Friday, October 23, 2020

Uma poesia de Letícia Sala

 

 

LOS MUERTOS

 Leticia Sala

 Sé que no te has muerto

porque veo tus stories

de vinilos sonando en la habitación de al lado.

A ti no te oigo

y tampoco tu cuerpo emite ningún ruido;

supongo que en un rato

entrarás por aquí

y me preguntarás qué tal el libro.

Y yo mentiré,

y así será

(este miedo tan irrefrenable a que tú mueras me lo

tengo que curar).

 

OS MORTOS

Sei que tu não estás morto

porque vejo tuas histórias

de vinis tocando na casa ao lado.

Não consigo te ouvir

E, tampouco, teu corpo não emite nenhum ruído;

suponho que num instante

entrarás por aqui

e me perguntarás sobre o livro.

E eu mentirei

e assim será

(este medo irrefreável de que tu morras

tenho que curar).

Ilustração: https://www.vix.com/.

Outra poesia de Sandra Mata Garrido

 


DESTINO

Sandra Mata Garrido

Nuestro destino está escrito,

aunque seguro, no es tu favorito.

Las cosas por algo suceden,

la mayoría de sueños, se conceden.

Si concibes el bien,

la vida te lo devolverá por cien.

Si concibes el mal,

espero que te vaya fatal.

Ayuda al necesitado,

y dejará de vivir condenado.

Aléjate del malvado y del envidioso,

y tu camino, será menos codicioso.

 

DESTINO

Nosso destino está escrito,

ainda que seguro, não és tu o favorito.

As coisas por algo sucedem,

a maioria dos sonhos, se concedem.

Se concebes o bem,

a vida o te devolverá por cem.

Se concebes o mal,

espero que te seja fatal.

Ajuda ao necessitado,

e deixará de viver condenado.

Alhea-te do malvado e do invejoso,

e teu caminho será menos temeroso.

Ilustração: Youtube. 

Thursday, October 22, 2020

Outra poesia de Nicoletta Fazio

 


PENSIERI

Nicoletta Fazio

 

Profeta di amari

canti

vago ancora per strade

non più mie

a cercare

quell'antica promessa,

ricordo bambino,

di un nonsoché perduto.

Altri tramonti avrà

ancora la civetta,

altre albe passeranno

su di me

come maree erranti

a chiedere il senso

di quel flusso eterno,

dolce e crudele,

come il cadere delle foglie

d'autunno.

Avrò ancora sussurri

da affidare al vento

sulle labbra,

io, come un tempo,

mani in tasca

a stringere con rabbia

sogni,

i pochi – solomiei -

superstiti.

Mendicante di illusioni,

ti cercherò ancora

come un tempo

in strade avare

di parole

per dividere a metà

un sorriso.

 

PENSAR

 

Profeta de amarguras

canto

vagando ainda pelas ruas

não é mais minha

a busca

daquela antiga promessa,

Eu me lembro, criança,

de um não sei o que perdido.

Outros pores do sol terão

ainda a coruja,

outras auroras passarão

em mim

como marés errantes

para pedir significado

desse fluxo eterno,

doce e cruel,

como o cair das folhas

do outono.

Ainda vou ouvir sussurros

confiados ao vento

nos lábios,

Eu, como no passado,

mãos no bolso

a apertar com raiva

os sonhos,

os poucos - chorados -

sobreviventes.

Mendigo de ilusões,

te procurarei de novo

como no passado

nas ruas ruins

das palavras

para dividir ao meio

um sorriso.

Ilustração: Blog Colégio Rio Branco.

Wednesday, October 21, 2020

Uma poesia de Sandra Mata Garrido


 TU RETRATO

 Sandra Mata Garrido

Sobre el caballete reposaba un lienzo en blanco,

hoy mi inspiración está nula para serte franco.

Mi mente y mis manos se dejaron llevar,

y al instante, tu retrato se empezó a vislumbrar.

Ojos verdes como el prado,

los más sinceros que hubiese imaginado.

