Friday, February 21, 2020

Outra poesia de Valeria Di Felice


16.                                                                                    


Valeria Di Felice

Beve il seno
l'idra disciolta
della tua lingua,
il capezzolo di colpo
fattosi guardiano eretto -
stordito dalla risacca della tua bocca.
                                                              
Beve il corpo
non più l'oscurità concava dell'assenza
ma luce notturna – convesso giorno – che si addensa
intorno all'immensità delle stelle.

Beve, beve questo incontro
la bianca spuma che giace al fondo
tornata a riva sulla cresta della sua onda
con l'arcana verità del venire al mondo.

16.

Bebe o seio
a hidra dissolvida
da tua língua
o mamilo do golpe
ficou guardado ereto-
atordoado pela ressaca da tua boca.
                                                              
Bebe o corpo
não mais a escuridão côncava da ausência,
mas, a luz noturna - convexo  dia- que se adensa
em torno da imensidão das estrelas.

Bebe, bebe este encontro
a espuma branca deitada no fundo
de volta à costa na crista de sua onda
com a arcana verdade de vir ao mundo.

Ilustração: Youtube.

Thursday, February 20, 2020

Uma poesia de Pierre Ronsard



SONNETS                                                                  

Pierre Ronsard

Ciel, air et vents, pleine et monts découverts,
Tertres fourchus et forêts verdoyantes,
Rivages torts, et sources ondoyantes,
Taillis rasés, et vous, bocages verts;


Antres moussus à demi front ouverts,
Prés, boutons, fleurs et herbes rousoyantes,
Côteaux vineux et plages blondoyantes,
Gastine, Loir, et vous, mes tristes vers,


Puisqu’au partir, rongé de soin et d’ire,
A ce bel oeil l’adieu je n’ai su dire,
Qui près et loin me détient em émoi,


Je vous suplli’, ciel, air, vents, monts et plaines,
Taillis, fôrets, rivages et fontaines,
Antres, prés, fleurs, dites-le-lui pour moi


SONETOS II

Céu, ar e ventos, cheios e montanhas nuas,
Montes bifurcados e florestas verdejantes,
Costas tortas e fontes ondulantes,
Lâminas raspadas e tu, verdes brenhas;

Locais musgosos no rochedo com fendas,
Prados, botões, flores e ervas flamejantes
Encostas, vinhas e praias brilhantes,
Gastine, Loir e tu, minhas tristes poesias,

Pois, que, ao partir, roído de cuidado e ira,
Ao teu belo olho, o adeus não quis que fira
Que perto e longe o amor me prende assim

Eu vos suplico, céu, ar, ventos, montanhas e planícies,
Matagal, florestas, margens e fontes,
Lugares, prados, flores, conte-lhe por mim.

Ilustração: https://twitter.com/.

Tuesday, February 18, 2020

E, de volta, Jacques Prévert


LE METÉORE

Jacques Prévert

Entre les barreaux des locaux disciplinaires
une orange
passe comme un éclair
et tombe dans la tinette
comme une pierre
Et le prisonnier
tout éclaboussé de merde
resplendit
tout illuminé de joie
Elle ne m’a pas oublié
Elle pense toujours à moi.

O METEORO

Entre as barras das instalações disciplinares
uma laranja
passa como um relâmpago
e tomba na lata
como uma pedra
E o prisioneiro
todo salpicado com merda
resplandece
todo iluminado de alegria
Ela não me esqueceu
Ela pensa sempre em mim.



Monday, February 17, 2020

E, mais uma vez, Olga Orozco



En el final era el verbo

Olga Orozco

(...)

Yo velaba incrustada en el ardiente hielo, en la hoguera escarchada,
traduciendo relámpagos, desenhebrando dinastías de voces,
bajo un código tan indescifrable como el de las estrellas o el de las hormigas.
Miraba las palabras al trasluz.
Veía desfilar sus oscuras progenies hasta el final del verbo.
Quería descubrir a Dios por transparencia.

