corazón el sol del patio,
conversa con los líquenes,
con los clavos de las vigas,
comparte con su perro
el terrible secreto de llevar los días
y abre de parte a parte, a la orilla de los pájaros,
el mar.

Pero un día cualquiera
el hombre recuesta su levedad en la pared del tiempo
y el tiempo le bebe su único segundo
y el Universo se niega a dar un paso más.

O homem semeia o mundo em seu jardim

Cada manhã
o homem saúda um por um os lugares de sua casa,
abraça com o coração o sol do pátio,
conversa com os liquens,
com os cravos das vigas,  
compartilha com seu cachorro
o terrível segredo de levar os dias
e abre de parte a parte as costas aos pássaros
do mar.
Porém, um dia qualquer
o homem repousará sua leveza na parede do tempo
e o tempo há de beber seu único segundo
e o universo se negará a dar um passo a mais.

Ilustração: jovemligado.wordpress.com


Sunday, April 10, 2016

Três poemas de Benito del Pliego

El gato                                                                                              
Benito del Pliego
  
-La pupila que vio la sombra en la noche refleja en su galaxia el brillo de otros astros; la que atrapa un bosque desde la ventana y sueña el gorjeo de un pájaro.

No parpadea la efigie esmaltada de un gato.

¿De qué sirve ladrar a la luna? Hace falta no inmutarse para alcanzarla.

-A pupila que vejo à sombra da noite reflete em sua galáxia o brilho de outros astros; as armadilhas de um bosque desd’a janela e sonha o gorjeio de um passarinho.

No piscar do olho a efígie esmaltada de um gato.

De que serve ladrar para a lua? Faz falta não ser implacável para alcancá-la.

Sabes que te eludes...

 Benito del Pliego

-Sabes que te eludes, que tu avance y tu caída se compensan, que no hay paso que te lleve al centro ni eje que atraviese tu distancia.

Deja que lo diga: basta con soltar para que todo salte. Si el empeño es resistencia, el que deja de insistir todo lo alcanza.
  
Sabes que te iludes

-Sabes que te iludes, que teu avanço e tua queda se compensam, que não há passo que te
leve ao centro nem eixo que atravesse tua distância.

Deixa que o diga: basta uma gota para que tudo salte. Se o empenho é resistência, o que deixa de insistir tudo o alcança.

El día se escapa...

Benito del Pliego

El día se escapa. Calienta el sol la esperanza en la hora de la excusa. Ligado al monóxido de los camiones, a los giros de su rueda, el eco arrastra el sopor en la avenida. De nuevo luz.

O dia foge

O dia foge. Esquenta o sol da esperança na hora da desculpa. Ligado ao monóxido dos caminhões, aos giros de suas rodas, o eco arrasta o torpor na avenida. De novo luz.


Saturday, April 09, 2016

Uma poesia de Elizabeth Jennings

MOVING HOUSE                                                                    


Elizabeth Jennings

Soon the house will be filled again,
Our boxes have been carried off,
The walls are bare, we only leave
White patches where our pictures hung.
Dust settles widely now among
The places where we used to move.

And though we are most glad to go
We want to leave some hint behind,
Nothing so powerful as a ghost
But some part of us to remind
New tenants whom we do not know
That the old house is not resigned

To wind and dust and spaces cut
Clean where our furniture was put.
We want to flourish our old selves
And frighten the new owners, but
We quite forget they will be glad
To find some trace upon the shelves
Of our own past, that what they dread,
Like us, is space untenanted.


MUDANÇA

Logo estará de novo a casa cheia,
já haviam levado nossas caixas,
as paredes estão nuas, só deixaram
apenas retângulos onde os quadros
ficavam pendurados e, agora,
a poeira e o lixo se assentam  
pelos lugares onde nós movíamos.

E ainda que possamos seguir alegres
queremos deixar algum rastro nosso,
algo não tão poderoso como um fantasma
porém, que,  de certa forma, nos possa recordar
aos novos inquilinos, aos que não conhecemos,
que não se renunciou à velha casa.

Que nem que o vento, nem a poeira, nem o espaço
limpam o vazio onde estavam os móveis.
Queremos que floresçam os nossos velhos eus
e assustem os novos proprietários, mas,
nos basta esquecer que terão prazer
ao encontrar algum traço nas prateleiras
de nosso próprio passado, já que o que temem,
como todos nós, é o espaço desocupado.


Ilustração: blogcaixasnet.com.br

Friday, April 08, 2016

Duas poesias de Natalia Rozenblum




Natalia Rozenblum

La lluvia te resbala
igual que yo.
y a mí me pesa tanto
la ropa
mojada.

A chuva resvala em ti
igual a eu.
e a mim me pesa tanto
a roupa
molhada.

Natalia Rozenblum

Busco pájaros en tu sweater
para poder tocarte
mucho.
los cuento
y te digo
mirá, un mirlo
aunque no tenga idea
si es un mirlo
una paloma
una ratita con alas.


