Monday, February 21, 2022

Com vocês Robert Desnos

 


CONTE DE FÉES

Robert Desnos

Il était un grand nombre de fois

Un homme qui aimait une femme

Il était un grand nombre de fois

Une femme qui aimait un homme

Il était un grand nombre de fois

Une femme et un homme

Qui n'aimaient pas celui et

celle qui les aimaient

 

Il était une fois

Une seule fois peut-être

Une femme et un homme

qui s'aimaient

 

CONTO DE FADAS

Houve uma vez

e foi muitas vezes

Um homem que amava uma mulher

Houve

E foi muitas vezes

Uma mulher que amava um homem

Houve

E foi muitas vezes

Uma mulher e um homem

Que se amavam.

 

Houve uma vez

E talvez não tenha sido uma vez

Uma mulher e um homem

que se amavam.

Ilustração: https://tv.joycemeyer.org/.

 

Só no sonho




Nas noites em que não durmo
percebo
que não há como, meu amor, 
não há. 
Mesmo sendo contigo que não paro de sonhar
e ainda que, em cada sombra, 
penso que me surpreenderei em te olhar. 

Só nas noites em que dormindo
te descubro a me esperar
é que sinto a vida cheia de sol, 
o gosto do mar e de amar.

Só no sonho, meu amor, só no sonho!
Ilustração: Meu anjo. 

Outra poesia de Raul Quinto

 



BARROCO

Raul Quinto

Difumina la línea entre su cuerpo
y el resto de las cosas. Escaleras
rotas. Un corazón entre las manos
como respuesta. No preguntes.

No alteres el desorden.

Recuerda que el final nos llega a todos,
y que esta música pretende
no acabar nunca.

BARROCO

Embaça a linha entre seu corpo

e o resto das coisas. Escadas

quebradas. Um coração entre as mãos

como resposta. Não perguntes.

 

Não perturbe a desordem.

 

Lembre-se que o final nos chega a todos,

e que esta música pretende

não acaba nunca.

Ilustração:https://gallasdisperati.com.br/.

Soneto da Limitação do Olhar

 


Eu vejo, e vivo, neste espaço limitado

Em que meus olhos percebem, ou não,

O grande, o pequeno ou o parcelado

Que me ocupa o sentido da visão.

 

Nada além do que pode ser avistado

Existe, fora do olhar, foco do mundo,

Que, no costume, acaba conformado

Comprimindo o abismo mais profundo

 

E reduzindo, estreitando, o ignorado, 

Tento impedir o vetor mais complicado

de sentir que meu olhar é pura areia

 

A embaçar o juízo, raiz do entendimento,

Que mal percebe que, de real, só há o momento,

Uma breve mosca de luz presa na teia. 

Ilustração: Hospedario.com.br. 

 

Sunday, February 20, 2022

Uma poesia de Alejandro Céspedes

 


Alejandro Céspedes

 

Un viejo y asqueroso millonario
destila Glenfiddich de dos mil doscientos euros la botella
por el riñón de un niño.
Una vieja impedida y medio muerta
respira un aire nuevo en los pulmones
de una niña asfixiada.

Resulta paradójico que una vida inservible
sea tan útil.

 

Um velho asqueroso milionário

destila uísque Glenfiddich de dois mil e duzentos euros a garrafa

pelo rim de uma criança.

Uma velha aleijada e meio morta

respira ar novo em seus pulmões

de uma menina sufocada.

 

É paradoxal que uma vida inútil

seja tão útil.

Ilustração: americanas.com.br. 


 

Viver é perigoso

 


Só nos momentos em que ficamos frágeis,

febris, com dores no corpo, 

que nos fazem ver a nossa insignificância, 

é que lamentamos o tempo perdido, 

o que deixamos de fazer. 

Então, meu amor, se viver é um risco constante, 

se tudo na vida é um perigo, 

porque adiar o inevitável,

se a periculosidade de teus beijos e abraços 

me parece extremamente tentadora?

Nada de mensagens mais.

Agora, chegou a hora:

vamos trocar o digital pelo real. 

Ilustração: Psico.online. 

Uma poesia de Raul Quinto

 


Raul Quinto

Una fotografía del paisaje
tras la ventana ocupa
milimétricamente la ventana.
Y eso es cuanto sabemos

de lo que somos.