No final era o verbo

(...)

Eu velava incrustada no gelo ardente, na fogueira gelada,
traduzindo relâmpagos, desenterrando dinastias de vozes,
debaixo de um código tão indecifrável como o das estrelas ou o das formigas.
Olhava para as palavras na luz.
Via desfilar suas progênies sombrias até o final do verbo.
Queria descobrir Deus pela transparência.


E, de volta, Guillaume Apollinaire



     LA CARPE
Guillaume Apollinaire

Dans vos viviers, dans vos étangs,
Carpes, que vous vivez longtemps!
Est-ce que la mort vous oublie,
Poissons de la mélancolie.

A CARPA

Nos seus viveiros, em suas lagoas,
Carpas, que viveis por muito tempo
Será que a morte te esquece,
Ó Peixes da melancolia.

Thursday, February 13, 2020

Uma retradução de Tomás Segovia


LA SEMANA SIN TI                    
Tomás Segovia

Quisiera haber nacido de tu vientre,
haber vivido alguna vez dentro de ti,
desde que te conozco soy más huérfano.
¡Oh! gruta tierna,
rojo edén caluroso.
Qué alegría haber sido esa ceguera!
Quisiera que tu carne se acordara
de haberme aprisionado,
que cuando me miraras
algo se te encogiese en las entrañas,
que sintieras orgullo al recordar
la generosidad sin par con que tu carne
desanudaste para hacerme libre.
Por ti he empezado a descifrar
los signos de la vida,
de ti quisiera haberla recibido.

A SEMANA SEM TI

Queria ter nascido de teu ventre,
haver vivido, alguma vez, dentro de ti,
desde que te conheço, sou mais órfão.
Oh! gruta terna,
vermelho éden quente.
Que alegria ter sido essa cegueira!
Queria que tua carne se recordasse
de me aprisionar,
que quando me olhaste
algo se encolheu em tuas entranhas,
que sentisse orgulho ao recordar
a generosidade incomparável com que tua carne
desnudaste para me libertar.
Para ti eu comecei a decifrar
os sinais da vida,
de ti queria tê-la recebido.


Outra poesia de Andrée Chedid



Andrée Chedid

Les morts aux visages rompus se redressent
La langue des humiliés se gonfle
Orageuse se lève la marée des victimes
Mais prenez garde porteurs de cicatrices!
Éteignez dans vos chairs les volcans de la haine
Piétinez l’aiguillon et crachez le venin
qui vous apparenteraient un jour aux bourreaux
Étouffez ces clairons ces sonneries qui forcent la ressemblance qui commandent le talion
Questionnez vos viscères
Percez vos propres masques
Soyez autres!

Os mortos com rostos rompidos se recuperam
A língua dos humilhados incha
Tempestuosa se eleva a maré das vítimas
Mas, cuidado guardiões das cicatrizes!
Apaguem em sua carne os  vulcões de ódio
Esmaguem os aguilhões e cuspam fora o veneno
que um dia os relacionaram com os carrascos
Abafem essas cornetas, esses toques, que forçam a semelhança que comanda o talião
Questione suas vísceras
Perfure sua própria máscara
Seja outro!


E, de novo, o surpreendente Guiillaume Apollinaire





AUTOMME MALADE

Guillaume Apollinaire

Automne malade et adoré
Tu mourras quand louragan soufflera dans les roseraies
Quand il aura neigé
Dans les vergers

Pauvre automne
Meurs en blancheur et en richesse
De neige et de fruits mûrs
Au fond du ciel
Des épreviers planent
Sur les nixes nicettes au cheveux verts et naines
Qui nont jamais aimé

Aux lisières lointaines
Les cerfs ont bramé

Et que jaime ô saison que jaime tes rumeurs
Les fruits tombant sans quon les cueille
Le vent et la forêt qui pleurent
Toutes leurs larmes en automne feuile à feuille

