Tuesday, March 14, 2006

TEMPO DE POESIA

Que todo o tempo era de poesia
Toda manhã, ao acordar, me dizia
Ao limpar a nevoa que o vidro encobria
E espantar o feroz frio que me acometia
Com o calor do ventre, a tepidez macia
Das suas mãos, da fogueira de seu corpo,
Chama que infatigavelmente ardia.

Que todo o tempo era de poesia
Me lembrava enquanto me esquecia
Nas xícaras de café, pão, na magia
Das manhãs em que permanecia
Preso aos lençóis, à cama e via
No tempo que passava a alegria
Da vida que maravilhosa parecia.

E naquele ritmo o tempo se perdia
Sob a cúpula dourada da volúpia
E nos corpos nem nas mãos se percebia
Leve lembrança do mundo, se existia
Ou se era um mito ou falsa alegoria.
Que todo o tempo era de poesia
É prova a dor e o caos pós-harmonia.

A POESIA É ISTO


È isto a poesia:
A magia do instante
Em que teu olhar capta
Toda a beleza do céu, do sol, do ar, da mata.

É isto a poesia:
Saber que há toda esta delícia,
Todo o prazer do amor,
Que resplandece em luz, em flor
E, de repente, murcha num adeus.

É isto a poesia:
Viver o momento intensamente,
Amar delirantemente
E, inesperadamente, perceber
Como a vida é curta
E mergulhar no nunca mais.

Monday, March 13, 2006

INSTANTÂNEO

No meio da festa tudo muda.
A morte, com sua foice imprevista,
Faz uma visita
E a satisfação se transforma em dor.
A felicidade, como o amor,
Todos sabem breve
E a terra, que dizem leve,
Pesadamente cobre
A alegria e a vida que havia.
No sorriso, que esquecido,
Permanece apenas na fotografia.

Sunday, March 12, 2006

CENA NOTURNA

E foi assim que na praia
Nós encontramos sozinhos...
Noite negra,
Areia alva,
Jangadas quietas,
Nenhum som, voz
E o gosto da tua boca
Me contando os segredos do mar.
Uma estrela indiscreta iluminou nosso amor
E a lua, recatada, entre as nuvens se
escondeu
Uma canção de amor provinda não sei
de onde
Nossos sonhos embalou.
A noção do tempo se perdeu
Só me lembro de tua voz rouca e
enternecida:
-Meu amor como é linda a vida!

SOBRE UM ADEUS


Nos teus olhos azuis havia lendas,
Antigos contos de fados e de fadas,
Magia, luzes, danças, contendas,
Cristais de copos mal quebrados
Que insinuavam as paixões mais plenas.
Na noite, então se cheia estava a lua
Um seresteiro vagava pela rua
Encantando os corações apaixonados
Que suspiravam pelo seu amor
Quando o violão soava encantador
Por sob as copas frondosas das mangueiras.
Ainda quis dizer, sem muito alarde,
Espera mais um pouco...Vai mais tarde,
Mas era tarde mesmo e a vida te levou!

Saturday, March 11, 2006

CONTRAPONTO FRANCISCANO


Se apresse, ligeiro,
Que tudo é pra já
O amor requer pressa
Não pode esperar sem gritar.
Em caixas, armários,
No fundo do mar
Na ausência de carinho
Se extingue no ar
E morre sem jeito de tanto chorar.

Thursday, March 09, 2006

UMA POETISA PERUANA



XXIV
Magdalena Chocano

Yo soy intratable
ninguna luz me alumbra

El corazón puro es un cuchillo acezando
navegable incrustación del mar
Yo soy transparente
ninguna luz me evade

Óyeme espora habitante
no sé si soy eterna no estoy segura
Quien a Sí Se crea a Sí Se destruye

Materia es energía
Luz es energía
Materia es luz
Círculo de tiza donde nada concluye

Estoy formándome/ estoy creciendo
mi cabeza enterrada empieza a abrir los ojos
voy a reunir las partes todas de mi cuerpo
voy a contemplarme
Aire/Tierra/Agua/Fuego ¿sabéis de mí?
No. Nadie sabe de mí
Ni yo misma me sé

Auscultemos la fibra cándida y salvaje del silencio
Oye el estampido de esquejes reluciente
vibración de telares
Oye el rumor de epopeyaque transgrede la vida

Huraño exceso el de mi transparencia
asaz deslumbrante
Empáñeme yo?
Hágame soportable?
Vuélqueme opaca y mortal?

Celebro la Arista.
La espina de la rosa.
La punta del proyectil!
Todo lo que vale a la hora de sacudir el polvo de lãs
Sandálias

Al final
Quien a Sí Se crea a Sí reposa
por eso nunca me equivoco o siempre
y la luz desespera de seguirme

XXIV

Eu sou insociável
nenhuma luz me ilumina
O coração puro é uma faca brilhando
Como bóia navegável incrustada no mar
Eu sou transparente
nenhuma luz me escapa

Escuta-me habitante esporo
Eu não sei se sou eterna nem se estou segura
Quem em si crê a si se destrói
Matéria é energia
Luz é energia
Matéria é luz
Círculo de giz de onde nada se conclui

Eu estou me formando / crescendo
Com a cabeça enterrada começo a abrir os olhos
Vou reunir as partes do meu corpo
Eu me contemplarei

Ar / Terra / Água/ Fogo, sabes de mim?
Não. Ninguém sabe de mim
Nem eu mesma sei de mim mesma

Auscultemos a fibra cândida e selvagem do silêncio
Escutemos o estampido de velozes relampagos
vibração de teares
Escutemos o rumor da epopéia que transgride a vida

Excesso insociável de minha transparência
Assaz deslumbrante

Vai me empanar?
Me fazer suportável?
Me tornar opaca e mortal?
Eu celebro a radicalidade.
O espinho da rosa.
A ponta do projétil!
Tudo o que vale na hora de sacudir o pó das
sandálias

No fim
Quem em si crê em si repousa
por isto nunca me equivoco ou sempre
e a luz se desespera ao me seguir inutilmente.

Tuesday, March 07, 2006

PRAZER


Exponho apenas os meus sonhos
Que, minhas feridas, se guardam em mim
nas cicatrizes.
E, se doem, quando faz frio,
Rio da minha dor,
Que dor maior é a angústia de viver
De saber que, entre um silêncio e outro,
Posso falar todas as palavras,
Amar todos os amores,
Sonhar todos os sonhos
E não ter medo de dizer sim
Ao gosto amargo do prazer,
Que é o gozo dos sentidos,
Deste estranho animal chamado homem.

Sunday, March 05, 2006

PERDIÇÃO

...e as lágrimas que não vem
não significam ausência de tristeza
são mais frutos da alma presa
da qual não brota coisa alguma...
Vida que percorro em tombos,
febril, veloz no meu cansaço.

Ah, sei que, aos poucos, me desfaço
e não disfarço
o mal que me corrói de saber
que me acabo vivendo um mau viver.
Limpo o corpo no prazer torpor
de explodir no gozo embriagador
sujando a alma que nunca se enganou.

...porque tardam tanto a morte e o amor?

Saturday, March 04, 2006

SONHO GREGO


Uma cadeira azul de palhinha
Em Kos Adosi
Sob a roseira
De rosas cor de rosa e vermelhas
É o paraiso.
Se você estiver junto
O céu alcanço
E, se tocar uma música grega,
Como Zorba danço.

