Tuesday, August 21, 2018

Uma nova poesia de Guillaume Apollinaire




Que lentement passent les heures...

Guillaume Apollinaire

Que lentement passent les heures
Comme passe un enterrement
Tu pleureras l'heure où tu pleures
Qui passera trop vitement
Comme passent toutes les heures

QUE LENTAMENTE PASSAM AS HORAS...

Que lentamente passam as horas
Como passa o desfile de um enterro
Chorarás na hora em que choras
Que passará também rapidamente
Como passam todas as horas

Ilustração: Zap – aeiou.

Monday, August 20, 2018

Mais uma poesia de José Emilio Pacheco


PRESENCIA                 
José Emilio Pacheco

¿Qué va a quedar de mí cuando me muera
sino esta llave ilesa de agonía,
estas pocas palabras con que el día,
dejó cenizas de su sombra fiera?

¿Qué va a quedar de mí cuando me hiera
esa daga final? Acaso mía
será la noche fúnebre y vacía
que vuelva a ser de pronto primavera.

No quedará el trabajo, ni la pena
de creer y de amar. El tiempo abierto,
semejante a los mares y al desierto,

ha de borrar de la confusa arena
todo lo que me salva o encadena.
Más si alguien vive yo estaré despierto.

PRESENÇA

O que há de ficar de mim quando morrer
senão esta chave ilesa de agonia,
estas poucas palavras com que o dia,
deixou as cinzas de sua sombra bravia?

O que ficará de mim quando me fira
aquele punhal fatal? Minha por acaso
será a noite fúnebre e vazia
que volte a ser, logo, primavera.

Não ficará o trabalho, nem a pena
de crer e amar. O tempo aberto,
semelhante aos mares e ao deserto,

há de apagar na areia confusa
tudo que me salva ou me encadeia.
Mas, se alguém vive eu estarei desperto.

Ilustração: igrejadasnacoes.com.

Efeitos



Você brinca com a minha fotografia.
Me faz parecer multicor,
fragmentado, iluminado,
em alguns momentos
um perfeito ator,
em outros um canastrão desesperado.
No entanto, em todas me reconheço
como sou
(e nem sei se mereço):
alguém que é bem feliz
ao teu lado!

Friday, August 17, 2018

Uma poesia de Griselda Garcia


Liturgia                                      
Griselda Garcia

En los momentos más altos
desde puntos lejanos
los veo acercarse
vienen a mí con ofrendas.

Doy mi cuerpo y comen
doy mi sangre y beben.

Vivo en ello
como la madre en los hijos
que un día le darán la espalda.

Casta de cuervos
que hubiera preferido
no engendrar.

LITURGIA

Nos momentos mais altos
desde pontos distantes
os vejo acercarem-se
vem a mim com oferendas

Dou meu corpo e comem
dou meu sangue e bebem.

Vivo nele
como a mãe nos filhos
que um dia lhe darão as costas.

Casta de corvos
que preferia
não ter parido.

Ilustração: Catequese Hoje.




Uma poesia de Catalina Boccardo


Catalina Boccardo                                                                                        *************sin tocar el blanco
*********
estos días
*********no quiero conejos en aquel patio
*********
el hilván del mantel
*****************
********y la siesta frágil de mi abuela
*********************************
********se hunden
******************como alfileres
*********
todavía sus dalias retumbándome
*********
si pudiera recordar
*********mi sombrerito de verano
*********
*********y por qué entregaba mis lágrimas
*********
******************hasta el borde



Sem tocar o branco
destes dias
não quero coelhos naquele quintal
o alinhavo da toalha de mesa
e a soneca frágil da minha avó
se fundem
como alfinetes
todavia, suas dálias estrondam
se pudesse lembrar
de meu chapéu de verão
 e por que eu entreguei minhas lágrimas
até à borda

Ilustração: Sonhar Com - Significado dos Sonhos. 


Thursday, August 16, 2018

ESTRELA CADENTE


Somos só este instante,             
este presente incerto,
inconsistente,
muitas vezes, irreal.
Somos só esta fé no possível,
esta soma de desejos, de sonhos,
de erros e tentativas
que se desfaz como o pó
das ampulhetas.
Somos só uma música
que tocará uma vez só,
de forma irremediável,
e, bela ou feia, será executada
sem que, depois, nem memória  
ou partitura
permaneça.
Somos só uma, uma só,
única e milagrosa criatura,
sem nenhuma explicação para a existência
e o desejo de brilhar, de ser luz,
antes da eterna escuridão.  

