Wednesday, February 15, 2017

Uma poesia sobre o Rio de Blaise Cendrars



Rio de Janeiro

Blaise Cendrars

Une lumière éclatant inonde l'atmosphère
Une lumière si colorée et si fluide que les objets qu'elle touche
Les rochers roses
Le phare blanc qui les surmonte
Les signaux du sémaphore me semblent liquéfiés
Et voici maintenant que je sais le nom des montagnes qui entourent cette baie merveilleuse
Le Géant couché
La Gavéa
Le bico de Papagaio
Le Corcovado
Le pain de Sucre que les compagnons de Jean de Lévy appelaient le Pot de Beurre
Et les aiguilles étranges de la chaîne des Orgues
Bonjour Vous


RIO DE JANEIRO

Uma luz resplandecente inunda a atmosfera
Uma luz colorida e fluída como os objetos que ela toca
As rochas rosas
O farol branco que as supera
Os sinais de semáforo que parecem liquefazer-se
E aqui agora eu conheço os nomes
Destas montanhas
Que rodeiam esta baía maravilhosa
O Gigante reclinado
A Gávea
O Bico de Papagaio
O Corcovado
O Pão de Açúcar que os companheiros de Jean de Léry
Chamam  de Pote de Manteiga
E picos estranhos da cadeia dos Órgãos
Bons dias Vocês.


Ilustração: aloriodejaneiro. 

PRETENSÃO


Que esta vida é uma viagem sem volta
todos nós sabemos.
O que não sabemos muito bem
(embora a certeza seja quase total)
É se há algum passageiro
capaz de não pagar passagem 
com a moeda do longo esquecimento, 
quando finda a viagem. 
Pelo que sei, não. 
Mas, sempre alimento a ilusão 
de que, apesar das evidências em contrário, 
possa escrever um diário
contando que sou o primeiro. 

Ilustração: filmtrailer

Tuesday, February 14, 2017

DUAS POESIAS DE FEDERICO HERNÁNDEZ AGUILAR

PALABRA Y TIEMPO                              
(Paréntesis kantiano)

Federico Hernández Aguilar

Para callar no necesito mi silencio.

Me muevo.
Se mueve la hoja que cae y no lo sabe.
El aire es la denuncia natural del tiempo.

Para callar no necesito mi silencio.

No puedo remover una pestaña
sin tocar un rostro.
La palabra es injusta si la tengo.

Para callar no necesito mi silencio.
Necesito tiempo.

PALAVRA E TEMPO

(Parênteses kantiano)

Para calar não necessito de meu silêncio.

Me movo.
Se move a folha que cai e não sabe.
O ar é a denúncia natural do tempo.
Para calar não necessito meu silêncio.

Não posso remover uma sobrancelha
sem tocar um rosto.
A palavra é injusta se a tenho.

Para calar não necessito meu silêncio.  
Necessito de tempo.


EDAD DEL INSOMNIO

Federico Hernández Aguilar

Entendí que la lluvia muere
cuando escuché al agua decir: “Ya voy”.

Hay quien piensa que se puede mirar a un pato
y no sentir cosquillas en los dedos de los pies.

Tu retrato no escucha la gotera.
Eso es seguro.

IDADE DA INSÔNIA

Entendi que a chuva morreu
quando escutei a água dizer: “Já vou”.

Há quem pensa que pode olhar a um pato
e não sentir coceira nos dedos dos pés.

Teu retrato não escuta a goteira.
Isso é seguro.

Ilustração: revista fevereiro - "política, teoria, cultura"

Uma poesia de Fernando Linero


NO CABE LAMENTARSE

Fernando Linero

No cabe lamentarse de aquello que está más allá
del estrecho límite de los sentidos.
Sé que la realidad no es más que esos cristales opacos
que sólo dejan pasar un resplandor difuso.
Pero aún siendo un destello en la noche del tiempo
yo que fui una posibilidad entre infinitas posibilidades
siento al verano hablar a través de los frutos
y es como el peso de la luz sobre la más íntima anarquía.

No cabe lamentarse de los dones del mundo.
He amado la música, ese intersticio azul entre las hojas.
He amado el mar, la noche, los caminos.
No cabe lamentarse si el verso crece como un árbol
y hay almas que comen de su pan.

NÃO CABE LAMENTAR-SE

Não cabe lamentar-se daquilo que está mais além
do estreito limite dos sentidos.
Se é que a realidade não é mais que esses cristais opacos
que só deixam passar um resplendor difuso.
Porém, ainda que sendo um destelar da noite do tempo
eu que fui uma possibilidade entre infinitas possibilidades
sinto o verão falar através dos frutos
e é como o peso da luz sobre a mais íntima anarquia.

Não cabe lamentar-se dos dons do mundo.
Tenho amado a música, este interstício azul entre as folhas.
Tenho amado o mar, a noite, os caminhos.
Não cabe lamentar-se se o verso cresce como uma árvore
e há almas que comem de seu pão.