Cabello ondulado y revuelto,

en una capa de dulzura tú me has envuelto,

labios gruesos y jugosos,

para mí los más hermosos,

tu nariz un tobogán sobre el que tirarme,

y que tú, no dejes de besarme.

Hoy el día tiene un color especial,

y a tu lado, este sueño, parece real.

TEU RETRATO

Sobre o cavalete repousava um lenço em branco,

hoje minha inspiração está nula para ser-te franco.

Minha mente e minhas mãos se deixaram levar,

e num instante, teu retrato comecei a vislumbrar.

Olhos verdes como o prado,

os mais sinceros que houvesse imaginado.

Cabelo ondulado e revolto,

em uma capa de doçura me há envolto,

lábios grossos e suculentos

para mim os mais formosos,

teu nariz um tobogã para sobre ele atirar-me

e que tu não deixes de beijar-me.

Hoje o dia tem uma cor especial

e, ao teu lado, este sonho, parece real.

 

Ilustração: http://peadartesvisuaisgravatai.blogspot.com/

Tuesday, October 20, 2020

Edmond Jabés, outra vez

 


Chanson de l’étranger

 

Edmond Jabès

Je suis à la recherche d’un homme que je ne connais pas,

qui jamais ne fut tant moi-même

que depuis que je le cherche. A-t-il mes yeux, mes mains

et toutes ces pensées pareilles

aux épaves de ce temps?

Saison des mille naufrages,

la mer cesse d’être la mer,

devenue l’eau glacée des tombes.

Mais, plus loin, qui sait plus loin?

Une fillette chante à reculons et règne la nuit sur les arbres,

bergère au milieu des moutons.

Arrachez la soif au grain de sel

qu’aucune boisson ne désaltère.

Avec les pierres, un monde se ronge

d’être, comme moi, de nulle part.

 

CANÇÃO DO ESTRANGEIRO

Eu estou procurando um homem que não conheço,

que jamais foi como eu-mesmo

quanto depois que o procuro. Tem meus olhos, minhas mãos

e todos os pensamentos semelhantes

aos destroços do tempo?

Época dos mil naufrágios,

o mar cessa de ser mar,

tornando-se a água gelada dos túmulos.

Mas, mais tarde, quem sabe mais tarde?

Uma menina canta recuando e a noite reina sobre as árvores,

pastora em meio das ovelhas.

Arrancai ao grão de sal a sede

que bebida alguma há de alterar.

Com as pedras, um mundo se tortura

de ser, como eu, de parte alguma.

 

Ilustração: https://freetorrents.tech.

Mais uma poesia de Cristina Narea

 


TÚ NO ERES HAMBRE 

Cristina Narea

Tú no eres hambre,

eres nostalgia

delirio

tú no eres hambre

eres pura agua

vida en vena

poesía que corre tras el lápiz

tú no eres hambre

eres lienzo inaugurado,

tapiz

latido permanente

eres anzuelo, si acaso soy pez

rayo, si acaso soy lluvia

eres el click

que hace clock

y todo encaja.

TU NÃO ÉS FOME

Tu não és fome

és nostalgia

delírio

tu não és fome

és água pura

vida na veia

poesia que corre atrás do lápis

tu não és fome

tu és uma tela inaugurada,

tapeçaria

batimento permanente

tu és um anzol, se acaso sou peixe

raio, se acaso for chuva

és o clique

o que faz o relógio

e tudo se encaixa.

Ilustração: http://lulutudoseencaixa.blogspot.com/.

Monday, October 19, 2020

A poesia de Tommaso Di Dio

 

Tommaso Di Dio

 

Primo discorso alla ciurma

Oceano, Sabato 9 Settembre

 

Settembre, nuvole, rotte. Piogge

e mappe, bussole, catrame, voli. Tutte

le parole che posso dirvi, sopra questi binari

invisibili d’acqua e spuma e i pesci

come frecce, come angeli di Dio.

Noi siamo con la regina

tra i fili mobili. All’alba, vediamo le spostate

nuvole dai venti. Vediamo il passato

e il futuro in un insieme confuso: adesso ci manca

il corpo della donna o dell’uomo

che abbiamo amato. I giorni

attraversano la mente

attraversano lampi oppure pollini

attraversano spore o sinapsi, oppure sono

bocca sopra bocca

mentre tra i cordami del cielo tutto muto il mondo irradia

evapora. Dove si va

amici, le parole finiscono.

