Monday, September 21, 2020

Uma poesia pós-linguagem de Edmond Jabès



Edmond Jabès


Aucune clôture n’a de sens dans le désert, dans le vide aucune

pensée, aucun livre qui est clôture de toute pensé.

Parler du livre du désert est aussi ridicule que de parler du livre

du rien. Et pourtant, c’est sur ce rien que j’ai édifié mes livres.

Du sable, du sable, du sable à l’infini!

S’il y a un livre de la mort, il ne peut s’agir que de la mort mise

en mots – comme on met à sac, ô deux fois sacrifiée du livre.

C’est à ces limites infixées de l’esprit, à cette frontière dévastée,

mais infranchissable; que la ressemblance voit sa puissance dénoncée.

 

Nenhuma cerca faz sentido no deserto, no vazio nenhum

pensamento, nenhum livro que seja a cerca do pensamento.

Falar do livro do deserto é tão ridículo como falar do livro

do nada. Portanto, é sobre esse nada que edifiquei meus livros.

Areia, areia, areia ao infinito!

Se houver um livro da morte, só pode ser da morte posta

em palavras – como se saqueia – ô duplo sacrifício do livro.

É nestes limites não fixados do espírito, nesta fronteira devastada,

mas intransponível, que a semelhança vê seu poder denunciado.

Aqui se extingue a linguagem.


Ilustração: https://fatosdesconhecidos.ig.com.br/.



Thursday, September 17, 2020

Outra poesia Ángel Ganivet Garcia

 


VIVIR

Ángel Ganivet García

Lleva el placer al dolor

Y el dolor lleva al placer;

¡Vivir no es más que correr

Eternamente alrededor

De la esfinge del amor!

 

Esfinge de forma rara

Que no deja ver la cara...;

Más yo la he visto en secreto,

Y es la esfinge un esqueleto

Y el amor en muerte para.

 VIVER

O prazer leva à dor

E a dor leva ao prazer;

Viver não é mais que correr

Eternamente ao redor

Da esfinge do amor!

 

Esfinge de forma rara

Que nos deixa ver a cara....;

Mas, eu já vi em segredo,

Que a esfinge é um esqueleto

E o amor na morte para.

Ilustração: http://www.folha1.com.br/

 

Wednesday, September 16, 2020

Uma Lírica Pós-Passado de Silvio Persivo

 


O FILÓSOFO QUE NÃO EXISTE EM MIM-UMA LÍRICA PÓS-PASSADO

Eu não flutuo.

Sou pesado como os grandes remorsos

e preso como âncoras de chumbo 

em imãs de pedras.


Nem mais procuro rimas-

crime ou não-

enterrei a ilusão 

nas águas barrentas do rio 

e sorrio. 


Adoro os pecados e as tentações,

que a nenhuma resisto. 

Muitas vezes, penso que nem existo

e, inevitavelmente, uma hora

isto será verdade. 

Todo mundo vai embora!

Uma poesia de Ángel Ganivet García

 


AUN, SI ME FUERAS FIEL...

 Ángel Ganivet García

Aun, si me fueras fiel,

me quedas tú en el mundo, sombra amada.

Muere el amor, mas queda su perfume.

Voló el amor mentido,

más tú me lo recuerdas sin cesar...

La veo día y noche.

En mi espíritu alumbra

el encanto inefable

de su mirada de secretos llena.

Arde en mis secos labios

el beso de unos labios que me inflaman,

que me toca invisible,

y cerca de mi cuerpo hay otro cuerpo.

mis manos, amoroso,

extiendo para asirla

y matarla de amor entre mis brazos,

y el cuerpo veloz huye,

¡Y sólo te hallo a ti, mujer de aire!

 

AINDA QUE ME FOSSES FIEL...

Ainda que me fosses fiel

permanecerias tu no mundo, sombra amada.

Morre, mas fica o seu perfume.

Voou o amor mentido,

mas tu o me recordas sem cessar ...

A vejo dia e noite.

No meu espirito brilha

o encanto inefável

de teu olhar cheio de segredos.

Arde em meus lábios secos

o beijo de uns lábios que me inflamam,

que me toca invisível,

e perto do meu corpo há outro corpo.

minhas mãos, amorosas,

se estendo para o agarrar

e matá-la de amor entre meus braços,

e o corpo veloz foge,

E eu só encontro a ti, mulher no ar!

