Tuesday, October 19, 2021

Uma poesia de Leopoldo Lugones

 


JOURNEY

Leopoldo Lugones

I met upon the road

A woman and a man,

And a tree that genuflected

Before the wind;

Farther on, a browsing burro;

And farther still, a heap of stone.

And in three thousand leagues of my spirit

There was no more than these:

A tree, a stone, a burro,

A woman, and a man.

A JORNADA

Eu encontrei na estrada

Uma mulher e um homem,

E uma árvore que ao vento

Fazia genuflexões;

Mais longe um burro que nada fazia;

E mais longe ainda, uma porção de pedra.

E nas três mil léguas do meu espirito

Não havia nada mais que isto:

Uma árvore, a pedra, o burro,

Uma mulher e um homem.

Ilustração: https://computerworld.com.br/.

Monday, October 18, 2021

SEMPRE AÉREO

 


Não leve as coisas tão a sério
Que sou igual ao mar...
Tiro onda de ir e voltar.

Não tente ler nem decifrar
O que não tem enigma
Sou uma letra, talvez, um sigma.

Apenas me reconheço no que faço
E nem mesmo do modo certo
Sou um bobo, um nada esperto.

Não espero nem pela salvação.
Vivo a aventura do instante,
No espaço, o olhar de amor distante...

 

Sunday, October 17, 2021

Um poeta chamado Louis Calaferte

 


Rues maintes fois parcourues...

Louis Calaferte

Rues maintes fois parcourues depuis tant d'années.
Les changements y sont lents.
Lente y est la vie.
Certaines physionomies connues à force d'être rencontrées soudainement
disparaissent.
Les vitrines des boutiques se renouvellent tout en se ressemblant.
Il y a des magasins dont les propriétaires ne se montrent jamais.
Vieux magasins.
D'autres qui incitent à la dépense.
Il y a un chien noir aux oreilles cassées assis devant une entrée.
Un vieux chien qui ne se laisse pas approcher.
De vieilles personnes marchent lentement.
Avec de vieux vêtements aux couleurs usées.
Les trottoirs sont étroits.
Peut-être ces rues ne mènent-elles nulle part.
De vieilles personnes qui rentrent chez elles.
Vient une heure où les perspectives raccourcies se font désertes.
Heure de cette atroce agonie qu'on appelle le crépuscule.

AS RUAS MUITAS VEZES PERCORRIDAS....

As ruas muitas vezes percorridas durante tantos anos.

Ali as mudanças são lentas.

Ali lenta é a vida.

Algumas fisionomias conhecidas por ali serem encontradas repentinamente

desaparecem.

As vitrines das lojas são renovadas enquanto se assemelham.

Existem magazines cujos donos nunca aparecem.

Magazines antigos.

Outros que incentivam o consumo.

Há um cachorro preto com orelhas quebradas sentado na frente de uma entrada.

Um cachorro velho que não pode ser abordado.

As pessoas velhas caminham devagar.

Com velhas vestimentas que perderam as cores de tão usadas.

As calçadas são estreitas.

Talvez essas ruas não levem a parte alguma.

Pessoas idosas voltando para casa.

Chega uma hora em que as perspectivas racionadas se fazem desertas.

Hora daquela atroz agonia que chamam de crepúsculo.

Saturday, October 16, 2021

Canção sem número de um tempo sem cor

 


São os dias que passaram sem que meus olhos te vissem

Como noites que cegassem os tempos por si já tristes

Que envelhecessem as velhices, que tornaram o novo, antiquado

Como fantasmas que dançam em brumas que só se adensam

São pensamentos inócuos, ideias que já não pensam.

São meus dias sem te ver tempos que não voltam mais,

Horas que nunca vieram e já ficaram para trás.

Como cidades sem portas, de ruas brancas, sem vidas,

Jardins sem cravos, nem rosas, lilases, nem margaridas,

Onde só os ventos gemem, as árvores não mexem não,

Lugar que não tem navios, ares que não tem canção,

Escuridão tão sem luzes que nem as estrelas brilham,

Portos que não tem navios, rotas que não se procuram,

Caminhos que de tão escuros soterram toda esperança

E só não viram saudade porque, se não for verdade,

Ainda creio em teu amor e em superar tanta dor

Escapando do torpor em que nossa vida ainda dança.

Ilustração: http://angelweing.blogspot.com/.

