Tuesday, June 03, 2025

Outra poesia de Louis Zukofsky

 


A CHALLENGE FOR ALL

Louis Zukofsky

Come shadow, come, and take this shadow up,

Come shadow shadow, come and take this up,

Come, shadow, come, and take this shadow up,

Come, come shadow, and take this shadow up,

Come, come and shadow, take this shadow up,

Come, up, come shadow and take this shadow,

And up, come, take shadow, come this shadow,

And up, come, come shadow, take this shadow,

And come shadow, come up, take this shadow,

Come up, come shadow this, and take shadow,

Up, shadow this, come and take shadow, come

Shadow this, take and come up shadow, come

Take and come, shadow, come up, shadow this,

Up, come and take shadow, come this shadow,

Come up, take shadow, and come this shadow,

Come and take shadow, come up this shadow,

Shadow, shadow come, come and take this up,

Come, shadow, take, and come this shadow, up,

Come shadow, come, and take this shadow up,

Come, shadow, come, and take this shadow up.

UM DESAFIO PARA TODOS

Vem, sombra, vem, e pega essa sombra,

Vem, sombra, sombra, vem e pega isto,

Vem, sombra, vem e pega essa sombra,

Vem, vem, sombra, e pega essa sombra,

Vem, vem e sombra, pega essa sombra,

Vem, sobe, vem sombra e pega essa sombra,

E sobe, vem, pega essa sombra, vem essa sombra,

E sobe, vem, vem sombra, pega essa sombra,

E vem, sombra, sobe, pega essa sombra,

Vem, vem sombra, e pega essa sombra,

Sobe, vem sombra, vem e pega essa sombra,

Sobe, vem sombra, vem e pega essa sombra, vem

Sombra, pega e sobe sombra, vem

Tome e venha, sombra, sobe, sombra,

Sobe, venha e pegue essa sombra, venha essa sombra,

Vem, sobe, pega essa sombra, e vem essa sombra,

Sombra, sombra vem, vem e pega isso,

Vem, sombra, pega e vem essa sombra, sobe,

Vem, sombra, vem e pega essa sombra sobe,

Venha, sombra, venha, e leve essa sombra sobe.

Ilustração: Escola Pandora.

Monday, June 02, 2025

Lavra da Palavra


 


Palavra

tesouro perdido

sem mapa,

mas, com sentido,

consentido,

consenso.

 

Palavra:

só surpresa,

o som,

o silêncio, as pausas.

É a palavra que salva

por uma sonata, serenata,

sopro

ou o engolir rouco, ruidoso da saliva.

 

Os sons são soberanos:

Notas, solos, salmos e cantos.

E dentro dela os encantos

da palavra que tudo vira.

A palavra é lira,

ronco, riso, rosa,

Rede, poema, prosa.

 

Só a palavra é som,

Humano.

Som

que cai dando calor a tudo,

palavra sol,

amor, meu sol,

sol meu,

só meu.

 

Sem você

não há palavra

nem eu.

Ilustração: Youtube.

De volta Homero Pumato

 


COMPOSICIÓN 14

Homero Pumato

Cuando fumo en la ventana
la noche lo ocupa todo,
incluso el humo del cigarro,
incluso todo lo lejano,
y en todo el barrio de la clase media
no se escucha nada,
ni una sola luz hay encendida
y las casas que duermen en la calle
parecen cafeteras al final de una barra.

COMPOSIÇÃO 14

Quando fumo na janela

a noite o ocupa todos,

inclusive a fumaça do cigarro,

inclusive toda a distância,

em todo o bairro de classe média

não se escuta nada,

nem uma luz só acesa

e as casas que dormem na rua

parecem cafeteiras no final de um bar.

Ilustração: Instagram.

Sunday, June 01, 2025

Uma Balada para Yoko Ono

 


BALADA PARA YOKO ONO

Nada é tão bonito

Quanto o olhar

Da mulher que se ama.

Ballad for Yoko Ono

Nothing is as beautiful

as the look

of the woman you love.

(De “Jardim Dizpersivo”, Editora Per Se, 2013)

 

O MESMO



O mesmo não é o mesmo. 

Como o mesmo pode ser outro?

Se é outro não é o mesmo.