Monday, February 13, 2017

Uma poesia de Gérard de Nerval

Une allée du Luxembourg                                
Gérard de Nerval

Elle a passé, la jeune fille
Vive et preste comme un oiseau
À la main une fleur qui brille,
À la bouche un refrain nouveau.

C'est peut-être la seule au monde
Dont le coeur au mien répondrait,
Qui venant dans ma nuit profonde
D'un seul regard l'éclaircirait !

Mais non, - ma jeunesse est finie ...
Adieu, doux rayon qui m'as lui, -
Parfum, jeune fille, harmonie...
Le bonheur passait, - il a fui !


Uma avenida de Luxemburgo

A jovem moça passou, rápida e diligente
Ante mim, como passam tantos pássaros;
E na mão uma flor resplandecente
E uma nova canção entre os lábios.

Talvez ela tivesse unicamente
Um coração capaz de ouvir o meu;
Talvez entrando em minha profunda noite
Pudesse iluminá-la com os olhos tão seus.

Mas não... Minha juventude nem mais lembrava...
Adeus, doce fulgor que deslumbrava!
Oh! Perfume, jovem moça, oh! harmonia...
Vi a sorte passar... e de mim fugia!


Ilustração: Carol Burgo

Friday, February 10, 2017

Uma poesia de Luis García Montero



DÉJAME, PENSAMIENTO, DÉJAME

Luis García Montero

Déjame, pensamiento, déjame,
mañana seré tuyo,
volveré a ser tu presa.
Pero hoy,
mientras la luz araña en los árboles y pide
una oportunidad,
quiero que me recoja la inútil primavera.

A la casa del frío
regresaré mañana, cuando el tiempo
exponga sus razones
y el corazón pregunte
lo que falta por ver,
cuántos latidos
pueden quedarle para detenerse.

Deixa-me, pensamento, deixa-me

Deixa-me, pensamento, deixa-me
amanhã serei teu,
voltarei a ser tua presa.
Porém hoje,
enquanto a luz arranha nas árvores e pede
uma oportunidade,
quero que me recolha a inútil primavera.

À casa do frio
regressarei amanhã, quando o tempo
tiver exposto suas razões
e o coração perguntar
o que falta ver,
quantos batimentos
podem ocorrer para me deter. 

Ilustração: Fuga da Caverna. 

CANTO AO GOZO DIVINO



Morrer é como dormir e não mais acordar.
Não me importa mais.
E por que haveria de me importar?
Se ontem, feliz, beijei o bico dos teus seios intumescidos,
Abri, sem nenhum pudor, os tecidos que te cobriam,
Descobrindo, com febril amor, as doçuras de teu corpo,
Para deslizar nas tuas curvas mais sinuosas,
Como quem despenca num tobogã sem freio,
Sem medo algum, sem nervos, sem receio;
Precipitando-me ditoso nos teus orifícios
Que me fizeram desejar fazer da paixão vício
E sugar de tua flor todo o perfume, suor, sêmen, ais,
Numa sofreguidão, e calma,
De não se acabar mais.
Quase me senti um deus
E se deus há,
Nunca deve ter visto antes
Humanos tão felizes, saciados,
Amolecidos, puros, contentes,
Conscientes
De que gozaram o que podiam ter gozado
E só quem amou um amor assim,
Pode, sem susto, esperar o fim,
De vez que tanto amor
Jamais será superado.


Ilustração: www.petaladerosa.com.br

Wednesday, February 08, 2017

OUTRO POEMA DE PRÉVERT

Et la fête continue          
Jacques Prévert

Debout devant le zinc
Sur le coup de dix heures
Un grand plombier zingueur
Habillé en dimanche et pourtant c'est lundi
Chante pour lui tout seul
Chante que c'est jeudi
Qu'il n'ira pas en classe
Que la guerre est finie
Et le travail aussi
Que la vie est si belle
Et les filles si jolies
Et titubant devant le zinc
Mais guidé par son fil à plomb
Il s'arrête pile devant le patron
Trois paysans passeront et vous paieront
Puis disparaît dans le soleil
Sans régler les consommations
Disparaît dans le soleil tout en continuant sa chanson

E A FESTA CONTINUA

De pé ante o mostrador de estanho
Por volta das dez da manhã
Um grande funileiro canalizador
Vestido de domingo, e ainda é segunda-feira,
Canta para si mesmo
Canta, que é quinta-feira,
E que não vai para a aula
Que a guerra acabou
E o trabalho também
Que a vida é tão bela
E as meninas tão bonitas
E depois de  cambalear pelo mostrador de estanho
Mas, guiado pelo prumo,
Ele pára diante do chefe
Três camponeses passam e você vai pagar
Pois, desaparece no sol,
Sem pagar o consumo,
Desaparece no sol enquanto continua sua canção.

Ilustração: nimagem.blogspot.com

A NATUREZA DA FLOR

Quase todo santo dia digo:       Bom dia, flor do dia.
E mais tarde:
Boa tarde, flor da tarde.
E, quando a noite vem,
Boa noite, flor da noite.
Uma flor, porém, exige mais que palavras:
Atenção, carinho e adubo.
Sou um jardineiro desastrado
Que te dá muito pouco, o que mereces ao cubo.
Porém, flor é flor.
Ainda mais tu, uma flor amorosa,
Que se contenta em ser bela,
Espalhar perfume, beleza,
Em enfeitar a natureza
E em ser rosa, branca rosa. 

