Tuesday, February 05, 2019

AMOR, MEU NEGRO AMOR



Ah! Meu negro amor, não vou mais lutar uma luta tão inglória.
Já busquei em todas as bruxas solução, mas, teu feitiço,
negro amor, é como uma canção pegajosa, como uma doença incurável,
lentamente corrói a minha vontade, e faz de mim um mamulengo teu,
um marionete.
Ah! Meu negro amor, todos os caminhos já deixei para trás
(e todos me pareciam sempre iguais)
tanto que os profetas e as videntes liam,
em estrelas reluzentes,
o que, impreterivelmente, viam,
o que as pedras já deviam saber:
que sempre vou voltar com mais saudade.
E nas tuas pernas negras hei de encontrar
o prazer de me perder
ao me agarrar ao que não há.
Hei de colher a flor,
negra, escura, melânica, pardacenta, enegrecida,
que me dá amor e vida
com tantos beijos
que parecerá possível matar o desejo
que, invariavelmente, negro amor,
há de voltar a me torturar,
insaciável, sedento, te querendo toda minha,
desejando o impossível feito
de, no leito,
te tornar tão minha,
negra rainha,
como me fizeste,
de um modo tão perfeito,
negro amor,
ser teu de corpo, alma e coração
só com este teu jeito
doce e afável
de me dominar com carinhos, poções e beijos.
Não há mais nada,
nada mais em mim,
negro amor,
que este amor, paíxão, desejo!

Ilustração: Veja SP.

E, uma vez mais, Bonnefoy


UNE VOIX                              

Yves Bonnefoy

Quelle maison veux-tu dresser pour moi, 
Quelle écriture noire quand vient le feu?

J'ai reculé longtemps devant tes signes, 
Tu m'as chassée de toute densité.

Mais voici que la nuit incessante me garde, 

Par de sombres chevaux je me sauve de toi.

UMA VOZ

Que casa queres fazer para mim,
Que escrita negra quando o fogo vem?

Já recuei por longo tempo diante dos teus sinais,
Tu me baniste de toda densidade.

Mas, aqui a noite incessante me guarda,
Por escuros cavalos me salvo de ti.

Sunday, February 03, 2019

E, de volta, Oliverio Girondo


 
LLORAR A LÁGRIMA VIVA

Oliverio Girondo

Llorar a lágrima viva.
Llorar a chorros.
Llorar la digestión. 
Llorar el sueño.
Llorar ante las puertas y los puertos.
Llorar de amabilidad y de amarillo.
Abrir las canillas,
las compuertas del llanto.
Empaparnos el alma, la camiseta.
Inundar las veredas y los paseos,
y salvarnos, a nado, de nuestro llanto.
Asistir a los cursos de antropología, llorando.
Festejar los cumpleaños familiares, llorando.
Atravesar el África, llorando.
Llorar como un cacuy, como un cocodrilo…
si es verdad que los cacuíes y los cocodrilos
no dejan nunca de llorar.
Llorarlo todo, pero llorarlo bien.
Llorarlo con la nariz, con las rodillas.
Llorarlo por el ombligo, por la boca.
Llorar de amor, de hastío, de alegría.
Llorar de frac, de flato, de flacura.
Llorar improvisando, de memoria.
¡Llorar todo el insomnio y todo el día!

CHORAR A LÁGRIMA VIVA

Chorar a lágrima viva.
Chorar em jorros.
Chorar a digestão.
Chorar o sonho
Chorar ante as portas e portos.
Chorar de amável e de amarelo.
Abrir as torneiras
as comportas do pranto.
Empapar a alma, a camiseta.
Inundar as calçadas e as estradas
e nos salvar, a nado, de nosso pranto.
Assistir aos cursos de antropologia, chorando.
Celebrar os aniversários da família, chorando.
Para atravessar a África, chorando.
Chorando como um urutau como um crocodilo ...
se é verdade que os urutaus e os crocodilos
não deixam nunca de chorar.
Chorar tudo, porém, chorar bem.
Chorar com o nariz, com os joelhos.
Chorar pelo umbigo, pela boca.
Chorar de amor, de tédio, de alegria.
Chorar de fratura, flato, fraqueza.
Chorar improvisando, de memória.
Chorar toda a insônia e todo dia!

Ilustração: Contributos.