 

Primeiro discurso para a tripulação

Oceano, sábado, 9 de setembro


Setembro, nuvens, rotas. Chuvas

e mapas, bússolas, alcatrão, voos. Todas

as palavras que eu posso te dizer nessas trilhas

de água invisível e espumas e peixes

como flechas, como anjos de Deus.

Estamos com a rainha

entre os fios móveis. Ao amanhecer, vemos os deslocamentos

das nuvens dos ventos. Vamos ver o passado

e o futuro em um todo confuso: agora sentimos falta

do corpo da mulher ou do homem

que amamos. Os dias

cruzam a mente

eles passam por raios ou pólen

esporos cruzados ou sinapses, ou são

boca sobre boca

enquanto entre as cordas do céu num todo silencioso o mundo irradia

evapora. Onde nós vamos

amigos, as palavras findam.

 

Ilustração: https://www.iagua.es/.

E, com vocês, Tristan Corbière

 

PARIS DIURNE

Tristan Corbière           

Vois aux cieux le grand rond de cuivre rouge luire,
Immense casserole où le bon Dieu fait cuire 
La manne, l'arlequin, l'éternel plat du jour:
C'est trempé de sueur et c'est trempé d'amour.
Les Laridons en cercle attendent près du four, 
On entend vaguement la chair rance bruire, 
Et les soiffards aussi sont là, tendant leur buire; 
Le marmiteux grelotte en attendant son tour.
Crois-tu que le soleil frit donc pour tout le monde 
Ces gras graillons grouillants qu'un torrent d'or inonde? 
Non, le bouillon de chien tombe sur nous du ciel.
Eux sont sous le rayon et nous sous la gouttière.
A nous le pot au noir qui froidit sans lumière.
Notre substance à nous, c'est notre poche à fiel.

PARIS DE DIA

Ver nos céus o grande círculo de cobre vermelho a brilhar,

Imensa caçarola onde o bom Deus faz cozinhar

O maná, o arlequim, o prato eterno do dia:

Está molhado de suor e molhado de amor.

Os cachorros em um círculo aguardam perto do forno,

Ouve-se vagamente a carne rançosa,

E os sedentos também estão lá, segurando sua bebida;

Os miseráveis estremecem esperando sua vez.

Crês que o sol está fritando todo mundo

como gorduras férvidas que uma torrente de ouro inunda?

Não, o caldo do cão está cai sobre nós do céu.

Eles estão embaixo da prateleira e nós na sarjeta.

Para nós a desventura sem nenhuma luz.

Nossa própria substância é nosso saco de fel.

Ilustração: https://www.youtube.com/.

Sunday, October 18, 2020

Além, bem além da pandemia

 


São esses dias longos, isolados, sem começo nem fim. Como se fossem fios de borrachas esticados em que não sei que dia é ou que horas são, que os recebo em oração. Neles escuto atento todas as canções que embalaram o nosso amor nas mudanças de estações. Sei que a pandemia é um grande mal, um tempo de dor, doença e morte, porém, embora a muitos não conforte, assuste, amedronte, não é o meu caso. Olho o mundo pela janela, uso a máscara como se fosse uma tela provisória, um desconforto passageiro.  O que, agora, nos maltrata como uma recordação da fragilidade humana é a prova real de que a vaidade engana. Não tenho, porém, nenhuma dó de mim por estar solitário assim. Este tempo de sofrimento é como se fosse uma antecipação do prazer. É como o calor enorme antes da chuva. É do rio a curva quando se dobra para o grande e imenso mar onde há de se encontrar o sal do amor, da beleza, do prazer. É a grande provação antes  de cair, por fim,  nos carinhos dos teus braços. 

Outra poesia de Yolanda Pantin

 


NADA POR MÁS ME ARRANCARÁ DE MI SITIO....

