Monday, December 10, 2018

E, de volta, Leopoldo María Panero


DEDICATORIA  
   
Leopoldo María Panero

Más allá de donde
aún se esconde la vida, queda
un reino, queda cultivar
como un rey su agonía,
hacer florecer como un reino
la sucia flor de la agonía:
yo que todo lo prostituí, aún puedo
prostituir mi muerte y hacer
de mi cadáver el último poema.

DEDICATÓRIA

Mais além de onde
se esconde a vida, permanece
um reino, permanece a cultivar
como um rei sua agonia
fazer florescer como um reino
a flor suja da agonia:
eu que a tudo prostitui, ainda posso
prostituir a minha morte e fazer
do meu cadáver o último poema.

Ilustração: Infonormas.

Friday, December 07, 2018

Uma poesia de Rose Ausländer


INSIEME                      

Rose Ausländer

Non dimenticate
amici
noi viaggiamo insieme

Scaliamo montagne
cogliamo lamponi
ci lasciamo trasportare
dai quattro venti

Non dimenticate
è il nostro
mondo in comune
quello indiviso
ahi quello diviso

Che ci fa fiorire
che ci annienta
questa dilaniata
terra indivisa
sulla quale noi
viaggiamo insieme

(Traduzione di Anna Maria Curci)

JUNTOS

Não se esqueça
amigos
nós viajamos juntos

Escalamos montanhas
pegamos framboesas
nos deixamos transportar
aos quatro ventos

Não se esqueça
é nosso
o mundo em comum
o indivisível
ainda que dividido

O que nos faz florescer
que nos aniquila
que está rasgado
terra indivisível
sobre a qual nós
viajamos juntos


Ilustração: pontesvieira.com.br. 


Outra poesia de José Ángel Valente


                               
Esta imagen de ti          

José Ángel Valente

Estabas a mi lado
y más próxima a mí que mis sentidos.

Hablabas desde dentro del amor,
armada de su luz.
Nunca palabras
de amor más puras respirara.

Estaba tu cabeza suavemente
inclinada hacia mí.
Tu largo pelo
y tu alegre cintura.
Hablabas desde el centro del amor,
armada de su luz,
en una tarde gris de cualquier día.

Memoria de tu voz y de tu cuerpo
mi juventud y mis palabras sean
y esta imagen de ti me sobreviva.

Esta imagem de ti

Estavas ao meu lado
E mais próxima de mim que meus sentidos.

Falavas de dentro do amor
armada de sua luz.
Nunca palavras
de amor mais puro respirara.

Estava tua cabeça suavemente
Inclinada para mim.
Teu cabelo longo
e tua cintura alegre.
Falavas do centro do amor
armada de sua luz
numa tarde cinza de qualquer dia.

Memória de tua voz e de teu corpo
minha juventude e minhas palavras são
e esta imagem de ti me sobrevive.


Ilustração; Notícias ao minuto.

Thursday, December 06, 2018

E, com vocês, Paul Éluard



Faire vivre                                                                                         

Paul  Éluard

Ils étaient quelques-uns qui vivaient dans la nuit
En rêvant du ciel caressant
Ils étaient quelques-uns qui aimaient la forêt
Et qui croyaient au bois brûlant
L’odeur des fleurs les ravissait même de loin
La nudité de leurs désirs les recouvrait

Ils joignaient dans leur coeur le souffle mesuré
À ce rien d’ambition de la vie naturelle
Qui grandit dans l’été comme un été plus fort

Ils joignaient dans leur coeur l’espoir du temps qui vient
Et qui salue même de loin un autre temps
À des amours plus obstinées que le désert

Un tout petit peu de sommeil
Les rendait au soleil futur
Ils duraient ils savaient que vivre perpétue

Et leurs besoins obscurs engendraient la clarté.


FAZER VIVER

Eram somente alguns que viviam na noite
Sonhando com o céu carinhoso
Eram somente alguns que amavam a floresta
E que acreditavam na madeira queimada
O aroma das flores os encantou de longe
A nudez de seus desejos os recobriu.

Reuniram no coração a respiração medida
Com esta nada de ambição nada da vida natural
Que cresce no verão como um verão mais forte

Reuniram em seus corações a esperança do tempo vindouro
E que saúdam mesmo de longe outro tempo
Para amores mais obstinados que o deserto

Um pouco de sono
Lhes entregava o sol futuro
Resistiam por saber que a vida se perpetua

E suas necessidades obscuras engendravam a clareza.

