Friday, July 28, 2006

OS LIMITES DO SABER

A GRANDE LIÇÃO

No meio dos melhores livros do mundo
O grande sábio,
Incontestável senhor da Verdade,
Curvou-se, um dia, sobre sua mesa
E derramou incontrolável tristeza
Que, desfeita em lágrimas,
Destruiu suas mais perfeitas teorias.
E, completamente alucinado de amor,
Chorou até morrer
Legando, como único conhecimento útil,
Sua convicção de que não há
Ciência possível
Para o amor, a dor e a vida.
(Do livro Viagem aos Sonhos de Ninguém)

A HUMANIDADE EXPOSTA


PRAZER
Exponho apenas os meus sonhos
Que, minhas feridas, se guardam em mim
nas cicatrizes.
E, se doem, quando faz frio,
Rio da minha dor,
Que dor maior é a angústia de viver
De saber que, entre um silêncio e outro,
Posso falar todas as palavras,
Amar todos os amores,
Sonhar todos os sonhos
E não ter medo de dizer sim
Ao gosto amargo do prazer,
Que é o gozo dos sentidos,
Deste estranho animal chamado homem.
(Do livro Viagem aos Sonhos de Ninguém)

Tuesday, July 25, 2006

DE ONDE

De onde vem esta nostalgia vazia
Este tédio obscuro
Esta sensação insensível
Este desintegrar-se integrando-se
Esta dor prazer
Esta tristeza alegre
Esta vontade de dizer chegamos
Sem ter ido a parte alguma.
Esta sensação de nada repleta de tudo
Este dormir sem sono
Este sonhar sem sonho
Este sentimento preso e extravasado,
Enfim esta necessidade supérflua de você.
(Do livro Apocalypse)

Saturday, July 22, 2006

BALADA DOS ANIMAIS

Eu sou um boizinho do Norte
Você, uma vaquinha do Sul.
Você quer que me comporte.
Eu só vejo tudo azul
E tudo azul é de morte!
Se eu me chamasse Raul
E fosse forte, bem forte...!

Eu sou um bobinho contente.
Você uma cabrinha esperta.
Você me quer ver na frente
Eu só me importa o que aperta
E tudo é só diferente!
Ai! Se fosse, ao menos, Horta
E me chamasse tenente!

Eu sou um porquinho bonito
Você, uma porquinha gostosa.
Você quer pompa e rito
Eu só sinto o que se goza
E gozo até o infinito!
Se dizem de mim Barbosa
Teria bem mais espírito!

Eu sou um gatinho infiel!
Você, uma gata inconstante.
Você me quer feito mel
Eu sou só desodorante
E de um cheiro cruel!
Se de mim dizem Amarante
Teria um melhor papel?

Eu sou um leão mansinho
Você uma leoa espantada.
Você exige carinho
Só gosto de dar pancada
E tudo morre no vinho!
Se me denominam Almada
Seria um melhor vizinho?

Eu sou um rato manhoso
Você uma rata mimosa.
Você me exige vaidoso
Minha roupa é horrorosa
E tudo é tão doloroso!
Se gritam por mim: Tolosa
Seria mais carinhoso?

Eu sou um cachorro vadio
Você uma cadela carente.
Você me espera no cio
O meu amor é demente,
Mas a raiva desafio!
Podem me chamar Vicente
Se de mim não desconfio!

Eu sou um macaco devasso
Você uma macaca ótima.
Você me prepara um laço
Mas eu só passo por cima
E tudo vai para o espaço!
Podem me chamar de Lima
Que nem assim sou um fracasso!
(Do livro Imagens da Incerteza).

Monday, July 17, 2006

A BELEZA POÉTICA NEGRA MADE IN USA

A BROWN GIRL DEAD
Countee Cullen

With two white roses on her breasts,
White candles at head an feet,
Dark Madonna of the grave she rests;
Lord Death has found her sweet.

Her mother pawned her wedding ring
To lay her out in white;
She’d be so proud she’d dance and sing
To see herself tonight.

UMA MORENINHA MORTA

Com duas rosas brancas sobre os seios,
E velas brancas na cabeça e nos pés
A morena Madonna na cama descansa
Agora que a Dama da Noite achou-a doce.

Sua mãe penhorou o anel de casamento
Para vestí-la, como jamais esteve, toda de branco
Ela ficaria vaidosa e dançaria e cantaria
Se pudesse se ver assim, na noite, tanto, tanto..

Tuesday, July 11, 2006

QUINTERO LOUVA CAVAFIS

CAVAFIS: IN MEMORIAM
Tomas Quintero
Perdóname, mi señor.
No es nada.Es amor-
¿Sólo eso?

El Muchacho Persa
Ante las murallas de Zadrakarta
-la que humedece el mar-
Dóriskos, el griego mercenario,
lloró la partida de Bagoas
Hermoso eunuco persa.
"Jamás he tenido joven alguno como tú -le dijo-
Y jamás lo volveré a tener.
Me has destruido para el amor.
Ahora sólo me queda
El triste y débil placer de las mujeres".

CAVAFIS: IN MEMORIAN
Perdoa-me, meu senhor. Não és nada.
Eis amor. Só isto?

O GAROTO PERSA
Ante as nuralhas de Zadrakarta
- eis que umedece o mar-
Dóriskos, o mercenário grego,
Chorou a partida de Bagoas
O formoso eunuco persa.
“Eu nunca tive um jovem assim como tu - lhe disse-
E jamais voltarei a ter.
Tu me destruistes para o amor.
Agora só me resta
O triste e débil prazer das mulheres".

O POETA DA AUSÊNCIA

GRECIA
Tomas Quintero
De Marko, el griego marinero,
Repito estas palabras que cantó o lloró
En la inagotable noche del ron
En la vieja Cartagena:"Camaradas, soy de Grecia,
Y cada vez que muerdo su fruta milenaria,la uva
Siento rodar por mi garganta
El antiguo sabor de sus placeres
Me he revolcado en su mar
Su cielo se ha quedado aquí en mis ojos
Y su rocoso suelo ha rasgado mi piel
Y mi garganta y mis labios han repetido
Su inmortal grito guerrero
Y ahora Grecia muere otra vez.
Ayudadme a salvarla, camaradas".