O mesmo, porém, muitas vezes 

não é o mesmo. 

O mesmo é uma coisa estranha.

Que coisa estranha é o mesmo!

Mesmo sendo outra coisa 

não deixa de ser o mesmo.

O mesmo só me perturba 

só mesmo por ser o mesmo. 


 

Outra poesia de Daisy Zamora

 


DÉJÀ VU IMPRESIONISTA

Daisy Zamora

En el jardín, la joven madre abraza a su pequeña

Es bella la escena, como una pintura impresionista:

Luz de la mañana, cielo despejado.  Bajo el sol
plantas esmeralda     jade     malaquita

y las intensas manchas de colores
de las flores

De cerca, se nota que la madre está llorando
y la pequeña no sabe qué hacer

pues no entiende
que el padre ha echado a la madre de la casa

Sólo está asustada, y consuela a la madre
con sus medias palabras

llorando ella también, sin saber por qué.

DÉJÀ VU IMPRESSIONISTA

No jardim, a jovem mãe abraça a sua pequena

É bela a cena, como uma pintura impressionista:

Luz da manhã, sol claro. Sob o sol

Plantas esmeralda jade malaquita

e as intensas manchas de cores

das flores

 

De perto, se nota, que a mãe está chorando

e a pequena não sabe o que fazer

 

pois não entende

que o pai retirou a mãe da casa

 

Só está assustada e consola a mãe

com suas meias palavras

 

Chorando ela também, sem saber por quê.

Ilustração: Pintura de Giulia Frozza.

Uma poesia de Louis Zukofsky

 


BY THE GREEN WATERS

Louis Zukofsky

          By the green waters oil
          The air circles the wild flower; the men
          Skirt along the skyscraper street and carry weights
          Heavier than themselves;
          By the rotted piers where sunk slime feeds
                                            the lily-pads,

          Not earth's end.
          The machines shattering invisibles
          And which wrecked the still life
          Precede the singling out; the setting up of things
          Uphold the wrist's force; and
          The blood in the ear
          Direction of the vertical
            rigidly bound to the head, the
            accelerated motion
            of rotation of the head
          Under the head's hair.
          SOCONY will not always sign off on this air.

PELAS ÁGUAS VERDES

Pelo óleo das águas verdes

O ar circunda a flor selvagem; os homens

Passeiam ao longo da rua dos arranha-céus e carregam pesos

Mais pesados ​​que eles;

Pelos pilares apodrecidos onde o lodo afundado alimenta

as flores de lótus,

 

Não o fim da Terra.

As máquinas despedaçando os invisíveis

E que destruíram a natureza-morta

Precedem a seleção; a montagem das coisas

Sustentam a força do pulso; e

O sangue no ouvido

Direção da vertical

rigidamente presa à cabeça, o

movimento acelerado

de rotação da cabeça

Sob o cabelo da cabeça.

A SOCONE (*) nem sempre aprovará este ar.

Ilustração: Revista Amazônia.

(*) Nome com que a Standart Oil, depois Mobil era conhecida popularmente.

Saturday, May 31, 2025

Outra poesia de Homero Pumato

 


WORDS

Homero Pumato

Cuando ellos leen mis poemas
Siento pedacitos de hielo en la sien,
Como cuando uno bebe frío-frío rápido.
Cuando ellos leen mis poemas
Las palabras me paralizan,
Como cuando quieres algo
Y dices lo primero que piensas:
Cenicero al encendedor,
Fósforos a los cigarrillos,
Como si pidieras un café o un Vodka
Y te trajeran un ataúd o una linterna.
Al final aceptas lo que sea,
-Algo obtuviste a cambio
Y no eres tan imbécil de rechazarlo-
Un grupo de palabras que alguien repite
Y que ya no significan nada para ti.

PALAVRAS

Quando eles leem meus poemas

Sinto pedaços de gelo na testa

Como um bebê gelado, gelado rápido.

Quando eles leem meus poemas

As palavras me paralisam,

Como quando queres algo

E dizes a primeira coisa que pensas:

Cinzeiro ao acendedor,

Fósforos aos cigarros,

Como se pedisses um café ou uma vodca

E te trouxeram um caixão ou uma lanterna.

