Tuesday, November 19, 2019

Uma poesia de Alfonso Brezmes

 

YO, SIN MÍ

Alfonso Brezmes

Todo lo que tacho habla por mí.
Lo que escribo me subraya, grita,
es lo que yo quiero que se vea,
mas mi verdad es lo que no digo,
mi negativo fiel, lo que otro dice
siempre por mí mejor que yo.
Yo soy entonces el poema
que el silencio escribe en mi lugar.

EU, SEM MIM

Tudo o que silencio fala por mim.
O que escrevo me sublinha, grita,
é o que eu quero que se veja,
mas, minha verdade é o que não digo,
meu negativo fiel, o que outro diz
sempre por mim melhor que eu.
Eu sou, então, o poema
que o silêncio escreve em meu lugar. 



Monday, November 18, 2019

E, de volta, Carlos Barral


Y tú amor mío                   

Carlos Barral

Y tú amor mío, ¿agradeces conmigo
las generosas ocasiones que la mar
nos deparaba de estar juntos? ¿Tú te acuerdas,
casi en el tacto, como yo,
de la caricia intranquila entre dos maniobras,
del temblor de tus pechos
en la camisa abierta cara al viento?

Y de las tardes sosegadas,
cuando la vela débil como un moribundo
nos devolvía a casa muy despacio…
Éramos como huéspedes de la libertad,
tal vez demasiado hermosa.

El azul de la tarde,
las húmedas violetas que oscurecían el aire
se abrían
y volvían a cerrarse tras nosotros
como la puerta de una habitación
por la que no nos hubiéramos
atrevido a preguntar.
Y casi
nos bastaba un ligero contacto,
un distraído cogerte por los hombros
y sentir tu cabeza abandonada,
mientras alrededor se hacía triste
y allá en tierra, en la penumbra
parpadeaban las primeras luces.

E tu, meu amor

E tu, meu amor, agradeces comigo
as generosas ocasiões em que o mar
nos permitiu ficarmos juntos? Tu te lembras,
quase no tato, como eu
da carícia intranquila entre duas manobras,
do tremor dos teus seios
na camisa desabotoada ao vento?

E das tardes sossegadas,
quando a vela débil como uma moribunda
nos devolvia para casa bem devagar ...
Éramos, como hóspedes da liberdade,
Talvez, demasiada formosa.

O azul da tarde,
as úmidas violetas que escureciam o ar
se abriam
e voltavam a se fechar atrás de nós
como a porta de um quarto
pela qual não teríamos
ousado perguntar.
E quase
nos bastava um ligeiro contato
um distraído te pegar pelos ombros
e sentir tua cabeça abandonada,
enquanto em redor se fazia triste
e lá na terra, na penumbra
piscavam as primeiras luzes.

Ilustração: https://pt.videezy.com/.

Tuesday, November 12, 2019

Uma poesia de David Maria Turoldo


ITINERARI                              

David Maria Turoldo

Liberata l'anima ritorna
agli angoli delle strade
oggi percorse, a ritrovare i brani.

Lì un gomitolo d'uomo
posato sulle grucce,
e là una donna offriva al suo nato
il petto senza latte.
Nella soffitta d'albergo
una creatura indecifrabile:
dal buio occhi uguali
al cerchio fosforescente d'una sveglia
a segnare ore immobili.

E io a domandare alle pietre agli astri
al silenzio: chi ha veduto Cristo?

ITINERÁRIO

Uma vez liberada a alma retorna
no ângulo da estrada
hoje viajei, para encontrar as canções.

Há uma novelo de homem
pousado nos cabides,
e lá uma mulher ofereceu ao seu nascido
o peito sem leite.
No sótão do hotel
uma criatura indecifrável:
do escuro os olhos iguais
ao círculo fosforescente de um despertador
a assinalar as horas imóveis.

E eu a perguntar sobre as pedras às estrelas
silenciosas: quem viu a Cristo?

Ilustração: ensinamearezar2.blogspot.com.

De volta o notável Robert Creeley


GOODBYE                                          

Robert Creeley

She stood at the window. There was
a sound, a light.
She stood at the window. A face.

Was it that she was looking for,
he thought. Was it that
she was looking for. He said,

turn from it, turn
from it. The pain is
not unpainful. Turn from it.

The act of her anger, of
the anger she felt then,
not turning to him.

ADEUS

Ela ficou na janela. Havia
um som, uma luz.
Ela ficou na janela. Um rosto.

Era isto que ela estava procurando,
ele pensou. Era isto 
que ela estava procurando. Ele disse,

afastou-se disso, afastou-se
disso. A dor
não é uma dor inútil. afastou-se disso.