Les feuilles
Quon foule
Un train
Qui roule
La vie
S’écoule


OUTONO NEBULOSO

Outono nebuloso e adorado
morrerás quando o furacão assolar os roseirais
Quando nos pomares
tiver nevado

Pobre outono
Morres na brancura e na riqueza
De neve e de frutos maduros
No fundo do céu
gaviões pairam
sobre os duendes inocentes com cabelos verdes e anões
que jamais amaram

Nas bordas distantes
O veados bramam

E o que eu amo nesta temporada que amo são seus rumores
Frutas tombando sem serem colhidas
O vento e a floresta chorando
Todas as suas lágrimas no outono frondoso

As folhas
que pisamos
Um trem
que passa
a vida
se escoando


Wednesday, February 12, 2020

Outra poesia de Elio Pecora


Elio Pecora                                                                             


Ci sono stati giorni
in cui forse la gioia
non era più di uno stordimento,
un vento fresco, lieve,
niente altro chiamava, valeva,
solo quel vento.


Há tido dias
nos quais, talvez, a alegria
não fosse mais que um atordoamento,
um vento fresco, leve,
nenhum outro chamado, valeu a pena,
só aquele vento.



Outra poesia de Rita Pacilio



FINIRSI

Rita Pacilio

Per dinamismo. Finire l’orgoglio nell’imprecazione. La mimica facciale. Avrebbe dovuto incontrarla sotto casa. Ma l’erba morta perse lo smeraldo nel sole. Con la carta scottex ripuliva la mela già lavata. Non si può aggiungere niente a ieri. Una bancarella vendeva tazzine di porcellana, stile inglese. Più in là, la prima edizione di Ossi di seppia. Via Roma, qui. Dopo cena. La tavola apparecchiata.

FINDAR-SE

Por dinamismo. Finde o orgulho na imprecação. O mimetismo facial. Ele deveria tê-la encontrado sob casa. Mas, a erva morta perdeu a esmeralda ao sol. Com a toalha de papel, limpei a maçã já lavada. Nada pode ser adicionado a ontem. Uma banca vendia xícaras de porcelana, no estilo inglês. Mais adiante, a primeira edição de Ossi di seppia. Via Roma, aqui. Depois do jantar. A mesa posta.

Ilustração: https://giphy.com.



Tuesday, February 11, 2020

E, de volta, a poesia de Gustavo Adolfo Bécquer


VII                                                                


Gustavo Adolfo Bécquer

Voy contra mi interés al confesarlo,
no obstante, amada mía,
pienso cual tú que una oda solo es buena
de un billete del Banco al dorso escrita.
No faltará algún necio que al oírlo
se haga cruces y diga:
Mujer al fin del siglo diez y nueve
material y prosaica... ¡Boberías!
¡Voces que hacen correr cuatro poetas
que en invierno se embozan con la lira!
¡Ladridos de los perros a la luna!
Tú sabes y yo sé que en esta vida,
con genio es muy contado el que la escribe,
y con oro cualquiera hace poesía.

VII

Vou contra o meu interesse em confessá-lo,
não obstante, amada minha,
penso igual a ti é que uma ode só é boa
escrita nas costas de uma nota de banco.
Não faltará algum tolo que ao ouvi-lo
faça cruzes e diga:
Mulher no final do século dezenove
material e prosaica ... Bobagens!
Vozes que fazem correr quatro poetas
que no inverno se embotam com a lira!
Latidos dos cães para a lua!
Tu sabes e eu sei que nesta vida,
com gênio se conta nos dedos quem escreve ,
e com ouro qualquer um faz poesia.

Mais uma poesia de Carmen Sánchez Álvarez



Carmen Sánchez Álvarez

Un ara en el jardín redime
el tránsito libre por tu cuerpo.
Estrellas, cerezas y luciérnagas
salvajes en su seno,
florecen, esta noche y al alba,
al esconderse el sueño.
Luce el abismo al despertar el día.
Tan lejos, tan vacíos, tan atrás
quedan los besos
que quisiera
renovar a cada instante
efímeros votos en tu lecho.


