Tuesday, April 17, 2018

Uma poesia de Carlos Barral


Ternura de tigre                                         
Carlos Barral

La lengua sobre todo, afectuosa,
áspera y cortesana en el saludo.

Las zarpas de abrazar, con qué cuidado,
o de impetrar afecto, o daño, a quien lo doma.

La caricia con uñas, el pecho boca arriba
para mostrar el corazón cautivo.

La piel toda entregada, la voz ronca
retozando en su jaula de colmillos,
y los ojos enormes, de algas, sonriendo
a la muerte inmediata
a que fue sentenciado.

A TERNURA DE TIGRE

A língua sobretudo, afetuosa.
àspera e cortesã no saudar

As garras do abraçar, com que cuidado,
o de impetrar afeto, o dano, a quem o doma.

A carícia com unhas, o peito boca acima
para mostrar o coração cativo.

A pele toda entregada, a voz rouca
brincando em suas jaulas de presas
e os olhos enormes, de algas, sorrindo
à morte imediata
a que fui sentenciado.


Ilustração: http://amaldicaodotigre.tumblr.com/

Wednesday, April 11, 2018

Uma poesia de Jules Verne


Ô toi, que mon amour profond...                  

Jules Verne

A Herminie.

Ô toi, que mon amour profond et sans mélange
Formé de ton image et de ton souvenir,
Avait su distinguer en l'auguste phalange
Des jeunes beautés dont nous faisons notre ange
Pour nous guider dans l'avenir,

Toi que tout rappelait à mon âme inquiète,
Et dont l'âme sans cesse assise auprès de moi,
Me dérobait du temps, qu'à présent je regrette,
Le cours lent à mes voeux, quand la bouche muette,
Je ne pouvais penser qu'à toi,

Qu'as-tu fait - loin de moi, tu fuis, et ton sourire
Vers moi se tourne encor, adorable et moqueur,
Tu sais ce que toujours, tout-puissant, il m'inspire,
Tu l'adresses, hélas ! il me paraît me dire :
Je te quitte de gaîté de coeur !

Tu me railles, méchante, ah ! de ta moquerie,
Si tu voyais combien l'aiguillon me fait mal,
Ce qu'à l'âme, il me met de douleur, de furie
!D'amour ! tu cesserais ta vile fourberie !...
Mais non ! - cela t'est bien égal !

C'est trop te demander - pars, fuis où bon te semble ;
Ailleurs, va-t'en verser la joie et le plaisir ;
Cherche un autre amant ; Dieu fasse qu'il me ressemble !...
Nous pouvions dans l'amour vivre longtemps ensemble...
Seul, dans l'ennui, je vais mourir !

Ó tu, meu amor profundo ...

Para Herminie.

Ó tu, meu amor profundo e sem mistura
Formado de tua imagem e de tua memória,
Fui capaz de distinguir na falange augusta
Das jovens belezas que nós fizemos nosso anjo
Para nos guiar no futuro,

Tu, de quem tudo lembra minha alma inquieta,
E cuja alma sem cessar senta perto de mim,
Me rouba o tempo, que agora lamento
O lento curso dos meus desejos, quando com a boca muda,
Só podia pensar em ti

O que tem feito- longe de mim, fugias e o teu sorriso
Até mim ainda volta, adorável e zombeteiro,
Sabes isto o que sempre, todo-poderoso, me inspira
Tu o sabes, aí! E pareces me dizer:
Te  abandono à vontade!

Tu zombas de mim, malvada, com tua brincadeira
Se pudesse ver o quanto mal me faz isto.
É que em minha alma, sinto dor, fúria
De amor! Poderias terminar teu vil engano!
Porém, não! - Isto te importa pouco!

É muito pedir-te - saia, fuja para onde te recebam;
Além do mais te ver derramar alegria e prazer;
Busca outro amante; Deus queira que ele se pareça comigo!
Poderíamos, no amor, viver muito tempo juntos ...
Só, no aborrecimento, vou morrer!

Ilustração: Iny Andrade - WordPress.com.

Uma poesia de Magali Fernández Soto


ALEGRÍA                                   

Magali Fernández Soto

He llamado a los abstemios a la risa, beber a fondo blanco
Dejar de lado las tonsuras y corbatas, por las grietas en los labios
Inevitable que una chispa encienda el fuego por las calles
Fuego real, intrínseco y vital
justo en el vientre.
Que los nacidos por venir los elegidos por el cielo,
sepan reír.

ALEGRIA

Chamei os abstêmios para rir, beber a fundo branco
deixei de lado as tonsuras e gravatas, as rachaduras nos lábios
inevitável que uma faísca acenda o fogo pelas ruas
jogo real, intrínseco e vital
justo no ventre.
Que os nascidos por vir sejam os escolhidos pelo céu
para saber rir

Ilustração: Luso-Poemas.