Friday, March 03, 2006

THE BARBARIANS ARE COMING


THE BARBARIANS ARE COMING
Marilyn Chin
War chariots thunder, horses neigh, the barbarians are coming.

What are we waiting for, young nubile women pointing at the wall,
the barbarians are coming.

They have heard about a weakened link in the wall.
So, the barbarians have ears among us.

So deceive yourself with illusions: you are only one woman,
holding one broken brick in the wall.

So deceive yourself with illusions: as if you matter,
that brick and that wall.

The barbarians are coming: they have red beards
or beardlesswith a top knot.

The barbarians are coming: they are your fathers, brothers,
teachers, lovers; and they are clearly an other.

The barbarians are coming:
If you call me a horse, I must be a horse.
If you call me a bison, I am equally as guilty.

When a thing is true and is correctly described, one doubles
the blame by not admitting it: so, Chuangtzu, himself,
was a barbarian king!

Horse, horse, bison, bison, the barbarians are coming—
and how they love to come.

The smells of the great frontier exalt in them!

OS BÁRBAROS ESTÃO VINDO

Carruagens de guerra, cavalos relinchantes, os bárbaros estão vindo.

Por que estamos esperando nós, jovens mulheres núbeis, apontando o muro,
os bárbaros estão vindo.

Eles ouviram falar da frágil ligação debilitada no muro.
Assim, os bárbaros têm ouvidos entre nós.

Assim os enganemos com suas ilusões: você é só uma mulher
com um tijolo quebrado segurando o muro.

Assim os enganemos com suas ilusões: como se a você importasse
aquele tijolo e aquele muro.

Os bárbaros estão vindo: eles têm barbas vermelhas ou são imberbes
como um nó de topo.

Os bárbaros estão vindo: eles são como seus pais, irmãos,
professores, amantes; e eles são claramente um outro.

Os bárbaros estão vindo:
Se você me chamar um cavalo, eu devo ser um cavalo.
Se você me chamar um bisão, eu sou igualmente culpada.

Quando uma coisa é verdade e é descrita corretamente, a pessoa dobra
sua culpa em não admitir isto: assim, Chuangtzu, ele mesmo,
era um rei de bárbaro!

Cavalo, cavalo, bisão, bisão, que os bárbaros estão vindo-
e como eles amam vir.

Os aromas da grande fronteira se glorificam neles!

TEMPO


Te abandonas molemente aos afagos.
Percebo que teus seios são montanhas,
Teu ventre, um vale e, quando me apanhas,
Que teus olhos são dois enormes lagos.

Quando, então, danças no escuro
No ritmo febril de tua respiração
Teu sangue é uma lava, teu corpo, um vulcão
E no teu corpo o tempo está seguro.

Depois mais mole, e mesmo saciada,
Um sorriso, ou melhor, uma flor
Desabrocha como fruto do amor
E o tempo parece que não é mais nada!
(De Apocalypse, Editora Zanzalás).

IMAGEM

Imagem –
Eis o deus da falta de substância.
Procuro o sumo da realidade
Por detrás de signos
Que escondem a fome multiplicada
de milhões.

Imagem de televisão:
Do diplomata,
Que impecavelmente garante,
Por si e por seu passado,
Que todos estão errados
(Só ele não)
Que não houve o que houve.

Quedo-me atônito diante da versão
E os fatos que explodem no meu rosto
São fragmentos de uma manchete
que não é impressa
E eu, perante tantos eus despersonalizados,
Também tenho medo de fragmentar-me
De também despertar
um dia
apenas uma imagem.
(De Apocalpse)

Thursday, March 02, 2006

NO RETROVISOR


Que é o amor, menina?
Que é o amor?
É tomar estricnina
Tomar banho de vapor
Ou será pegar o bonde
Que vai pra Santa Tereza?

Sem resposta vou ficando
E insisto em perguntar:
Moça que vai pro Pará
Moça, moça o que é o amor?
Lá se foi sem dizer nada.

Meu senhor o que é o amor?
Será o paõ, o vinho, a oração, o pecado?
Mais um que ficou calado.
Meu velho o que é o amor?
Olhou-me desconfiado,
Com uma olhar embaçado,
E completou com um gesto
De quem só sente saudade:
-O amor é algo bom
Que está sempre no passado.

COMO O CACHORRO ATRÁS DO RABO

Porto Velho não é mais a mesma:
Não tem mais festas,
Não tem mais mulheres,
Não tem mais cerveja
Nem dinheiro-
Dizem todos os clientes dos doleiros,
Mas nada tem afetado os sonhos dos noiados.
Ouro não há mais.
Não há mais luar,
Poesia já não há:
Onde estão os olhos lindos de Maria?
Meu amigo Lito
Já não acredito no amanhecer
Nem que uísque faça mal.
Ora veja,
Como está mais moço o Juvenal,
Porém, para lhe imitar, vou me mudar
Para outro hemisfério
Porque aqui todo palhaço
É sempre sério.
Não me leve a mal
E que se foi mais um carnaval.
Deve ser que é março,
Um mês imoral,
Que me deixa assim
Atrás de tudo que corre de mim!
(Versos de uma música nunca musicada).

Tuesday, February 28, 2006

AMOR DE CARNAVAL


Carnival man

by Carole Z. Spinelli

i fell in love with a carnival mans
lick as glass
bold and brass
narrow hip
sample lips
muscled arms
wicked charms

step right up, lady fair
raven hair,
lovely eyes
win the prize,
try your luck
just a buck

i fell in love with a carnival man
smiling wide
reeking pride
cigarette
cool coquet
curly hair
comely snare

step right up, lose my turn
feel it burn, give some more
play the whore, one more shot
all i've got

i fell in love with a carnival man
all the while
seeping guile
plays the game
feels no shame
gets it on
then he's gone

Folião
Eu me apaixonei por um folião
liso como vidro
audaz e de bronze
quadris estreitos
lábios amplos
braços musculosos
de encanto feiticeiro

Passos adiante, senhora vaidosa,
negros cabelos, olhos encantadores
ganhe o prêmio, tente sua sorte
apenas um macho

Eu me apaixonei por um folião
sorrindo largamente
com orgulho fedido a
cigarro
livremente brincalhão
cabelo encaracolado
armadilha graciosa

Passos adiante, perdi minha vez
Senti seu calor, e pedi mais
Joguei como uma puta, disparei um tiro a mais
dei tudo que eu podia dar

Eu me apaixonei por um folião
durante todo tempo
escoava astúcia
joguei o jogo
sem sentir vergonha
me agarrei nele
e então ele se foi.

Monday, February 27, 2006

A ESPERANÇA SEMPRE MORRE


O bloco dos Sem Esperança
dança no carnaval da sorte
E seu samba enredo tem uma
rima de medo
Uma ponta de ironia
rasgando a falta de futuro.
Seu mestre- sala cala
o mundo incontido de tristeza
Que a porta-bandeira faz sambar
porquê outro jeito não há.
O tamborim não toca,
O afoxê não chia,
O puxador não puxa
E os pés de Maria não deslizam.
Só as fantasias vermelhas de sangüe
tem um brilho sã
Que se esparrama pela avenida
na manhã
Num alvorecer tardio, inesperado
Que resulta numa convulsão
de som, de luz, de cor, de vida
Ressuscitando os mortos de cansado
Que, embalados, pela música
que se espalha
Se apegam na fé como uma migalha
Que resgata o sonho,
Mas, a esperança sempre corre em vão,
E quando surge da euforia a sensação
Vem a quarta-feira
Pra acabar com a brincadeira!