Tuesday, February 07, 2017

Outra poesia de Ismael Enrique Arciniegas

     



ERES TÚ

Ismael Enrique Arciniegas

Eres tú como una flor,
Hermosa, adorable y pura,
Y al verte, cruel dolor
El corazón me tortura.

Las manos poner anhelo
Sobre tu frente radiosa,
Y pedir te guarde el cielo
Siempre pura y siempre hermosa.

ÉS TU

És tu como uma flor
Formosa, adorável e pura,
E, ao ver-te, cruel dor
O coração me tortura.

Te pôr as mãos anseio
Sobre tua fronte radiosa
E pedir que te guarde o céu,
Sempre pura e mais formosa. 

Ilustração: A face dos sentidos. 

Uma poesia de Yves Bonnefoy

Le livre, pour vieillir                   
Yves Bonnefoy

Étoiles transhurnantes; et le berger
Voûté sur le bonheur terrestre; et tant de paix
Comme ce cri d'insecte, irrégulier,
Qu'un dieu pauvre façonne. Le silence
Est monté de ton livre vers ton coeur.
Un vent bouge sans bruit dans les bruits du monde.
Le temps sourit au loin, de cesser d'être.
Simples dans le verger sont les fruits mûrs.

Tu vieilliras
Et, te décolorant dans la couleur des arbres,
Faisant ombre plus lente sur le mur,
Etant, et d'âme en fin, la terre menacée,
Tu reprendras le livre à la page laissée,
Tu diras, C'étaient done les derniers mots obscures.

O livro, para envelhecer

Estrelas transhumanas; e o pastor que se inclina
Sobre a sorte da terra; e tanta paz
Como esse grito irregular de inseto
Que um deus pobre modela. De teu livro
Subiu o silêncio até teu coração.
Corre um vento sem ruído nos ruídos do mundo.
Longe sorri o tempo, por deixar de existir.
Sensível no horto são os frutos maduros.

Envelhecerás
E, ao perder tua cor nas árvores,
Ao formar uma sombra mais lenta sobre o muro,
Ao ser ameaçada a terra, ao fim, de alma,
Retomarás o livro onde o abandonaste,
E dirás: Eram essas as últimas palavras obscuras.


Ilustração: Evangelismo e Missão. 

Friday, February 03, 2017

Uma poesia de Villaurrutia

Inventar la verdad          
Xavier Villaurrutia

Pongo el oído atento al pecho,
como, en la orilla, el caracol al mar.
Oigo mi corazón latir sangrando
y siempre y nunca igual.
Sé por quién late así, pero no puedo
decir por qué será.

Si empezara a decirlo con fantasmas
de palabras y engaños, al azar,
llegaría, temblando de sorpresa,
a inventar la verdad:
¡Cuando fingí quererte, no sabía
que te quería ya!

Inventar a verdade

Ponho o ouvido atento ao peito,
como, na praia, o caracol ao mar.
Ouço meu coração bater sangrando
e sempre e nunca igual.
Sei por quem bate assim, porém, não posso
dizer por que será.

Se começasse a dizê-lo com fantasias
de palavras e enganos, ao acaso,
chegaria, tremendo de surpresa,
à inventar a verdade;
Quando fingi querer-te, não sabia

que já te queria!

Ilustração: Criar um Blog Grátis. 

FUGA INÚTIL

Sinto o teu perfume no meu quarto.     
O teu perfume sinto na minha cama.
Tento sentir mais o teu perfume quando salto
Em busca de te descobrir na multidão
E quase sinto o calor das tuas mãos...
E quase sinto a doçura de tua boca...
Tudo só fruto da imaginação tão louca
Que quer sentir todo o prazer que há
Sem nem mesmo saber onde deve estar
A mulher que ainda insiste em fugir
Dela, de mim, do seu próprio sentir
Como se, fugindo, não fosse ficar
No meu coração, na saudade, no ar
Como o seu perfume a flutuar...


Ilustração: O ExClUíDo - WordPress.com

Thursday, February 02, 2017

COMO VAMOS FAZER?

Sejamos como crianças,                                       Criaturas puras,
Que jamais sabem direito o que fazer
E, curiosas, vão brincando,
Com o que desconhecem.
Um beijo aqui, uma mão acolá,
Se a língua escorregar
Ou um abraço surgir
Nada há de nos espantar
E não há caminhos muito novos,
Nem mares não descobertos
Neste navegar.
Um dedinho, de repente,
Sem receio, pode encontrar no meio
Algum orifício
E, por artes do ofício, tudo se esclarece:
O amor vira vício,
O prazer prece.
E aprendemos apenas pela intuição
O que nos faz bater mais depressa o coração
E o amor, então, se torna uma melodia
Que invade a cama, o quarto, a casa, os dias....


Ilustração: Telma Lenzi