Saturday, August 16, 2025

Uma poesia de DaMaris B. Hill

 

DaMaris B. Hill

  1. come. pray. know histories. today

                          is mother’s birthday. she insists on

                      dying. offer her a framed memory,

                      her maiden name clotted in a map older

                      than “america.” she will refuse, turn

                      away. grief sharpens the gales of wit.

                      again, she abandons.

  1. a twice born girl knows to rotate a tomb,

                          suspend mother’s crude gape, temper

                      a piston with cane syrup. terror is the knotty

                      clutch of an umbilical cord, an archive pulsing

                      with the carriage

                      of empire.


VENHA. ORE. CONHEÇA HISTÓRIAS.

Venha. Reze. Conheça.  Hoje

é o aniversário da mãe. Ela insiste em

morrer. Ofereça a ela uma lembrança emoldurada,

seu nome de solteira coagulado em um mapa mais antigo

que "América". Ela recusará, virará as costas

para longe. A dor afeta os vendavais da inteligência.

de novo, ela abandona.

uma menina nascida duas vezes sabe rodar um túmulo,

suspenso o olhar grosseiro da mãe, temperar

um pistão com melaço de cana. O terror é o aperto

confuso de um cordão umbilical, um arquivo pulsando

com a carruagem

do império.

Ilustração: Comunidade Católica Shalom. 



Uma poesia de José Naveiras

 


ACONTECIMIENTO XIII

José Naveiras

Los aviones vuelan

todos en uve.

Despiertan a los zorros transparentes

con sus zumbidos perennes.

Migran a otras tierras

más azules.

Suena el último zumbido de la última bandada de aviones

y los zorros transparentes comienzan

a sangrar flores multicolor

y solo por eso sabemos que caminan.

 

Entonces hay un cambio de viento

y este suena a pianos.

Ella me toma la mano,

yo la beso.

Juntas escuchamos las notas

del viento y nos recreamos en los

caminos multicolor que los zorros

transparentes han creado.

El tiempo crece y el amor es hoy latón.

 

Bésame

a esta orilla

del caudaloso río

que atraviesa nuestra ciudad.

ACONTECIMENTO XIII

Os aviões voam

todos em vê.

Despertam as raposas transparentes

com seu zumbido perene.

Migram para outras terras

mais azuis.

 

O último zumbido do último bando de aviões soa

e as raposas transparentes começam

a sangrar flores multicoloridas

e somente por isto sabemos que eles caminham.

 

Então há uma mudança de vento

e este soa como pianos.

Ela me toma a mão,

eu a beijo.

Juntos escutamos as notas

do vento e nos recriamos nos

caminhos multicoloridos que as raposas

transparentes criaram.

O tempo passa e o amor é bronze hoje.

 

Me beija

nesta costa

do caudaloso rio

que atravessa nossa cidade.

Ilustração: Calendário.

De Novo Daisy Zamora

 


ESTE AMOR

Daisy Zamora

Para hablar de este amor se necesita
del silencio más hondo

donde no hay ya palabras
más que el corazón
apenas comprendiendo

cómo fue que la vida
dispuso aquel encuentro
inesperado

Por qué, a última hora
decidiste llegar,
por qué nuestros ojos se vieron
entre la multitud

Y por qué, al vernos, nos reconocimos,
si nada sabíamos la una del otro 

Cómo se entretejió la delicada gasa
tan sutilmente que no nos percatamos
hasta aquel momento en que supimos
que estábamos perdidos
y no había remedio
ni regreso.

ESTE AMOR

 

Para se falar deste amor se necessita

do silêncio mais profundo

 

onde não haja mais palavras

mas que o coração

apenas compreendendo

 

como foi que a vida

arranjou aquele encontro

inesperado

 

Por que, na última hora,

decidiste chegar,

por que nossos olhos se viram

entre a multidão

 

E por que, ao nos vermos, nós reconhecemos

sem nada sabermos um do outro

 

Como se entrelaçou a delicada seda

tão sutilmente que nós não nos notamos

até aquele momento em que soubemos

que estávamos perdidos

e que não havia remédio

nem regresso.

Ilustração:Vinea Dei-WordExpress.