No final aceitas o que seja

-Algo obtiveste em troca

E não és tão imbecil de rechaçá-lo-

Um grupo de palavras que alguém repete

E que já nada significam para ti.

Ilustração: Toda Matéria.

Friday, May 30, 2025

Mamãe me Avisou


 

Ai!Ai! Mamãe!!! Ai! Mamãe! 

Bem que a senhora me falou

que eu ainda não havia visto nada.

O mundo mãe tá uma enorme salada

misturando auto-casamento,

com bebê Reborn e drag queen.

Tá sim! Tá sim!

A coisa tá difícil para mim.

Ai!Ai! Mamãe!!! Ai! Mamãe! 

Umas pessoas dizem ser furry fandom

andando de quatro e latindo como um cão

tá impossível ser um homem são.

Só vejo nerds, geeks, avatares

e góticos escondidos pelos cantos

e um bocado de bandido fazendo pose de santo.

Tá sim! Tá sim!

A coisa tá difícil para mim

Ai!Ai! Mamãe!! Ai!Ai! Mamãe!

Existem agora os vikings modernos

enquanto os homens usam saias,

as mulheres vestem ternos.

Os personagens são as pessoas reais.

A exceção virou ser um ser normal.

Inteligência há somente artificial

no mundo que agora é digital.

Ai!Ai! Mamãe! Ai! Ai! Mamãe!

Com todo respeito

Se eu pudesse voltava a beber leite.

No seu peito

para saber se o mundo ainda tem jeito.

Tá sim! Tá sim!

A coisa tá difícil para mim.

 


Wednesday, May 28, 2025

Uma poesia de Homero Pumato

 


COSTA BRAVA REVISITED

Homero Pumato

Para Eddy Bobea

Tu sombra se hace cada vez más delgada,
la luz de los faroles me cierra los ojos.

Las casas del barrio son pura fachada,
un mundo plano, sin misterio.

Pensar que tú jugabas debajo de esos faroles.
¿No es como que te escupan en la cara?

Cangrejos retroceden por la calle.
El ruido de sus patas contra el pavimento
hace pequeña mi tristeza.

COSTA BRAVA REVISITADA

Tua sombra se faz cada vez mais fina

a luz dos faróis me fecha os olhos.

 

As casas do bairro são pura fachada,

um mundo plano, sem mistérios.

 

Pensar que tu jogavas debaixo desses faróis.

Não é como te cospem na cara?

 

Caranguejos retrocedem pela rua.

O ruído de suas patas contra o pavimento

faz pequena minha tristeza.

Ilustração: Aventuras na História.

 


Tuesday, May 27, 2025

Uma poesia de Mahtem Shiferraw

 


NOMENCLATURES OF INVISIBILITY

Mahtem Shiferraw

My ancestors are made with water-
blue on the sides, and green down the spine;

when we travel, we lose brothers at sea
and do not stop to grieve.

Our mothers burn with a fire
that does not let them be;

they whisper our names
nomenclatures of invisibility
honey-dewed faces, eyes sewn shut,
how to tell them
the sorrow that splits us in half
the longing for a land not our own
the constant moving and shifting of things,
within, without-

which words describe
the clenching in our stomachs
the fear lodged deeply into our bones
churning us from within,

and the loss that follows us everywhere:
behind mountains, past oceans, into
the heads of trees, how to swallow
a tongue that speaks with too many accents-

when white faces sprout
we are told to set ourselves ablaze
and this smell of smoke we know-
water or fire, or both,

because we have drowned many at a time
and left our bodies burning, or swollen, or bleeding
and purple-this kind of language we know,
naming new things into our invisibility
and this, we too, call home.

NOMENCLATURAS DA INVISIBILIDADE

Meus ancestrais são feitos de água-

azul nos lados e verde abaixo da espinha;

 

quando nós viajamos, nós perdemos irmãos no mar

e não paramos para lamentar.