GRÉCIA
De Marko, o grego marinheiro,
Repito estas palavras que cantaram ou choraram
na noite inesgotável de rum
na velha Cartagena:
“Camaradas, Eu sou da Grécia,
E cada vez que mordo a fruta milenariá,
da uva
Sinto descer por minha garganta
O antigo sabor de seus prazeres
Me vejo afogado em seu mar
Seu céu há caído aquí nos meus olhos
E seu rochoso solo tem marcado minha pele
E minha garganta e meus lábios tem repetido
Seu imortal grito guerreiro
E agora a Grécia morre outra vez.
Ajuda-me a salvá-la camaradas".

Sunday, July 09, 2006

OUTRO POEMA DE BUESA

POEMA DEL OLVIDO

José Angel Buesa

Viendo pasar las nubes fue pasando la vida
Y tu, como una nube, pasaste por mi hastio.
Y se unieron entonces tu corazón y el mio,
Como se van uniendo los bordes de una herida.

Los tristes ensueños y las primeras canas
Entristecen de sombra todas las cosas bellas;
Y hoy tu vida y mi vida son como las estrellas,
Pues pueden verse juntas, estando tan lejanas...

Yo bien sé que el olvido, como uma agua maldita,
Nos da una sed mas honda que la sed que nos quita,
Pero estoy tan seguro de poder olvidar...

Y miraré las nubes sin pensar que te quiero,
Com el hábito sordo de un viejo marinero
Que aun siente, en tierra firma, la ondulación del mar.

POEMA DO ESQUECIMENTO

Vendo passar as nuvens vi passar a vida
E tu, como uma nuvem, passaste por meu verão.
E se uniram, então o meu e o teu coração
Como se unem as bordas de uma ferida.

Os tristes sonhos e os cabelos brancos recentes
Enchem de sombras as coisas mais bonitas;
E hoje tua vida e minha vida são como as estrelas,
Pois podem se ver juntas, apesar de tão distantes.

Bem sei que o esquecimento, como uma água maldita,
Nos dá uma sede mais profunda do que a água nos quita,
Porém estou muito seguro de poder te esquecer...

E olharei para as nuvens sem pensar que te quero,
Como se fosse o hábito de um velho marinheiro
De mesmo, na terra firme, sentir, do mar, o tremer.
(A belissima foto peguei de http://tijolices.blogspot.com)

Friday, July 07, 2006

WILLIAM CARLOS WILLIAM

AT THE BALL GAME

William Carlos Wiliam

The crowd at the ball game
is moved uniformly

by a spirit of uselessness
which delights them-

all the exciting detail
of the chase

and escape, the error
the flash of genius-

all to no end save beauty
the eternal-

So in detail they, they crowd,
are beautiful

for this
to be warned against

saluted and defied-
It is alive, venomous

it smiles grimly
its words cut-

The flashy female with her
mother, get it-

The Jew get it straitght-it
is deadly, terrifying-

It is the Inquisition, the
Revolution

It is beauty it itself
that lives

Day by day in them
idly-

This is
the power of their faces

It is summer, it is the solstice
the crowd is

cheering, the crowd is laughing
in detail

permanently, seriously
without thought

No Jogo de Futebol

No jogo de futebol a torcida
Se move entusiasmada

Pelo espírito da inutilidade
Que a todos delicia-

Da excitante visão
Da perseguição da bola

E dos dribles, dos erros,
Do lampejo de gênio-

Tudo sem outro fim que não a beleza
Eterna de uma jogada-

Assim, no conjunto, as torcidas
São belas

Por isto
Convém nos prevenirmos contra

Sua força oculta na aparente fraqueza-
Ela vive e sua beleza é perigosa

Alegremente faz olá,
Mas suas palavras ferem

A bela mulher ao lado
De sua mãe, entende isto-

O judeu entende, de imediato-
Seu poder mortal, aterrador-

É a Inquisição, a
Revolução

É a própria beleza
Que emana

Minuto a minuto
Na sua força ociosa-

Este é o poder
Que mostram os rostos-

No calor, no apogeu
Da torcida

Que gritando, na alegria, explode
Inconsciente,

Uníssona e dionísica
De um grito de gol!

Wednesday, July 05, 2006

EMILY, EVER EMILY

249
Emily Dickinson

Wild Nights — Wild Nights!
Were I with thee
Wild Nights should be
Our luxury!

Futile — the Winds —
To a Heart in port —
Done with the Compass —
Done with the Chart!

Rowing in Eden —
Ah, the Sea!
Might I but moor —Tonight —
In Thee!

249

Noites selvagens-Noites selvagens!
Estivesse eu junto de ti
As noites selvagens seriam
O paraíso da nossa luxúria!

Fútil-os ventos-
Para o coração no porto-
Igual às bússolas
Igual aos mapas!

Navegando no Éden-
Ah, o mar!
Pudera eu em ti- esta noite-
Me afogar!

Tuesday, July 04, 2006

UMA IMPROVISAÇÃO MUITO ALÉM DO TEXTO

AN IMPROVISATION FOR ANGULAR MOMENTUM
A.R. Ammons
Walking is like imagination,
a single step
dissolves the circle into motion;
the eye here and there rest son a leaf,
gap, or ledge, everything flowing
except where sight touches seen:
stop, though, and reality snaps backin, locked hard,forms sharply
themselves, bushbank, dentre
e, phoneline,definite, fixed,the self, too,
then caught real, cloudsand wind melting
into their directions,
breaking around and over, down and out,
motions profound,alive, musical!

Perhaps the death mother like the birth mother does not desert us
but comes to tend and produce us,
to make room for usand bear us tenderly, considerately,
through the gates, to see us through,
to ease our pains, quell our cries,to hover over and nestle us,
to deliverus into the greatest, most enduring peace,
all the way past the bother ofrecollection,
beyond the finework of frailty,the mishmash house of the coming & going,
creation's fringes,the eddies and curlicues

UMA IMPROVISAÇÃO PARA UM ANGULAR MOMENTO

Andar como
Na imaginação,
Em que um único passo
dissolve o círculo
em ação; o olho aqui e ali
descansa numa folha,
abertura, ou beira,
E todas as coisas fluem
exceto onde o olhar pousa:
pára, enquanto, a realidade puxa para trás
em duras e fechadas formas
finas em si mesmas,
caixas de arbustos, conchas, linhas telefônicas,
definitivas, fixas, por si mesmas demasiadas,
então seguram o real, nuvens
e misturas do vento com sentidos,
Que se quebram ao redor e sobre,
para baixo e para cima, e fora,
movimento profundo,
vivo, musical!