Saturday, February 25, 2006

O CARNAVAL, Ó CARNAVAL



Sim. Eu deveria estar no Rio de Janeiro.
Sim. Loucamente me preparando para desfilar na Vila Isabel.
E, certamente, estaria ébrio e cantando, dançando, rindo de todas as coisas
Como qualquer outro carnavalesco bobo.
Nada é como se planeja
E, agora, veja
Por causa de um mosquito, uma malária, vou ver tudo pela televisão.
Soy Loco por Ti, América,
Não passou de uma ilusão.

O carnaval serve para ver as coisas claramente.
As vidas emprestadas, as máscaras, as vozes, os sons, o estar ou não estar,
Em toda parte, serve para mostrar que a vida é uma arte
Nada fácil.
As fantasias, as baterias que arrepiam
São como os corpos e as almas que se extraviam
Apenas uma metáfora da vida.
No fim a quarta-feira, o desengano, querida.

As coisas de antes se recolocarão depois.
Sabe aquele amor de nós dois foi ilusão.
E até hoje sinto a falta de seu corpo, de suas mãos,
De seu olhar e do carinho que não há mais.
E bem que me alertava que nós íamos morrer
E que não dava pra comprar o prazer, a alegria,
O gozo, a vontade de amar que, agora, dorme em paz.
Como o carnaval que perdi o amor se foi.

E agora me dou conta de que de nada valem
Os carros alegóricos, as vistosas fantasias, as palmas da multidão.
Nada vale estar nas vitrines brilhantes
Quando logo mais, em instantes, estará desfeito o mundo de ilusão.
Mesmo sob os gritos de “é campeão”, em meio as cores, aos adereços, à música e à comemoração Não poderemos afastar o pensamento da morte e da solidão
E que, na quarta-feira, desarmados e infelizes,
A vida volta ao normal
E como recordação as fotos de mais um carnaval.
E, como são todos iguais, e completamente diferentes,
Não me sinto mais tão revoltado intimamente
E, mesmo sem beber,
Visto o abadá do Bloco da Mucura
Pensando que a vida é bela, ó criatura.

NATURAL NO CARNAVAL



Não sei o que sinto
Não sei o que penso
Neste carnaval sou só reza
E incenso

E a paz de ficar deitado a olhar
O luar que baila, flutua
Ao som dos blocos
Na rua

Me imagino beijando a boca
De alguém sob a cortina
E me espanto de que seja
Tão menina!

Uma antena, minha cabeça,
Sem a sintonia do certo
O perfume de um corpo
Sinto perto

E no entanto em nada
Presto atenção
Se é sonho, ou não,
Só almejo fazer amor
No chão

ÊXTASE

Quando vens, manhosa, de braços abertos
Como uma criança que só quer carinho
Te enlaço suave e beijo de mansinho
Sabendo que os dias doces são incertos.
Saboreio o momento como a um manjar,
A vista já tonta, em delírio, alucinado,
Subo aos céus como um puro, sem pecado
Como só é dado a quem aprende a amar.
Vens, menina flor, espantar o meu espanto,
De que me presenteis com todo seu encanto
Com teus seios, com este corpo de mel puro.
Ah! Cada beijo que te dou sou mais criança
E cresce a febre e o prazer da amorosa dança
Que explode, no gozo, iluminando o escuro.

Monday, February 20, 2006

O ARMÁRIO E O ESPELHO


Com você foi diferente,
Filhinha,
Desde pequena acostumada
A ser a mimadinha da mamãe
Brincando com bonecas
Tesourinhas, roupas, panos...

Ah! Você não sabe o drama
Da primeira vez
De se usar uma calcinha,
Uma saia, um soutien, um salto alto!
Do medo de se esparramar no asfalto
Ou ser chamada de bruxa ou bicha!

Confesso para você
Que quase desisti...
Tremia de receio e de vergonha.
Salvou-me o espelho
No qual, felizmente, vi
Uma mulher desajeitada- é verdade-
Mas, visivelmente, uma mulher!
(De Poemas Mal Comportados).

Sunday, February 19, 2006

BALADA DOS ANIMAIS


Balada Dos Animais
Eu sou um boizinho do Norte
Você, uma vaquinha do Sul.
Você quer que me comporte.
Eu só vejo tudo azul
E tudo azul é de morte!
Se eu me chamasse Raul
E fosse forte, bem forte...!

Eu sou um bodinho contente.
Você uma cabrinha esperta.
Você me quer ver na frente
Eu só me importa o que aperta
E tudo é só diferente!
Ai! Se fosse, ao menos, Horta
E me chamasse tenente!

Eu sou um porquinho bonito
Você, uma porquinha gostosa.
Você quer pompa e rito
Eu só sinto o que se goza
E gozo até o infinito!
Se dizem de mim Barbosa
Teria bem mais espírito!

Eu sou um gatinho infiel!
Você, uma gata inconstante.
Você me quer feito mel
Eu sou só desodorante
E de um cheiro cruel!
Se de mim dizem Amarante
Teria um melhor papel?

Eu sou um leão mansinho
Você uma leoa espantada.
Você exige carinho
Só gosto de dar pancada
E tudo morre no vinho!
Se me denominam Almada
Seria um melhor vizinho?

Eu sou um rato manhoso
Você uma rata mimosa.
Você me exige vaidoso
Minha roupa é horrorosa
E tudo é tão doloroso!
Se gritam por mim: Tolosa
Seria mais carinhoso?

Eu sou um cachorro vadio
Você uma cadela carente.
Você me espera no cio
O meu amor é demente,
Mas a raiva desafio!
Podem me chamar Vicente
Se de mim não desconfio!

Eu sou um macaco devasso
Você uma macaca ótima.
Você me prepara um laço
Mas eu só passo por cima
E tudo vai para o espaço!
Podem me chamar de Lima
Que nem assim sou um fracasso!
(Do livro Imagens da Incerteza)

Thursday, February 16, 2006

A POESIA CUBANA DISSIDENTE


Uma Poesia de Manuel Vásquez Portal
Porque todo há ocurrido: catástrofes y guerras, / y todo se ha cantado em himnos y plegarias, / detesto los discursos, pero tengo derecho / al cristal com que veo. Y no hablaré mucho / ni muy alto. Afirmaré tan sólo que me hicieron / un mundo al pie de la tribuna y se han quedado / huera las palabras. Los héroes de mi infancia / no son tan legendarios ni el monstruo era tan fiero. / Una aventura más: un Quijote y mil Sanchos, molinos / y molinos. Cada Sancho despedazó su ínsula, / y Don Alonso no tuvo más que repartir. Cruzamos / el delirio y pedimos que el cielo nos brinde otro Quijote.