 

Nossas mães queimam com um fogo

que não as deixa em paz;

 

Eles sussurram nossos nomes

nomenclaturas da invisibilidade

rostos orvalhados de mel, olhos costurados,

como contar-lhes

a tristeza que nos parte ao meio

a saudade de uma terra que não é nossa

o constante movimento e mudança das coisas,

dentro, fora-

 

palavras que descrevem

o aperto em nossos estômagos

o medo alojado profundamente em nossos ossos

nos agitando por dentro,

 

e a perda que nos segue por toda parte:

atrás de montanhas, passando por oceanos, para dentro

das copas das árvores, como a engolir

uma língua que fala com sotaques demais-

 

quando rostos brancos brotam

nos dizem para nos incendiarmos

e este cheiro de fumaça nós conhecemos-

água ou fogo, ou ambos,

 

porque afogamos muitos de uma vez

e deixamos nossos corpos queimando, ou inchados, ou sangrando

e roxos- este tipo de linguagem que conhecemos,

nomeando coisas novas em nossa invisibilidade

e isto, nós também, chamamos de lar.

Ilustração: Projeto Alterama.

ANOTAÇÕES SOBRE A ETERNIDADE DO AMOR

 


Morrer de amor não é um caminho,

pois de amor nunca se morre.

Se morre de lembrar que o carinho

a paixão, o desejo e a lembrança

na nossa mente sempre dança

e pede para que o amor eterno seja

o que, infelizmente, nunca é.

Mas, o amor não morre

fica sempre a relembrar o ardor dos beijos

a refluir no eterno desejo

que de nós nunca se afasta.

O amor se distancia, às vezes,

o amor, porém, nunca se gasta

nem termina

como uma vocação, uma sina.

É sempre como os sonhos da menina

que vão mudando

quando deixa de ser pequenina

 e, no máximo, mudam de alvo

até que volte o gosto de amar

e o mundo seja salvo.

Afinal só o amor pode salvar!

Ilustração: 123RF.

Uma poesia de Nicolás Fernández de Moratín

 


SABER SIN ESTUDIAR

Nicolás Fernández de Moratín

Admiróse un portugués

de ver que en su tierna infancia

todos los niños en Francia

supiesen hablar francés.

«Arte diabólica es»,

dijo, torciendo el mostacho,

«que para hablar en gabacho

un fidalgo en Portugal

llega a viejo, y lo habla mal;

y aquí lo parla un muchacho».

SABER SEM ESTUDAR

Admirou-se um português

de ver que em sua tenra infância

todos os meninos na França

sabiam falar francês.

“A arte diabólica é”,

disse, torcendo o bigode,

"que para falar em francês

um fidalgo em Portugal

envelhece e fala mal;

e aqui fala bem um menino.

 

Sunday, May 25, 2025

Uma poesia de Pramila Venkateswaran

  


 

    BODY LANGUAGE

    Pramila Venkateswaran

On the fringes of conversations
surging around me in a different language,
my tongue is frozen in English.
Silence funnels into my body
I reach for words I recognize—
‘kitap’ book, ‘café,’ brand names.

 

I nod and smile trying not to look demure,
use abhinaya, throw open the nine gates of emotion,
let wonder, worry, fear, ire, envy, disgust,
piety, surprise, and love cavort on my face,
my hands aiding me, a language refugee,
roaming bazaars and sun-weathered ruins.

“Thank you,” I say to the waiter, touching my heart
as he places aromatic coffee on the table.
Beyond the courtyard, the peach dome of a mosque.
I expect the muezzin to sing at noon,
remember Haji Ali dargah, a moon on the bay
on my bus rides home from college.

In Kolkata when I was 9, I’d played silently,
my ear tuned to my classmates chattering in Bengali,
drinking their words until they became mine.

A LINGUAGEM DO CORPO

Às margens das conversas

surgindo ao meu redor em uma língua diferente,

minha língua está congelada em inglês.

O silêncio se afunila em meu corpo

Procuro palavras que reconheço-

livro 'kitap', 'café', nomes de marcas.

 

Eu aceno e sorrio, tentando não parecer recatada,

uso abhinaya, abro os nove portões da emoção,

deixo a admiração, a preocupação, o medo, a ira, a inveja, o desgosto,

a piedade, a surpresa e o amor florescerem em meu rosto,

minhas mãos me ajudando, uma refugiada da língua,

vagando por bazares e ruínas ensolaradas.

 

"Obrigada", digo ao garçom, tocando meu coração

enquanto ele coloca o café aromático na mesa.