Talvez a mãe da morte como a mãe do nascimento
Não nos abandone e venha nos atender e produzir mais,
fazer o quarto para nós e nos carregar suavemente, considerando,
através das portas, que nos vê completamente,
para facilitar nossas dores, acalmar nossos gritos,
para pairar sobre e além de nós,
para nos entregar bem maior, formados para a paz,
depois de ter percorrido todo o caminho da reconstrução,
além do fino trabalho da fragilidade, a casa consolidada em argamassa,
o vir & o ir, fronteiras da criação, os pilares e os círculos.

ESTRANHOS

Somos perfeitos estranhos
Apesar de tão chegados
Que o amor mal terminado
Nos parece tão presente
Quanto remoto passado.

Somos perfeitos estranhos
Na solidão tão conjunta
Falamos coisas sem nexo
E estamos mais distantes
Quanto mais fazemos sexo

Somos perfeitos estranhos
Como se vultos na névoa
Só temos intimidade
Quando nos envolvem as trevas
Hipócritas da sociedade.

Somos perfeitos estranhos
Na maior proximidade
O que nos une é a Frieza
E se alcançamos o gôzo
Traz uma estranha tristeza
(De Imagens da Incerteza)

Saturday, July 01, 2006

UMA POESIA DE LUCIA TRENT

Banners of Rebellion

Lucia Trent

Banners of rebellion, surging to the storm,
Rousing men to vision, turning cold blood warm,

Spread your wide wings staunchly to redeeming skies
That men everywhere may learn the truth you symbolize.

Banners of rebellion, fringed with human pity,
Travel over farm-land, grazing-land and city.

Shower rays of courage on the folk who toil,
Quicken seeds of tumult in the arid soil.

Hearten those who stifle in a prison den,
Seal a swift compassion on the tongues of men.

Let false rulers tremble on pinnacles of ease
When they see the new dawn flaming from the seas.

Though our feet may falter before the light breaks through,
Banners of rebellion, we shall march with you!

Bandeiras da Rebelião

Bandeiras da rebelião, surgindo da tempestade,
Abrindo a visão dos homens, tornando o sangue frio quente,

Espalha tuas asas largas flamejando os céus alegremente
Ensinando aos homens, em toda parte, que simbolizas a verdade.

As bandeiras da rebelião, forjadas com a piedade humana,
Viajam sobre a terra, a cidade e a grama.

Regando com os raios da coragem os povos que na lida,
Desabrocham as sementes do tumulto e ao solo árido dão vida.

Encorajando aqueles que nem mesmo na prisão,
Deixam de zelar pelos homens com zelosa compaixão.

Deixai o mundo, as regras falsas, tremer, fácil ir pelos ares
Quando o alvorecer se levantar como vitoriosa onda dos mares.

Ainda que nossos pés possam faltar antes da luz surgir completamente,
Bandeiras da rebelião, nós marcharemos contigo sempre em frente!

Wednesday, June 28, 2006

UMA POESIA DE DURAN

SE JUNTAN DESNUDOS

Jorge Gaitán Duran

Dos cuerpos que se juntam desnudos
Solos em la ciudad donde habitan los astros
Inventan sin reposo el deseo.
No se vem cuando se aman, bellos
O atroces arden como dos mundos
Que uma vez cada mil años se cruzan em el cielo.
Solo en la palabra, luna inútil, miramos
Cómo nuestros cuerpos son cuando se abrazan,
Se penetran, escupen, sangran, rocas que se destrozan,
Estrellas enemigas, impérios que se afrentan,
Se acarican efímeros entre mil soles
Que se despedazan, se besan hasta el fondo,
Saltan como dos delfines blancos en el dia,
Pasan como um solo incêndio por la noche.

AMANTES DESNUDOS

Dois corpos que se juntam despidos
Sós numa cidade onde vivem os astros
Inventam, sem descanso, o desejo.
Não vêem quando se amam, belos
Ou atrozes que ardem como dois mundos
Que uma vez a cada mil anos se cruzam no céu.
Só na palavra, lua inútil, nós olhamos
Como nossos corpos são quando nos abraçamos,
E penetrados, esculpem, sangram, como rochas destroçam,
Estrelas inimigas, impérios que se enfrentam,
E se acariciam efêmeros entre mil sóis
Que se despedaçam, se beijam até o fundo,
De onde saltam como dois golfinhos brancos no dia,
E passam como um só incêndio que ilumina a noite.

UM POEMA DE BUESA

LA SED INSACIABLE
José Angel Buesa
Decir adiós...La vida es eso.
Y yo te digo adiós, y sigo
Volver a amar es el castigo
De los que amaron con excesso.

Amar y amar toda la vida
Y arder em esa llama.
Y no saber por qué se ama...
Y no saber por qué se olvida...

Coger las rosas una a uma
Beber um vino y otro vino
Y andar y andar por um camino
Que no conduce a parte alguna.

Sentir más sed en cada fuente
Y ver más sombra em cada abismo,
En este amor que es siempre el mismo,
Pero que siempre es diferente.

Porque en el sordo desacuerdo
De lo soñado e lo vivido,
Siempre del fondo del olvido
Nace la muerte de um recuerdo.

Y en esta angustia que no cesa
Que toca el alma e no la toca
Besar la sombre de otra boca
Em cada boca que se besa.

A SEDE INSACIÁVEL

Dizer adeus...a vida é isto.
E eu te digo adeus, e sigo...
Voltar a amar é o castigo
Dos que amaram em excesso.

Amar e amar por toda vida
E arder nesta chama
E não saber por que se ama...
E não saber por que se esquece...

Colher as rosas, uma a uma,
Beber um vinho e outro vinho
E andar, andar por um caminho
Que não conduz a parte alguma.

Sentir mais sede em cada fonte
E ver mais sombra em cada abismo,
E neste amor que é sempre o mesmo
Ver sempre o que é diferente.

Porque em surda discussão
Entre o sonhado e o vivido
Sempre, do fundo do esquecido,
Nasce a morte de uma recordação.

E nesta angústia que não me deixa
Que toca na alma e não toca
Beijar a sombra de outra boca
Em cada boca que se beija.

Sunday, June 25, 2006

INCONSISTÊNCIA

Nada mais existe lá.
Nada mais existe aqui.
Se a vida é o procurar
Passou a ser o existir.

Não há procura
Nem encanto.
Só há um mundo de imagens
Ora de riso ou de pranto
Imagens.
São apenas imagens.

E eu que sonhava tanto
Com a paz e com o amor
Vivo fingindo que canto
Para não chorar de dor.

E as próprias imagens sofrem
Sua fria indiferença
Porém imagens (coitadas!)
não tem a menor consistência.
Aparecem e se dissolvem
No vazio se resolvem.