Outro Quixote
Porque tudo há ocorrido: catástrofes e guerras
E tudo foi cantado em hinos e cantorias
Detesto os discursos, porém tenho direito
Ao cristal com que vejo. E a não falar muito
Nem muito alto.
Afirmar que só me fizeram
Um mundo ao pé da tribuna e me deixaram
Fora das palavras.
Os heróis da minha infância
Não são tão legendários
Nem o monstro era tão feroz.
Uma aventura a mais: um Quixote e mil Sanchos e moinhos
e moinhos.
Cada Sancho despedaçou sua ilha
E D. Alonso não teve mais o que repartir.
Cruzamos
E pedimos aos céus que nos mande outro Quixote.

Wednesday, February 15, 2006

FESTA DOS MALDITOS

Vou reunir os malditos numa festa.
Nada de certinhos.Nada de rosas.
Tragam-me os espinhos,
As pessoas doridas e dolorosas -
Únicas que tem o que dizer.
Nem importa que gritem que meu gasto é exagerado
Que, por certo, tem algo acobertado
Sob tão estranha proteção.
Só dos malditos que se desconfiam.
Dos que dizem não
Onde o sim é convenção
Que desatam sua fúria como um rio
Desobedecem para uma futura construção
Que nega a realidade bem arrumada.
Venham negrada, venham peões,
Correi prostitutas, loucos, punguistas,
Sonhadores, promíscuos, artistas...
Acorrei marginais, drogados, salafrários, ladrões...!
Mendigos , bastante mendigos.
Famintos, bastante famintos.
Malditos, bastante malditos.
Que arrassem, que maldigam, estraguem, estraçalhem
A festa é isto:
O podre mais profundo da sociedade
Por um momento dançando a ilusão da vida.
Bêbados, sim Mas quem não é ébrio?
Loucos, sim. Mas quem não é louco?
Os que constroem bombas?
Os que que cuidam de dinheiro?
Os que correm atrás do poder?
Meus grandes malditos, vamos!
Façamos da nossa irrealidade
Nossa bandeira,
Criemos um carnaval sem quarta-feira,
Façamos uma revolução sem armas e sem sangue
Dançando, cruzando os braços,
Desrespeitando o normal
Diante da impotência geral dos comuns.
(Do livro Imagens da Incerteza).

AOS MALDITOS


O ouro, o dólar, o franco, a libra, a lira
-São entidades fantásticas em curvas
Estatísticas em que minha razão delira
Entre potes, arco-íris, trovões, chuvas.
Como tudo me confunde! Altas margens,
Equilíbrios delicados, spreads, taxas de juros
Às vezes me soam como ridículas miragens
Que, no entanto, resistem aos esconjuros.

Negócios, negócios são apenas negócios -
Repetem-se por luas, por quadrantes
Almas inteligentes, enfáticos beócios,
Movem empresas, lucros gigantes,
E tudo se vende, compra, embala
Por escritórios, lojas, supermercados
Onde vale e falam a velha fala
Do dinheiro que afasta os delicados.

Limitado e vasto mundo do poder!
O cultivo silencioso do segredo
Do movimento, do sopro do querer
Que com uma ordem cria dor e medo
Sem que tenha ciência ou leve nojo,
De vez que o lar, a ordem são assépticos
E os novos guerreiros cuidam do despojo
E do contentamento de seus gostos estéticos.

Meu poema, minhas palavras sem valor
Não encontram procura no mercado
Tão inúteis quanto de graça, dado, o amor,
Que só interessa se tem preço marcado.
Assusto-me de que se calem, acostumadas,
As pessoas com a dor e a insensibilidade
E as revoltas comprimidas, mudas, caladas
Se esgotem no sexo, no álcool ou na maldade.

Mudar, porém... só de negócios se pensa.
Qualquer mudança, no fundo, encoberta
Ostenta para algum grupo recompensa
Ou serve para escapar da dívida que aperta.
A vida é lucro - diz o grande empresário.
A vida é o salário - diz o pobre trabalha/dor
Envolvidos no embrutecimento diário
Nenhum seque vive o melhor: o amor.

De forma que a vida segue silenciosa
Igual na ausência de seiva e conteúdo.
Diferente a embalagem, em celofane, da rosa
Visando alcançar um preço mais graúdo.
Enfim numa civilização assim apenas resta
A possibilidade dos que quebram ritos
Dos que marginais fazem do dia a festa
Do diverso. Felizes e ditosos os malditos!
(Do livro Imagens da Incerteza).

Sunday, February 12, 2006

DYLAN THOMAS: ARTE & OFÍCIO


IN MY CRAFT OR SULLEN ART

DYLAN THOMAS

In my craft or sullen art
Exercised in the still night
When only the moon rages
And the lovers lie abed
With all their griefs in their arms,
I labor by singing light
Not for ambition or bread
Or the strut and trade of charms
On the ivory stagesBut for the common wages
Of their most secret heart.

Not for the proud man apart
From the raging moon I write
On these spindrift pages
Nor for the towering dead
With their nightingales and psalms
But for the lovers, their arms
Round the griefs of the ages,
Who pay no praise or wages
Nor heed my craft or art.

NO MEU OFÍCIO OU ARTE

No meu ofício ou arte amarga
Exercido na noite silenciosa
Quando somente a lua alucinada
E os amantes nos leitos estendidos
Com suas mágoas entre os braços,
Eu trabalho sob a luz cantando
Não por glória ou ambição
Nem por vaidade ou comércio de encantos
Sobre palcos de marfim,
Mas pelas ondas comuns
Do meu mais secreto coração.

Não escrevo para o orgulhoso
Homem que se afasta da lua alucinada
Que se esfuma nestas páginas
Nem para os mais nobres mortos
Com seus rouxinóis e salmos

Mas para os amantes e seus braços
Que enlaçam as mágoas da idade
Que não me pagam ou elogiam
Nem prestam atenção ao meu ofício ou arte.

Friday, February 10, 2006

POESIA DE NERUDA PESCADA POR SARAMAR


Poema de Pablo Neruda, inscrito no túmulo de Tina Modotti
“Tina Modottí, hermana, no duermes, no, noduermes.
Tal vez tu corazón oye crecer la última rosa
De ayer, la última rosa de ayer, la nueva rosa.
Descansa dulcemente, hermana.”

“Puro es tu dulce nombre, pura es tu frágil vida.
De abeja, sombra, fuego, nieve, silencio, espuma,
De acero, línea, polen se construyó tu férrea".

Epitáfio de Tina Modotti

Tina Modottí, irmã, não dormes, não, não dormes.
Talvez teu coração ouça crescer a última rosa
De ontem, a última rosa de ontem, a nova rosa.
Descansa, docemente, irmã.

Puro é teu doce nome, pura é a tua frágil vida
De abelha, sombra, fogo, neve, silêncio, espuma
De aço, linha, pólen,em ferro, se construiu tua estrutura.”

Thursday, February 09, 2006

EXIGÊNCIA


Só exijo de ti este
beijo,
Demasiadamente profano,
Que traz em si
a emoção profunda
do desejo.

Só exijo de ti esta
língua,
Molhada e sensual,
Que é vermelha
por puro complemtento
da espécie.

Só exijo de ti estas
mãos,
Carinhosas e velozes,
Que, ao menor toque,
arrebatam e desnudam
por encanto.

Só exijo de ti este
corpo,
Macio e gostoso
Que guarda docemente
o mistério fecundo
do prazer.
(De Viagem aos Sonhos de Ninguém)

Sunday, February 05, 2006

OUTRO POEMA DE LUIS RAÚL CALVO


Poema XII
Luiz Raúl Calvo

Ese hombre que hoy duerme
en medio de la calle
alguna vez supo disfrutar
de los placeres terrenales.