Outra poesia de Henri Meschonnic


Henri Meschonnic                                                             
tous ces corps déversés
sont une pluie tarie
la peau des cris est une plaie
près de leur bouche
et mes yeux de jeunesse
une mer ensemencée
de ces cheveux collés

todos esses corpos inclinados
são uma chuva seca
a pele do grito é uma ferida
perto da boca
e meus olhos jovens
um mar povoado
de cabelos duros

Tuesday, August 14, 2018

Uma poesia de Olga Orozco

PARA ESTE DÍA 

Olga Orozco

Reconozco esta hora.
Es esa que solía llegar enmascarada entre los pliegues de otras horas;
la que de pronto comenzaba a surgir como un oscuro arcángel detrás de la neblina
haciendo retroceder mis bosques encantados,
mis rituales de amor, mi fiesta en la indolencia,
con sólo trazar un signo en el silencio,
con sólo cortar el aire con su mano.
Esa, la de mirada como un vuelo de cuervo y pasos fantasmales,
que venía de lejos con su manto de viaje y las mejillas escarchadas,
y se iba bajando la cabeza, de nuevo hasta tan lejos
que yo buscaba en vano la huella del carruaje en el pasado.
Hora desencarnada,
color de amnesia como dibujada en el vacío del azogue,
igual que una traslúcida figura enviada desde un retablo del olvido.
¿Y era su propio heraldo,
el fondo que se asoma hasta la superficie de la copa,
la anunciación de dar a luz las sombras?
No supe descifrar su profecía,
ese susurro de aguas estancadas que destilan a veces los crepúsculos,
ni logré comprender el torbellino de plumas grises con que me aspiraba
desde un claro de ayer hasta un vago anfiteatro iluminado por lluvias y por lunas,
allá, entre los ventisqueros del irreconocible porvenir;
aquí, donde ahora se instala, maciza como el demonio del advenimiento,
en su sitial de honor en medio de la asamblea de otras horas, pálidas, transparentes,
y me dice que mis bosques son luces extinguidas y aves embalsamadas,
que mi amor era erróneo, como un espejo que se contempla en otro espejo,
que mi fiesta es un cielo replegado en el sudario de mis muertos.
Y se queda esta vez, sin bajar la cabeza.


PARA ESTE DIA 

Reconheço esta hora.
É essa que costumava chegar mascarada entre as dobras de outras horas;
aquela que, de repente, começava a surgir como um arcanjo escuro atrás da neblina
fazendo retroceder minhas florestas encantadas,
meus rituais de amor, minha festa de indolência,
apenas traçando um sinal no silêncio,
apenas cortando o ar com a mão.
Essa, o olhar como um vôo de corvo e passos fantasmagóricos,
que vinha de longe com seu manto de viagem e bochechas geladas,
e estava abaixando a cabeça, de novo até tão longe
que eu buscava em vão a trilha da carruagem no passado.
Hora desencarnada,
cor de amnésia como desenhada no vazio do mercúrio,
igual a uma figura translúcida enviada de um retábulo de esquecimento.
E era o seu próprio arauto
o fundo que aparece na superfície do copo,
a anunciação de dar luz às sombras?
Não soube decifrar sua profecia
esse sussurro de águas estagnadas que às vezes destilam os crepúsculos,
nem logrei compreender o turbilhão de penas cinzentas com que me aspirava
de uma clareira de ontem para um vago anfiteatro iluminado por chuvas e luas,
ali, entre as nevascas do futuro irreconhecível;
aqui, onde agora se instala, sólida como o demônio do advento,
em seu lugar de honra no meio da assembléia de outras horas, pálidas, transparentes,
e me diz que minhas florestas são luzes extintas e pássaros embalsamados,
que meu amor estava errado, como um espelho que se contempla em outro espelho,
que minha festa é um céu dobrado no sudário dos meus mortos.
E fica desta vez, sem abaixar a cabeça.

Ilustração: Exame.

Monday, August 13, 2018

ENCANTAMENTO


Tu és agora,
mulher,
Quando nem mais sei o que tu és,
arco-íris, sol, estrela, lua,
uma imagem que flutua
na minha imaginação
soltando bolhas como se fossem coraçõezinhos
que me deixam mais bobo do que já sou.  

És também esta saudade insuportável,
que me leva sempre de onde estou
para onde queria estar-
só no pensamento-
e me dá desejos, cheiros, sensações
que são sonhos perdidos
de quem nem sabe pôr os pés no chão.

E passa o tempo e, mesmo assim, sigo encantado só com tua lembrança, com tuas passagens  (imensamente rápidas) por minha vida, que, no entanto, me consolam e me fazem jamais perder o encantamento.

Ilustração: www.wdl.org.

Uma poesia de Roberto Bolãno








LLUVIA                                                                 Roberto Bolãno

Llueve y tú dices es como si las nubes
lloraran. Luego te cubres la boca y apresuras
el paso. ¿Como si esas nubes escuálidas lloraran?
Imposible. Pero entonces, ¿de dónde esa rabia,
esa desesperación que nos ha de llevar a todos al diablo?
La Naturaleza oculta algunos de sus procedimientos
en el Misterio, su hermanastro. Así esta tarde
que consideras similar a una tarde del fin del mundo
más pronto de lo que crees te parecerá tan sólo
una tarde melancólica, una tarde de soledad perdida
en la memoria: el espejo de la Naturaleza. O bien
la olvidarás. Ni la lluvia, ni el llanto, ni tus pasos
que resuenan en el camino del acantilado importan;
Ahora puedes llorar y dejar que tu imagen se diluya
en los parabrisas de los coches estacionados a lo largo
del Paseo Marítimo. Pero no puedes perderte.