Busco pássaros em tua blusa
para poder te tocar
muito
e os conto
e te digo
olha, um melro
ainda que não tenha ideia
se és um melro,
uma pomba
ou um ratinho com asas.


Ilustração: itodas.uol.com.br

Thursday, April 07, 2016

Uma poesia de Isabella Leardini

 
Isabella Leardini                                                                   

E dicono che se ci sei anche tu
sembro meno nervosa...
E’ che mi togli i nervi e te ne vai...
So solo che la curva del tuo collo
è il posto più perfetto che ci sia
per questa fronte
e se mi abbracci è come entrare in casa
sapendo che non ci si può restare.

E dizem que se estais aqui
pareço menos nervosa...
Será que me acalmas os nervos e te vais...
Só sei que a curva do teu colo
é o lugar mais perfeito  que tenho
pela frente
e que, se me abraças, é como entrar em casa
sabendo que não é possível ficar calma.


Ilustração: palavrasberrantes.blogspot.com

Wednesday, April 06, 2016

REFLEXÕES SOBRE MINHA VIDA


Quando, de noite, me balancei                                              
naquele balancinho do jardim-
disse, de mim para mim-
como me faziam falta seus carinhos.
E, de novo, me balancei bem de mansinho
sabendo que, tanto tempo, não os tive,
mesmo, na distância, o amor tendo.
Senti o vento que, frio, me bateu no rosto
me despertando, a contragosto,
do sonho que, por um momento, alimentei
de que eras minha rainha e eu, teu rei.
E me balançando vi que pouco importa,
pois, nem o tempo, a morte ou a distância
há de impedir este amor que, na constância,
de saber que deste querer sempre viverei
porque que tu me amas e eu te amo, sei.


Ilustração: pt.123rf.com

Tuesday, April 05, 2016

A vida se deve colorir

AN EPITAPH                           
Walter de la Mare

Here lies a most beautiful lady,
Light of step and heart was she:
I think she was the most beautiful lady
That ever was in the West Country.
But beauty vanishes; beauty passes;
However rare, rare it be;
And when I crumble who shall remember
This lady of the West Country?

Um epitáfio  

Aqui reside a mais bela senhora,
Luz dos meus passos e do coração foi ela:
Penso que ela foi a mulher mais bonita
Que já esteve na região Norte.
Mas, a beleza desaparece, a beleza passa;
No entanto é rara, por mais rara que seja;
E quando eu  morrer quem irá lembrar-se
Da mais bela senhora do Pará?

Ilustração: www.youtube.com 



Dois poemas de Angela Dibuono

SPECCHI                                                                                         
Angela Dibuono

Ho visto
occhi gravidi 
di pianto rosso
sembravano 
i miei riflessi
nello specchio
opaco 
di un altro.

Espelhos

Vi
os olhos prenhes
de um pranto vermelho
que mostravam
meus reflexos
no espelho
opaco
de um outro.

INDIFFERENZA

Angela Dibuono

Violenza è mentire a se stessi
quando la coscienza non dorme.
Violenza è la nostra indifferenza.

INDIFERENÇA

A violência é mentir para si mesmo
quando a consciência não dorme.
A violência é a nossa indiferença.


Ilustração: manuelanygaard.blogspot.com

Monday, April 04, 2016

Uma poesia de Jack Gilbert


The Forgotten Dialect of the Heart                                             

Jack Gilbert

How astonishing it is that language can almost mean,
and frightening that it does not quite. Love, we say,
God, we say, Rome and Michiko, we write, and the words
get it wrong. We say bread and it means according
to which nation. French has no word for home,
and we have no word for strict pleasure. A people
in northern India is dying out because their ancient
tongue has no words for endearment. I dream of lost
vocabularies that might express some of what
we no longer can. Maybe the Etruscan texts would
finally explain why the couples on their tombs
are smiling. And maybe not. When the thousands
of mysterious Sumerian tablets were translated,
they seemed to be business records. But what if they
are poems or psalms? My joy is the same as twelve
Ethiopian goats standing silent in the morning light.
O Lord, thou art slabs of salt and ingots of copper,
as grand as ripe barley lithe under the wind’s labor.
Her breasts are six white oxen loaded with bolts
of long-fibered Egyptian cotton. My love is a hundred
pitchers of honey. Shiploads of thuya are what
my body wants to say to your body. Giraffes are this
desire in the dark. Perhaps the spiral Minoan script
is not a language but a map. What we feel most has
no name but amber, archers, cinnamon, horses and birds. 