O Pós Moderno de Michael Shepherd

 


THE CHILD IN ME - A POSTMODERN LYRIC –

 

Michael Shepherd

 

flutter by,

butterfly..

 

no crime

to rhyme

 

or sin

to grin

 

A CRIANÇA EM MIM- UMA LÍRICA PÓS-MODERNA

 

flutuar sobre

a borboleta..

 

nenhum crime

para rimar

 

ou pecado

para sorrir

 

Ilustração: https://www.thesap.org.uk/

Tuesday, September 15, 2020

Uma poesia de Julio Rodríguez

 


 

UNA EXTRAÑA CIENCIA

Julio Rodríguez

No busques la respuesta en los manuales

de química ni en Google ni en las páginas

con la esquina doblada de los libros.

No busques en las cartas ni en los astros

ni busques en la ciencia inaccesible

que todo lo describe fríamente.

Busca en el tacto ardiente de estas manos

que cincelan tu cuerpo de memoria,

en estos pies que avanzan con tus pasos,

en estos ojos que se quedan ciegos

cuando tú no me miras, o en la herida

que se abre en mí si alguna vez te hiero.

Busca en este poema, o en mi pecho.

Busca dentro de mí. ¿Lo ves? Es esto.

 

UMA ESTRANHA CIÊNCIA

 

Não busques a resposta nos manuais

de química, nem no Google, nem nas páginas

dos cantos dobrados dos livros.

Não busques nas cartas ou nas estrelas,

nem busques na ciência inacessível

que tudo o descreve friamente.

Busca no tato ardente destas mãos

que cinzelam teu corpo de memória,

nestes pés que avançam com teus passos,

nestes olhos que ficam cegos

quando tu não olhas para mim, ou na ferida

que se abre em mim se alguma vez te ferir.

Busca neste poema, ou em meu peito.

Dentro dentro de mim. O vês? É isto.

Ilustração: Estágio On line.

E, agora, Michael Sharkey

 

After Cavafy

 Michael Sharkey

 When I was twelve the undertaker came up

from the corner: 'Something special, come and see.'

 

The corpse was Italian,

beautifully laid out,

 

caught in the pride of his youth.

No expense had been barred.

 

There in the dim light, gold on his fingers,

he lay like a Pharaoh, a jewel in its box.

 

Flower's thick odours crowded the room

and I know why they screwed the lid down.

 

Next day the cortege arrived and departed;

soot from the steam-train covered the scene.

 

So all desires unacted appear to me,

so every thought that's cut short in its course.  

 

DEPOIS DE CAVAFY

 

Quando eu tinha doze anos, o agente funerário veio

da esquina: "Algo especial, venha e veja."

 

O cadáver era italiano,

lindamente estabelecido,

 

pego no orgulho de sua juventude.

Nenhuma despesa foi proibida.

 

Lá na luz fraca, ouro nos dedos,

ele se deitou como um faraó, uma jóia na sua caixa.

 

Os odores espessos da flor inundaram o quarto

e eu sei por que eles cravaram a tampa para baixo.

 

No dia seguinte, o cortejo chegou e partiu;

a fuligem do trem a vapor encobriu a cena.

 

Desde então, todos os desejos não percebidos me parecem,

como se fossem os pensamentos interrompidos no seu curso.

 

Monday, September 14, 2020

E, de volta, Virgilio Piñera

 


MI PADRE

Virgilio Piñera

Dice mi padre que es inútil la despedida:

no tiene la esperanza de un retorno.

Mi padre, cuya partida es inmimente,

com su equipaje a la puerta,

en el helado aire de la mañana,  

rechaza nuestros abrazos y nuestras lágrimas:

“Será inútil dejar las puertas abiertas”.

 

MEU PAI

Disse meu pai que é inútil a despedida:

não tem a esperança de um retorno.

Meu pai, cuja partida é iminente,

com sua bagagem na porta,

no gelado ar da manhã,

rechaça nossos abraços e nossas lágrimas:

“Será inútil deixar as portas abertas”.

Ilustração: Bing. 