EXISTÊNCIA

Há lugares e coisas.
Há coisas e lugares
Ritmos, imagens, sons e sinais,
Estradas demais.
Sempre se chega e se parte
Sem sentido ou direção.

Há tempos e espaços.
Há espaços e tempos.
Câmaras, luzes e ação
O mundo é de celulóide.
Não tem cadeira ou bilhete
Roteiro nem diretor.

Há figuras e objetos.
Há objetos e figuras.
Formas, sombras, prismas, linhas.
Nada de certo ou de errado.
Todo presente é passado.
(De Imagens da Incerteza).

Saturday, June 24, 2006

TEMPO

Te abandonas molemente aos afagos.
Percebo que teus seios são montanhas,
Teu ventre, um vale e, quando me apanhas,
Que teus olhos são dois enormes lagos.

Quando, então, danças no escuro
No ritmo febril de tua respiração
Teu sangue é uma lava, teu corpo, um vulcão
E no teu corpo o tempo está seguro.

Depois mais mole, e mesmo saciada,
Um sorriso, ou melhor, uma flor
Desabrocha como fruto do amor
E o tempo parece que não é mais nada!

Wednesday, June 21, 2006

SÓ, SOMENTE SÓ

Olhou o retrato da juventude,
Desgastado pelo tempo,
No porta-retrato
E suspirou lembrando
A beleza distante
Não sem um pouco de remorso,
Sem pensar que tudo havia passado em vão.
Por um momento
Recordou do bêbado ousado
Que a convidou para se iniciar
Nas delícias da carne por trás dos muros da igreja
Que reprimira com dureza e escárnio.
Tão seletiva tinha sido!
Tão orgulhosa!
E contemplando sua velhice só,
Sem pecado e sem gozo,
Sentiu uma lágrima escorrer
Por sua face, agora, rugosa,
Mas uma réstia de luz do sol,
Vinda lá de fora,
Prenunciava a noite
E o tanger do sino
Parecia dizer
Que era tarde...
Muito tarde.

Saturday, June 17, 2006

UMA VERSÃO PERSIVESCA PARA A POESIA

DE MIRIAN
Uma das minhas manias é a de navegar pela web a partir do site/blog de algum amigo. Fiz isto, desta vez a partir do Kafé Roçeiro, que é um blogueiro da pesada, ativo, inteligente, de bom gosto, de forma que tive sucesso logo da primeira vez e fui parar no Foto Falante da Miriam na qual pesquei a poesia em inglês abaixo e a foto. Claro que não resisti aos versos e, como estavam em inglês, traduzi. Ela que me desculpe, mas belezas raras são irresistíveis para mim.

THE OLD HOUSE

Mirian (http://www.fotofalante.blogspot.com/)

How many lives
And wives
And the lies and ties.

How many years
And tears

The superb walls
May recall.

The silent rocks
And bricks,
The openned windows
Do not tell -
You must feel.

In the quiet afternoon
Sings the bell -
The old church spell.

A CASA VELHA

Quantas vidas
E esposas
E as mentiras e os laços.

Quantos anos
E lágrimas

As excelentes paredes
Recordações de maio.

As pedras silenciosas
E os tijolos,
As janelas abertas
Não dizem-
Você precisa sentir.

Na quietude da tarde
O badalar do sino
A velha igreja soletra.

Thursday, June 15, 2006

MORTES


(A RELATIVIDADE DAS PERDAS)


Adorava insetos.
E criava uma aranha
Que chamou de Tânia
Em homenagem a uma mulher
que não esquecia.
E derramou mais lágrimas
Quando a aranha morreu
Do que pelo amor
Do qual não se lembrava mais.

(De POEMAS MAL-COMPORTADOS)

A GRANDE DAMA

Ela sabia que era apenas
Uma vadia abandonada
Que se refugiara
Nos braços de um paralítico mafioso,
Sempre ébrio
Ao qual jamais fora fiel.
Cumpria bem seu papel
De grande dama
E, no fundo, filosofava
Que a vida é assim mesmo
Enquanto se compensava,
Quando podia,
Com orgasmos múltiplos.

(De Poemas Mal-Comportados)
Ilustração de http://pokor.roger.free.fr

Tuesday, June 13, 2006

SUPERAÇÃO

A diferença entre a alegria
e a tristeza
È um toque certo, sutil,
No momento exato
Como a fala final no teatro.

O gol-supremo fato-
É a beleza do espetáculo
E, no futebol, a bola tocando
na rede
É o matar da sede
Que o grito saciado comemora.

Um é pouco.
Um é suficiente.
Um é demais.
Ganha quem faz
E não leva.
Só a vitória enleva, eleva.
Feliz é quem vence.
Só vencer satisfaz.

ESTE AMOR

Este amor que é tudo quanto resta
Me redime das culpas e pecados.
É uma árvore, contudo uma floresta,
Um deserto de oásis alagado.

Este amor que é tudo quanto tive
Me desculpa dos erros e desejos.
É tão grande que em todo espaço vive;
Tão pequeno que mora nos teus beijos.

Este amor que é tudo quanto levo
Me deixa de ilusão carregado
Feliz de me atrever o quanto atrevo.

Este amor que é tudo que me é dado
É muito mais do que solo e relevo;
É terra, é ar, é céu, canção, pecado!

(De Imagens da Incerteza, Editora Thesaurus, 1988).

Wednesday, June 07, 2006

A POESIA DO SHELLEY LATINO

Por Amor

Jaime Augusto Shelley

He aprendido de ti
Que no basta el gesto ni la acción
Que el amor no basta
Ni la inteligência
O el susurro exacto
Aun más
Que la ternura
Em ciertos casos sale sobrando
He aprendido
Que el cuerpo
La carne
El sexo no tiene mucho que ver
Com hacer el amor
Y seguir vibrante
Aprendido
Que unirse
Contigo
Es volver a ordenar una lucha
Conmigo
Que há de llegar a ti
Em la punta de los poros los lábios y los dedos
Al beber y al cantar
Al ver um árbol que crece y uma amapola que muere
En el ciclo normal
Esse que de alguna manera por humanos hemos perdido.