Tuesday, April 10, 2018

E, mais uma vez, Amado Nervo


 
EL PRIMER BESO                                               Amado Nervo

Yo ya me despedía…. y palpitante
cerca mi labio de tus labios rojos,
«Hasta mañana», susurraste;
yo te miré a los ojos un instante
y tú cerraste sin pensar los ojos
y te di el primer beso: alcé la frente
iluminado por mi dicha cierta.

Salí a la calle alborozadamente
mientras tu te asomabas a la puerta
mirándome encendida y sonriente.
Volví la cara en dulce arrobamiento,
y sin dejarte de mirar siquiera,
salté a un tranvía en raudo movimiento;
y me quedé mirándote un momento
y sonriendo con el alma entera,
y aún más te sonreí… Y en el tranvía
a un ansioso, sarcástico y curioso,
que nos miró a los dos con ironía,
le dije poniéndome dichoso:
-«Perdóneme, Señor esta alegría.»

O primeiro beijo

Eu já me despedia ... e palpitante
perto meus lábios de teus lábios vermelhos,
"Até amanhã", sussurrastes;
Eu  te olhei nos olhos por um instante
e tu cerrastes sem pensar os olhos
e te dei o primeiro beijo: levantei a testa
iluminado pela minha felicidade certa.

Saí para a rua alvoroçadamente
enquanto tu assomavas à porta
olhando-me incendiada e sorridente.
Virei o rosto em doce arrebatamento
e sem deixar de olhar sequer
saltei em um bonde em rápido movimento;
e fiquei te olhando por um momento
e sorrindo com a alma inteira,
e ainda mais te sorri ... E no bonde
a um ansioso, sarcástico e curioso,
que nos olhou com ironia
Eu disse a ele, sentindo-me feliz:
- «Perdoa-me, Senhor, esta alegria»

Ilustração: O Sul.

E ainda o grande Juan Ramón Jiménez


Ante la sombra virgen   
Juan Ramón Jiménez

Siempre yo penetrándote,
pero tú siempre virgen,
sombra; como aquel día
en que primero vine
llamando a tu secreto,
cargado de afán libre.

¡Virgen oscura y plena,
pasada de hondos iris
que apenas se ven; toda
negra, con las sublimes
estrellas, que no llegan
(arriba) a descubrirte!

Ante a sombra virgem

Sempre eu te penetrando,
Mas, você sempre virgem
sombra como naquele dia
em que primeiro eu vim
chamando teu segredo,
carregado com uma ânsia livre.

Virgem escura e plena,
passado de profunda íris
que apenas vê; toda
negra, com as sublimes
estrelas, que não chegam
(acima) para te descobrir!

Friday, April 06, 2018

E, mais uma vez, os versos de Miguel Hernández


Canción última              
Miguel Hernández

Pintada, no vacía:
pintada está mi casa
del color de las grandes
pasiones y desgracias.

Regresará del llanto
adonde fue llevada
con su desierta mesa
con su ruinosa cama.

Florecerán los besos
sobre las almohadas.
Y en torno de los cuerpos
elevará la sábana
su intensa enredadera
nocturna, perfumada.

El odio se amortigua
detrás de la ventana.

Será la garra suave.

Dejadme la esperanza.

Última canção

Pintado, não vazio:
pintada está minha casa
de grandes cores
paixões e infortúnios.

Regressarei do pranto
onde fui levada
com sua mesa deserta
com sua cama ruinosa.

Florescerão os beijos
sobre as almofadas.
E ao redor dos corpos
se elevará a folha
sua ramagem intensa
noturna, perfumada.

O ódio se amortece
atrás da janela.

Será a garra suave.

Deixa-me  a esperança.


Ilustração: Blog do Klemer.

Outra poesia de Jaime Siles


Himno a Venus              
Jaime Siles

Amor bajo las jarcias de un velero,
amor en los jardines luminosos,
amor en los andenes peligrosos
y amor en los crepúsculos de enero.

Amor a treinta grados bajo cero,
amor en terciopelos procelosos,
amor en los expresos presurosos
y amor en los océanos de acero.
Amor en las cenizas de la noche,
amor en un combate de carmines,
amor en los asientos de algún coche,
amor en las butacas de los cines.
Amor, en las hebillas de tu broche,
gimen gemas de jades y jazmines.

HINO A VÊNUS

Amor sob as cordas de um veleiro,
amor nos jardins luminosos,
amor em andaimes perigosos
e amor nos crepúsculos de janeiro.

Amor aos trinta graus abaixo de zero
amor em veludos procelosos,
amor nos expressos pressurosos
e amor nos oceanos de aço.
Amor nas cinzas da noite,
Amor nos combates de carmins,
amor nos assentos de algum carro,
amor nas poltronas dos cinemas.
Amor, nas fivelas do seu broche,
gemem gemas de jades e jasmins.

Ilustração: Mitografias.

Thursday, April 05, 2018

E, de volta, o poeta Juan Ramón Jiménez



Yo no soy yo                                           

Juan Ramón Jiménez

Yo no soy yo.
Soy este
que va a mi lado sin yo verlo,
que, a veces, voy a ver,
y que, a veces olvido.
El que calla, sereno, cuando hablo,
el que perdona, dulce, cuando odio,
el que pasea por donde no estoy,
el que quedará en pie cuando yo muera.

