Saturday, May 20, 2023

E, mais uma vez, Verlaine

 


LE FAUNE 

Paul Verlaine

Un vieux faune de terre cuite

Rit au centre des boulingrins,

Présageant sans doute une suite

Mauvaise à ces instants sereins

 

Qui m'ont conduit et t'ont conduite,

Mélancoliques pèlerins,

Jusqu'à cette heure dont la fuite

Tournoie au son des tambourins.

 

O FAUNO

 

Um velho fauno de terracota

ri no centro do piso gramado,

Pressagiando sem dúvida uma sequência

Ruim nesses momentos serenos

 

Quem me guiou e te guiou,

peregrinos melancólicos,

até aquela hora na qual a fuga

Girou ao som de pandeiros.

Ilustração: Domestika.

Sunday, May 14, 2023

Poesia da Despedida



Agora que partes, sem a mínima intenção

De voltar, da amargura que me deixas, espero,

Que colhas o mel, que não te falte o milho,

O âmbar, o pão e até mesmo o carinho.

 

De outro amor. Parte, parte, por favor,

E vai depressa, que a dor da vida é essa,

E por te amar, espero que te seja doce,

Até a água do mar, no teu incerto navegar.

 

Adeus, meu bem, seguimos rumos distintos,

Enquanto busco a cura para a minha ferida,

Vagas e te embriagas com bons vinhos tintos,

 

Que encontres amor, alegria e esperança,

Neste horizonte vasto, cheio de vida,

Que a despedida seja o início de outra dança.


Um poema de Victor Segalen

 


Éloge et pouvoir de l’absence

Victor Segalen

Je ne prétends point être là, ni survenir à

l’improviste, ni paraître en habits et chair, ni

gouverner par le poids visible de ma personne,

 

Ni répondre aux censeurs, de ma voix; aux

rebelles, d’un oeil implacable; aux ministres

fautifs, d’un geste qui suspendrait les têtes à

mes ongles.

 

Je règne par l’étonnant pouvoir de l’absence.

Mes deux cent soixante-dix palais tramés

ente eux de galeries opaques s’emplissent

seulement de mes traces alternées.

 

Et des musiques jouent en l’honneur de mon

ombre; des officiers saluent mon siège vide;

mes femmes apprécient mieux l’honneur de

nuits où je ne daigne pas.

 

Égal aux Génies qu’on ne peut récuser

puisqu’invisibles –nulle arme ni poison ne

saura venir où m’atteindre.

 

ELOGIO E PODER DA AUSÊNCIA  

Eu não pretendo estar aqui, nem chegar

de improviso, nem aparecer com roupas e carne, nem

governar com o peso visível da minha pessoa,

 

Nem responder aos censores, com a minha voz; nem

aos rebeldes, com um olhar implacável; aos ministros

culpados, com um gesto que iria suspenderia suas cabeças

nas minhas unhas.

 

Eu reino pelo poder surpreendente da ausência.

Meus duzentos e setenta palácios povoados

por galerias opacas só conhecem

apenas os meus traços alternados.

 

E a música toca em homenagem à minha

sombra; oficiais saúdam meu assento vazio;

minhas esposas apreciam melhor a honra de

noites em que não me digno.

 

Igual aos gênios que não podem refutar

por serem invisíveis -não há arma nem veneno

que possam me encontrar.

Um poema de Damaris Calderón

EMILY DICKINSON

Damaris Calderón

Lo que no alcanzan

las avaras sílabas

la borracha de sol

cuenta a sus puertas.


El gusano roído por el fruto.


Lo que no alcanzan

las avaras sílabas,

el pájaro de Amherst

el tordo de Nueva Inglaterra.


La mano

pródiga

-como una herida-

se abre.

EMILY DICKINSON

O que não alcançam

as sílabas avaras

o sol bêbado

conta em suas portas.


O verme roeu a fruta.


O que não alcançam

as sílabas avaras,

o pássaro Amherst

o tordo da Nova Inglaterra.


A mão

pródiga

-como uma ferida-

se abre.

Ilustração: The New Yorker. 



Um poema de Harindrananath Chattopadhyaya

 


NOON

Harindranath Chattopadhyaya

The noon, a mystic dog with paws of fire,
Runs through the sky in ecstasy of drouth,
Licking the earth with tongue of golden flame
Set in a burning mouth.

It floods the forest with loud barks of light,
And chases its own shadow on the plains . . .
Its Master silently hath set it free
Awhile from silver chains.

At last, towards the cinctured end of day,
It drinks cool draughts from sunset-mellowed rills . . .
Then, chained to twilight by the Master’s hand,

It sleeps among the hills.

MEIO-DIA

O meio-dia, um cão místico com patas de fogo,

Corre através do céu em êxtase de seca,

Lambendo a terra com uma língua de dourada chama

Posta numa boca ardente.