Uma fotografia da paisagem
por trás  da janela ocupada
milimétricamente.
E isto é o quanto sabemos

do que somos.

Ilustração: Dica de arquitetura.com.br.

 

Saturday, February 19, 2022

Mais uma poesia de Silvia Guerra

 

INTERNAMENTE UN SITIO

 

Silvia Guerra

Sentir alivio ahora. Que dice no te quiero no hay ancla en
el afecto no existía nada más que un espacio para hacer del
tiempo una inflexión del Bosco. Una parte ausentada que
lograra llegar hasta la cima, lograra abrirse al aire
desplegarse y salir dejar la puerta abierta irse sin despedir
falla la aurora que no penetra más entre la tumba entre las
barras de la medianera mejor para el ascenso para la
embarazada para los niños solos. Mejor para el dolor para
el escote para el salto mortal desde el alambre. Mejor
embarazarse y guardar en las capas internas un corazón
andando y la ventura por verse horizontal el rostro de la
sangre y el largo del cordón que no se quita violeta y
lastimado hasta la sudorosa cara que sonríe. No
había soledad sino partes de tiempo anillos fijos estatutos
previstos. y una madre con leche inunda la cama las
sábanas de peltre las cortinas de acero. Inunda el
dormitorio el carrusel del hijo las membranas dolientes la
extensión del olvido. Cerco en la cabeza adormecida
fuego en el intersticio sin querer, alivio de decir no te quería.

 

INTERNAMENTE UM LOCAL

Sentir alívio agora. Que digo que não te amo, não há âncora na afeição que não existia nada mais que um espaço para fazer do

tempo uma inflexão de Bosch. Uma parte ausente que lograria chegar lá em cima, lograria abrir-se ao ar

despregar-se e sair deixar a porta aberta ir embora sem dizer adeus

falha a aurora que não penetra mais entre a tumba entre as barras da parede divisória melhor para a subida da

grávida para crianças sozinhas. Melhor para a dor para

o decote para o salto mortal do arame. Melhor para

engravidar e manter um coração nas camadas internas

andando e a ventura de ver na horizontal o rosto de

sangue e o comprimento do cordão que não é removido violeta e

lastimado até o rosto suado que sorri. Não

havia solidão, mas partes do tempo fixavam os estatutos dos anéis

fixados, previstos. e uma mãe com leite inunda a cama

as folhas de estanho as cortinas de aço. Inunda o

quarto o carrossel do filho as membranas dolorosas a

extensão do esquecimento. Acerca da cabeça dormente

fogo no interstício sem querer, alívio de dizer que não te amo.

Ilustração: https://www.englishexperts.com.br/.

 

VI


 

Em nenhum momento pensei

em lembrar de ti.

Sem aviso, porém, invadiu os meus pensamentos

uma tristeza vaga, imprecisa, cheia de lamentos

nublando minha vida e senti

o que foi evidente e até um cego poderia ver:

simplesmente, não dá para esconder,

que, para viver bem, preciso de você!

Ilustração: Eu te amo. 

(Do livro "Cem Poemas em Cem Dias", Editora Viseu, 2021). 

 

 

Monday, February 14, 2022

Uma poesia de Andrea Muriel

 


EL POEMA QUE LE PROMETÍ A SU ESPALDA

Andrea Muriel

Recostada a tu lado

observo tu nuca

y la curva que poco a poco

se transforma en tu cuello.

Acariciar tu espalda

me hace pensar en Central Park.

Detrás de mis ojos cerrados

veo árboles altos en lo que parece ser

una postal de invierno.

Tú y yo nunca hemos estado

en Central Park pero creo reconocer

el paisaje de alguna película

y recorro con mi memoria la escena

de un libro de Richard Yates.

Tú y yo

nunca

estaremos en Central Park.

La última noche es un cliché

y sin embargo tengo los dedos helados.

Tu espalda no se parece en nada

a Central Park pero cierro los ojos

y siento que me adentro

cada vez más, noto la brisa helada,

los copos de nieve cayendo

poco a poco

sobre tu cuello.

 

O POEMA QUE PROMETI PARA AS SUAS COSTAS

 

Deitado ao teu lado

eu observo tua nuca

e a curva que pouco a pouco

se transforma em pescoço.