O ato de sua raiva, da
raiva que ela sentia, então,
não se virando para ele.


Friday, November 08, 2019

Uma poesia de Esther Giménez


TESIS                             
Esther Giménez

He visto una mota azul
difuminada en lo pardo
de ese diestro tragaluz
que llamas ojo y es falso.

Que son cienos movedizos
y yo me hundí por mirarlos.
Estoy flotando: espejito,
¿dónde he de cortar el árbol?

De dónde el rocío, el óleo
que en tus aguas hizo charco.
No son azules mis ojos
ni ya tu mirar castaño.

TESES

Eu vi um pontinho azul
desbotado no marron
daquela clarabóia direita
que chamas olho e é falso.

O que são centenas se movendo
e eu me afundei por vê-los.
Estou flutuando: espelhinho,
onde devo cortar a árvore?

Onde o orvalho, o óleo
que em tuas águas fez poça.
Meus olhos não são azuis
nem ao te olhar marrom.

Ilustração: https://www.joom.by/.

Uma poesia de Richard Brautigan




CAT

Richard Brautigan

We lay in the bed one sunny evening after making love
and decide to name our first girl Cat, we were going
to name her Cat, but now we have departed forever from our
love-making, and we not have a little girl, nor any
children at all, and I am doomed to become the poet
in your dreams who falls continually like the evening rain.

CAT

Nós estávamos deitados na cama, em uma tarde de sol depois de fazer amor
e decidimos que o nome de nossa primeira filha seria Cat, assim nós iriamos chamá-la, porém, agora que deixamos para sempre de fazer amor,
e nós não temos uma garota pequena, ou qualquer outro filho, eu estou condenado a ser o poeta de teus sonhos que caem continuamente como numa tarde de chuva.


Thursday, November 07, 2019

DIVAGAÇÕES ILUSTRADAS III


Uma rosa é uma rosa. 
No jardim,
no olho. 
Mas, talvez, sejam duas
e não haja olho algum. 
Um mão, então, seria,
uma alegoria, 
ou, talvez, a maneira de rabiscar
se nutra do sugerir.
Sem pensar diviso nos traços azuis
a procura de luz, de estrelas, do Cruzeiro do Sul,
do pensamento de que tudo escorra e se enfie 
num buraco negro, 
que, ao contrário, do que pensam os cientistas,
pode ser onde do caos,
que não se avista,
se gere vidas 
ainda desconhecidas. 

AMBIVALÊNCIA


Quando os peixes começaram a voar,
e o abstrato ao real povoar,
o profeta nunca mais 
conseguiu acertar nenhuma profecia.
Quanto mais errava
mais sua sombra crescia 
e as pedras, as coisas e as pessoas se misturavam,
enquanto monstros mal divisados se multiplicavam 
e tudo virou uma pintura e uma poesia tão esquisita
que já não se sabia
a diferença entre o real e a fantasia 
como se fosse um fim de tarde 
em que o mundo se desfizesse 
lentamente 
e tudo se divisasse de forma figurada 
até que não se compreendesse nada. 

Uma poesia de Georges Schehadé



Il y a des églises dont les Saints sont dehors...

Georges Schehadé

Il y a des églises dont les Saints sont dehors
Par amour de la solitude
- Mon amour ne disons pas ça
Ils sont loins par obéissance
Ils ont l'oeil bleu des voyages
Comme ces bergers qui dorment en souriant

Dans un ciel monotone comme une chambre
La lune triste avec sa famille

E HÁ IGREJAS ONDE OS SANTOS ESTÃO FORA

E há igrejas onde os santos estão fora
por uma questão de solidão
- Meu amor não diz isso
Eles estão longe de obediência
Eles têm o olho azul das viagens
Como esses pastores que dormem sorrindo

Sob um céu monótono como uma sala
A lua triste com sua família

Ilustração: Flickr.


Tuesday, November 05, 2019

DIVAGAÇÕES ILUSTRADAS II



Um olho grande, 
bem grande, 
de sobrancelhas eriçadas
olha de um lugar impensado
todas as coisas que ninguém consegue ver
inclusive que desejo 
amar você 
de todas as maneiras!

Dois poemas de Richard Brautigan



ROMEO AND JULIET

Richard Brautigan

If you will die for me,
I will die for you
and our graves will be like two lovers washing
their clothes together
in a laundromat
If you will bring the soap
   I will bring the bleach.

