Tuesday, February 09, 2021

Sim, mais de Mario Benedetti

 


LOVERS GO HOME

 Mario Benedetti

Ahora que empecé el día

volviendo a tu mirada

y me encontraste bien

y te encontré mas linda

ahora que por fin

esta bastante claro

donde estas y donde estoy

se por primera vez

que tendré fuerzas

para construir contigo

una amistad tan piola

que del vecino

territorio del amor

ese desesperado

empezaran a mirarnos

con envidia

y acabaran organizando

excursiones

para venir a preguntarnos

como hicimos.

 

AMANTES VÃO PARA CASA

Agora que comecei o dia

voltando ao teu olhar

e me encontraste bem

e te encontrei mais linda

agora que por fim

que está bastante claro

onde estás e onde estou

sei pela primeira vez

que eu terei força

para construir contigo

uma amizade tão boa

que será vizinha

do território do amor

tão desesperado

e vão começar a olhar para nós

com inveja

e vão acabar organizando

excursões

para vir nos perguntar

como nós fizemos.

Ilustração: https://elpais.com/.

Homem Balão


 

Eu não sei o que é exato. 

Do real já nada sei. 

Sei que tudo que não for matéria,

o pensamento normal,

deve ser imaterial. 


Na natureza improvável 

onde vagueio passivo-

dizem que sem testosterona-

minha meta sempre é o riso,

se puder, toda semana. 


E, quase sempre inseguro,

como quem não pisa o chão, 

não subo em escada nem muro,

não tenho nem direção.

Na maldade sou tão puro

que flutuo, homem balão. 


Não sou deste mundo não! 


Monday, February 08, 2021

E Borges é sempre poesia

 


LA BUSCA

Jorge Luis Borges

Al término de tres generaciones

vuelvo a los campos de los Acevedo,

que fueron mis mayores. Vagamente

los he buscado en esta vieja casa

blanca y rectangular, en la frescura

de sus dos galerías, en la sombra

creciente que proyectan los pilares,

en el intemporal grito del pájaro,

en la lluvia que abruma la azotea,

en el crepúsculo de los espejos,

en un reflejo, un eco, que fue suyo

y que ahora es mío, sin que yo lo sepa.

He mirado los hierros de la reja

que detuvo las lanzas del desierto,

la palmera partida por el rayo,

los negros toros de Aberdeen, la tarde,

las casuarinas que ellos nunca vieron.

Aquí fueron la espada y el peligro,

las duras proscripciones, las patriadas;

firmes en el caballo, aquí rigieron

la sin principio y la sin fin llanura

los estancieros de las largas leguas.

Pedro Pascual, Miguel, Judas Tadeo...

Quién me dirá si misteriosamente,

bajo este techo de una sola noche,

más allá de los años y del polvo,

más allá del cristal de la memoria,

no nos hemos unido y confundido,

yo en el sueño, pero ellos en la muerte.

 

A BUSCA

No final de três gerações

Eu volto aos campos de Acevedo,

que foram meus administradores. Vagamente

os procurei nesta velha casa

branca e retangular, no frescor

de suas duas galerias, na sombra

crescente projetada pelos pilares,

no grito atemporal do pássaro,

na chuva que atinge o telhado,

no crepúsculo dos espelhos,

num reflexo, um eco, foi seu

e agora é meu, sem que eu saiba.

olhei para os ferros da grade

que deteve as lanças do deserto,

a palmeira dividida por um raio,

os touros negros de Aberdeen, à tarde,

as casuarinas que eles nunca viram.

Aqui estavam a espada e o perigo,

as proscrições severas, os patriarcados;

firme no cavalo, aqui eles governaram

a planície sem começo e sem fim

os fazendeiros das largas léguas.

Pedro Pascual, Miguel, Judas Tadeo ...

Quem me dirá se misteriosamente,

sob este teto de uma única noite,

além dos anos e da poeira,

além do cristal da memória,

não nos juntamos e confundimos,

Eu no sonho, porém eles na morte.

Ilustração: https://www.qualviagem.com.br/. 

Sunday, February 07, 2021

E, novamente, Roberto Bolaño

 


LOS DETECTIVES HELADOS  

Roberto Bolaño

Soñé con detectives helados, detectives latinoamericanos

que intentaban mantener los ojos abiertos

en medio del sueño.

Soñé con crímenes horribles

Y con tipos cuidadosos

que procuraban no pisar los charcos de sangre

y al mismo tiempo abarcar con una sola mirada

el escenario del crimen.

Soñé con detectives perdidos

en el espejo convexo de los Arnolfini:

nuestra época, nuestras perspectivas,

nuestros modelos del Espanto.

DETETIVES FRIOS

Sonhei com detetives frios, detetives latino-americanos

que tentavam manter os olhos abertos

no meio do sonho.