Momentos, Momentos

 


MOMENTO, MOMENTO

Não há muito tempo mais.

Ainda assim me perco em coisas banais,

Em ações e movimentos sem lógica e sem explicação.

Agarro tua mão,

Embora sabendo que este carinho todo, em breve,

Será tido apenas como dissimulação,

Como parte de uma falsidade que não há.

Todo amor, no entanto, por mais forte

E doce que seja,

É uma luta contra o egoísmo e a natureza.

Uma tentativa de unir

O que sempre esteve separado.

Não, não digo nada.

Não diga nada.

Deita do meu lado e sente este momento.

É tudo que temos

E nunca se pode saber

Se não é tudo que teremos.

MOMENT, MOMENT

There isn't much time left.

I still get lost in banal things,

In actions and movements without logic and without explanation.

I grab your hand,

Although knowing that all this affection, soon,

It will only be taken as a dissimulation,

As part of a falsehood that does not exist.

All love, however, however strong

And sweet as it is,

It is a fight against selfishness and nature.

An attempt to unite

What has always been separate.

No, I don't say anything.

Do not say anything.

Lie beside me and feel this moment.

It's all we have

And you can never know

If it's not all we'll have.

Ilustração: Vecteezy.

(De "Poesia em Geral & Canções em Particular). 

Monday, August 11, 2025

A Confissão de Alba González

 


Alba González

la primera persona


que me rompió el corazón


fui yo

 

A primeira pessoa

que partiu meu coração

fui eu

Ilumina-me Senhora

 


Se teus lábios não sabem o que dizer
me dá de teus olhos a alegria,
e enche o vazio das minhas mãos
com a tua pele tão macia.

Faz do que sonhei a água,
de uma realidade em que só (sou) rio.
Não cabe em quem colhe a rosa mágoa.
Usa-me, acende a chama, sou o teu pavio!

Ilustração: A Mente é Maravilhosa. 

A Canção de Juan Gil-Albert

 


LA CANCIÓN  

Juan Gil-Albert

Presiento una larga noche de silencio,
una pausa misteriosa sin palabras,
como si unos brazos doblados como plumas
recogiéranse de nuevo en su originaria mudez.

Lo que se habla al mandato de la poesía
no da luz al que dice sin quererlo
esas aterradoras resonancias antiguas
enviadas como rayos sobre la paciente humanidad.

Caída su lumbre en el corazón de quien la escucha,
¿qué queda en aquel que vio fluir de su mano
la chispa de los grandes designios?
Una nube de cenizas ciega sus ojos,

como los nubarrones se oscurecen
tras el alumbramiento fugitivo
de la tempestuosa tormenta. Luego callan,
más seductores en su enigmático mutismo.

Tan sólo la embriaguez de unos momentos
tienta al canto motivo de su ser. Y cuando cesa
un poeta de hablar esos oscuros signos que despiertan
el terror o las ávidas pasiones en los mortales indefensos,

todo él enmudece como una piedra prestigiosa
y ciémese sobre la vida una bonanza, un cierto fresco
que engaña a quienes se recrean bajo su sombra,
porque en su seno hierven peligrosas las canciones venideras.

 

A CANÇÃO

Sinto uma longa noite de silêncio,

uma pausa misteriosa sem palavras,

como se braços cruzados como penas

estivessem retornando à sua mudez original.

 

O que é dito sob o comando da poesia

não ilumina aquele que involuntariamente fala

aquelas ressonâncias antigas e aterrorizantes

enviadas como relâmpagos sobre a humanidade paciente.

 

Uma vez que sua luz incide sobre o coração do ouvinte,

o que resta daquele que viu a centelha de grandes desígnios fluir de sua mão?

Uma nuvem de cinzas cega seus olhos,

 

como nuvens de tempestade escurecem

após a iluminação fugaz

de uma tempestade tempestuosa. Então elas se calam,

mais sedutoras em seu silêncio enigmático.

Só a embriaguez de alguns momentos tenta a canção que é o motivo de seu ser. E quando um poeta deixa de falar desses sinais obscuros que despertam o terror ou as paixões ávidas nos mortais indefesos, ele se emudece, como uma pedra prestigiosa, e uma calma se instala sobre a vida, uma certa frieza que ilude aos que se recreiam sob sua sombra, porque dentro dela fervem os cantos perigosos do futuro.