ROMEU E JULIETA

Se você vai morrer por mim,
eu morrerei por você
e nossas sepulturas serão como dois amantes lavando
suas roupas juntas
em uma máquina de lavar
Se você trouxer o sabão
eu irei trazer o alvejante.



SONETO

Richard Brautigan

The sea is like
an old nature poet
who died of a
heart attack in a
public latrine.
his ghost still
haunts the urinals.
At night he can
be heard walking
around barefooted
in the dark.
somebody stole
his shoes.

SONETO

O mar é como
um velho poeta natural
que morreu de ataque cardíaco
numa latrina pública.
Seu fantasma ainda
assombra os mictórios.
De noite ele pode
ser escutado caminhando
descalço
na escuridão.
Alguém roubou
seus sapatos.

Ilustração: Brasil Escola.

Monday, November 04, 2019

DIVAGAÇÕES ILUSTRADAS


Um palhacinho é um palhacinho.
Bolinhas são bolinhas. 
Palhaços e bolinhas são redondos como o mundo. 
Escorregar e rir são parte dos pensamentos mais profundos, 
porém a arte está no inesperado: 
-Você, mordomo, é o culpado! 

Uma poesia de Esther Giménez


 Chagrin d'amour            
Esther Giménez

No hay estrellas fugaces ni horizontes.
La tierra inmóvil ve cómo el Sol muere
olvidando marcar días y noches.
La Luna es una cara oscura. Duerme.

Después de primaveras no hay veranos.
Mayo es glacial y abate la turgencia
tallando un verde intrínseco y ajado.
Los aromas, antígenos de alergia.

Todo es lo que parece. Nada existe.

TRISTEZA DE AMOR

Não há estrelas fugazes nem horizontes.
A terra imóvel vê como o sol morre
esquecendo de marcar os dias e as noites.
A lua é um rosto escuro. Dorme.

Depois das primaveras não há verões.
Maio é glacial e abate à turgidez
esculpindo um verde intrínseco e rachado.
Os aromas, antígenos de alérgia.

Tudo é o que parece. Nada existe.


Maria Sanz revisitada



LA PROFECIA                                               

Maria Sanz

Aunque ahora estos versos vaticinen
tu vida en sus metáforas, tan sólo
serán la voz que clame en el destierro
al que fuiste a parar, después que nadie
reconociese el eco de tus pasos
sobre tantos adioses. Un poema
dirá de ti la última palabra.
Para entonces, tal vez hayas vivido.

A PROFECIA

Embora agora estes versos vaticinem
tua vida em suas metáforas, tão só
serão a voz que clama no desterro
em que foste parar, depois que ninguém
reconheceu o eco de teus passos
por tantos adeuses. Um poema
dirá sobre ti a última palavra.
Quem sabe, então, terás vivido.




Friday, November 01, 2019

Uma poesia de Luis Pimentel


Oración a nuestros pies                                   
Luis Pimentel

¡Qué esfuerzo, Señor, para no ser cuarzo!
Olvidadas rosas de marfil que la noche pule.
¿No temblasteis de miedo al contemplarlos desnudos?
Allí la sangre es ya resplandor,
es donde la luz tiene su ultimo refugio.
Pies de Cristo en la cerrada urna del amanecer;
una lluvia de lirios lívidos sobre ellos cae.
La playa desierta guarda sus huellas,
y soportáis ese pesado fuego de la frente,
velando una modestia en la sombra.

ORAÇÃO A NOSSOS PÉS

Que esforço, Senhor, para não ser quartzo!
Rosas esquecidas de marfim que a noite pole.
Não tremestes de medo quando os contemplou nus?
Ali o sangue já está resplandecendo,
É onde a luz tem seu último refúgio.
Pés de Cristo na urna fechada do amanhecer;
uma chuva de lírios sobre eles cai.
A praia deserta guarda seus rastros,
e suportais esse fogo pesado na testa,
velando uma modéstia sombria.

Ilustração: comunidade.net.

Outra poesia de Stefano Pini


giorni dell’incontro                                                                                                   

Stefano Pini

Sulla curva del ramo a Natale
ridiamo dei dispersi,
nelle giubbe le ossa da irrobustire,
le fronti senza una traccia.
Avremo il segno, sempre l’acqua
della Sprea fino ai polsi, il rumore
che si fa schiuma, l’età raccolta
al di là del muro.

DIAS DE REUNIÃO

Na curva do ramo no Natal
rimos dos dispersos,
nos casacos os ossos devem ser fortalecidos,
os rostos sem deixar traços.
Teremos o sinal, sempre a água
da farra até nos pulsos, o rumor
que faz a espuma, a idade colecionada
além do muro.