 

Inunda-se a floresta com altos latidos de luz,

E caçando sua própria sombra nas planícies. . .

Seu Mestre silenciosamente o libertou

Por algum tempo das correntes de prata.

 

Por fim, aproximando-se do final do dia,

Ele bebe goles frescos de riachos amadurecidos pelo pôr-do-sol. . .

Então, acorrentado ao crepúsculo pela mão do Mestre,

Dorme entre as montanhas.



Friday, May 12, 2023

ALEGORIA PITAGÓRICA

 


                             E o mundo, agora, me parece quadrado até    para quem da hipotenusa, abusa!!

 

 

Pitágoras, o sábio pensou por ângulos diversos,

Viveu envolto em triângulos, mas nada amorosos.

Pensava serem os números a essência primordial,

Da vida, do universo, do todo universal.

 

Porém, confesso que pouco sei de suas teorias,

Mesmo me inspirando em suas ideias visionárias.

Pois a música, segundo ele, deve ter proporções,

E, neste ponto, este aprendiz, tem as mesmas ilusões.

 

Ah, Pitágoras, como sua figura me fascina,

E fundar uma comunidade religiosa, que sina!

Também nada sei sobre transmigração das almas,

Embora para quem sabe do além, bata palmas!

 

Sei que nunca serei um mestre ou deixarei legado,

Ainda que envolto em livros e em palavras, abraçado.

Pois meu prazer é o vinho, a embriaguez suave,

A forma de elevar-me e a sabedoria não me cabe.

 

Sim, sei o vinho é uma filosofia em sua essência,

Um néctar que enobrece, aviva a consciência.

Nem sei se o bebeu nem muito do que fez

E somos iguais, pelo que sei, só em não falar inglês!

 

 

CANÇÃO DA EFEMERIDADE

 

Infelizmente, meu amor, não existe nada eterno,

Te digo de modo terno quando ainda não chora.

Olha este minuto que vai embora,

Logo será a hora, o dia, o amor.

Por isto, o teu beijo é do momento a flor,

E o meu pensamento é de que dói a vida em nós.

Porque amanhã sabemos, estaremos sós,

E tudo será de verdade, apenas saudade.

 

Nossos momentos tão vivos, tão intensos,

Hoje são tesouros, amanhã serão fragmentos.

No tempo, nossa história se desfaz,

E resta a melodia, a memória em paz.

 

Mas, amor, não lamentemos o tempo que voa,

Pois nossa jornada já foi tão boa.

Guardemos cada instante, cada riso, cada chama,

E saibamos que, mesmo na ausência, a nossa alma clama.

 

Infelizmente, o destino nos separa,

Mas o amor que nos une nunca se apara.

Ele atravessa as fronteiras da eternidade,

E nos preenche com doçura, com felicidade.

 

Então, meu amor, abracemos a verdade,

Aceitemos a dança da efemeridade.

Porque, no final, quando a saudade arder,

Seremos eternos, mesmo sem saber.

Uma poesia de Sam Sax

 

 

PEDAGOGY

Sam Sax

now she’s gone my teacher wants to know

where the speaker enters the poem

 

the wind blows open the screen door & it catches

on its chain. outback my neighbors are smoking

 

a pig to make it last. my teacher only became

my teacher after she passed. before that

 

she was a woman who had lived a long time.

as always i am an ungrateful child, a student

 

first of ingratitude. ungracious as a wasp. a knot

in a history of rope your hands don’t notice

 

as you hold on for dear life. dear life, the speaker

is the chain holding the door closed & the wind

 

is my teacher, the smoke curing meat,

my teacher had stories about all the dead poets

 

which made her, while living, prophetic. proximity

is next to godliness. for a woman who had no use

 

for music or pleasure her writing beats the page

until knuckles singe. my speaker wants to know

 

when the teacher enters the poem, if she ever leaves,

if she’s always there in the text shaking her heads

          

cutting the weeds.

 

PEDAGOGIA

Agora ela se foi meu professor quer saber

onde o palestrante entra no poema

 

o vento sopra abre a porta de tela e pega

em sua cadeia. No interior meus vizinhos estão fumando

 

um porco para fazê-lo durar. meu professor só se tornou

meu professor depois que ela passou. antes disso

 

ela era uma mulher que viveu muito tempo.

como sempre sou uma criança ingrata, um estudante

 

primeiro de ingratidão. desagradável como uma vespa. um nó

em uma história de corda suas mãos não percebem

 

enquanto você espera por sua preciosa vida. querida vida, o orador

é a corrente que mantém a porta fechada e o vento

 

é meu professor, a fumaça curando a carne,

minha professora tinha histórias sobre todos os poetas mortos

 

o que a tornou, em vida, profética. a proximidade

está próxima da piedade. para uma mulher que não tinha utilidade

 

para música ou prazer, sua escrita bate na página

até os nós dos dedos queimarem. meu palestrante quer saber

 

quando a professora entra no poema, se ela sai,

se ela está sempre lá no texto balançando a cabeça

          

cortando as ervas daninhas.