Amó a dóciles mujeres
bebió finos licores
dilapidó lo propio
y lo ajeno, como queriendo
negar aquello de que
nada es eterno en la vida.

En otros tiempos
al ver a otros hombres
durmiendo como él duerme ahora
solía repetir en voz alta:
"Algo habrán hecho para merecer esto".

Poema XII

O homem que hoje dorme
no meio da rua
uma vez já soube desfrutar
dos prazeres terrenos.

Amou doces mulheres
bebeu finos licores
dilapidou o próprio
e o alheio, como querendo
negar o fato de que
nada é eterno na vida.

Em outros tempos
ao ver outros homens
dormindo como ele dorme agora
costumava repetir em voz alta:

“Alguma coisa fizeram para merecer isto”.

Friday, February 03, 2006

NÃO TÃO ABSTRATO...


LINK

Com seus imensos olhos infantis,
E um ar de doçura que sabia a mel,
Me pediu:
-Deixa eu colocar seu blog no meu blog?
Distraído permaneci fitando o baton vermelho provocante de seus lábios.
-E você coloca meu blog no seu...
Balancei a cabeça num consentimento mudo,
Embora meu pensamento estivesse longe de qualquer coisa virtual
E o nível da colocação me parecesse extremamente abstrato.

(De Poemas Mal Comportados).

Wednesday, February 01, 2006

O JAZZ NA MEIA-NOITE

Round About Midnight

Bob Kaufman

Jazz radio on a midnight kick,
Round about Midnight.

Sitting on the bed,
With a jazz type chick
Round about Midnight,

Piano laughter, in my ears,
Round about Midnight.

Stirring up laughter, dying tears,
]Round about Midnight.

Soft blue voices, muted grins,
Excited voices, Father's sins,
Round about Midnight.
Come on baby, take off your clothes,
Round about Midnight.


Rolando sobre a Meia-noite

Como um golpe o jazz, na rádio, na meia-noite,
Rolando sobre a Meia-noite.

Na cama sentadinho,
Com um jazz alegre como um pintinho
Rolando sobre a Meia-noite,

O piano dá risadas em minhas orelhas,
Rolando sobre a Meia-noite.

Induzindo risadas mais altas, servindo lágrimas,
Rolando sobre a Meia-noite.

Suaves vozes azuis, sorrisos internos,
Vozes excitadas, pecados paternos,
Rolando sobre a Meia-noite.

Venha minha criança, tire suas roupas,
Rolando sobre a Meia-noite.

Tuesday, January 31, 2006

MARGARET WALKER


I Want to Write

Margaret Walker

I want to write
I want to write the songs of my people.
I want to hear them singing melodies in the dark.
I want to catch the last floating strains from their sob-torn
throats.
I want to frame their dreams into words; their souls into notes.
I want to catch their sunshine laughter in a bowl;
fling dark hands to a darker skyand fill them full of starsthen
crush and mix such lights till they become
a mirrored pool of brilliance in the dawn.

Eu Precisava Escrever

Eu precisava escrever
Eu precisava escrever as canções do meu povo.
Eu precisava ouvir aquelas melodias cantadas na noite.
Eu precisava segurar as últimas notas fluindo de suas chorosas gargantas.
Eu precisava unir os sonhos naquelas letras; suas almas nas notas.
Eu precisava segurar suas risadas de sol numa tigela;
Arremessando as negras mãos para um ainda mais negro céu
Para enchê-lo e povoar de estrelas
Então as migalhas e a mistura de cada luz irão fazer
Num espelho de água refletir o brilho do amanhecer.

Monday, January 30, 2006

AMOR, BEBIDA & PRAZER


The Mad Lover

Alexander Brome

I HAVE been in love, and in debt, and in drink,
This many and many a year;
And those three are plagues enough, one would think,
For one poor mortal to bear.
'Twas drink made me fall in love,
And love made me run into debt,
And though I have struggled and struggled and strove,
I cannot get out of them yet.
There's nothing but money can cure me,
And rid me of all my pain;
'Twill pay all my debts,
And remove all my lets,
And my mistress, that cannot endure me,
Will love me and love me again,--
Then I'll fall to loving and drinking amain.


O Louco Amante

Eu estava apaixonado, em débito e embriagado
Naquele ano e em muitos outros anos;
E as três pragas juntas eram bastante, devia ter pensado,
Para um pobre mortal carregar.
O excesso de bebida me fazia, em amor, cair
E o amor aumentava veloz meus débitos,
E pensava que lutava e lutava sem conseguir competir,
Eu não podia escapar do buraco que ia me tragar.
Não havia coisa alguma, porém que o dinheiro não pudesse curar,
E livre de toda minha dor;
Em todos meus débitos passado o apagador,
E removida todas minhas contas,
A minha amante, que jamais me resistiu,
Voltou a me amar, amar e amar novamente-
Então de novo amando e bebendo me vi contente!

Saturday, January 28, 2006

LIVRO...LIVROS


A Book

Emily Dickinson

THERE is no frigate like a book

To take us lands away,

Nor any coursers like a page

Of prancing poetry.

This traverse may the poorest take

Without oppress of toll;

How frugal is the chariot

That bears a human soul!

UM LIVRO

Não há nenhuma fragata como um livro

Para tomar nossas terras sempre,

Nem nenhum piloto como uma página

De empertigada poesia.

Este caminho pode ser feito mesmo pelo mais pobre

sem opressão ou pedágio;

Como é frugal a carruagem

Desses ursos da alma humana!

Friday, January 27, 2006

JOHN ASHBERY


What Is Poetry

John Ashbery

The medieval town, with frieze
Of boy scouts from Nagoya? The snow

That came when we wanted it to snow?
Beautiful images? Trying to avoid

Ideas, as in this poem? But we
Go back to them as to a wife, leaving

The mistress we desire?
Now theyWill have to believe it

As we believed it. In school
All the thought got combed out:

What was left was like a field.
Shut your eyes, and you can feel it for miles around.

Now open them on a thin vertical path.
It might give us--what?--some flowers soon?

O que é poesia

A cidade medieval, com friso
De escoteiros de Nagoya? A neve

Que veio quando nós querámos ver nevar?
Lindas imagens? Tentando evitar

Idéias, como neste poema? Mas nós
Voltamos para elas como para a esposa, partindo

A amante que nós desejamos? Agora eles
Terão que acreditar nisto

Como nós também acreditamos. Na escola
Todo o pensamento foi varrido para fora:

O que foi esquerda era como um campo.
Feche seus olhos, e poderá sentir milhas ao redor.

Abra-os então sobre um estreito caminho vertical.
Poderia nos dar-o que?-algumas flores tão cedo?

Wednesday, January 25, 2006

DOIS POEMAS MINIMALISTAS DE CREELEY


A Song

Robert Creeley

I had wanted a quiet testament
and I had wanted, among other things,
a song.That was to be
of a like monotony.
(A grace
Simply. Very very quiet.
A murmur of some lost
thrush, though I have never seen one.

Which was you then. Sitting
and so, at peace, so very much now this same quiet.

A song.
And of you the sign now, surely, of a gross
perpetuity
(which is not reluctant, or if it is,
it is no longer important.