Outra poesia de Juan Arabia

 


Colibríes del tejado

Juan Arabia

Era en la bahuinia y no en esas antiguas

ciudades en las que alguno de los

nuestros moría por su corazón

donde uno debía encontrar los rudimentarios

puentes de su irregular existencia

 

la eternidad

 

o los imposibles lugares inhabitados

de la cordillera, hemisferio

de oscuros antecedentes comerciales

tierra de pobres, lo más alto del cielo,

pellejo del mar y de la uva

rompiendo la orilla de sal

junto a los nuevos y salvajes vientos

en distintas formas de combate y de vida.

BEIJA-FLORES NO TELHADO

Era em Bahuinia e não nessas antigas

cidades em que algum dos

nossos morria por seu coração

onde se deve encontrar as rudimentares

pontes de sua irregular existência

 

a eternidade

 

ou os impossíveis lugares desabitados

da cordilheira, hemisfério

de escuros antecedentes comerciais  

terra dos pobres, a mais alta do céu,

pele do mar e da uva

rompendo a costa de sal

junto dos novos e selvagens ventos

em distintas formas de combate e de vida.

Ilustração: https://amemdesejoamem.blogspot.com/.

Thursday, October 14, 2021

Um poeminha de Francisco Álvarez

 



177

Francisco Álvarez

Lejos estás de mí, pero tan dentro

te llevo que jamás podré perderte.

Y tan presente estás en mí que encuentro

imposible mirar algo sin verte.


177

Longe estás de mim, mas tão dentro

te levo que nunca poderei perder-te.

E tão presente estás em mim que considero

como impossível olhar algo sem ver-te.

Ilustração: Youtube. 

Friday, October 08, 2021

María Codes de volta


HERRAMIENTA DE MADOZ

María Codes

Ponga un cuchillo en su vida
con regla selectiva para cortar prejuicios
para cortar por lo enfermo, al milímetro
un agujero en la nada.

Aquel del surtido futurista
que no brillaba por el borde,
el que melló los colores célibes
hasta convertirlos en perfil de llaves.

Cortar lo que sobra de todo un hombre
los fundamentos del comercio internacional
las encuadernaciones y las miniaturas
de la fiesta que va por dentro.

Rogamos lea las instrucciones
no se equivoque al empuñarlo
y, sobre todo, no se lo ponga al cuello
puede morder.

FERRAMENTA DE MADOZ

 

Ponha uma faca na sua vida

Com a regra seletiva para cortar preconceitos

para cortar o doente, ao milímetro

um buraco no nada.

 

Aquele com o sortimento futurista

que não brilhava na borda,

o que esmagou as cores celibatárias

até se converterem em perfil de chaves.

Cortar o que sobra de todo um homem

os fundamentos do comércio internacional

as encadernações e miniaturas

da festa que vai por dentro.

 

Rogamos ler as instruções

não se equivoque ao empunhá-la

e sobretudo, não ponha no pescoço

que pode morder.

Thursday, October 07, 2021

Outra vez Rosalía de Castro

  


¡Oh, no quiero ceñirme a las reglas del arte!...

  Rosalía de Castro

¡Oh, no quiero ceñirme a las reglas del arte! Mis pensamientos son vagabundos, mi imaginación errante, y mi alma sólo se satisface de impresiones.

Jamás ha dominado en mi alma la esperanza de la gloria, ni he soñado nunca con laureles que oprimiesen mi frente. Sólo cantos de independencia y libertad han balbucido mis labios, aunque alrededor hubiese sentido, desde la cuna ya, el ruido de las cadenas que debían aprisionarme para siempre, porque el patrimonio de la mujer son los grillos de la esclavitud.

Yo, sin embargo, soy libre, libre como los pájaros, como las brisas; como los árabes en el desierto y el pirata en el mar.

Libre es mi corazón, libre mi alma, y libre mi pensamiento, que se alza hasta el cielo y desciende hasta la tierra, soberbio como Luzbel y dulce como una esperanza.

Cuando los señores de la tierra me amenazan con una mirada, o quieren marcar mi frente con una mancha de oprobio, yo me río como ellos se ríen y hago, en apariencia, mi iniquidad más grande que su iniquidad. En el fondo, no obstante, mi corazón es bueno; pero no acato los mandatos de mis iguales y creo que su hechura es igual a mi hechura, y que su carne es igual a mi carne.

Oh, eu não quero restringir-me às regras da arte! ...

Oh, eu não quero restringir-me às regras da arte! Meus pensamentos são vagabundos, minha imaginação errante e minha alma só se satisfaz de impressões.

Jamais dominei em minha alma a esperança da glória, tampouco jamais sonhei com lauréis que oprimissem a minha fronte. Só os cantos de independência e liberdade têm balbuciado meus lábios, ainda que em redor houvesse sentido, desde o berço, o ruído das cadeias que deviam me aprisionar para sempre, porque o patrimônio da mulher são os grilhões da escravidão.