Ilustração: OD Oftomologia. 

Thursday, August 07, 2025

O ESSENCIAL

 


Sim. Li muitos livros, inclusive de amor.

Músicas são tão essenciais na vida,

como uma boa comida

e os amigos são motivos de alegria,

com uma taça de vinho, por favor,

para ter um certo toque de magia.

E confesso: sou um obcecado por poesia.

Tento sim fazer versos,

dos modos mais diversos,  

que possam, ao menos, por um momento

despertar o sentimento

de que o amor é a melhor forma de felicidade.

E temo que, na verdade,

não olhar teu corpo desnudo na manhã,

não colocar a mão nos teus seios-

o maior de todos os meus receios-

que pode tornar a vida vã:

sem romance, amor e poesia,

uma espécie de exílio da fantasia.

Ilustração: Orkusgift.

 

Uma poesia de Mario Luzi

 


Mario Luzi

Scrive lui,

                 ripercorre

cioè

l’immemorabile scrittura,

s’immette in quelle tracce

nitide o inselvate,

entra in quella logia,

                                    filtra in quella grafia,

ne segue gli aculei e le volute,

ripete le sue cifre.

                                Scrive

lui scriba

                   il già scritto da sempre

eppure mai finito,

mai detto, detto veramente.

                     Chi suscita quei semi,

chi anima quel firmamento?

                                                   Opera

la sua propria genitura,

                                        si risveglia

a se stesso il morto segno.

L’autore? Non sa niente di sé,

l’autore – Mia è la prova, mio il martirio –

pensa lui che scrive

- o è questa la creazione,

                                                  lui che scrive appunto?

 

Escreve ele,

isto é, retraço

a imemorial escrita,

se intromete nesses traços,

nítidos ou selvagens,

entra nessa lógica,

filtra nessa grafia,

segue seus espinhos e espirais,

repete suas cifras.

Escreve ele,

o escriba,

o que sempre foi escrito,

mas nunca terminado,

nunca dito, verdadeiramente dito.

Quem semeia essas sementes,

quem anima esse firmamento?

Opera

o seu próprio nascimento,

reaviva

o sinal morto para si mesmo.

O autor? Ele nada sabe de si mesmo,

o autor-Minha é a prova, meu o martírio-

pensa aquele que escreve-

ou é esta a criação,

daquele que escreve com precisão?

Ilustração: Perícia Forense.

Outra poesia de Alfredo Lavergne

 


DISCURSO

Alfredo Lavergne

Que no me conocen y no comprenden
Le dije a un amigo un día:
Cuando leo No regreso Nada cambia
Si estamos a favor de signos
O en contra del asedio de un villorrio.
Con la realidad de las cosas
O con terribles
Tiranos Colaboradores Cooperantes
Y digo que he protestado A los libros
Con los cuales comparto mi rastro
Y los saludos que envía la madre naturaleza.

DISCURSO

Que não me conhecem e não me entendem

Disse a um amigo um dia:

Quando leio, não retorno. Nada muda.

Se estamos a favor de sinais.

Ou contra o cerco de uma aldeia.

Com a realidade das coisas.

Ou com terríveis.

Tiranos. Colaboradores. Cooperadores.

E digo que protestei. Aos livros.

Com os quais compartilho meu rastro.

E às saudações que envio à Mãe Natureza.

Ilustração: Portal Ambiente Legal.

Wednesday, August 06, 2025

Um poema de Dimitri Fulignati

 


1)

 Dimitri Fulignati

Durante il sonno i bambini imparano l’astrazione.

 

Azione incontrollata che permette di percepire le

informazioni come legami, come sintomi.

 

L’invenzione dello spontaneismo, la cancellazione della retorica.

 

La concentrazione ha bisogno della distrazione come una strategia obliqua.

 

La messa a morte del capro espiatorio,

pensiamo troppo ai corsi e poco ai percorsi.

 

Gli esperti della scientifica di Pensacola sostengono che

sui tacchi alti il polpaccio, rivolto a ovest ma diretto a est, si esalta.