POR AMOR

Contigo aprendi
Que não é bastante o gesto nem a ação
Que o amor não basta
Nem a inteligência
Ou o sussurro exato
Ainda mais
Que a ternura
Em certos casos fica sobrando
Contigo aprendi
Que o corpo
A carne
O sexo
Não tem muito a haver
Com fazer o amor
E seguir vibrando
Aprendi
Que unir-se contigo
È voltar a brigar comigo
comigo
Para chegar a ti
Pela extremidade dos poros dos lábios e dos dedos
Ao beber e ao cantar
Ao ver uma árvore que cresce e uma amapola que morre
no ciclo normal,
Este que, de alguma maneira, por sermos humanos nós perdemos.

Sunday, June 04, 2006

EXAGERADA


Ela era mansa tal qual uma gata gorda.
Suave nos gestos, na fala e no carinho
Que prodigalizava sob qualquer pretexto.

Ela era doce, fofinha, real, inexistente
Na forma de amar e de querer amor
Que, em momentos, era um mágico rito.

Ela era de uma calma que acalmava a febre
A um só tempo que, incendiada de paixão,
Elevava a temperatura aos mais altos índices.

Ela era, ao fim, uma tigresa cruel, feroz
Que urrava, azunhava e todo sangue
Extraía ao se desmanchar em doces ais.

Ela era tudo isto e sempre um pouco mais.

(De A Alquimia da Vida, 1999).

DO PASSADO...

POEMINHA SOBRE A INCERTEZA DA VISÃO

De longe tudo parecia infinito
E as coisas pequenas.
De perto tudo surgiu enorme
E o mundo parecia finito, limitado,
Mas nenhuma das visões que tive
foi correta.
Inclusive porquê, nesta época,
Nem sabia que enxergava mal
E precisava de óculos de grau.

(De A Alquimia da Vida, 1999).

Saturday, June 03, 2006

ORAÇÃO INÚTIL

Entre as ruas e veículos,
Nas praias, parque, elas

São, sempre elas, visões,
Se vestindo ou se despindo,
As tentações que nos cercam.
E, com vinho, se completam?
Ou permanecerão miragens,
Embriagues que são?

Protegei-me, Senhor,
Protegei-me delas,
Tão lindas, tão belas!
Fazei-me sempre casto e santo
Livra-me das mulheres,
De seus feitiços,
De seus irresistíveis encantos.

E, se não puder, trata de me perdoar.

ROMEU E JULIETA

(NUMA VERSÃO POP NATURALMENTE)

Há gestos que nenhum
dinheiro paga.
Lembra aquele dia
em que me disse
que faria amor comigo
Até de graça?

Não teve a menor graça
o que tive de pagar.

As coisas são assim:
Todo mundo tem a sua vez de rir.
preciso avisar
que não posso mais lhe sustentar.

Meu advogado foi embora.
Meu contador
acabou de sacar
o resto do dinheiro que havia.
Meu bem, sei que seu amor
vai resistir
ao fato de que acabo de falir.

A casa? Não. Não precisa deixar.
É só esperar
que o banco vem tomar.
O carro que lhe dei de presente?
É passado.

Pode me xingar.
Não ligo não.
Sei que estarei para sempre
No seu coração.

Friday, June 02, 2006

UM POEMA DE CARDENAL


AL PERDERTE YO A TI

Ernesto Cardenal

Al perderte yo a ti tu y yo hemos perdido:
yo porque tu eras lo que yo más amaba
y tu porque yo era el que te amaba más.
Pero de nosotros dos tú pierdes más que yo:
Porque yo podré amar a otras como te amaba a ti
Pero a ti no te amarán como te amaba yo.


AO TE PERDER

Ao te perder tu e eu, ambos, perdemos:
Eu porque fostes o que eu mais amava
E tu porque eu fui o que te amava mais.
Porém de nós dois tu perdes mais que eu:
Porque eu poderei amar a outras como amava a ti
Porém a ti não te amarão jamais como eu te amava.

UM POEMA DE ARGUETA


DECLARACIÓN DE AMOR

Manlio Argueta

Porque te cansas de estar sola,
De encontrar em tu cama
La sombra de la noche anterior.
Porque te mueres de mirar
Las parejas de casados
Que de alguna parte vienen.
Porque te desmayas de soledad.
Porque la casa está vacia.
Porque tienes jaqueca.
Porque los sueños luctuosos.
Porque los gatos del vecino.
Porque los niños con cabeza de pajarito.
Porque lloras ao despertar.
Porque eres del sexo débil.
Porque crees ser hermosa
(y lo eres)
Como una puesta de sol.
Porque los ojos negros te vuelvan
Loca de remate.
Por eso quieres que sea tu marido.

DECLARAÇÃO DE AMOR

Porque te cansas de estar só.
De encontrar no teu leito
A sombra da noite anterior.
Porque morres de olhar
Os casais enamorados
Que acabaram de chegar.
Porque desmaias de solidão.
Porque a casa está vazia.
Porque tens enxaqueca.
Porque sonhas com enterros.
Porque os gatos são do vizinho.
Porque os meninos possuem cabeças de passarinho.
Porque és do sexo frágil.
Porque acreditas ser bonita
(E és)
Como uma réstia de sol.
Porque teus olhos negros
Quando se voltam
Enlouquecem qualquer um.
Por tudo isto queres que seja teu marido.

Thursday, June 01, 2006

AINDA GUTIÉRREZ


ROGUEMOS QUE MAÑANA

Rafael Gutiérrez

No hay remédio, compañera.

En este país
Hasta las hormigas confabulan contra la alegria.

Roguemos que mañana
Lluevan sobre nosotros
Bestias de amnésia
Para quedar, ahora si, soterrados todos
Bajo
Un alud de bruma
De la que nunca, oh efímeros, debimos haber salido.

ROGUEMOS POR AMANHÃ

Não há remédio, companheira.

Neste país
até as formigas conspiram contra à alegria.

Roguemos que amanhã
Chova sobre nós
Bestas de amnésia
Para que, então sim, sejamos soterrados todos
sob
uma avalanche de névoa
da qual nunca, oh efêmeros, nós devíamos ter saído.

UM POETA DA GUATEMALA


VERSOS DEL DES/ENCUBRIMIENTO

Rafael Gutiérrez

Ante el dentudo acoso de sus sabuesos,
Nosostros salíamos siempre em debandada.
Así,
Dejábamos coches, gallinas, chucchos
Y, ardiendo todavia sobre a leña,
La sagrada y redonda tortilla.
Asi andábamos: como pedazos despedazados
De un solo y único cuerpo
Que debe ser el pueblo.
Poco a poco sin embargo,
Las uñas están regresando a sus manos,
Las manos a sus brazos,
Los brazos a su cuerpo.
Y también los ojos, que cada vez vem más claro
Em médio de la noche más cerrada y llorosa.

