Tuesday, October 13, 2020

Ainda Mario Montalbetti

 


COMO WALCOTT

Mario Montalbetti

Escribo a mano con un lápiz Mongol No.2 mal afilado

apoyando hojas de papel sobre mis rodillas.

 

Ésa es mi poética: escribir con lápiz es mi poética.

 

Si alguien pregunta como quién quiero escribir

respondo “como Walcott”. Ésa también es mi poética.

 

También, esperar a que ella me muerda el cuello

para comenzar a escribir es mi poética. La oscuridad del mar,

lleno de pliegues, es mi poética. Ella pregunta como quién

quiero escribir

 

y yo respondo “no sé, como Walcott”. O más bien

 

mi poética es di algo visceral de una buena vez,

como en la ópera, sin esperar que ocurra una muerte

especialmente interesante al final: es mi poética.

 

Lo del lápiz mal afilado es indispensable para mi poética.

 

Sólo así quedan marcas en las hojas de papel

una vez que las letras se borran y las palabras ya no

 

se entienden o han pasado de moda o cualquier otra cosa.


COMO WALCOTT

 

Escrevo à mão com um lápis mongol nº 2 mal apontado

apoiando folhas de papel sobre meus joelhos.

 

Essa é a minha poética: escrever a lápis é a minha poética.

 

Se alguém perguntar como quero escrever

respondo "como Walcott". Essa também é a minha poética.

 

Também esperar que ela me morda o pescoço

para começar a escrever é a minha poética. A escuridão do mar

cheia de dobras, é a minha poética. Ela pergunta como quem

quero escrever

 

e eu respondo "Não sei, como Walcott". Ou melhor

 

minha poética é dizer algo visceral de uma só vez,

como na ópera, sem esperar que ocorra uma morte

especialmente interessante no final: é a minha poética.

 

O lápis mal apontado é essencial para minha poética.

 

Só assim ficam marcas nas folhas de papel

uma vez que as letras são apagadas e as palavras já não

 

se entendem ou saíram de moda ou qualquer outra coisa.

 

Ilustração: New York Times. 

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