A song.
Which one sings,
if he sings it,
with care.

Uma Canção

Eu tinha desejado um testamento quieto
E eu tinha desejado, entre outras coisas,
Uma canção.
Que era para ser
Como a monotonia.
(Uma graça
simples. Muito, muito quieta.
Como o murmúrio de algum perdido
Tordo, embora nunca tenha visto um.

Qual era você, então. Sentada,
E desta maneira, tão em paz, assim, como agora, com a mesma quietude.

Uma canção.

E de você o sinal agora, certamente, de uma bruta
Perpetuidade

(o qual é não relutante, mas se for,
isto não tem importância nenhuma).

Uma canção
Que se canta e quem a canta
Canta com todo carinho.

LIFE
For Basil

Specific, intensive clarity,
like nothing else
is anything but itself —

so echoes all,
seen, felt, heard
or tasted, the one
and many. But

my slammed fist
on door, asking
meager, repentant
entry wants more.


VIDA

Para Basil

Específica, intensa claridade,
Como nada mais,
Coisa alguma,
Pode em si mesmo ser—

São ecos tudo,
O visto, o sentido, o escutado
Ou o provado, uma só
E muitas vezes. Mas

Meus golpes de punho sobre
A porta, são um pedido
Fraco, arrependido para entrar
De quem deseja mais.

UM MODERNO POETA AMERICANO


Place

Robert Creeley

This is an empty landscape,
in spite of its light,
air, water-
the people walking the streets.

I feel faint here,
too far off, too
enclosed in myself,
can’t make love a way out.

I need the old time density,
the dirt, the cold,
the noise through the floor-
my love in company.

Local

Esta é uma paisagem vazia,
Apesar das luzes,
Do ar, da água-
As pessoas caminhando pelas ruas.

Eu, aqui, me sinto fraco,
Tão distante de mim, tão
Fechado em mim mesmo,
Sem ter no amor uma saída.

Eu preciso da consistência dos velhos tempos,
A sujeira, o frio,
Os barulhos através do piso-
Meu amor na tua companhia.

Tuesday, January 24, 2006

UMA DOSE DO ROMANTISMO DE BUKOWSKI






A Love Poem

Charles Bukowski

all the women
all their kisses
the different ways they love and
talk and need.

their ears
they all have ears
and throats and dresses
and shoes and
automobiles
and ex-husbands.

mostly
the women are very
warm they remind me of
buttered toast with the butter
melted
in.

there is a look in the
eye: they have been
taken they have been
fooled. I don’t quite know what todo for
them.

I am
a fair cook a good
listener
but I never learned to dance – I was busy
then with larger things.

but I’ve enjoyed their different
beds
smoking cigarettes
staring at the ceilings.
I was neither vicious
nor unfair.
only a student.

I know they all have these
feet and barefoot they go across the floor as
I watch their bashful buttocks
in the dark. I know that they like me,
some even love me
but I love very few.

some give me orange and vitamin pills;
others talk very quietly of childhood
and fathers and landscapes; some are almost
crazy but none of them are without
meaning; some love well, others not so;
the best at sex are not always
the best in otherways; each has limits
as I have limits and we learneach other
quickly.

all the women
all the women all the bedrooms
the rugs the photos
the curtains, it’s something like a church
only at times there’s
laughter.

those ears those
arms those
elbows those eyes
looking, the fondness and the waiting
I have been held
have been held.

Poema de Amor

Todas as mulheres
Com todos os seus beijos
E suas maneiras diferentes de amar,
Conversar e ter necessidades.

Com suas orelhas que todas têm
Orelhas e
Gargantas, vestidos,
sapatos,
Automóveis e ex-
Maridos.

Principalmente
As mulheres são muito quentes
Elas me lembram torradas
Com manteiga derretida
Nelas.

Há mesmo um quê igual no
Olhar: elas parecem
Que foram tidas, no passado,
Como tolas. Não sei mesmo
O que fazer
Por elas.

Eu sou
Um bom cozinheiro,
Um bom ouvinte,
Mas nunca aprendi a dançar-Eu estava
Ocupado com problemas maiores.

Mas tive prazer em suas camas variadas
De fumar cigarros
Fitando os tetos.
Eu nunca fui nocivo
Nem desonesto.
Só um estudante.

Eu sei que todas têm pés,
E com eles descalços passeiam pelo assoalho
Enquanto observo as sombras de suas bundas
Na penumbra. Sei que gostam de mim
Algumas até me amam
Mas eu amo muito poucas.

Algumas me dão laranjas e
Pílulas de vitamina;
Outras falam mansamente da infância,
Dos pais, das paisagens. Algumas
São quase malucas, mas nenhuma delas
Completamente desprovida de razão.
Algumas amam bem, outras nem tanto;
As melhores no sexo nem sempre
São as melhores em outras coisas; Cada uma delas
Tem limites como tenho meus limites
E nós aprendemos
Rapidamente.

Todas as mulheres todas as mulheres
Todos os quartos de dormir, os tapetes,
As fotos, as cortinas são, mais ou menos,
Como uma igreja onde somente,
Raramente, se escuta
Uma risada.

Essas orelhas esses
Braços esses
Cotovelos esses
Olhos olhando, a ternura
E a espera
É o que me tem sustentado,
Me tem sustentado.

Monday, January 23, 2006

OUTRO POETA DA ESPANHA


Muerte en el olvido

Angel González

Yo sé que existo
porque tú me imaginas
Soy alto porque tú me crees
alto, y limpio porque tú me miras
con buenos ojos,
com mirada limpia.
Tu pensamento me hace
inteligente, y en tu sencilla
ternura, yo soy también sencillo
y bondadoso.
Pero si tú me olvidas
quedaré muerto sin que nadie
lo sepa. Verán viva
mi carne, pero será otro hombre
-oscuro, torpe, malo- el que la habita...

Morte no Esquecimento

Eu sei que eu existo
porque tu me imaginas
Eu sou alto porque você me crê
alto, e limpo porque tu me olhas
com bons olhos,
com teu puro olhar.
Teu pensamento me faz
inteligente, e tua sensível
ternura me faz sensível
e bondoso.
Porém se tu me esqueces
Eu estarei morto sem que nada
saiba. Verão viva
minha carne, porém outro homem
-escuro, torpe, ruim - o que a habita...

UM POETA MEXICANO


Por el tiempo pasas

José Carlos Becerra

Por el tiempo pasas, lo cruzas, sales de él,
rozas la superficie de la muerte
y distraída sigues hacia donde no sé si sigues

Eres tu la que cruzas el tiempo,
la que aparta a la muerte como se tratara de una cortina,
la que se destapa el espejo como se tratara de una lata de cerveza que luego
te bebes y la arrojas vacia sobre el asfalto.

Pelo tempo passas

Pelo tempo passas, o ultrapassas, segues além dele,
Roças a superfície da morte
E distraída segues até onde não é possível te seguir.

Tu és a que ultrapassas o tempo
A que separa a morte como se fosse uma cortina,
A que destapa o espelho como se fosse uma lata de cerveja que logo
Bebes e jogas vazia sobre o asfalto.

O GRANDE POETA DA NICARÁGUA


Melancolia

Rubén Dário

Hermano, tú que tienes la luz, dame la mia.
Soy como um ciego. Voy sin rumbo y ando a tientas
Voy bajo tempestades y tormentas
ciego de ensuenõ y loco de armonia.