Sunday, September 13, 2020

Canção Grega

 


Meu amor,

sonho em quebrar pratos na Grécia,

dançando, contigo ao luar,

como se o tempo fosse parar.

Nem creio mesmo

que a Grécia existe

ou que algum dia chegarei lá.

É que o teu amor

me faz pensar em coisas loucas

e, fico assim,

completamente fora de mim, 

pensando em ser artista de cinema,

quando você não está em cena,

e não posso nem te beijar

e só me resta sonhar.

Ilustração: Youtube.

E, hoje, é domingo com Antonio Deltoro

 


 
DOMINGO

Antonio Deltoro

Me siento solo como un dedo al que le faltara mano.

El domingo es un híbrido, un animal con pies de sábado y cabeza de lunes,

tierra de nadie que respira aburrimiento, comidas familiares.

Es un juego de cartas donde no se arriesga, música con sordina, sobremesa.

El domingo es anacrónico, corre despacio por miedo al despeñadero,

al infarto del lunes, al infierno: en el domingo los audaces se juegan más que la semana.

El domingo es un día por decreto oficial, un falso día.

El domingo amanece tarde y anochece temprano, es un crepúsculo precoz, entre paredes,

pesado.

 

DOMINGO

 

Me sinto só como um dedo que não tem mão.

O domingo é um híbrido, um animal com pés de sábado e cabeça de segunda,

terra de ninguém que respira tédio, refeições em família.

É um jogo de cartas onde não se arrisca, música em surdina, sobremesa.

O domingo é anacrônico, corre devagar por medo do desfiladeiro,

do infarto na segunda-feira, do inferno: no domingo os ousados jogam mais que na semana.

O domingo é um dia por decreto oficial, um falso dia.

O domingo amanhece tarde e anoitece cedo, é um crepúsculo precoce, entre as paredes,

pesado.


Ilustração: https://www.casitatravel.nl.

Outra poesia de Louise Glück

 


PORTRAIT

Louise Glück

A child draws the outline of a body.
She draws what she can, but it is white all through,
she cannot fill in what she knows is there.
Within the unsupported line, she knows
that life is missing; she has cut
one background from another. Like a child,
she turns to her mother.

And you draw the heart
against the emptiness she has created.

RETRATO

Uma criança desenha a silhueta de um corpo.

Ela desenha o que pode, porém é branco no todo,

ela não pode encher o que ela sabe que está ali.

Dentro da linha sem suporte, ela sabe

a vida está faltando; ela cortou

um fundo do outro. Como uma criança,

ela se vira para sua mãe.

 

E você desenha o coração

contra o vazio que ela havia criado.

Saturday, September 12, 2020

Uma poesia de Matthew Sweeney

 


A SMELL OF FISH

Matthew Sweeney

A smell of fish filled the valley

and all the seagulls came inland.

 

Cats ran everywhere, sniffing.

Men checked the level of the sea.

 

Some could be heard hammering.

Churches filled to pray for wind.

 

UM CHEIRO DE PEIXE

 

Um cheiro de peixe inundou o vale

e todas gaivotas pousaram na terra.

 

Os gatos, com o odor, corriam em toda parte

Os homens checavam o nível do mar.

 

De alguns se podia ouvir martelando.

As igrejas estavam cheias de preces pelo vento.

 

Ilustração: Pinterest.

Uma poesia de Margarita Hickey

 


QUE EL VERDADERO SABIO

Margarita Hickey

Que el verdadero sabio, donde quiera

Que la verdad y la razón encuentre,

Allí sabe tomarla, y la aprovecha

Sin nimio detenerse en quién la ofrece.

Porque ignorar no puede, si es que sabe,

Que el alma, como espíritu, carece de sexo.

Pues cada día, instantes y momentos,

Vemos aventajarse las mujeres

En las artes y ciencias a los hombres,

Si con aplicación su estudio emprenden.

 

QUE O VERDADEIRO SÁBIO

 

Que o verdadeiro sábio, onde quiser

Que a verdade e a razão se encontrem,

Ali sabe tomá-la e a aproveita

Sem atrapalhar quem a oferece.

Porque ignorar não pode, se é que sabe,

Que a alma, como o espírito, carece de sexo.

Pois, a cada dia, instantes e momentos,

Vemos avantajar-se as mulheres

Nas artes e ciências aos homens,

Se com aplicação seus estudos empreendem.