 

E’ terminata l’era preironica:

nella pianura dei lussureggianti canneti un maialino

di cinta senese grigliato e i mormorii

dei polsi di donne gravide.

 

Cargo libico fermo per panne ai motori, destinazione incerta.

1)

 

Durante o sono, os meninos aprendem a abstração,

 

Uma ação incontrolada que lhes permite perceber a

informação como uma cadeia, em forma de sintoma.

 

A invenção da espontaneidade, a ausência de retórica.

 

A concentração requer a distração como uma estratégia obliqua.

 

Condena a morte o bode expiatório,

pensamos demais no objetivo e pouco no trajeto.

 

Os especialistas científicos de Pensacola sustentam que

sobre os saltos altos os músculos gêmeos, dirigidos para o

oeste, porém, diretos a este, se exaltam.

 

Está terminada a era pre-irônica:

a planícies de juncos exuberantes, um leitão

com marca de Sienna na grelha e sopros

de mulheres grávidas.

 

A carga libidinosa se estanca, rugem os motores,

o destino é incerto.

Ilustração: X.

Uma poesia de Eduardo Carranza

 


POESIA

Eduardo Carranza

Antonio, nuestro oficio es ir poniendo

las palabras, una tras otra,

como días y días, unos tras otros,

con su pausa nocturna de estrellas o silencio.

Trabajo que de pronto, tú lo sabes,

vuela de nuestras manos convertido

en radiante paloma o gerifalte.

La luz anda descalza en lo que hablamos,

pero también la noche y la tristeza.

Nuestra palabra, tú también los sabes,

suena a veces como un reloj

en una casa abandonada, oscura,

dando las horas para nadie.

Como la campanilla del teléfono

en la estancia vacía.

O como una campana en un desierto

tañendo para nadie.

Nuestro trabajo, Antonio, es ir cayendo

todos los días hacia el corazón.

Cierro tu libro y pienso: estamos solos

en el umbral de qué, de qué, Díos mío?

Y la noche nos lleva como un ciego

a otro ciego, del brazo, dulcemente.

POESIA

Antônio, nosso trabalho é ir colocando

as palavras, uma atrás da outra,

como dias e dias, uns atrás dos outros,

com sua pausa noturna de estrelas ou silêncio.

Trabalho que logo, tu o sabes,

voa de nossas mãos convertido

em radiante pomba ou falcão.

A luz anda descalça no que falamos,

porém também a noite e a tristeza.

Nossa palavra, tu também o sabes,

soa às vezes como um relógio

numa casa abandonada, escura,

marcando as horas para ninguém.

Como a campainha do telefone

na residência vazia.

Ou como um sino num deserto

badalando para ninguém.

Nosso trabalho, Antônio, é ir caindo

todos os dias rumo ao coração.

Fecho teu livro e penso: estamos sós

no umbral de quê? de quê, Deus meu?

E a noite nos leva como um cego

a outro cego, de braço, docemente.

Ilustração: Bible.com.

 

Tuesday, August 05, 2025

Uma poesia de Juan Ramón


VARIACIÓN FLORAL SOBRE UNA LETRA DE

Juan Ramón

Ella me preguntaba de rosas ignoradas

y yo le respondía de rosas imposibles.

VARIAÇÃO SOBRE UMA LETRA DE FLORES

Ela me perguntava de rosas ignoradas

e eu lhe respondia de rosas impossíveis.

Sunday, August 03, 2025

Sem Saída


Se Kant das coisas em si nada sabia

que saberei eu, um iletrado de periferia ?

Depois que, no Brasil, as palavras perderam seu significado

todo fenômeno se torna inexplicável. 

Toda definição, agora, é improvável.

Tudo que era certo está errado,

o mundo imprevisível, nebuloso,

o que era sólido, gasoso, 

tanto que não digo nada

com medo de levar pancada. 

É que o óbvio se tornou tão complicado-

com o que era não sendo o que é-

que para não ser como criminoso enquadrado,

diante da dissolução da semiótica, 

ou me declaro, logo, culpado

ou só me resta permanecer calado!

Ilustração: vocacionados WordExpress.