Monday, January 14, 2019

Outra poesia de Tuti Curani





Te banqué la etiqueta

Tuti Curani

Te banqué la etiqueta
de navegadores de lo contemporáneo
cuando me dijiste que lo posmoderno era negativo
y yo te respondí que peor era neobarroco.
Te banqué la etiqueta
cuando me pediste que no pensara
ni qué era eso que estábamos haciendo
perdendo el tiempo juntos a medias.
Te banqué la etiqueta
cuando las calles del centro se abrieron
y la noche no fue para nada amable
escuchando el sonido de una ideia al romperse.
Te banqué la etiqueta
cuando llorando me decías no sé qué me passa
por qué me persigue esta niebla
o por qué no me sale estar tranquilo.
Te banqué la etiqueta
cuando se habían vaciado todas las botellas
y nuestros amigos ya se habían ido
y el frío que entraba por tres centímetros de una ventana aberta
se llevaba toda posibilidad de palabras.
Te banqué la etiqueta
cuando ya después de tanto años
no hubo maniobra que fuera a salvarnos
de no sentir más nada entre nosostros.

Banquei a tua marca

Banquei a tua marca
de navegadores do contemporâneo
quando me disse que o pós-moderno era negativo
e eu te respondi que o neobarroco era pior.
Banquei a tua marca
quando me pediste que não pensasse
nem o que era isso que estávamos fazendo
perdendo o tempo juntos de qualquer jeito
Banquei a tua marca
quando as ruas do centro se abriram
e a noite não foi nada amável
escutando o som de uma ideia ao se quebrar
Banquei a tua marca
quando chorando me dizias não sei o que se passa comigo
por quê essa névoa me persegue
ou por quê não consigo ser tranquila
Banquei a sua marca
quando haviam esvaziado todas as garrafas
e nossos amigos já tinham ido embora
e o frio que entrava pelos três centímetros de uma janela aberta
levava toda a possibilidade de palavras.
Banquei a tua marca
quando já depois de tantos anos
não houve manobra que fosse nos salvar
de não sentir mais nada entre nós.

Ilustração: Picdeer.

Saturday, January 12, 2019

Outra poesia de Walter Cruz


Te dejo...                                            
Walter Cruz

una larga caricia de mi alma a tu cuerpo,
una suave presencia de manos por tu espalda...
un calido contacto de encendida belleza,
como tu piel de rocio...
como tus ojos de agua...
No detengas su marcha,
ni te niegues al signo de su ritmo constante...
son mis manos que buscan tus lugares mas dulces,
son mis manos, mi boca...
...mi explosion y tu calma.

Te deixo

Uma larga carícia de minha alma no teu corpo,
Uma suave presença das mãos por tuas costas...
Um cálido contato de acendida beleza
Como tua pele de orvalho...
Como os teus olhos de água...
Não detenhas sua marcha,
Não te negues ao signo do seu ritmo constante...
São minhas mãos que buscam teus lugares mais doces,
São minhas mãos, minha boca...
...minha explosão e tua calma.

Ilustração: o coração da ponta do lápis.

Outra poesia de Luis Fernando Moran


 
Epilogo del monologo (lealo solo en una noche fria y con una 
veladora frente al espejo )

      
Luis Fernando Moran

Quien se quedara en la penumbra de tu vida ? 
cuando decida largarme por la puerta de servicio de 
tu alma  quien sera la llamada inconfesable ? 
cuando se pierda para siempre tu numeracion 
quien te quitara el temor de los monstruos bajo tu 
     cama ? 
cuando no este para que veamos despacio que no son 
monstruos sino dragones 
pero no puedo seguir jugando a ser nosotros sin ser 
        yo 

Epílogo do monólogo (lê-lo sozinho numa noite fria e com uma
vela frente ao espelho)

Quem permanecerá na penumbra de tua vida?
quando decidir largar-me pela porta de serviço de
tua alma, quem será a chamada inconfessável?
quando se perder para sempre tua numeração
quem irá remover o medo dos monstros sob tua
      cama?
quando não estiver para que vejamos devagar que não são
monstros nem dragões,
porém, não posso seguir julgando sermos nós sem ser
         eu.

Ilustração: Respondae.

Friday, January 11, 2019

Outra poesia de Laura Wittner


 
No por urbana la luna es menos poderosa        
     
Laura Wittner
     
Últimamente veo desde mi balcón
     algo como una grúa inmensa,
     una viga infernal que, paralela al cielo,
     se encaja entre edificios altos
     como dispuesta a rearmar el panorama,
     delimitada por dos luces fatuas:
     punto rojo en un extremo, y en el otro
     la extrañeza hecha luz: un rectángulo verde
     fluorescente, imposible de entender: de día
     parece una pantalla que proyecta
     en continuado y para nadie, y de noche
     refulge en el centro de su hueco
     evocando desplazamientos mudos
     que hablan de lo difícil que es fijar impresiones.
     Refulge desde allí como un dios verde
     de Philip Dick, con resabios de Lem.


Não é por ser urbana que a lua é menos poderosa.
      