Yolanda Pantin

 

Nada por más me arrancará de mi sitio. Igual fulgor me escupió de muerte cuando reía mi madre y todos. La paz es un minuto. Cierro las ventanas, las puertas antiguas de mi casa. Es un minuto. Tú, ellos, de las palabras, de los labios a las palabras recias. Lento, prolongado, insistente. No alcanzo más que golpear. En este sitio. La palabra a golpes desprendida. Volcada de revés. La calma es un minuto.

 

NADA MAIS ME ARRANCARÁ DE MEU LUGAR

 

Nada mais vai me tirar do meu lugar. O mesmo brilho me cuspiu a morte quando minha mãe e todos riram. A paz é um minuto. Fecho as janelas, as velhas portas da minha casa. É um minuto. Tu, eles, das palavras, dos lábios às palavras fortes. Lento, prolongado, insistente. Não alcanço mais que golpear. Neste lugar. A palavra a golpes desprendida. Mergulho de volta. A calma é um minuto.

Ilustração: https://www.napontadope.com/.

Uma poesia de Clara Chacón

 

 

PROMESAS

 

Clara Chacón

 

Prometer no cabe em la boca de

cualqueria.

En las bocas limpias, puras.

La promessa se convierte en desconfianza,

Hace falta firmar los lábios para crer em

alguien?

no hagamos más juramentos,

la verdad nos hace eternos.

 

PROMESSAS

 

Prometer não cabe numa boca

qualquer.

Nas bocas limpas, puras.

A promessa se converte em desconfiança.

Faz falta firmar os lábios para crer em

Alguém?

Não façamos mais juramentos.

a verdade nos faz eternos.

 

Ilustração: https://www.contioutra.com/.

Saturday, October 17, 2020

Uma poesia de Yolanda Pantin

 

 


LAS CIUDADES INVISIBLES

 

 Yolanda Pantin

 

“Las ciudades, como los sueños, están construidas de deseos y de miedos.”

 

                                                                                                  Italo Calvino

Escribir sobre el amor

los ojos calmos de Verona

-poesía eres tú-

Imaginar una ciudad invisible como ella

reflexionar sobre la muerte y la fotografía

Ser fiel y atento

a todo lo que en ella se niega suspicazmente

tácita y oblicua recordar

-sobre todo-

que aquello que se ama no existe


AS CIDADES INVISÍVEIS

 

                         “As cidades, como os sonhos, estão construídas de desejos e medos”

                                                                                                         Italo Calvino

                 

Escrever sobre o amor

os olhos claros de Verona

-poesia és tu-

Imaginar uma cidade invisível igual a ela

refletindo sobre a morte e a fotografia

Ser fiel e atento

a tudo que ela nega desconfiadamente

tática e oblíqua recordar

-sobretudo-

que aquilo que se ama não existe.

 

Ilustração:  Bing Imagens-Luiza Bertoni.

Uma poesia de Nicoletta Fazio


 

Nicoletta Fazio

 

“Non é vero che i morti non sanno”

                                                               Tonia Giansante

*

La tua assenza

è un lago di nebbia

che non si attraversa.

Resto

sull’orlo della riva

a immaginare

come un cieco

l’altra sponda.

 

 

                                                "Não é verdade que os mortos não sabem"                   Tonia Giansante

*

A tua ausência

é um lago de nevoeiro

que não se atravessa.

Descanso

na beira da costa

a imaginar

como um cego

a outra margem.

 

Ilustração: https://paulofranke-historiasdoshinos.blogspot.com/.

Não escreverei mais poesias

 



Falam por nós os caminhos de ipês

e sussurram perfumes os jasmins, 

que invejam a fragrância de tua pele alva, 

do teu aroma natural. 

Nada tenho coragem de dizer 

admirando a beleza de teus olhos,

dois sóis resplandecentes. 

Seguro tua mão docemente

e todas as poesias que imaginei te dizer

me parecem palavras tolas, 

como bolhas que se perderam pelo ar

e nem vale a pena lembrar. 

És a poesia viva.

E só penso em viver contigo 

as melhores poesias que jamais escreverei!


Ilustração: Labor.pt.