 Ilustração: Uninassau.

 

Um poema de Daniel Calabrese

 


CORTE

 

Daniel Calabrese

 

He buscado la muerte en mis poemas.
No la encontré, pero estaba ahí.
Ahí como las vértebras de los vertebrados,
la noche de los anochecidos,
la sangre de los que sangran.

 

He buscado la muerte y dicen
que se hunde como la parte ciega de los árboles.
No la encontré.

 

Leí todos mis poemas sabiendo
que estaba ahí.
Los árboles deben tener algo que se mueve
adentro de la tierra, mis poemas tienen muerte.

 

Así como los vertebrados vértebras,
los anochecidos noche,
y los sangrados la brutal
escritura del acero.

 

CORTE

Procurei a morte nos meus poemas.

Não consegui encontrar, porém estava lá.

Lá, como as vértebras dos vertebrados,

a noite das amoitecidos,

o sangue dos que sangram.

 

Procurei a morte e dizem

que afunda como a parte cega das árvores.

Não a encontrei.

 

 

 

Leio todos os meus poemas sabendo

estava lá

As árvores devem ter algo que se move

dentro da terra, meus poemas têm a morte.

 

Assim como as vértebras dos vertebrados,

os anoitecidos,  a noite

e os sangrados a brutal

escrita do aço.

Wednesday, May 10, 2023

Uma poesia de León Félix Batista

 


PORQUE SÉ QUE DE ESTE GOLPE YA NO VOY A LEVANTARME

León Félix Batista

Evocaba un sicomoro. Y el azar no es emboscada, pero no oculta sus vendas y te impone un laberinto. Así que lo encontré, mallado por munícipes, cogido para cebo, y esperé bajo su hangar. Las horas se esfumaban y el importe del parqueo y al final se adicionaron en eterno polinomio. Me herí en un pilotillo para pensarla un poco a base de analgésicos y ya no del formulario Kierkegaard.

PORQUE SEI QUE DESTE GOLPE JÁ NÃO VOU ME LEVANTAR

Lembrava um sicômoro. E o acaso não é uma emboscada, porém não oculta suas ataduras e te impõe um labirinto. Assim que o encontrei, cercado por cidadãos, apanhado como isca e esperei sob seu hangar. Esvaíram-se as horas e a quantidade de  estacionamento e ao final se adicionaram num eterno polinômio. Me feri em um pouco a base de analgésicos e não mais no formulário de Kierkegaard.

 

Saturday, May 06, 2023

Sonho de Índio



Há um índio em mim 

completamente 

antropófago 

que quer te comer 

aos pedacinhos

saboreando a carne 

mais gostosa 

que já comeu. 

Há um índio em mim

guloso

que deseja o naco

esplendoroso

do teu coração

para sentir o prazer 

de realizar 

sua melhor refeição!


Wednesday, May 03, 2023

Fim de amor


 Quando, enfim, o amor chegou ao fim,

nas ruas desertas de esperanças

pingou o adeus, a dor sem fim

a nos encher o ar de lembranças.

 

O mundo, que parecia desabar,

como a pintar o céu de solidão

me dizia que devia te abraçar

como se algo restaurasse a paixão.

 

Nossa canção ecoava na minha mente

No frio a trazer o período quente

do amor que vivemos e acabou

 

E o amor sem poder seguir em frente

Sem um aí morreu tão docemente

e a canção foi tudo o que restou.

 

Uma poesia de Dana Levin

 


 DREAM NEST

    Dana Levin

 

More like a basket
            of twig and hair, 
            surprisingly 
            tall
           
            and deep-

                        in a tree
            outside my bedroom
            window.

I knew 
            something lived in there
            you wouldn’t assume
                        lived in a nest.

Then I knew:
            a human lived there.

And once I knew-
            the nest, nearly 
           
            disintegrated, 
                           still in the tree. 
                                   
It wasn’t about trauma, the perfect 
            and then the broken 

                        nest 
            in which a human 
                        lived—

            Born and lit and broken
                                     comes I.

NINHO DOS SONHOS

Mais como uma cesta

             de galho e cabelo,

             surpreendentemente

             alto

          

             e profundo-

 

                         em uma árvore

             fora da janela

             do meu quarto.

 

Eu sabia

             algo viveu lá dentro

             você não presumiria

                         havia um ninho.

 

Então eu sabia:

             um humano vivia lá.

 

E uma vez eu soube-

             o ninho, quase

          

             desintegrado,

                            ainda na árvore.

                                  

Não era sobre trauma, o perfeito

             e então quebrado

 

                         ninho

             em que um humano

                         vivia-

 

             Nascido e iluminado e quebrado

                                      venho eu.

Ilustração: Planet of Hotel.