O esquecido dialeto do coração

Tão surpreendente é o que a linguagem pode significar,
que se torna assustador que não seja bem assim. Amor, podemos dizer,
Deus, nós dizemos, Roma e Michiko, escrevemos, e os termos
são entendidos errados. Dizemos pão e isto não é de acordo
com qualquer nação. O francês não tem nenhuma palavra para casa,
e não temos nenhuma palavra para o prazer estrito. Um povo,
no norte da Índia, está morrendo porque a sua antiga
língua não tem palavras para ternura. Eu sonho com perdidos
vocabulários que possam expressar um pouco do que
não podemos mais dizer. Talvez os textos etruscos poderiam
afinal explicar por que os casais em seus túmulos
estão sorrindo. E talvez não. Então as milhares de
misteriosas tabuletas sumérias que foram traduzidas,
elas pareciam ser os registros de negócios. Mas, o que elas
são, poemas ou salmos? Minha alegria é a mesma que as das doze
cabras etíopes em pé em silêncio na luz da manhã.
Ó Senhor, as lajes de arte de sal e os lingotes de cobre,
são tão grandes quanto a ágil cevada madura sob o trabalho do vento.
Seus seios são seis bois brancos carregado de carretéis
de longas fibras de algodão egípcio. Meu amor é uma centena
de jarros de mel. Carregamentos de ciprestes são o que
meu corpo quer dizer ao seu corpo. Girafas são este
desejo no escuro. Talvez o cretáceo espiral
não seja uma linguagem, mas, um mapa. O que nós sentimos não tem
nenhum nome, mas, é âmbar, arqueiros, canela, cavalos e aves.


Ilustração: qgufo.blogspot.com

ODE AOS INSUBSTITUÍVEIS



                                                              
Não existiu,
nem existirá
alguém como Oscarito-
disse, num momento  bonito,
José Lewgoy, embora por modéstia
não dissesse, que também lhe cabia
a afirmação de que não existe,
nem existirá alguém igual a ele.
Ora, mas, o mesmo se pode dizer-
sem nenhum exagero-
de outro notável ator e companheiro,
o inesquecível Grande Otelo.
Que fizeram época e história
comprova o fato de que não são esquecidos
e continuam, no imaginário, a serem queridos
mesmo que, como as chanchadas
foram feitas de insubstituíveis,
sua fase e a Atlântida estão perdidas
e, só nas telas e na glória
da grandeza do cinema
ainda ganhem vida.

Ilustração: memorialdafama.com/expirados.blogspot.com/ pequebarato.com.br


Duas poesias de Miguel Argaya


PULVIS ET UMBRA

Miguel Argaya

No es la primera vez. La despreocupación pagana de Dionisos ya se nos ha muerto antes muchas veces. Demasiadas. Tantas como la hemos dejado entronizarse y gobernar sin límites. Hoy la cubren incontables epitafios con nombre de tragedia. Y no hablo sólo de Fukushima. Hablo de la verdad implacable que bulle en el extremo último de la vida. Ésa que el devoto de Dionisos hace por olvidar, en la esperanza infantil —e improbable— de que ella también lo olvide a él.

POEIRA E SOMBRA

Não é a primeira vez. A despreocupação pagã de Dionísio já morreu antes de nós muitas vezes. Demasiadas. Tantas como a temos deixado entronizar-se e governar sem limites. Hoje cobrem inúmeros epitáfios com nome de tragédia. E não falo só de Fukushima. Falo da verdade implacável que ferve no extremo último da vida. Esta que o devoto de Dioniso faz por esquecer, na esperança infantil- e improvável- de que ela também esqueça ele.

REGISTRO CIVIL

Miguel Argaya

Naces, ya te están registrando.
¿Será por si traes un pan
de contrabando?

Registro civil

Nasces, já estão te registrando.
Será porque já trazes um pão
De contrabando?


Ilustração: imagens.n3po.com

Friday, April 01, 2016

Mais uma vez Roque Dalton



EL VANIDOSO

Roque Dalton Garcia

Yo sería un gran muerto.

Mis vicios entonces lucirían como joyas antiguas
con esos deliciosos colores del veneno.
Habría flores de todos los aromas en mi tumba
e imitarían los adolescentes mis gestos de júbilo,
mis ocultas palabras de congoja.

Tal vez alguien diría que fui leal y fui bueno.
Pero solamente tú recordarías
mi manera de mirar a los ojos.

O VAIDOSO

Eu seria um grande morto.

Meus vícios, então, brilhariam como jóias antigas
com estas deliciosas cores do veneno.
Haveria flores com todos os aromas na minha sepultura
e os adolescentes imitariam meus gestos de alegria,
minhas palavras ocultas de tristeza.

Talvez alguém diria que fui leal e bom.
Porém, só tu lembrarias
a minha maneira de olhar os  teus olhos.



NINFETA

O segredo de teus olhos  
É esta qualidade impressionante
Que revela a beleza das coisas
Com uma ingenuidade
Que só os puros podem captar.
Há algo de divino
Em teu olhar
Em ser o que tu és:
A inocência de não se saber
O sumo doce do pecado!


Ilustração: noticiasdatv.uol.com.br