Eu, sem embargo, estou livre, livre como os pássaros, como as brisas; como os árabes no deserto e o pirata no mar.

Livre é meu coração, livre minha alma e livre o meu pensamento, que se alça para o céu e desce para a terra, soberbo como Lúcifer e doce como uma esperança.

Quando os senhores da terra me ameaçam com um olhar, ou querem marcar minha testa com uma mancha de vergonha, eu me rio e ri como eles riem e faço, em aparência, uma iniquidade maior do que a que eles fazem. No fundo, não obstante, meu coração é bom; porém, não acato o mandato dos meus iguais e creio que seu acabamento é igual ao meu acabamento, e que a sua carne é igual a minha carne.

Ilustração: Agenda BH.

ACALANTO

 


Me canso de cantar esta cantiga,

tão antiga,

que fala de carneirinhos,

de estrelas, margaridas,

que me pedes para poder dormir. 

Incomodado 

em vão 

peço para cantar outra canção, 

mas, você diz que não, 

que somente esta te faz dormir. 

E canto, canto

até a garganta ficar seca, 

até que enjoo de cantar

e, quando paro, ainda escuto 

um surpreso: já!

Ilustração: youtube. 

Tuesday, October 05, 2021

O Principiante

 


Sei que me dizes que as palavras têm poderes,
Mas, me parecem que elas são como as crianças
Que se apegam a determinados quereres
E têm seus ciclos, suas próprias danças...

Tanto que, às vezes, as palavras que me assaltam
Como se fossem partes de mim mesmo
Quando mais desejo elas mais me faltam
E me perco sem sentido, amor, a ti falar a esmo.

E não me fale que te minto. Oh! Não me fale!
Que das palavras sou um exímio domador.
É verdade que o tempo no ofício vale,
Mas, sou principiante em falar de amor!

Ilustração: http://obviousmag.org/.

Monday, October 04, 2021

ANJO IRRECONHECIDO


Em dias assim tão frios e nebulosos

Sou um santo

Embebido em vinho e pão

Só penso na carne

Em gozos, gemidos, prazer...

Coisas que ardem.

Contra os que não vêem

Minhas asas ou meu halo

Só posso dizer que me sinto leve

E, com álcool, vôo..

(Até me sinto perto de Deus)

Pena que a vida seja breve,

Breve, tão breve....

E haja tanta distância do corpo teu...

Ilustração: http://pontodepensamentos.blogspot.com/.

 



Robert Frost, pois

 


THE PASTURE

 Robert Frost

I'm going out to clean the pasture spring;

I'll only stop to rake the leaves away

(And wait to watch the water clear, I may):

I shan't be gone long. -- You come too.

I'm going out to fetch the little calf

That's standing by the mother. It's so young,

It totters when she licks it with her tongue.

I shan't be gone long. -- You come too.

 

O PASTO

Vou sair para limpar o pasto da primavera;

Eu só vou parar para varrer as folhas

(E esperar para ver a água limpa, eu posso):

Eu não vou demorar muito. - Você vem também.

Eu estou indo buscar o bezerrinho

Que está ao lado da mãe. É tão jovem,

Ele vacila quando ela o lambe com a língua.

Eu não vou demorar muito. - Você vem também.

Ilustração: Pixabay.

Sunday, October 03, 2021

O CARNAVAL, Ó CARNAVAL

 



Sim. Eu deveria estar no Rio de Janeiro.
Sim. Loucamente me preparando para desfilar na Vila Isabel.
E, certamente, estaria ébrio e cantando, dançando, rindo de todas as coisas
Como qualquer outro carnavalesco bobo.
Nada é como se planeja
E, agora, veja
Por causa de um mosquito, uma malária, vou ver tudo pela televisão.
Soy Loco por Ti, América,
Não passou de uma ilusão.

O carnaval serve para ver as coisas claramente.
As vidas emprestadas, as máscaras, as vozes, os sons, o estar ou não estar,
Em toda parte, serve para mostrar que a vida é uma arte
Nada fácil.
As fantasias, as baterias que arrepiam
São como os corpos e as almas que se extraviam
Apenas uma metáfora da vida.
No fim a quarta-feira, o desengano, querida.

As coisas de antes se recolocarão depois.
Sabe aquele amor de nós dois foi ilusão.
E até hoje sinto a falta de seu corpo, de suas mãos,
De seu olhar e do carinho que não há mais.
E bem que me alertava que nós íamos morrer
E que não dava pra comprar o prazer, a alegria,
O gozo, a vontade de amar que, agora, dorme em paz.
Como o carnaval que perdi o amor se foi.