Ilustração: Mega Curioso.

Wednesday, December 05, 2018

Uma poesia de José Ángel Valente


Hoy andaba debajo de mí mismo...                     
José Ángel Valente

Hoy andaba debajo de mí mismo
sin saber lo que hacía.

Hoy andaba debajo de la pena
con risa inexplicable.

Hoy andaba debajo de la risa
con todo el llanto a cuestas.

Hoy andaba debajo de las aguas
sin que fuese milagro comparable.

Hoy andaba debajo de la muerte
y no reconocía sus cimientos.

Andaba a la deriva por debajo del cuerpo
confundiendo los dedos con los ojos.

Hoy andaba debajo de mí mismo
sin poder contenerme.

"Breve son"1968

Hoje andava debaixo de mim mesmo ...

Hoje andava debaixo de mim mesmo
sem saber o que fazia.

Hoje andava debaixo de uma pena
Com um riso inexplicável.

Hoje andava debaixo de um riso
com todo o pranto em suas costas.

Hoje andava debaixo das águas
sem que fosse um milagre comparável.

Hoje andava debaixo da morte
e não reconhecia suas fundações.

Andava à deriva debaixo do corpo
confundindo os dedos com os olhos.

Hoje andava embaixo de mim mesmo
incapaz de me conter.

Ilustração: Global News Portugal.

A CURA



O mundo é o seu playground,                                              
mas, você cansou de brincar
e não sente mais a emoção
nem o desejo de beber
um vinho em Paris
ou ver as pedras de
Machu Picchu?
O que há de anormal?
Se tudo, enfim,
parece igual.
Nem televisão,
nem futebol,
nem Netflix,
nem qualquer mídia social
ou a cerveja, com os amigos,
mais apetece.
Até tenta uma prece,
porém, nem mesmo
a fé mais tem?
Se cansou do normal
e do extraordinário?
Vai se deprimir?
Se tratar com o psicanalista?
Não seja otário!
O seu caso é simples
de diagnosticar:
pega logo a vizinha
que você não pára de espiar!

Ilustração: Repositório Institucional da Universidade Tecnológica Federal do Paraná.

A poesia de Donatella Bisutti



La cascata

Donatella Bisutti

Quello che persuade nella cascata è il coraggio con cui affronta il vuoto.
Così è generata la bellezza:
nell’assoluta indifferenza dell’economia di sé.
Come tutto ciò che è pronto a perdersi, incute timore.

Al di là dei suoi velari
intravvediamo non più la misura del Tempo ma la sua sostanza.

A CACHOEIRA

O que convence a cachoeira é a coragem com que afronta o vazio.
Assim, é gerada a beleza:
na absoluta indiferença da economia de si.
Como tudo que está pronto para se perder, incute medo.

Além de seus véus
não vemos mais a medida do Tempo, mas, a sua substância.

Ilustração: Conquistar Cascatas por Marco Rodrigues.

Tuesday, December 04, 2018

E, com vocês, a poesia de Antonio Machado


Preludio                        

Antonio Machado

Mientras la sombra pasa de un santo amor, hoy quiero
poner un dulce salmo sobre mi viejo atril.
Acordaré las notas del òrgano severo
al suspirar fragante del pífano de abril.

Madurarán su aroma las pomas otoñales;
la mirra y el incienso salmodiarán su olor;
exhalarán su fresco perfume los rosales,
bajo la paz en sombra del tibio huerto en flor.

Al grave acorde lento de música y aroma,
la sola y vieja y noble razòn de mi rezar
levantará su vuelo süave de paloma,
y la palabra blanca se elevará al altar.

PRELUDIO

Enquanto passa a sombra de um santo amor, hoje quero
pôr um doce salmo na minha velha escrivaninha.
Acordarei as notas do órgão severo,
o suspirar perfumado que da festa de abril vinha.

Amadurecerá o aroma do bagaço de outono;
a mirra e o incenso salmodiarão o seu odor;
exalarão as rosas o seu perfume ameno,
sob a paz em sombra do frágil pomar em flor.

Ao grave acorde lento de música e aroma,
a só e velha e nobre razão do meu rezar
levantará o seu vôo de pomba calma,
e a palavra branca elevará ao altar.