CHUVA

Chove e tu dizes é como se as nuvens
chorassem. Logo tu cobres a boca e apressas
o passo. Como se essas nuvens esquálidas chorassem?
Impossível. Porém, então, de onde é que essa raiva,
esse desespero que há de nos levar todos ao diabo?
A natureza oculta alguns dos seus procedimentos
no Mistério, seu meio-irmão. Assim esta tarde
que consideras similar a uma tarde do fim do mundo
mais cedo do que acreditas te parecerá apenas
uma tarde melancólica, uma tarde de solidão perdida
na memória: o espelho da natureza. Ou bem
a esquecerás. Nem a chuva, nem o pranto, nem os teus passos
que ressoam no caminho do penhasco importam;
Agora podes chorar e deixar que tua imagem se dilua
nos para-brisas de carros estacionados ao longo
do Passeio Marítimo. Porém, não podes perder-te.

Ilustração: Melanie Martins. 

Friday, August 10, 2018

DO AMOR INSENSATO


Ontem, por descuido, queria te dizer todas as coisas que não te disse.
Que, quando penso em comentar qualquer coisa, só penso em você.
E, mesmo quando não quero comentar nada, também.
Deve ser o vício de te querer bem
Que me faz lembrar de não te esquecer
Ou será que é de esquecer de não te lembrar?
Sei que vivo a me enganar, a te enganar,
Quando somente penso e penso e penso.
Penso mesmo sou
Quando não te lembro.
Quando não te esqueço.
Quando me enterneço
a falar de meu amor por ti
como se falasse das estrelas, dos mares, de enigmas e seres esotéricos ou
transcendentais.
É que, realmente, és irreal demais.
E eu te amo
Com um amor tão insensato
Que parece o de um louco
A reclamar comida
Bem diante do mais delicioso prato
Mesmo sabendo que jamais o terei nesta vida.

Ilustração: Semeando Vida.


Uma poesia de Adolfo Reltih


APARENTA MENTE                  
Adolfo Reltih

Me hice una cirugía plástica
en los pensamientos
para mejorar la apariencia
de mis ideas.

Después de ese maravilloso
arreglo estético,
me convertí en el mejor
de los canallas.

Y mentí, robé, mentí,
traicioné, mentí, incumplí,
mentí, engañé, mentí,
manipulé, mentí…!

Definitivamente
es muy excitante
sentir, tener tanto poder


APARÊNCIA MENTE

Fiz uma cirurgia plástica
nos pensamentos
para melhorar a aparência
das minhas ideias.

Depois desse maravilhoso
arranjo estético,
me converti no melhor
dos canalhas.

E menti, roubei, menti
traí, menti, falhei,
menti, enganei, menti,
manipulei, menti ...!

Definitivamente
é muito excitante
sentir, ter tanto poder

Ilustração: Contexto Livre.

Outra poesia de María Clara González


Huella                                                                    María Clara González

Esta noche visitaré tu sueño
entraré silenciosa
disfrazada de ola o de tormenta
de lluvia o de gaviota
Caminaré tu adentro y arribaré a tu playa

Cuando despiertes
recordarás a aquella
que compartió contigo
tus “Saudades”

TRILHA

Hoje à noite visitararei o teu sonho
entrarei silenciosa
disfarçada de onda ou de tempestade
de chuva ou de gaivota
Caminharei tu adentro até chegar na tua praia

Quando despertares
Recordarás daquela
que compartilhou contigo
tuas "Saudades"

Ilustração: oquefazer.blog.br. 


Uma poesia de Henri Michaux



Jour de naissance de l’illimitation

Henri Michaux

Un autre monde m’accepte
M’agrée
M’absorbe
M’absout

Armistice des passions

Dans les bancs de clarté
Souterrainement
Souverainement

L’émanation d’exister
L’agrandissement d’exister
Le promontoire, l’impétuosité d’exister
Je suis à l’arrivée de la plénitude
L’instant est plus que l’être
L’être est plus que les êtres
Et tous les êtres sont infinis

DIA DO NASCIMENTO DA ILIMITAÇÃO

Um outro mundo me aceita
me aprova
me absorve
me absolve

Armistício das paixões

Nos bancos de claridade
sub-repticiamente
soberanamente

A emanação do existir
A expansão do existir
O promontório, a impetuosidade do existir
Eu estou chegando na plenitude
O instante é mais do que ser
Ser é mais do que seres
E todos os seres são infinitos