Sonhei com crimes horríveis

E com tipos cuidadosos

que procuravam não pisar nas poças de sangue

e, ao mesmo tempo, abarcar com um único olhar

a cena do crime.

Sonhei com detetives perdidos

no espelho convexo do Arnolfini:

nossa época, nossas perspectivas,

nossos modelos de espanto.

 

Ilustração: WordPress.

Amor distante

 



Nesta altura 

da aventura do meu viver,

neste filme sem roteiro-

quero crer-

que esta peça mal encenada

não tem jeito ou explicação

sem sentir o abrigo das tuas mãos. 

Não me sinto feliz, nem seguro, 

em parte alguma,

sem dormir do teu lado, 

sem o calor de teu corpo. 

Sem o brilho doce de teus olhos, 

sem a emoção de teus beijos, 

me sinto desamparado, 

desesperado

e só penso em voltar para teus braços.  

Ilustração: Youtube. 

MANIFESTO DIVERGENTE

 


Eu quero é festa. 

E não há festa. 

Eles não gostam da alegria. 

Não me permitem fazer carnaval.

Eles não desejam que haja festa.

E até inventaram o toque de recolher 

para me impedir de cantar, brincar. 

Perdi o direito de ser alegre

(até o direito de me embriagar),

o direito de ir e vir.

Dizem que em nome da ciência 

e do coletivo

sou obrigado a ficar, 

entre quatro paredes, cativo,

o que é antinatural 

e contra a natureza humana, 

que é social.

Eles, que não tem argumentos,

que não resolvem nada, 

e fecham tudo.

Eles sabem de tudo, 

inclusive, na verdade, 

com sua teimosia  

até aumentar a epidemia,

fechar negócios, 

deixar as pessoas sem empregos, 

nos impedir de trabalhar, 

impor o silêncio nas ruas, 

a tristeza,

diminuir o pão nas nossas mesas 

e roubar nossa liberdade. 

Ilustração: http://sinmedrn.org.br/. 

Saturday, February 06, 2021

Raio de luar

 

O luar ilumina vagamente a paisagem

que parece, na sua quietude mansa,

com a minha vida

onde nada balança, 

nada parece sair do lugar. 

Malgrado, tudo, no entanto,

do domínio da escuridão, 

a noite não deixa de ser encantada

quando penso na minha amada 

e sinto vontade de cantar.

Tanto que, de repente, 

talvez vindo de um raio de esperança,

a vida ganha brilho e cor,

como a lua,

igual na luminosidade sua, 

aos olhos doces do meu amor. 



Benedetti, mais um pouco

 


LUNA CONGELADA

Mario Benedetti

Con esta Soledad

alevosa

tranquila

 

con esta soledad

de sagradas goteras

de lejanos aullidos

de monstruoso silencio

de recuerdos al firme

de luna congelada

de noche para otros

de ojos bien abiertos

 

con esta soledad

inservible

vacia

 

se puede algunas veces

entender el amor.

 

 

LUA CONGELADA

 

Com esta solidão

traiçoeira

tranquila

 

com esta solidão

de sagradas gotas

de distantes uivos

de monstruoso silêncio

de memórias fortes

de lua congelada

da noite para os outros

de olhos bem abertos

 

com esta solidão

inservível

vazia

 

se pode algumas vezes

entender o amor.

 

Ilustração: Youtube.

Thursday, February 04, 2021

Infelizmente está indo só

 


VAMOS JUNTOS

 

Mario Benedetti

 

Con tu puedo y con mi quiero

vamos juntos compañero

compañero te desvela

la misma suerte que a mí

prometiste y prometí

encender esta candela

Con tu puedo y con mi quiero

vamos juntos compañero

la muerte mata y escucha

la vida viene después

la unidad que sirve es

la que nos une en la lucha

Con tu puedo y con mi quiero

vamos juntos compañero

la historia tañe sonora

su lección como campana

para gozar el mañana

hay que pelear el ahora

Con tu puedo y con mi quiero

vamos juntos compañero

ya no somos inocentes

ni el la mala ni en la buena

cada cual en su faena

porque en esto no hay suplentes

Con tu puedo y con mi quiero

vamos juntos compañero

algunos cantan victorias

porque el pueblo paga vidas

pero esas muertes queridas

van escribiendo la historia

Con tu puedo y con mi quiero

vamos juntos compañero.

 

VAMOS JUNTOS

 

Contigo posso e comigo quero

vamos juntos companheiro

companheiro te  revela

do mesmo modo que eu

prometeste e prometi

acender esta vela

Contigo posso e comigo quero

vamos juntos companheiro

a morte mata e escuta

a vida vem depois

a unidade que nos serve é

aquela que nos une na luta

Contigo posso e comigo quero

vamos juntos companheiro

a história tão sonora

sua lição como um sino

para aproveitar o amanhã

há que se lutar agora

Contigo posso e comigo quero

vamos juntos companheiro

já não somos inocentes

nem o mal nem o bom

cada um no seu trabalho

porque nisto não há suplentes

Contigo posso e comigo quero

vamos juntos companheiro

alguns cantam vitórias

porque o povo paga vidas

porém essas mortes queridas

vão escrevendo a história

Contigo posso e comigo quero

vamos juntos companheiro.