NO RITMO



Ah! Como é bonita a harmonia/ como a vida fica bela/ quando reina a paz/ até que enfim vejo alegria/ até mesmo na minha bela/ cujo sorriso já não via mais./ Na verdade, agora, apenas falta/ muito, muito pouco mesmo/ para o prazer estar em alta/ só mais um pouco de feijão e torresmo/ umas pingas, uns abraços, risos a esmo. / Adoro este clima de compreensão/ e meço o bom caráter do sujeito/ pelo desprendimento em abrir a mão/ o sorriso, o coração e o peito./ Seriedade, meu bom rapaz, é de lei/ assim como ter diálogo/ as tabuas de Moises pelo que sei/ continuam a ser o maior decálogo./ E não quero mais do que me é devido/ não sendo primeiro violino nem maestro/ mas, conhecendo a boa música de ouvido/ distingo entre os clássicos e o resto./ Há, reconheço, os que sabem improvisar/ e na flauta ou num oboé a vida move/ mas, é menor prazer bater do que o cantar/ e quando me pagam o som é puro love/ seja quem for que venha me pagar./ Só não aceito propostas desonestas/ como as de com fome o baile animar/ se todos comem muito nessas festas/ e nós nunca paramos de tocar/  sem sair da partitura e sem desafinar/ e não há banda melhor neste lugar.

Ilustração: El Horizonte.

Outra poesia de Carlos Edmundo de Ory



LOS AMANTES

Carlos Edmundo de Ory

Como estatuas de lluvia con los nervios azules
secretos en sus leyes de llaves que abren túneles
sucios de fuego y de cansancio reyes
han guardado sus gritos ya no más

Cada uno en el otro engacelados
de noches tiernas en atroz gimnasio
viven actos de baile horizontal
no caminan de noche ya no más

Se rigen de deseo y no se hablan
y no se escriben cartas nada dicen
juntos se alejan y huyen juntos juntos

Ojos y pies dos cuerpos negros llagan
fosforescentes olas animales
se ponen a dormir y ya no más.

Os amantes

Como estátuas de chuva com nervos azuis
secretos em suas leis de chaves que abrem túneis
sujos de fogo e fadiga reis
hão guardados seus gritos já não mais

Cada um no outro enganados
de noites ternas no atroz ginásio
vivem atos de baile horizontal
não caminham de noite já não mais

Se regem pelo desejo e não se falam
e não escrevem cartas nada dizem
juntos eles se alheiam e fogem juntos

Olhos e pés dois corpos negros doloridos
Fosforescentes ondas animais
vão dormir e já não mais.


Ilustração: Direito Legal



Monday, December 03, 2018

Uma poesia de R. S. Thomas


The Dance                          
 R. S. Thomas

She is young. Have I the right
Even to name her? Child,
It is not love I offer
Your quick limbs, your eyes;
Only the barren homage
Of an old man whom time
Crucifies. Take my hand
A moment in the dance,
Ignoring its sly pressure,
The dry rut of age,
And lead me under the boughs
Of innocence. Let me smell
My youth again in your hair.

A DANÇA 

Ela é jovem. Tenho eu o direito
mesmo de nomeá-la? Criança,
não é o amor que ofereço.
Seus membros rápidos, seus olhos;
somente a homenagem estéril
de um velho homem a quem o tempo
crucifica. Toma minha mão
num momento na dança
ignorando sua pressão maliciosa,
a rotina seca da idade
e me conduz sob os galhos
da inocência. Deixa-me sentir
minha juventude de novo em seus cabelos.


Friday, November 30, 2018

Outra poesia de Francisco Villaespesa


El poema de la carne    
Francisco Villaespesa

Cuando me dices: Soy tuya,
tu voz es miel y es aroma,
es igual que una paloma
torcaz que a su macho arrulla.

Sobre mi mano dormida
de tu nuca siento el peso,
mientras te sorbo en un beso
todo el fuego de la vida.

Cuando ciega y suspirante
tu cuerpo recorre una
convulsión agonizante,

adquiere tu faz inerte
bajo el blancor de la luna
la palidez de la Muerte.

O POEMA DA CARNE

Quando me dizes: sou tua,
tua voz é mel e és aroma
és igual a uma pomba
torquaz que a seu macho arrulha.

Sobre minha mão dormindo
de tua nuca sinto o peso
enquanto te sorvo com um beijo
todo o fogo da vida.

Quando cega e suspirante
teu corpo flutua
em convulsão agonizante,

Adquire o teu rosto inerte
sob a brancura da lua
a palidez da morte.