Além do pátio, a cúpula cor de pêssego de uma mesquita.

Eu espero que o muezim cante ao meio-dia,

lembro-me de Haji Ali dargah, uma lua na baía

nas minhas viagens de ônibus para casa depois da faculdade.

   

    Em Calcutá, quando eu tinha 9 anos, eu brincava em

    silêncio,

    com os ouvidos atentos aos meus colegas conversando      

    em bengali,

    bebendo suas palavras até que elas se tornassem

    minhas.

    Ilustração: SME.

Saturday, May 24, 2025

Outro poema de William Keith Sutherland

 


OLVIDO

 (Del poemario 'Chem No Rume'.

William Keith Sutherland)

No me llevó la muerte, no pudo. Mi lengua hermafrodita, desencajado útero, llora su ira en cada verso, grita una canción urgente desde un limbo trágico, vertiente en verso que corta por peso bastiones todos, como una caricia desnuda al borde del abismo de una palma nebular.

Ahora, recojo mi cuerpo entristecido, como carbón milenario, profanando lo sagrado en la casa del orate mayor con mi sangre eterna y consumida.

Mis pasos romperán aquel paño que cubre al mundo. Llegaré como un extranjero, como amor que no exige réplica, y mi frente será lápida, una vereda en llamas, y mi rostro, un sol renegrido, absorbido al otro lado de los labios, y mis ojos, excavación para los muertos.

Diez mil soles han pasado, y el ancla llevo a cuesta como una cruz. Mi santuario de mármol lumaquela reconoce tus voces en esta catacumba flotante del Estrecho, donde el pómulo empinado hizo a sus hijos.

Qué difícil es decir lo más evidente de esta tierra de espanto y desconsuelo.

Arde el vientre como mierda fresca, como un panteón sumergido en un tiempo que nos olvida, en una alegría que desenfundó sus sogas y erigió postes incólumes como árboles en esta selva austral, sembrando flores de un cementerio lejano, violando el útero en sus palacios, cortando la yugular del deseo amoroso y desposeído, asfixiando el cordón umbilical de la carne y los sueños del pobre.

Doy paso firme hacia el duelo suspendido por tu dios abyecto. Endilgo mis huestes de huesos ajenos, a recorrer las calles frías y enmohecidas, calles de tierra que abrió la mano cruda sintiendo la bóveda craneal de dios en la barriada, explosada en el corazón palpitante de un parto atemporal, lluvia y designio perpetuo del existir caído, sueño insomne en medio de imágenes cansadas y cuerpos atónitos, devorados por el temor, como mirada de niño proletario, con su pupila sincera y pura, aquella que sostiene más verdad que cien salmos y mil dioses.

Mi cuerpo arrastra tu podredumbre, como un metal guacho y oxidado, perdido en la columna vertebral de los bordes del austro.

El mundo quiso hacerme mundo, y en ello me quitó el andar. Ahora mi desierto se extiende sobre tu obscena y genocida aureola. Sembraste sordos de silencio, mudos de espanto e impotencia, de desconexión y apatía, como palabra que sujeta una realidad en un sueño ausente. Fuiste el martirio para el torturado, dejaste pena silente y escarnio, clavaste el hacha en el deja vu de la vida.

Ahora, que camino como un grito en medio de este silencio sepulcral, dejaré mi marca sobre el animal que ríe, colmaré de liquidez seminal el arrebol de las alturas, y los trópicos encenderé como embriaguez en un santuario, y abriré, la puerta oscura de esta casa de putas, y en la soledad y abandono de la vesania de este potrero circular, caminaré desnudo.

 

Tocaré tu puerta como un sepulturero. Seré el eslabón perdido que une tu sangre a esta tierra sedienta.

Reconocí el cuerpo en la arena, tendido como un cetáceo nocturno, anquilosado a la vertiente láctea universal. Escuché mi voz de vida en la caverna de los dioses, y vi frente a mí, las fauces de la muerte.

Soy el desaparecido, el verbo que borraron, la palabra sin decir, más allá de todo palimpsesto. Soy quien abrió el corazón como piernas al parir, con la mandíbula desencajada. Soy quien suda partos cuando me olvidan, y sangre en su labor. Soy el hierro negro, ardiente como bala. Soy quien muda las palabras recién nacidas, y soy, en definitiva, quien encalla como un planeta en ti, como un beso que deja salir al gemido más impronunciable, aquel que deambula tus noches.