VERSOS DO DES/COBRIMENTO

Ante os dentes afiados de seus cachorros
Nós saíamos sempre em debandada.
Assim,
Deixávamos carroças, galinhas, trecos
E, ardendo ainda sobre a lenha,
O sagrado e redondo pão.
Assim andávamos: como pedaços despedaçados
De um só e único corpo
Como deve ser o povo.
Pouco à pouco, sem embargo
As unhas estão regressando as mãos,
As mãos aos braços
Os braços ao corpo.
E também os olhos, que vêem cada vez mais claro
Em meio a noite mais escura e tenebrosa.

Wednesday, May 31, 2006

A GRANDE POESIA DE OCTAVIO PAZ


LA POESIA
OCTAVIO PAZ

Llegas, silenciosa, secreta,
y despiertas los furores, los goces,
y esta angustia
que enciende lo que toca
y engendra en cada cosa
una avidez sombria.
El mundo cede y se desploma
como metal al fuego.
Entre mis ruinas me levanto,
solo, desnudo, despojado,
sobre la roca inmensa del silencio
como un solitario combatiente
contra invisibles huestes.
Verdad abrasadora,
¿a qué me empujas?
No quiero tu verdad,
tu inmensa pergunta.
¿A qué esta lucha estéril?
No es el hombre criatura capaz de contenerte,
avidez que solo en la sed se sacia,
llama que todos los labios consume,
espíritu que no vive en ninguna forma
mas hace arder todas las formas.
Subes desde el más hondo de mí,
desde el centro innombrable de mi ser,
ejército, marea.
Creces, tu sed me ahoga,
expulsando, tiránica,
aquello que no cede
a tu espada frenética.
Ya sólo tu me habitas,
tú, sin nombre, furiosa substancia,
avidez subterránea, delirante.
Golpean mi pecho tus fantasmas,
despiertas a mi tacto,
hielas mi frente,
abres mis ojos.
Percibo el mundo y te toco,
substancia intocable,
unidad de mi alma y de mi cuerpo,
y contemplo el combate que combato
y mis bodas de tierra.
Nublan mis ojos imágenes opuestas,
y las mismas imágenes
otras, más profundas, las niegan,
ardiente balbuceo,
aguas que se anega un agua más oculta y densa.
En su húmeda tiniebla vida y muerte,
quietud y movimiento, son lo mismo.
Insiste, vencedora,
porque tan sólo existo porque existes,
y mi boca y mi lengua se formaron
para decir tan sólo tu existencia
y tus secretas sílabas, palabra
impalpable y despótica, substancia de mi alma.
Eres tan sólo un sueño,
pero en ti sueña el mundo
y su mudez habla con tus palabras.
Rozo, al tocar tu pecho
la eléctrica frontera de la vida,
la tiniebla de sangre
donde pacta la boca cruel y enamorada,
ávida aún de destruir lo que ama
y revivir lo que destruye,
con el mundo, impasible y siempre idéntico a sí mismo,
porque no se detiene en ninguna forma
ni se demora sobre lo que engendra.
Llévame, solitaria,
llévame entre los sueños,
llévame, madre mía,
despiértame del todo,
hazme soñar tu sueño,
unta mis ojos con aceite,
para que al conocerte me conozca.

(De Calamidades y Milagros -1937-1947)


A POESIA

Chegas, silenciosa, secreta,
e despertas as raivas, os gozos,
e esta angústia
que inflama o que toca
e gera em cada coisa
uma avidez sombria.
O mundo cede e se alarga
como o metal no fogo.
Entre minhas ruínas me levanto,
Só, desnudo, despojado,
Sobre a rocha imensa do silêncio
como um solitário combatente
contra hostes invisíveis.
Verdade ardente,
A que me empurras?
Não quero tua verdade,
Tua imensa pergunta.
Para que esta luta estéril?
Não é o homem capaz de conter,
a avidez que só na sede se sacia,
chama que todos os lábios consome,
espírito que não vive em nenhuma forma,
mas faz arder todas as formas.
Sobes desde o mais fundo de mim,
do centro insondável de meu ser,
exército, ondeante.
Cresces, tua sede me afoga,
expulsando, tirânica,
aquilo que não cede
à tua espada frenética.
Já só tu me habitas,
tu, sem nome, furiosa substância,
avidez subterrânea, delirante.
Golpeiam meu peito teus fantasmas,
Despertas ao meu tato,
Gelas na minha frente,
Abres meus olhos.
Percebo o mundo e te toco,
Substância intocável,
unidade de minha alma e de meu corpo,
e contemplo o combate que combato
e meu casamento com a terra.
Meus olhos escurecem com imagens opostas,
e as mesmas imagens
outras, mais profundas, me negam,
o sôfrego gaguejar,
águas que afogam uma água mais escondida e mais densa.
Em teu úmido tiritar vida e morte,
calma e movimento, são os mesmos.
Insiste, vencedora,
porque eu só existo porque tu existes,
e minha boca e minha língua se formarão
a fim dizer tão-só tua existência
e tuas secretas sílabas, palavra
impalpável e despótica,
substância de minha alma.
És tão somente um sonho,
mas em ti sonha o mundo
e sua mudez fala com tuas palavras.
Roço, ao tocar teu seios
a elétrica fronteira da vida,
trêmula do sangue
onde impacta a cruel e enamorada boca,
ávida por destruir o que ama
e reviver o que destrói,
com o mundo, impassível
e sempre idêntico a si mesmo,
porque não se detém em nenhum forma
nem se demora sobre o que gera.
Leva-me, solitária,
Leva-me entre os sonhos,
Leva-me, minha mãe,
Desperta-me de todo,
Faz-me sonhar teu sonho,
Unta meus olhos com óleo,
Para que ao conhecer-te me conheça.

Tuesday, May 30, 2006

AINDA MARIELLA NIGRO

INFORMALISTA
Mariella Nigro
la cuadratura del círculo
hallé en la mancha
cuando tu gesto centrifugó
mi figura me brilló el centro
en el lienzo
vasta como un campo segado
de forma tal la muerte
conservo
el amarillo caliente de los bordes
que incendia todo lo que se le aproxima
geometría vana de mi sentimiento
hacia el cielo apuntanto
dos mis lados
entonces esa noche hace derroche
de su negrura
y quedo naturaleza muerta
abstraída manzana gris
con perforación
mi propia mordedura
de partida boca.