Ilustração: https://horadopovo.com.br/.

Friday, September 11, 2020

Um Bombom

 


Um bombom. Só um bombom

ficou entre nós. 

Remanescente dos tantos que chupamos.

Não era nem mesmo o melhor, 

nem um bombom especial,

mas, na tua boca

estava tão delicioso

que, nunca mais, consegui encontrar 

um bombom igual aquele! 

Uma poesia de Louise Glück

 


Louise Glück

1.

Once I could imagine my soul

I could imagine my death.

When I imagined my death

my soul died. This

I remember clearly.

 

My body persisted.

Not thrived, but persisted.

Why I do not know.

 

 

1.

Uma vez eu pude imaginar minha alma

Eu pude imaginar minha morte.

Quando eu imaginei minha morte

minha alma morreu. Disto

eu recordo claramente.

 

Meu corpo persistiu.

Não prosperou, mas persistiu.

Por que eu não sei.

 

Ilustração: https://www.bing.com/.

Uma poesia de Michael Palmer


SUN (Fragmento)

 

Michael Palmer

 

Write this. We have burned all their villages

Write this. We have burned all the villages and the people in them

Write this. We have adopted their customs and their manner of dress

Write this. A word may be shaped like a bed, a basket of tears or an X

In the notebook it says, It is the time of mutations, laughter at jokes, secrets beyond the boundaries of speech.

 

O SOL (Fragmento)

 

Escrevo isto. Nós temos queimado nossas vilas

Escrevo isto. Nós temos queimado todas as vilas e o povo nelas

Escrevo isto. Nós temos adotado os seus costumes e a sua maneira de vestir

Escrevo isto. Uma palavra pode ser como a cama, uma cesta de lágrimas ou um X

No caderninho escreve, é o tempo das mudanças, de rir das piadas, dos segredos além das fronteiras da língua.

 

Ilustração: http://www.astropt.org/.

Thursday, September 10, 2020

DESENCONTRO

 

Confesso que nunca me senti à vontade

diante de mulheres muito belas.

E ela era, malgrado as dimensões pequenas,

uma mulher maravilhosa,

com seus olhos claros, vorazes, melosos

de quem olha e não te vê, 

se é que me entende.

Não sabia se me olhava como uma porta,

como um peso morto ou uma lagartixa.

De forma que a tratei como um brucutu

como se estivesse procurando a rima. 

Suavemente me disse com sua voz macia,

de lutador que quebra a costela do adversário:

-Até que és um tipo muito interessante!

Nem relutei e gritei: o próximo!-

para a fila ir adiante.

Certamente ela era cativante, 

mas, era areia demais para meu caminhão, 

e o que tinha para vender, 

ela não ia me pagar-podia apostar-

e faria um estrago terrível no meu coração! 

Ilustração: https://www.bing.com/

De volta Federico Hernández Aguilar


MORIR NO ES LO MISMO

Federico Hernández Aguilar

                                              A Susana

No importa que me postre tu apetito

si a la postre seré lo que yo quiera,

si de tu cuerpo lúcido me espera

la misma devoción por el delito.

 

No importa que tu pubis infinito

me devore los labios como fiera

y en la inmortalidad de tu alma entera,

entero deba darme, como un grito…

 

Lo que importa es amar, dejar de serte

lúgubre; imaginar sin sal la herida,

sin Dios el bien, y pretenderme fuerte.

 

Te tengo… y es posible en tal medida

unir las cicatrices de la vida,

que morir no es lo mismo que la muerte.

 

MORRER NÃO É O MESMO

 

Não importa que me destrua teu gosto

se ao fim serei o que eu queira,

se de teu corpo lúcido me espera

a mesma devoção pelo delito.

 

Não importa que teu púbis infinito

me devore ​​os lábios como uma fera

e na imortalidade tua alma enterra,

tudo que deva me dar, como um grito ...

 

O que importa é amar, deixar de ser te

pavoroso; imaginar sem sal a ferida,

sem Deus, o bem, e pretender-me forte.

 

Te tenho ... e é possível em tal medida

unir as cicatrizes da vida,

que morrer não é o mesmo que a morte.

Ilustração: https://cbncuritiba.com/.