En fin, soy quien dice al mundo desde esta tierra sumergida: “no me abandones”.

ESQUECIMENTO

Não me levou a morte, não. Minha língua hermafrodita, útero deslocado, grita sua raiva em cada verso, grita uma canção urgente de um limbo trágico, um verso que corta todos os bastiões com seu peso, como uma carícia nua à beira do abismo de uma palmeira nebulosa.

Agora, recolho meu corpo entristecido, como carvão antigo, profanando o sagrado na casa do maior louco com meu sangue eterno e consumido.

Meus passos romperão esse pano que cobre o mundo. Chegarei como um estranho, como um amor que não exige réplica, e minha testa será uma lápide, uma calçada em chamas, e meu rosto, um sol enegrecido, absorvido do outro lado dos meus lábios, e meus olhos, uma escavação para os mortos.

Dez mil sóis se passaram, e eu carrego a âncora nas costas como uma cruz. Meu santuário de mármore lumaquela reconhece suas vozes nesta catacumba flutuante do Estreito, onde a maçã do rosto íngreme fez seus filhos.

Como é difícil dizer o mais evidente sobre esta terra de espanto e desconsolo.

A barriga arde como merda fresca, como um panteão submerso num tempo que nos esquece, numa alegria que desenrolou as suas cordas e ergueu postes tão ilesos como árvores nesta selva austral, semeando flores de um cemitério distante, violando o útero nos seus palácios, cortando a jugular do desejo amoroso e despossuído, sufocando o cordão umbilical da carne e os sonhos dos pobres.

Dou um passo firme em direção ao duelo suspenso pelo teu deus abjeto. Sobrecarrego minhas hostes de ossos alheios para caminhar pelas ruas frias e mofadas, ruas de terra abertas pela mão crua que sente a abóbada craniana de deus na vizinhança, explodida no coração pulsante de um nascimento atemporal, chuva e desígnio perpétuo de existência decaída, sonho sem dormir em meio a imagens cansadas e corpos atônitos, devorado pelo medo, como o olhar de uma criança proletária, com sua pupila sincera e pura, aquela que contém mais verdade do que cem salmos e mil deuses.

Meu corpo arrasta tua podridão, como um metal enferrujado e podre, perdido na espinha dorsal das fronteiras do sul.

O mundo queria fazer de mim um mundo e, ao fazer isto, tirou minha capacidade de andar. Agora meu deserto se estende sobre seu halo obsceno e genocida. Semeaste surdez com silêncio, mudez com terror e desamparo, com desconexão e apatia, como uma palavra que contém uma realidade em um sonho ausente. Foste o martírio dos torturados, deixaste tristeza e desprezo silenciosos, cravaste o machado no déjà vu da vida.

Agora, enquanto caminho como um grito no meio deste silêncio sepulcral, deixarei minha marca no animal que ri, encherei o brilho das alturas com liquidez seminal, e os trópicos incendiarei como a embriaguez em um santuário, e abrirei a porta escura deste bordel, e na solidão e no abandono da loucura deste pasto circular, caminharei nu.

Tocarei na sua porta como um coveiro. Serei o elo perdido que une teu sangue a esta terra sedenta.

Reconheci o corpo na areia, estendido como um cetáceo noturno, ancorado na encosta leitosa universal. Escutei minha voz de vida na caverna dos deuses e vi diante de mim as faces da morte.

Sou o desaparecido, o verbo que foi apagado, a palavra não dita, além de todo palimpsesto. Sou quem abriu o coração como pernas ao parir, com meu maxilar desarticulado. Sou o que sua nos partos se esquecem de mim, e sangue no seu labor. Sou o ferro negro, ardendo como uma bala. Sou quem muda as palavras recém-nascidas, e sou eu, em definitivo, quem encalha como um planeta em ti, como um beijo que deixa escapar o gemido mais impronunciável, aquele que vagueia pelas tuas noites.

Enfim, sou quem diz ao mundo desta terra submersa: “Não me abandone”.

Ilustração: Gifer.