E agora me dou conta de que de nada valem
Os carros alegóricos, as vistosas fantasias, as palmas da multidão.
Nada vale estar nas vitrines brilhantes
Quando logo mais, em instantes, estará desfeito o mundo de ilusão.
Mesmo sob os gritos de “é campeão”, em meio as cores, aos adereços, à música e à comemoração

Não poderemos afastar o pensamento da morte e da solidão
E que, na quarta-feira, desarmados e infelizes,
A vida volta ao normal
E como recordação as fotos de mais um carnaval.
E, como são todos iguais, e completamente diferentes,
Não me sinto mais tão revoltado intimamente
E, mesmo sem beber,
Visto o abadá do Bloco da Mucura
Pensando que a vida é bela, ó criatura.

(Porto Velho, fevereiro de 2005)

Ilustração: Mixcloud. 

Mais uma poesia de Lluís Llach

 



       ABRIL 74

 Lluís Llach

Companys, si sabeu on dorm la lluna blanca,

digueu-li que la vull

però no puc anar a estimar-la,

que encara hi ha combat.

 

Companys, si coneixeu el cau de la sirena,

allà enmig de la mar,

jo l'aniria a veure,

però encara hi ha combat.

 

I si un trist atzar m'atura i caic a terra,

porteu tots els meus cants

i un ram de flors vermelles

a qui tant he estimat,

si guanyem el combat.

 

Companys, si enyoreu les primaveres lliures,

amb vosaltres vull anar,

que per poder-les viure

jo me n'he fet soldat.

 

I si un trist atzar m'atura i caic a terra,

porteu tots els meus cants

i un ram de flors vermelles

a qui tant he estimat,

quan guanyem el combat.

 

ABRIL 74

 

Companheiros, se sabem onde dorme a lua branca,

Diga-lhe que a quero

porém que não posso acercar-me da amada

porque ainda há combate.

 

Companheiros, se conhecem o canto da sereia,

ali no meio do mar,

eu me proporia a buscá-la,

porém ainda há combate.

 

E se um triste azar me detém e caio no chão,

levem todas as minhas músicas

e um buquê de flores vermelhas

a quem tanto tenho amado.

Se vencermos o combate.

 

Companheiros, se buscam as primaveras livres,

com vocês desejo ir,

que foi para poder vivê-las

que me tornei soldado.

 

E se um triste azar me deter e cair no chão,

leva todas as minhas músicas

e um buquê de flores vermelhas

a quem tanto tenho amado.

Se vencermos o combate.

Ilustração: Blue Bus.

 

Uma poesia de Juan Arabia

 


DESALOJO DE LA NATURALEZA

Juan Arabia

Bajemos juntos a sentir el desalojo.
Escuchar el viento que se mueve
por encima del trigo:
la aguda guerra de metal.

Un estruendo de plata
corroe lo vivo,
separa a cada una de las cosas
que existen en el mundo.

Caen ahora los primeras gotas.
La fiera tormenta confederada
se afianza para siempre
dentro de los muros de las ciudades.

DESPEJO DA NATUREZA

Desçamos juntos para sentir o despejo.

Escuta o vento que se move

Por cima do trigo:

a aguda guerra de metal.

 

Um estrondo de prata

corrói o que eu vivo,

separa cada uma das coisas

que existem no mundo.

 

Caem gora as primeiras gotas.

A violenta tempestade confederada

toma conta para sempre

dentro dos muros das cidades.

Ilustração: https://www.freeimages.com/.

Saturday, October 02, 2021

Uma poesia de María Codes

 


AGRADECIMIENTO

María Codes

Por el lamentable estado del cuello
sangriento se deduce
que ayer hubo festín de buitres.
Una víctima cándida de torpe lengua
sin duda alguna
por no imaginar su despiece
y desamparo.
Ignoraba la mala entraña
el icónico riesgo del deambular
en lo tocante a los campos de reyerta
y la noble labor de guillotina necrófaga.

Suturar la cabeza desmembrada
los flecos del escote
no dar el brazo a torcer
y declarar
con la boca llena de hormigas
que tiernos órganos vigilantes
de mamífero hembra
ofrendarán el cadáver
al voraz apetito público
que muestran los carniceros de mujeres
en mitad de una mano.

No es nimia la tortura
de reconstruirse, trozo a trozo
de acomodar el cigarrillo en la boca
y echar a andar errante en páramos
sin remedio ni pomada
como convicto fantasma holandés
a la busca estéril del resto propio
de la perpetua sombra intolerable.