Acariciar tuas costas

me faz pensar no Central Park.

Detrás dos meus olhos fechados

vejo árvores altas no que parece ser

um cartão postal de inverno.

Tu e eu nunca estivemos

no Central Park, porém creio reconhecer

a paisagem de um filme

e percorro na minha memória a cena

de um livro de Richard Yates.

Tu e eu

nunca

estaremos no Central Park.

A última noite é um clichê

E, sem embargo, tenho os dedos congelados.

Tuas costas não se parecem em nada

com o parque central, porém fecho os olhos

e sinto por dentro

cada vez mais, a brisa gelada,

os flocos de neve caindo

pouco a pouco

sobre o teu pescoço

 

Sunday, February 13, 2022

Uma poesia de Vahni Capildeo

 


A TABLE OF MY OWN  

Vahni  Capildeo

 

                                                                  Still life by Jan Jansz. van de Velde III, Ashmolean Museum, Oxford

 

In the year of my marriage, Galileo died.                           

No man is a solar system.

My days turn full round women averagely called Margaret.

I long to be isolate.

They screw pearls into casements; launder clavichords in pails.

I’m naught, a nutshell castaway.

There are sailing men who’ve swilled and shot alongside she-pirates.

My father’s hands show blue its green.

He harbours precision like a siege device.

No sun in my canvas.

No skull competitively spitting orangepeel.

No silence-broken cittern schooled to lose its strings.

Just night.

This night, which is to me like a cheeseshop to a mouse.

It fills a corner.

 

After a game with rough fellows,

a single glass.

This glass,

oh it is the measure of my universe.

Till now I had not known

the meaning of adoration.

I drink like an astronomer

at a table of my own.

UMA MESA PRÓPRIA

Natureza morta de Jan Jansz van de Velde III, Ashmolean Museum, Oxford

No ano do meu casamento, Galileu morreu.

Nenhum homem é um sistema solar.

Meus dias se transformam em mulheres redondas normalmente chamadas de Margarete.

Eu anseio ser isolado.

Eles enroscam pérolas em caixilhos; lavo clavicórdios em baldes.

Eu não sou nada, um náufrago.

Há velejadores que beberam e atiraram ao lado de piratas.

As mãos do meu pai mostram que o azul é verde.

Ele abriga precisão como um dispositivo de cerco.

Nenhum sol na minha tela.

Nenhum crânio cuspindo casca de laranja competitivamente.

Nenhuma cítara quebrada pelo silêncio educada para perder suas cordas.

Apenas a noite.

Esta noite, que para mim é como uma queijaria para um rato.

Ela preenche um canto.

 

Depois de um jogo com companheiros rudes,

um único copo.

Este vidro,

oh é a medida do meu universo.

Até agora eu não sabia

o significado da adoração.

Eu bebo como um astrônomo

na minha própria mesa.

Ilustração: Três em Casa.    

Outra poesia de Silvia Guerra


 

COMO COMPARA, HACE DE METÁFORA

 Silvia Guerra

Intensidad intensa intención

dice decía decías también puede

entonces dos puede abrirse partirse

para dos como intención intensidad

frescor o, más bien, frío. Una doctora una ginecóloga

ahora una pediatra porque el tiempo pasa la pediatra

detecta rápidamente el mal de la criatura sale corre cuando

es necesario en general es la garganta la corriente el

cambio de la temperatura a veces sí, corre. La ginecóloga

después de las dos va hacia el hotel hacia el gineceo propio

hacia el dolor que el libro dice: eso no duele.

Pero a la ginecóloga le duele y está soltera

todavía el pelo renegrido corre

para llegar a tiempo al gineceo que finalmente duele

en la reminiscencia del anterior ritual de fruta como el

recuerdo de un cuadro renacenista ahí no

duele la rodilla flexionada, la rodilla entre frutas puesta las

frutas de la boca a la boca, entre las frutas

ese cuerpo coronado, exhausto. No. La piedra

surca una piel como el agua. Un agua cuando el viento

comienza por las tardes. Una piedra

y alguien dice ven. Ven. Alguien que dice Ven

esta piedra partida, este dolor.