Ese es mi mal. Soñar. La poesia
es la camisa férrea de mil puertas cruentas
que llevo sobre el alma. Las espinas sangrientas
dejan caer las gotas de mi melancolia.

Y asi voy, ciego y loco, por este mundo amargo;
a veces me parece que el camino es muy largo,
y a veces que es muy corto....

Y en este titubeo de aliento e agonia
cargo lleno de penas que apenas soporto
No oyes caer las gotas de mi melancolia?

Melancolia

Irmão, tu que tens a luz, a minha cede.
Sou como um cego. Vou sem rumo e ando às tontas.
Vou sob as tempestades e tormentas
Cego de sonho e um louco que harmonia pede.

Este é meu mal. Sonhar. A poesia
É a camisa de força de mil portas cruentas
Que levo sobre a alma. As espinhas sangrentas
Deixam cair às gotas de minha melancolia.

E assim vou, cego e louco, por este mundo amargo;
Às vezes me parece que o caminho é muito largo,
E, às vezes, me parece que é muito curto...

E neste titubeio de alento e de agonia
Sigo carregado de penas que apenas suporto.
Não ouves cair às gotas de minha melancolia?

Thursday, January 19, 2006

POESIA ESPANHOLA


Destierro

Juan José Domenchina

Es la noche sin fin, la desvelada
noche, que con sus filos de cuchilla
implacable recorta en amarilla
muerte, nuestra silueta enajenada.

Vivir, cuando vivir no vale nada,
equivale a sembrar , com la semilla
infecunda, el dolor, que tanto humilla;
de una existencia rota e postergada.

Y el sinsomnio repite inexorable
el paso de la vida irrevocable,
que, sin dejarse de sentir, se aleja.

Donde nos llevará, tan sin camino,
tan juguete irrisório del destino,
Nuestra razón destartalada y vieja?

Exílio

É a noite sem fim, a desvelada
noite que, como os fios de uma faca, sela
implacável recorte em amarela
morte, nossa silhueta alienada.

Viver, quando viver não vale nada,
é igual semear, com uma semente
estéril, a dor tão humilhante
de uma existência rota e postergada.

E o insone repete de modo inexorável
o passo da vida irrevogável,
que, sem deixar de sentir, o leva embora.

Onde nos levará tão sem estradas,
irrisório brinquedo do destino, e suas jogadas,
Nossa razão, destrambelhada e velha senhora?


Canción Segunda

Juan Renano

Van cuatro jinetes
por la lejanía

largas capas negras,
negras sombras íntimas.

(Si yo me alejara,
tú me olvidadrias?)

Se oscurece el campo
bajo la llovizna.

Altas sierras negras,
negras las encinas.

(Si estuviera ausente,
tú me olvidarías?)

Tañe la campana
de una vieja ermita.

Campanadas negras,
negra despedida.

(Si yo me muriera,
tú me olvidarias?)

...Los cuatro jinetes
por el campo oscuro
bajo la llovizna.

Canção Segunda

Vão quatro cavaleiros
na distância.

Largas capas negras,
negras sombras íntimas.

(E se for embora
tu me esquecerias?)

Se escurece o campo
debaixo da garoa.

Altas serras negras,
negros os carvalhos.

(Se estiver ausente,
tu me esquecerias?)

Tange a campanhinha
de um velho seminário.

Campanhinhas negras,
negra despedida.

(Se estiver morto,
tu me esquecerias?)

...Os quatro cavaleiros
pelo campo escuro
debaixo da garoa.

Wednesday, January 18, 2006

UM POETA NORTE-AMERICANO


Number 8

Lawrence Ferlinghetti

It was a face which darkness could kill

in an instant

a face as easily hurt

by laughter or light

'We think differently at night'

she told me once

lying back languidly

And she would quote Cocteau

'I feel there is an angel in me' she'd say'

whom I am constantly shocking'

Then she would smile and look away

light a cigarette for me

sigh and rise

and stretchher

sweet anatomy

let fall a stocking

Número 8

Era uma face que a escuridão poderia matar
Num momento
uma face facilmente ferida
pela risada ou luz

'Nós pensamos diferentemente à noite'
ela me disse uma vez
De costas mentindo languidamente

E coquete citaria Cocteau

'Eu sinto que há um anjo em mim' ela diria
'A quem constantemente contrario'

Então ela poderia sorrir e olhar para fora
Aceso o cigarro para mim
O olhar e a inclinação

E, por extensão,
a sua doce anatomia

deixaria cair uma meia-calça

Sunday, January 15, 2006

DIZER HUMANO É DIZER AMIGOS...


RÁFAGAS 9

Camen Moreno Martín (Hannah)

Decir humano, es decir grandeza,
y aceptar la pequeñez,
es sacrificio, y es recompensa,
gemir, reír y esperar...
Decir humano, es decir dudas,
deseos y desnudez.
Decir humano, es decir vida,
es morir y renacer...
Decir humano, es decir grave,
y asumir la levedad,
perseverancia, olvido y queja,
y estar siempre por llegar...
Decir humano, es decir penas,
tristeza y soledad,
desesperanzas, nostalgia y juergas,
llorar, gritar y besar...
Decir humano, es decir madre,
ternura y sensibilidad,
es decir tierra, es decir padre,
y es decir orfandad...
Decir humano, es decir amigos,
lealtad y comprensión,
es decir traiciones, y desencantos,
y no perder la ilusión...
Decir humano, es decir hijo,
y es decir esterilidad,
es decir muerte, es decir vida,
y es decir comenzar...
Decir humano, es podredumbre,
y también divinidad;
carne mordida, por la injusticia,
trabajar y confiar…
Decir humano, es decir noches,
pasiones, odios y amor,
es decir día, fe y esperanza,
y es saber renunciar...
Decir humano, es decir cálido
y una piel junto a otra piel,
sentirse fuerte, débil y amado,
y capaz también de amar...
Decir humano, es decir libre,
y también esclavitud,
valor y lucha, renuncia y duelo,
tener siempre que elegir…
Sólo tu, hoy, igual a mí,
encarnas este decir.
(Este poema nació cómo canción, es decir: tiene música)

RELAMPÂGOS 9

Dizer humano é dizer grandeza,
e aceitar a pequenez,
é sacrifício, e é recompensa,
para gemer, rir e esperar...
Dizer humano é dizer dúvidas,
desejos e nudez.
Dizer humano é dizer a vida,
é morrer e renascer...
Dizer humano é dizer grave,
E assumir a leveza,
perseverança, esquecimento e queixa,
e sempre estar para chegar...
Dizer humano é dizer penas,
Tristeza e solidão,
desesperança, nostalgia e brincadeiras,
Chorar, gritar e beijar...
Dizer humano é dizer mãe,
ternura e sensibilidade,
é dizer terra, dizer pai,
e é dizer orfandade...
Dizer humano é dizer amigos,
lealdade e compreensão,
dizer traições e desencantos,
e não perder a ilusão...
Dizer humano é dizer filho,
é é dizer esterilidade,
é dizer morte, é dizer a vida,
e é dizer começar...
Dizer humano é dizer podridão
e também divindade;
carne, mordida pelo injustiça,
para trabalhar e confiar...
Dizer humano é dizer noites,
paixões, ódios e amor,
é dizer o dia, a fé e a esperança,
e é saber renunciar...
Dizer humano é dizer morno
e uma pele ao lado de uma outra pele,
sentir-se forte, fraco e amado
e também capaz de amar...
Dizer humano é dizer livre
e é também escravidão,
valor e luta, renúncia e duelo,
ter sempre que escolher...
Somente tu, hoje, igual a mim,
Encarnas este dizer.