Outra poesia de Vicente Aleixandre

 


SILENCIO

Vicente Aleixandre

Bajo el sollozo un jardín no mojado

Oh pájaros los cantos los plumajes

Esta lírica mano azul sin sueño.

Del tamaño de un ave unos labios. No escucho

El paisaje es la risa. Dos cinturas amándose.

Los árboles en sombra segregan voz Silencio

Así repaso niebla o plata dura

beso en la frente lírica agua sola

agua de nieve corazón o urna

vaticinio de besos ¡oh cabida!

donde ya mis oídos no escucharon

los pasos en la arena o luz o sombra.

 SILÊNCIO

Sob o soluço um jardim não molhado

Oh! Pássaros os cantos das suas plumas

Esta lírica mão azul sem sono.

do tamanho dos lábios de uma ave. Não escuto

a paisagem, que é risada. Duas cinturas se amando.

As árvores sombreadas segregam voz. Silêncio.

Então, repasso a névoa ou prata dura

beijo na testa lírica água sozinha

água de neve coração ou urna  

vaticínio de beijos oh! quarto!

onde já meus ouvidos não escutaram

os passos na areia ou luz ou sombra.

 

Wednesday, February 03, 2021

Mallarmé, uma vez mais

 



SALUT

Stephane Mallarmé

Rien, cette écume, vierge vers

A ne désigner que la coupe ;

Telle loin se noie une troupe

De sirènes mainte à l'envers.

 

Nous naviguons, ô mes divers

Amis, moi déjà sur la poupe

Vous l'avant fastueux qui coupe

Le flot de foudres et d'hivers ;

                     

Une ivresse belle m'engage

Sans craindre même son tangage

De porter debout ce salut

 

Solitude, récif, étoile

A n'importe ce qui valut

Le blanc souci de notre toile

SAUDAÇÃO

Nada, esta espuma, virgem é

a designar apenas o corte;

Até agora afoga uma tropa

Muitas sirenes ao contrário.

 

Nós navegamos, meus diversos

amigos, eu já estou na popa

Vós na frente suntuosa que corta

o fluxo de relâmpagos e invernos;

 

Uma bela embriaguez me envolve

Seu aceno não me intimida

Para fazer, de pé, esta saudação

 

Solidão, estrela do recife,

e não importa tudo o que valer

o branco espirito de nossa vela

Ilustração: https://www.papodehomem.com.br/.


POEMINHA DA JUSTIFICATIVA

 


Se você tivesse juízo

nem olharia para mim,

mas, como,

também não tenho não,

seguimos em frente,

com esta alucinação real,

quebrando as regras

e vivendo a beleza

de saber que o bom é viver,

acordar na tua cama

só porque

não existe lógica,

nem regra,

para quem ama.

Tuesday, February 02, 2021

Uma poesia de Vicente Aleixandre

 


SILENCIO

Vicente Aleixandre

Bajo el sollozo un jardín no mojado

Oh pájaros los cantos los plumajes

Esta lírica mano azul sin sueño.

Del tamaño de un ave unos labios. No escucho

El paisaje es la risa. Dos cinturas amándose.

Los árboles en sombra segregan voz Silencio

Así repaso niebla o plata dura

beso en la frente lírica agua sola

agua de nieve corazón o urna

vaticinio de besos ¡oh cabida!

donde ya mis oídos no escucharon

los pasos en la arena o luz o sombra.

SILÊNCIO

Sob o soluço um jardim não molhado

Oh! Pássaros os cantos das suas plumas

Esta lírica mão azul sem sono.

do tamanho dos lábios de um pássaro. Não escuto

a paisagem, que é risada. Duas cinturas se amando.

As árvores sombreadas segregam voz. Silêncio.

Então, repasso névoa ou prata dura

beijo na testa lírica agua sozinha

água de neve coração ou urna  

vaticínio de beijos oh! quarto!

onde já meus ouvidos não escutaram

os passos na areia ou luz ou sombra

Monday, February 01, 2021

Uma poesia de Roberto Juarroz

 


A VECES ME PARECE

Roberto Juarroz

A veces me parece
que estamos en el centro
de la fiesta
sin embargo
en el centro de la fiesta
no hay nadie.

En el centro de la fiesta
está el vacío.

Pero en el centro del vacío
hay otra fiesta.

ÀS VEZES ME PARECE

Às vezes me parece

que estamos no centro

da festa

sem embargo

no centro da festa

não há nada.

 

No centro da festa

está o vazio.

 

Porém, no centro do vazio

há outra festa.

 

Ilustração: http://biologiacarlota1.blogspot.com/.