Um sulco no jardim redime
o trânsito livre através do seu corpo.
Estrelas, cerejas e vaga-lumes
selvagens no teu seio,
florescem, esta noite e ao amanhecer,
ao esconder-se o sonho.
O abismo brilha ao acordar o dia.
Tão longes, tão vazios, tão atrás
ficam os beijos
que quisera
renovar a cada instante
votos efêmeros no teu leito.


Ilustração: Pinterest.

E mais uma poesia de Carmen Matute

CARTA AL AMANTE                              


Carmen Matute

Por recorrer tu piel a pedacitos
olvidé la piel agrietada
de la patria,
dejé de andar por sus caminos,
no llegué hasta sus aldeas,
ignoré el hambre y la violencia,
sumergida en un orgasmo inacabable.
Así me fui volviendo caracol.
Me fui volviendo tortuga,
oculta en las profundidades de su casa.
Vivía inútil, cantando
como la cigarra de la fábula.
Mi casa no tenía puertas ni ventanas.
Monumental, ¡el egoísmo me envolvía
en su crisálida!
Sin embargo, nuestro amor crecía.
Nuestro amor, que ha sido
un diálogo de años.
Un amarnos a besos,
a golpes a mordiscos.

CARTA AO AMANTE

Para viajar por tua pele em pedaços
esqueci a pele trincada
da pátria,
Deixei de andar em seus caminhos,
Não cheguei até às suas aldeias,
ignorei a fome e a violência,
submersa em um orgasmo inacabável.
Assim fui me tornando um caracol.
me fui tornando uma tartaruga
oculta nas profundezas de sua casa.
Vivia inútil, cantando
como a cigarra da fábula.
Minha casa não tinha portas nem janelas.
Monumental, o egoísmo me envolvia
em sua crisálida!
Sem embargo, nosso amor crescia.
Nosso amor, que tem sido
um diálogo de anos.
Um amor de beijos,
de golpes e mordidas.

Ilustração: http://totilafortesletras.blogspot.com

Saturday, February 01, 2020

Uma poesia de Charles-Ferdinand Ramuz


L’IGNORANT                                                

Charles-Ferdinand Ramuz

Plus je vieillis et plus je croîs en ignorance,
plus j’ai vécu, moins je possède et moins je règne.
Tout ce que j’ai, c’est un espace tour à tour
enneigé ou brillant, mais jamais habité.
Où est le donateur, le guide, le gardien?
Je me tiens dans ma chambre et d’abord je me tais
(le silence entre en serviteur mettre un peu d’ordre),
et j’attends qu’un à un les mensonges s’écartent:
Que reste-t-il? que reste-t-il à ce mourant
qui l’empêche si bien de mourir? Quelle force
le fait encor parler entre ses quatre murs?
Pourrais-je le savoir, moi l’ignare et l’inquiet?
Mais je l’entends vraiment qui parle, et sa parole
pénètre avec le jour, encore que bien vague:
“Comme le feu, l’amour n’établit sa clarté
que sur la faute et la beauté des bois en cendres…”


O IGNORANTE

Quanto mais envelheço, mais cresço em ignorância,
quanto mais vivo, menos possuo e menos reino.
Tudo o que tenho é um espaço, por sua vez
com neve ora brilhante, mas nunca habitado.
Onde está o donatário, o guia, o guardião?
Eu estou no meu quarto e permaneço calado
 (o silêncio entra como servo para pôr ordem),
e espero que, uma a uma, as mentiras se descartem:
Que resta? O que resta a este moribundo
que o impede de morrer tão bem? Que força
o leva ainda a falar entre quatro paredes?
Poderia saber, eu, o ignaro, eu o inquieto?
Mas, é certo que posso entendê-lo falando, e sua fala
penetra-me com o dia, ainda que bem vaga:
“Como o fogo, o amor não estabelece sua claridade
senão pela falta e na beleza das cinzas da madeira ... ”


Ilustração: https://docplayer.com.br/