 

COMO SE COMPARA, FAZ UMA METÁFORA

Intensidade intensa intenção

Disse dizia dizias também pode

então dois podem abrir-se partir-se

para dois como intensidade de intenção

frescor, ou melhor, frio. Uma médica um ginecologista

agora um pediatra porque o tempo passa a pediatra

detecta rapidamente o mal da criatura sai correndo quando

é necessário em geral é a garganta a corrente a

mudança de temperatura às vezes sim, corre. A ginecologista

depois das duas vai para o hotel para seu próprio gineceu

para a dor que o livro diz: isso não dói.

Porém para a ginecologista dói e ela é solteira

o cabelo ainda escurecido corre

chegar ao gineceu ao tempo que finalmente dói

em reminiscência do ritual de frutas anterior como o

memória de uma pintura renascentista ali

o joelho flexionado dói, o joelho entre as frutas coloca o

frutas de boca em boca, entre as frutas

aquele corpo coroado e exausto. Não. A pedra

corta a pele como a água. Uma água quando o vento

começa à tarde. Uma pedra

e alguém diz venha. Venha. alguém que diz vem

esta pedra quebrada, esta dor.

Ilustração: FreePik.

Saturday, February 12, 2022

Natural no Carnaval


Não sei o que sinto
Não sei o que penso
Neste carnaval sou só reza
E incenso

E a paz de ficar deitado a olhar
O luar que baila, flutua
Ao som dos blocos
Na rua

Me imagino beijando a boca
De alguém sob a cortina
E me espanto de que seja
Tão menina!

Uma antena, minha cabeça,
Sem a sintonia do certo
O perfume de um corpo
Sinto perto

E no entanto em nada
Presto
atenção
Se é sonho, ou não,
Só almejo fazer amor
No chão 

(De "Águas Passadas", Editora Castanheiras, 2011). 


Amar por amar

 


Sei que te amo

por te amar

da forma que te amo.

Talvez por teu olhar

ou pelo modo de olhar

ou pelo vestido azul

que te faz ser tão suave.

Talvez por que fiques zangada

por te amar

e não dizer nada.

É que nada tenho para dizer.

O meu amor por você

é uma necessidade, um desejo natural

como o instinto no animal.

Eu te amo apenas

por do teu lado me sentir feliz,

satisfeito, bem.

Te amo por não saber explicar

e, talvez, por ser um problema

que solução não tem,

nem explicação.

Te amo por costume

e acomodação.          

Ilustração: Netflix.

BRUXINHA II

 


Dela jamais saberei todas as coisas,

embora sinta que já sei demais.

E o que sei não me dá nem uma paz

nem a faz menos desejável e bela

como só podem ser as estrelas de cinema

ou as inacessíveis divas do teatro.

Claro que seu rosto de inocência

nada de sua maldade revela

que aprendi a sentir no seu perfume

e nos beijos que me sonega

para que a ame mais que posso.

Ela, a quem sigo como um cachorrinho,

me afaga, me consola, faz carinho.

vez por outra, para que não esqueça

que viver sendo seu escravo

É a condição para que a mereça!

Bruxa cruel! Que não me deixa partir

e, encantadora, sabe que quem a adora

não tem a mínima condição de dela fugir!

Ilustração: Revista Planeta.

Friday, February 11, 2022

Saudosismo Rondoniense

 


Eu já fui feliz em Porto Velho

(quando era novo).

Olhava para o que via

( e o que não via sonhava

como se houvesse)

e recebia o fim de tarde avermelhado

com uma prece

vendo a imensidão das águas do Madeira

se encontrar com o céu,

enquanto o sol se perdia

e a lua gloriosa assumia

seu lugar de rainha.

Os anos passaram, os cabelos

foram prateando e flutuando ao vento

até chegar este momento

em que o silêncio me rodeia

sem as vozes de amigos,

que entraram na senda eterna,

e a cidade não me parece mais,

como sempre foi,

tão cálida, hospitaleira, generosa.

Nem mesmo os ipês floridos

trazem de volta a alegria

e me vejo, deste modo,

a cultivar uma nostalgia

que não faz sentido

porque, em Porto Velho,

tento encontrar

uma Porto Velho

que não há mais.     

Ilustração: Governo Federal.