AGRADECIMENTO

Pelo lamentável estado do pescoço

sangrento se deduz

que ontem houve uma festa dos abutres.

Uma vítima cândida com uma língua torpe

sem dúvida alguma

por não imaginar seu colapso

e desamparo.

Ignorava as entranhas ruins

o risco icônico de vagar

em relação aos campos de briga

e o nobre trabalho da guilhotina necrófaga.

 

Suturando a cabeça desmembrada

as franjas do decote

não dar o braço a torcer

e declarar

com a boca cheia de formigas

que delicados órgãos vigilantes

do mamífero feminino

ofertarão o cadáver

ao voraz apetite público

que mostram os açougueiros das mulheres

em metade de uma mão.

 

A tortura não é trivial

de se reconstruir, peça por peça

para acomodar o cigarro na boca

e ficar vagar errante nos pântanos

sem remédio ou pomada

como convicto fantasma holandês

na busca estéril do próprio descanso

da perpétua sombra intolerável.

Ilustração: O mundo das mensagens.

Friday, October 01, 2021

Em outubro Robert Frost

 


OCTOBER  

Robert Frost

O hushed October morning mild,
Thy leaves have ripened to the fall;
Tomorrow's wind, if it be wild,
Should waste them all.
The crows above the forest call;
Tomorrow they may form and go.
O hushed October morning mild,
Begin the hours of this day slow.
Make the day seem to us less brief.
Hearts not averse to being beguiled,
Beguile us in the way you know.
Release one leaf at break of day;
At noon release another leaf;
One from our trees, one far away.
Retard the sun with gentle mist;
Enchant the land with amethyst.
Slow, slow!
For the grapes' sake, if the were all,
Whose elaves already are burnt with frost,
Whose clustered fruit must else be lost--
For the grapes' sake along the all.

 

OUTUBRO

Ó silenciosa e suave  manhã de outubro,

Tuas folhas amadureceram para cair;

O vento de amanhã, se for selvagem,

Irá dispersar todas elas.

Os corvos acima da floresta chamam;

Amanhã irão se formar e partir.

Ó silenciosa e suave manhã de outubro,

Começa as horas deste dia lentamente.

Faça com que o dia nos pareça menos rápido.

Corações não avessos a serem enganados,

Nos engane do modo que você sabe.

Solte uma folha ao raiar do dia;

Ao meio-dia solte outra folha;

Uma de nossas árvores, outra longe.

Retarde o sol com uma gentil névoa;

Encante a terra com ametista.

Devagar, devagar!

Por causa das uvas, se fossem todas,

Cujas folhas já queimadas com gelo,

Cujas frutas agrupadas também devem ser perdidas -

Para o bem das uvas no interesse de todos.  

Ilustração: https://rosemarywashington.wordpress.com/.

ODE AO VINHO

 


Há um dia em que se calarão os desejos.

Hoje não.

Hoje preciso, necessito, urgente,

De teus beijos, de teu corpo,

De sentir de novo a sensação

De que o amor não é uma ilusão.

 

E sôfrego conseguir chegar a algo,

Deixar crescer à flor da pele

O desejo guardado

Que vem assim louco, desesperado,

Em paixão aflorar

E satisfeito e calmo estar.

 

Sei que fui,

Que vou além do que devia,

Mas o amor, o amor é uma agonia,

Desembrulhando as emoções inesperadas

Que são espalhadas em suor, lençóis

E deixam marcas eternas em nós.

 

Pode não ter sentido

Sentir meu peito batendo assim

E tentar conservar na memória

O gosto de uma noite apenas.

O cálice da vida, no entanto,

Muitas vezes, não tem mais do que se abastecer.

Vem, amor, meu vinho é você

E preciso me embriagar. 

Ilustração: Mercado Livre. 

Uma poesia de Salvador Espriu

 


 LLUVIA

Salvador Espriu

De ninguna parte llega. ¿Partir?
No existe la mágica palabra que rompa
esta costumbre del ojo, este silencio
sonoro de dardos. La primavera, el lujo
de los años y de la luz, se perdía ahora
en el camino vencido. Las esperanzas
han muerto a tiempo. De nuevo, todo es perfecto
a lo largo del vacío: la lenta lluvia
no va a parte alguna.

A CHUVA

De nenhuma parte chega. Partir?

Não existe a mágica palavra que rompa

Este costume do olho, este silêncio

Sonoro de dardos. A primavera, o luxo

de anos e de luz, se perdia agora,

no caminho vencido. As esperanças

mataram o tempo. De novo, tudo é perfeito

ao longo do vazio: a lenta chuva

não vai a parte alguma.

Ilustração: https://pt.dreamstime.com/.