INFORMAL
A quadratura do círculo
achei na mancha
quando teu gesto
centrifigou minha figura
me brilhou o centro no lenço
vasto como um campo
ceifado de forma tal que a morte conservou
o amarelo quente das bordas
que incendeia tudo
o que se lhe aproxima
geometria vã
de meus sentimentos
que para o céu apontam
todos meus lados
então essa noite
faz cair de sua negrura
e torna natureza morta
abstraída maçã cinza
com perfuração

Monday, May 29, 2006

UM POESIA CUBISTA


CUBISTA I

Mariella Nigro

Quieren reducirme a un esquema,
recostarme en un ángulo gris
como el arco de un violín
precipitando los planos
a mi costado.
Y en el azul cóncavo
depositar las piernas
mientras poso el perfil
en el convexo añil
junto a una proyectada mano
como una cariciatriangular.
Y un nuevo perfil
de violínal borde
de un abismo,
casi sepultada
por la geometría.

CUBISTA I
Querem reduzir-me a um esquema,
recostar-me num ângulo cinza
como o arco de um violino
precipitando os planos
a meu costado.
E no azul côncavo depositar as pernas
enquanto pouso o perfil no convexo anil
junto a uma projetada mão
como uma carícia triangular.
E um novo perfil de violino
à beira de um abismo,
quase sepultado pela geometria.

Thursday, May 25, 2006

NÃO É NATURAL UM JOVEM MORRER

A MORTE INESPERADA

Para Edem, 34, que não poderá ler.

Na morte não há beleza.
Não há beleza na morte.
Nem nada que nos conforte.

São tristes as flores na morte.
Na morte as flores são tristes.
E o perfume só lembra
A vida que não mais existe.

Wednesday, May 24, 2006

OUTRA POESIA DE CANESE

A TODA MAQUINA
Jorge Canese

Escribo.
Yo no sé, no quisiera
(centellazo amarillo),
hay un semáforo que empuja,
son mis monstruos queridos
que llegan cabalgando en patas de viento
(¡este empalagoso apego por los monstruos sagrados!).
Tranquilos, muchachos, no alboroten,
que así no sale nada.
En fin (primer intento): escribo,
a toda máquina
quisiera contarles mi vida,
mis muertos
teñidos siempre de negro, de verde.
No sé. El mundo que nos queda (ya lo dije)
no es nuestro.
Escribo: adiós,
amarillo a toda máquina.

A TODA MÁQUINA

Escrevo.
Eu não sei, não quisera
(centelhinhas do amarelo),
há um sinal que me empurra,
são meus queridos monstros
que chegam cavalgando em patas de vento
(este excessivo apego pelos monstros sagrados!).
Calma, rapazes, não se alvorocem,
Que assim não saí nada.
Enfim (primeiro intento): Escrevo,
a toda a máquina
quero contar-lhes minha vida,
meus mortos
vestidos sempre de preto, de verde.
Eu não sei. O mundo que nós cabe (já o disse)
não é nosso.
Escrevo: adeus,
amarelo a toda a máquina.

A POESIA DE CANESE

FINAL DEL SIGLO 20
Jorge Canese

Mancho mi nombre,
desciendo exprofeso a los infiernos
para mirar desde aquí tu nada,
tu silencio atragantado.
¡Salvarse!, vaya pretensión orgullosa.
Final del siglo 20:
el botón de retroceso no responde
y parado
espero una caricia que nunca llegará
porque no existe,
porque estoy perdidamente equivocado.
Monigotes.
Múltiples monigotes, camafeos,
cuadrúpedos alados,
insectos de conventillo.
Mentiras. Pavadas.
Mañana. Vení mañana,
que te preparo té inglés con tostadas y todo.
(De: Aháta aju, 1984)

FINAL DO SÉCULO XX

Mancho meu nome,
Descendo infiel aos infernos
Para olhar a partir daqui o nada,
seu silêncio bloqueado.
Salve-se! Vai orgulhosa pretensão.
Fim do século 20:
A tecla de retrocesso não responde
e parado
Espero uma carícia que nunca vai chegar
porque não existe,
porque estou profundamente equivocado.
Noviços.
Múltiplos noviços, camafeus,
quadrúpedes alados,
insetos de conventinhos.
Mentiras. Conversas fiadas.
Amanhã. Vem amanhã,
que lhe preparo chá inglês com tostadas e tudo.

ABANDONO

Um papagaio
Um papagaio
Senhor da sala
Senhor da fala
Com suas penas verde amarelas
E sua rouca voz de curupaco papaco.

Um papagaio
A repetir,
Como se corvo fosse:
-Nunca mais! Nunca mais!
E a ausência dela
Soando, além
de todos os ecos e penas,
pelo tempo afora.

Meu coração ainda chora.

Monday, May 22, 2006

UM POETA URUGUAIO

NO HAYMÁSMAR
Atilio Duncan Pérez da Cunha
a Jorge Varlotta/Mario Levrero

los aerosoles- caracoles famélicos-
devoran la capa de ozono
en un lento viaje de siete años
pecado que pugaremos
setenta veces sietela multitud sedienta
desciende de los ómnibus
espero no
haymásmaren
su lugar hay plásticos y residuo
sun pozo de aguas servidas
el turbo cielo boca abajo
en cambio ellos
los que también robaron
la cresta de la ola
y el aire limpio del verano
admiran bellas piernas
pubis angelicales
finos bronces perfumados por chanel
sin temores alcanzan las doradas manzanas del sol
en la brava en la mansa
en manantiales
no los roza la agonía del mar
sus hijas se bañan en el este.

NÃO HÁ MAIS MAR
Os aerosóis- caracóis famélicos-
devoram a capa de ozônio
numa lenta viagem de sete anos
pecado que purgaremos
setenta vezes sete
a multidão sedenta
desce dos ônibus
mas não há mais mar
em seu lugar há plásticos e resíduos
um poço de águas servidas
o turvo céu de bruços em mudança
neles os que também roubaram
a crista da onda
e o ar limpo do verão
admiram belas pernas
pubis angelicais
finos bronzes perfumados por chanel
sem temores atingem
as douradas maçãs do sol
na brava na mansa em mananciais
não os roça a agonia do mar
suas filhas se banham no este.

Sunday, May 21, 2006

MITOS NACIONAIS



BRASILEIRO-
PROFISSÃO CONQUISTADOR

Eu gosto tanto de sexo
Que a última vez
Que gozei
Foi, num fim de mês,
Em mil, novecentos e noventa e seis,
Portanto no século passado.