EU NÃO SOU EU 

Eu não sou eu.
Sou este
que vai ao meu lado sem que eu veja,
que, às vezes, vou ver
e que, às vezes esqueço.
O que é cala, sereno, quando falo
o que perdoa, doce, quando odeio
o que passeia por onde não estou
o que ficará em pé quando eu morrer.

Ilustração: IBE – FGV.

Wednesday, April 04, 2018

Mais uma poesia de Leopoldo María Panero


La poesía destruye al hombre                             
Leopoldo María Panero

La poesía destruye al hombre
mientras los monos saltan de rama en rama
buscándose en vano a sí mismos
en el sacrílego bosque de la vida
las palabras destruyen al hombre
¡y las mujeres devoran cráneos con tanta hambre
de vida!
Sólo es hermoso el pájaro cuando muere
destruido por la poesía.

A POESIA DESTRÓI O HOMEM

A poesia destrói o homem
enquanto os macacos saltam de galho em galho
buscando em vão a si mesmos
na sacrílega floresta da vida
as palavras destroem o homem
e as mulheres devoram crânios com tanta fome
de vida!
Só é formoso o pássaro quando morre
destruído pela poesia.

Ilustração: Conhecimento Prático Literatura. 

Uma poesia de Jaime Siles


Ipsa, sed altera; altera, sed ipsa                

Jaime Siles

Todo discurso es circunferencia
del discurso, que siempre es referencia
a la lengua que ese discurso es.
De manera que toda referencia
al discurso será circunferencia
del discurso en que esa lengua es.

Ipsa, sed altera; altera, sed ipsa

Todo discurso é circunferência
do discurso, que sempre é referência
à língua em que esse discurso é.
De maneira que toda referência
ao discurso será circunferência
do discurso em que essa língua é.

Ilustração: Pinterest.

Uma poesia de Eira Margot Helene Stenberg


TO SPEAK OF LOVE                                                              
Eira Margot Helene Stenberg

To speak of love,
of what one cannot speak -
a blind alley, a mirror
in which someone hangs
upside down from an invisible tree
feet wrapped around a branch
as if wrestling gravity,
mouth open,
no voice.

Or to speak as if
love were a door
to which longing is the key
and behind the door, the tree would blaze
into visibility,
the fetus would straighten its legs and dive
up to the surface,
would speak to you, juggler
who tosses his head from hand to hand
like a die,
would offer you a fresh leaf
after the flood.

PARA FALAR DE AMOR

Para falar de amor,
do que não se pode falar -
um beco sem saída, um espelho
em que alguém trava
de cabeça para baixo de uma árvore invisível
pés enrolados em torno de um ramo
como se estivesse lutando contra a gravidade,
boca aberta,
sem voz.

Ou falar como se
o amor fosse uma porta
para o qual a saudade é a chave
e atrás da porta, a árvore arderia
em visibilidade,
o feto endireitaria as pernas e mergulharia
até a superfície,
falaria com você, malabarista
como quem joga a cabeça de mão em mão
como um dado,
oferecer-lhe-ia uma folha fresca
depois do dilúvio.

Ilustração: Onde Está Charlotte? - WordPress.com. 








Tuesday, April 03, 2018

Ode a um mago das cordas




ODE A KEITH RICHARDS

Quem entrou e saiu, tantas vezes, do próprio corpo.
Quem caminhou, tantas vezes, com a morte
e viveu sempre no fio da navalha,
não se espanta
em se encontrar nos braços de uma negra gorda do Alabama
ou fazer a turnê do nascer do sol ou da Tequila.
Intimamente sabe que a vida é uma maravilha
por ter escapado do pântano de Dartford
e que o sublime e o ridículo andam de mãos dadas,
daí, não ser nada cheirar as cinzas do pai
como forma de despedida e superação.
Assim como ouvir da mãe, na beira da morte,
que não está tocando bem!
Tão normal
como com dois compassos de “Malagueña” ganhar a velha
ou, com cinco cordas, num riff, se sentir demais
flutuando numa canção acima dos mortais.
Ser isto é ser Keith Richards e nada mais!

ODE A KEITH RICHARDS

Who has come and gone so many times from his own body.
Who walked, so many times, with death
and he always lived on razor's edge,
do not be surprised
to find herself in the arms of a fat black woman from Alabama
or tour the sunrise or the Tequila.
Intimately know that life is a wonder
for escaping from the Dartford Marsh
and that the sublime and the ridiculous go hand in hand,
hence, nothing be smelling the ashes of the father
as a form of farewell and overcoming.
Just as hearing from the mother, on the verge of death,
which is not playing well!
So normal
as with two bars of "Malagueña" to win the old
or, with five strings, in a riff, feel too much
floating in a song above the mortals.
To be this is to be Keith Richards and nothing more!

Ilustração: Uproxx.