Saturday, January 07, 2006

UMA POESIA DE HORACIO


1/11
Tu ne quaesieres (scire nefas) quem mihi, quem tibi
finem di dederint, Leuconoe, nec Babylonios
temptarias números. Vt melius quicquid Eric pati!
Seu pluris hiemes seu tibuit Iuppiter ultimam
Quae nune oppositis debilitar pumicibus maré
Tyrrhenum, sapias, uina liques et spatio brevi
spem longam reseces. Dum loquitur, fugerit invida
Aetas: carpe diem, quam minimum crédula postero.

1/11
Não tentes (é inútil) saber do amanhã, do que, Lito Casara,
nos reserva o destino nem mesmo nos horóscopos da Babilônia
e aceita: o que tiver de ser assim será. Quer nos dê mais invernos,
Júpiter, ou somente este que, nas rochas, do rio Madeira as ondas
vão quebrar. Vive, bebe o teu vinho, no curto prazo, no longo,
nunca se sabe. Afinal enquanto loquaz falo o tempo se escoa
Goza teu dia, hoje, que o amanhã é incerto como o vento.

UM POETA DA ITÁLIA


VARIAZIONI SU NULLA
Giuseppi Ungaretti

Quel nonulla di sabbia Che trascorre
Dalla clessidra muto e va posandosi
E, fugaci, lê impronte sul camato,
Sul carnato Che muore, d’una nube...

Poi mano che rovescia la clessidra,
Il retorno por muoversi, de sabbia,
Il farsi argertea tácito di nube
Ai primi brevi lividi dell’alba...

La mano in ombra la clessidra volse,
E, de sabbia, il nonulla Che trascorre
Silente, é única cosa che ormai s’oda
E, essendo udita, in buio non scompaia.

VARIAÇÕES SOBRE O NADA

Qual grãos de areia que escorrem
Da ampulheta mudos e que vão passando
E, velozes, se acumulam em camadas,
São as carnes que morrem, de uma nuvem...

Pela mão que revira a ampulheta
Se retorna o movimento da areia
E se faz o prateado tácito da nuvem
Ao primeiro, breve e claro sinal da aurora..

A mão que, na sombra, a ampulheta gira
E, a areia, que em grãos escorre
Silenciosa, é a única coisa que então se ouve
E, sendo ouvida, na treva não se envolve.

Thursday, January 05, 2006

UM POETA SALVADORENHO


La Poesia es como el pan

ROQUE DALTON

Yo como tu
amo el amor,
la vida,
el dulce encanto de las cosas
el paisaje celeste de los dias de enero.

También mi sangre bulle
y rio por los ojos
que han conocido el brote de las lágrimas.
Creo que el mundo é bello,
que la poesia es como el pan,
de todos.

Y que mis venas no terminan em mí,
sino que en la sangre unánime
de los que luchan por la vida,
el amor,
las cosas,
el paisaje y el pan,
la poesia de todos.

A Poesia é como o pão

Eu igual a tu
amo o amor,
a vida
o doce encanto das coisas
o céu azul dos dias de janeiro.

Também meu sangue ferve
e rio pelos olhos
que conhecem o jorrar das lágrimas.
Creio que o mundo é belo,
que a poesia como o pão,
deve ser de todos.

E que minhas veias não terminam em mim,
mas no sangue de toda humanidade,
dos que lutam pela vida,
o amor,
as coisas,
a paisagem e o pão,
pela poesia de todos.

Tuesday, January 03, 2006

UM POETA CUBANO


Canción del amor prohibido
José Angel Buesa


Solo tu y yo sabemos lo que ignora la gente
al cambiar um saludo ceremonioso y frio
porque nadie sospecha que es falso tu desvio
ni cuanto amor esconde mi gesto indiferente.

Solo tu y yo sabemos porque mi boca miente,
relatando la historia de um fugaz amorio;
y tu apenas me escuchas y yi no te sonrio...
y aun nos arde en los lábios algún beso reciente.

Solo tu y yo sabemos que existe uma simiente
germinando em la sobra de este surco vacio,
porque su flor profunda no se vê, ni se siente.

Y asi dos orillas tu corazón y el mio
pues, aunque las separa la corriente de un rio,
por debajo del rio se unem secretamente.


Canção do Amor Proibido

Só tu e eu sabemos o que ignora toda gente
quando trocamos uma saudação cerimoniosa e fria
porque ninguém suspeita que isto é falso e só desvia
Quanto amor esconde o gesto indiferente.

Só tu e eu sabemos porque minha boca mente,
relatando a história de um amor fugaz
e tu apenas me escutas e não sorris mais
porque nos arde nos lábios algum beijo recente.

Só tu e eu sabemos que existe uma semente
germinando no excesso deste sulco vazio,
porque sua flor profunda não se vê, nem sente.

E se bordas do seu coração e do meu, assim,
pareça que os separe a corrente de um rio, ao fim,
por debaixo dele se unem mais secretamente.

Monday, January 02, 2006

ELA ME LEVA



Mesmo sendo o mesmo,
o que se repete,
agora, no ano novo,
Serei outro.

Outras coisas me aguardam
E até diria, com ousadia,
Que sinto que algo de mim se sacia
Mesmo quando apenas
É recomendável
Que mude, e nem sei como.
Não para ser perfeito,
Mas, para ter algum jeito.

Talvez seja ilusão,
Preâmbulo do explodir,
Como fruto do que não foi feito.
Há o otimismo que mantenho
A certeza de que, numa esquina do tempo,
A vida há de me fazer feliz-
Ainda que tarde

E dessa forma
[como se me enganar fosse uma arte]
Conservo,
Como uma lâmpada maravilhosa,
A chama da ilusão.

Só a fé e a poesia
Podem salvar um homem.

E sigo ainda contente
Quando o fato de ser o mesmo
Enlouqueceria outra mente.
Embora o ano seja novo,
E a alegria um fator ausente,
Levo a vida
E a vida vai me levando.

Sunday, January 01, 2006

DÚVIDAS DA ERA VIRTUAL


IDENTIDADE

I
Toda referência do mundo:
É meu quarto.
Não há ser ou não ser.
Há ter ou não ter quarto!

II
Não ter aposento é o verdadeiro exílio.
Para estancar os movimentos
Basta se acomodar no lugar conhecido,
Reconhecido.
Saber que finalmente estaco
Num local pelo qual,
Como um cego, caminho
Sem esbarrar nos arranjos, na mobília,
Sem enfrentar burocracias, reclamações, filas.

III
As familiares sombras
Por um segundo me fazem crer
Que não há nada a temer.
Que seja possível me proteger
Dos males do mundo
E pareço me apropriar do meu verdadeiro, próprio eu
Que, lá fora, vira um nome, um número, uma imagem.

IV
Não importa onde esteja
– para buscar o que de mim resta –
E me descobrir como ser
É de meu quarto
Que tenho de saber.

Fora dele só existe o exílio.