Minha sorte é ter
As palavras do meu lado
Tanto que me digo predador,
Caçador, guerreiro
Quando as únicas coisas
Que me movem são a preguiça,
A cerveja, a cachaça, o futebol
E o carnaval em fevereiro.

Eu juro:
Sou muito bom de mulher.
Sou o melhor conquistador,
O mais competente.
Só me esqueci
Quando vi uma mulher nua
Na minha frente.

Como vêem
Sou um caso excepcional:
Um brasileiro normal.

(De Poemas Mal Comportados)

O IDEAL É SERVIR BEM

SER GARÇOM

“Meu filho, seja qualquer coisa menos garçom”.
(Tânia Abbud)

Ninguém ganha do garçom.
Não. Ninguém ganha.
Nem o patrão.
Nem o cliente.
Só se o garçom for muito ruim.

Nasci pra ser garçom por vocação.
Nunca tive ilusão:
Servir é minha vida.
Um copo, uma bebida,
Um especial desejo
(E já ganhei mil beijos,
atacado, ou varejo,
não faço distinção).

Ser garçom
É de Deus um dom-
Assim acredito.
E, para servir as mulheres,
Me faço mais bonito!

(Poemas Mal Comportados)

Friday, May 19, 2006

SANTA VENEZUELA


SANTA VENEZUELA

William Osuna

no tengo nada que obsequiarte a ti, patrona de la
mierdofilia
Sólo yelmos y arcabuces reventados
Uñas lilas
Años terribles
Santa Venezuela
En este, tu santo sepulcro
Arrimo a tus pies la oscilante caja de fósforos
—manto de los erizos—
Y de mi lengua sin pelos
Santa Venezuela
Santa Venezuela

(EDAD, fragmento)

Santa Venezuela

Eu não lhe tenho qualquer coisa para te oferecer, patroa da
merdofilia
Somente elmos e arcabuzes reinventados
Prega lilas
Anos terríveis
Santa Venezuela
Neste teu santo sepulcro
Deposito a teus pés a oscilante caixa de fósforos
- manto das rodas de roda dentada
E de minha língua sem cabelos
Santa Venezuela
Santa Venezuela

Thursday, May 18, 2006

UMA POESIA DE BLAKE

Gentilmente me enviada por Saramar

AUGURIES OF INNOCENCE

William Blake

Every night and every morn
Some to misery are born
Every morn and every night
Some are born to sweet delight

Some are born to sweet delight
Some are born to endless night

AUGÚRIOS DA INOCÊNCIA

Cada noite e cada manhã
Alguns nascem para sofrer a miséria vã
Cada manhã e cada noite
Alguns nascem para do prazer, ter o deleite

Alguns são nascidos para, no prazer, se deleitar
Alguns são nascidos para, na noite infinda, chorar.

Wednesday, May 17, 2006

OUTRO POETA VENEZUELANO


J. A. Calzadilla Arreaza
Un día van a descubrir
que el sol de la mañana produce ceguera
van a descubrir que el café con leche
trae cánceres diversos
descubrirán que hacer el amor
conlleva inevitable el colapso cardíaco
harán saber que el olor de la flor
degenera el tejido hepático
difundirán como lo han hecho
que la vida atenta incansablemente
contra sí misma
Pero no importa
también descubrirán, y ya lo dicen
que una tarjeta de crédito dorada
y una egolatría de César en pijama
frente al televisor universal de su alma
son la panacea infalible
para esta vida miserable
tan expuesta al peligro biológico
[Tomado del libro Crónicas y tópicas de la edad de la muerte, Ediciones El mar arado, 2004.]

PERIGOS BIOLÓGICOS

Um dia vão descobrir
que o sol da manhã produz cegueira

Vão descobrir que café com leite
traz cânceres diversos

descobrirão que fazer o amor
é o caminho inevitável para o colapso cardíaco

Farão saber que o perfume da flor
degenera o tecido hepático

Difundirão como já fizeram
que a vida atenta incansavelmente
contra si mesma.

Mas não importa
também descobrirão, e hão de dizer

que um cartão de crédito dourado
e uma egolatria de César de pijama
defronte ao televisor universal de sua alma
são a panacéia infalível
para esta vida miserável
tão exposta ao perigo biológico

UM POETA DA VENEZUELA

AMABLE LECTOR, NO SE CONFÍE

Alex Fleites

En la octava línea de este texto
una paloma está agonizando,
pero usted puede no mirarla
Aguarde mejor en la palabra cuarta:
ha llovido, y justo allí, dique inocente,
un niño juega a detener el agua

Ya sé que no vale la pena
un par de alas abatidas
ni el encendido pico
que ahora surbe, ansioso,
la frescura de la tinta;
pero sucede, lector,
que hacia el final del poema
una muchacha se baña
desnuda en la playa

Si viera, hay tanto azul
y oro en el paisaje
Sus senos desafían en la espuma
y todos los aromas del mundo la regalan
Mas qué le digo…
Usted está sentado junto al niño
viéndolo navegar sueños adentro,
mientras piensa con horror
en una paloma que agoniza

Quédese ahí, no sufra en vano,
después de todo, una muchacha
no vale lo que un sueño

Al final, sólo un detalle:
no se confíe,
la belleza más bien es una espada
Lo que corre a sus pies, puede ser sangre,
y si se fija bien
quizás alcance a distinguir
un desvalido barco de papel
de un ave herida que la corriente arrastra

AMÁVEL LEITOR NÃO CONFIE

Na oitava linha deste texto
Uma pomba está agonizando,
Porém você não pode vê-la.

Aguarde melhor pela quarta palavra:
Choveu, e justo ali, um dique inocente,
Uma criança brinca de deter a água.

Já não sei o que vale a pena
Um par de asas abatidas
Ou o estendido bico
Que, agora, sorve, ansioso
A frescura da tinta;
Porém, sucede leitor
Que até o final do poema
Uma moça se banha
Desnuda na praia.

Se consegues ver
Há muito azul
E ouro na paisagem
Seus seios desafiam a espuma
E todos os aromas do mundo a povoam,
Mas o que digo...
Você está sentado junto ao menino
Vendo-o navegar pelos seus sonhos
Enquanto pensa com horror
Que uma pomba agoniza.

Pare por aí, não sofra em vão,
Depois de tudo uma moça
Não vale mais que um sonho.

Ao final só um detalhe:
Não se confie na beleza
Mais do que numa espada.
O que corre a seus pé pode ser sangue
E se olhas bem
Quem sabe possa distinguir
Um desamparado barco de papel
De uma ave ferida que a correnteza arrasta.