      Ultimamente vejo da minha varanda
      algo como um guindaste imenso
      uma viga infernal que, paralela ao céu,
      cabe entre os edifícios altos
      como disposta a rearrumar o panorama,
      delimitado por duas luzes suaves:
      um ponto vermelho num extremo e, no outro
      a estranheza feito luz: um retângulo verde
      fluorescente, impossível de entender: de dia
      parece uma tela que projeta
      em contínuo e para ninguém, e à noite
      brilha no centro de sua cavidade
      evocando movimentos silenciosos
      que falam sobre como é difícil fixar impressões.
      Brilha de lá como um deus verde
      de Philip Dick, com os restos de Lem.

Ilustração: bruxaguinevere.blogspot.com.

Uma poesia de Tuti Curani


 
EL DEPORTE                                                              
Tuti Curani

En el fondo de la oscuridad
hay un toque de cielo.
(Capaz está bien que te cuente mis pesadillas ahora.)
Tengo ganas
de hacer algún truco con mi cuerpo,
como sostenerme en vertical
o praticar la posición bollito.
Apelaría
al deporte de lo seguro.
Era suave ser dos y no estar ahogados
entre tanto estratega del tacto.
De él sí
guardo fotos en papel,
los archivos los borré
la misma noche en que firmamos el pacto
de no hacer eso que hacen todos
cuando extrañan el pasado.

O ESPORTE

No fundo da escuridão
há um toque de céu.
(Capaz de ser bom te contar meus pesadelos agora)
Tenho vontade
de fazer algum truque com meu corpo
como sustentar-me na vertical
ou treinar a posição da bolinha
Apelaria
ao esporte da segurança.
Era suave ser dois e não estarem afogados
entretanto estratégia do tato.
Dele sim,
guardo fotos em papel,
os arquivos os apaguei
na mesma noite em que firmamos o pacto
de não fazer isso que fazem todos
quando saudosos do passado.

Ilustração: https://br.depositphotos.com/14824517/stock-illustration-love-to-sports.html.

Uma poesia de Laura Wittner




Volví a tener un limón en la mano

Laura Wittner

Volví a tener un limón en la mano.
Es algo tan perfecto de agarrar.
¿Esto yo lo sabía? ¿Me acordaba?
Miren mi mano: se ahueca espontánea
y no queda nada en ella que no sea
limón: lo fresco, lo rugoso, el peso,
el perfume terrible, la acidez.
No hay distancia entre la mano y el limón.
Significan lo mismo por un rato.

VOLTEI A TER UM LIMÃO NA MÃO

Voltei a ter um limão na mão.
É algo tão perfeito de agarrar.
Isto eu sabia? Me conciliava?
Olhem minha mão: se faz uma concha espontânea
e nela não há nada que não seja
o limão: o fresco, o rugoso, o peso,
o perfume terrível, a acidez.
Não há distância entre a mão e o limão.
Significam o mesmo por um momento.


Um poeminha de Alejandra Pizarnik


AMANTES                    
Alejandra Pizarnik
                         
Una flor
No lejos de la noche
Mi cuerpo mudo
Se abre
A la delicada urgencia del rocío

AMANTES

Uma flor
Não longe da noite
Meu corpo mudo
Se abre
À delicada urgência do orvalho.

Ilustração: Pixabay.

Thursday, January 10, 2019

E, agora, outra poesia de Alejandra Pizarnik


\Cuarto solo                                               
                         
Alejandra Pizarnik

Si te atreves a sorprender
la verdad de esta vieja pared;
y sus fisuras, desgarraduras,
formando rostros, esfinges,
manos, clepsidras,
seguramente vendrá
una presencia para tu sed,
probablemente partirá
esta ausencia que te bebe.

QUARTO SOLO

Se te atreves a surpreender
a verdade desta velha parede;
e suas fissuras, lágrimas,
formando rostos, esfinges,
mãos clepsidras,
seguramente virá
uma presença para a tua sede
provavelmente quebrará
esta ausência que te bebe.

E, agora, outra poesia de Antonio Gamoneda



TÚ                                                                        

Antonio Gamoneda

Caer en un rostro, existir
con su respiración y con su boca…

Cuando tú estabas en peligro,
tú gritaste, mas fue
en la garganta de otro ser humano;
se levantó tu cuerpo
y fue en los brazos de otro ser humano.

Entonces comprendías.

Y tu necesidad y tu dolor
no fueron nunca como antes. Tú
ya no ves signos. Ahora, tú desprecias
todas las dudas. Y tu pensamiento
no es espejo que calla; ya es amor
y destino y conducta y existencia.

TU

Cair em um rosto, existir
com sua respiração e com sua boca…

Quando tu estavas em perigo,
tu gritaste, mas foi
na garganta de outro ser humano;
se levantou o teu corpo
e foi nos braços de outro ser humano.

Então, compreendias.

E a tua necessidade e a tua dor
não foram nunca como antes. Tu
já não vês os signos. Agora, tu desprezas
todas as dúvidas. E o teu pensamento
não é o espelho que cala; já é amor
e destino e conduta e existência.

Ilustração: Alma Preta.