Saturday, October 15, 2011

Oscar Wilde e a Balada do Cárcere de Reading


The ballad of Reading gaol

Oscar Wilde

He did not wear his scarlet coat,
for blood and wine are red,
and blood and wine were on his hands
when they found him with the dead,
the poor dead woman whom he loved,
and murdered in her bed.

I never saw a man who looked
with such a wistful eye
upon that little tent of blue
which prisoners call the sky,
and at every drifting cloud that went
with sails of silver by.

I walked, with other souls in pain,
within another ring,
and was wondering if the man had done
a great or little thing,
when a voice behind me whispered low,
"that fellows got to swing".

I only knew what hunted thought
quickened his step, and why
he looked upon the garish day
with such a wistful eye;
man had killed the thing he loved
and so he had to die.

Yet each man kills the thing he loves
by each let this be heard,
some do it with a bitter look,
some with a flattering word,
the coward does it with a kiss,
the brave man with a sword!

The Governor was strong upon
the Regulations Act:
the Doctor said that Death was but
a scientific fact:
and twice a day the Chaplain called
and left a little tract.

We sewed the sacks, we broke the stones,
we turned the dusty drill:
we banged the tins, and bawled the hymns,
and sweated on the mill:
but in the heart of every man
terror was lying still.

The warders with their shoes of felt
crept by each padlocked door,
and peeped and saw, with eyes of awe,
grey figures on the floor,
and wondered why men knelt to pray
who never prayed before.

The warders strutted up and down,
and kept their herd of brutes,
their uniforms were spick and span,
and they wore their Sunday suits,
but we knew the work they had been
by the quicklime on their boots.

And all the while the burning lime
eats flesh and bone away,
it eats the brittle bone by night,
and the soft flesh by the day,
it eats the flesh and bones by turns,
but it eats the heart alway.

In Reading gaol by Reading town
there is a pit of shame,
and in it lies a wretched man
eaten by teeth of flame,
in a burning winding-sheet he lies,
and his grave has got no name.

He did not wear his scarlet coat,

A Balada do Cárcere de Reading


Ele não usava o seu casaco escarlate,
porque o sangue e o vinho são vermelhos;
e o sangue e o vinho estavam em suas mãos
quando o encontraram com a morta,
a pobre mulher morta a quem amava
assassinada no seu leito.

Eu nunca vi na vida um homem que tivesse
com os olhos tão cheios de angústia,
ao contemplar o pedaço de azul
que os prisioneiros chamam de céu
e as nuvens que passavam à deriva,
como velas prateadas pelo ar.

Caminhava junto a outras almas penadas
dentro de outro pátio,
e me perguntava se o homem havia feito
algo grande ou pequeno,
quando, às minhas costas, uma voz sussurrou baixo:
"O homem tem que ser enforcado".

Eu só sabia que um pensamento o perseguia
e lhe acelerava o passo e porque
olhava o deslumbrante dia,
com os olhos tão cheios de angústia;
o homem havia matado o que amava
por isto teria que morrer.

Se bem que todo homem mata o que ama,
para que todos escutem bem,
alguns o fazem com o rosto amargurado,
outros com a palavra enganadora,
o covarde o faz com um beijo,
O valente com uma espada!

O governador era um homem inflexível
ao tratar-se das leis e regulamentos
o doutor disse que a morte não era senão
um fato científico
e, duas vezes por dia, o capelão o chamava
e lhe deixava um pequeno folheto.

Nós cosíamos sacos, quebrávamos pedras
Nós girávamos a broca poeirenta:
Nós batíamos latas e berrávamos hinos,
porém, no coração de cada homem
Havia um terror dormindo.

Os guardas, com seus sapatos de feltro,
deslizavam por portas com cadeados,
e apareciam para ver com olhos assombrados
as figuras cinzas sobre o solo,
e se perguntavam por que os homens se agacham para orar
mesmo os que antes nunca haviam rezado.

Os guardas iam acima e abaixo gabando-se
e vigiavam o seu rebanho de bestas
nos seus uniformes limpos e arrumados,
e vestiam seus trajes de gala de domingo,
mas, nós sabíamos que trabalho estavam fazendo
pelo cal vivo de suas botas.

E, para sempre, a cal ardente
corrói a carne e o osso,
corrói o osso frágil na noite,
e a carne suave pelo dia,
corrói a carne e o osso por turnos,
mas, come sempre o coração.

No cárcere da cidade de Reading
há um fosso de vergonha
em que jaz um homem desventurado
consumido por dentes de chamas,
numa mortalha abrasadora jaz
e sua tumba não tem nome.

Ele não usava seu casaco escarlate.....

Thursday, October 13, 2011

E ainda Angel González


Ya nada es ahora


Angel González

Largo es el arte; la vida en cambio corta
como un cuchillo
Pero nada ya ahora
-ni siquiera la muerte, por su parte
inmensa-

podrá evitarlo:
exento, libre,

como la niebla que al romper el día
los hondos valles del invierno exhalan,

creciente en un espacio sin fronteras,

ese amor ya sin ti me amará siempre.

Já nada é agora

Larga é a arte; a vida em troca corta
como uma faca.
Porém, nada há agora
-nem sequer a morte, por sua parte
Imensa-

poderia evitá-lo:
desgarrado, livre,

como a névoa ao amanhecer
que os profundos vales do inverno exalam,

crescente num espaço sem fronteiras,

este amor já sem ti me amará para sempre.

Ilustração: carolinadourado.tumblr.com

Esta do Angel Gonzalez já a publiquei, mas...


Vale a pena reeditar corretamente

Canción, glosa y cuestiones

Angel González

Ese lugar que tienes,
cielito lindo,
entre las piernas,
ese lugar tan íntimo
y querido,
es un lugar común.

Por lo citado y por lo concurrido.

Al fin, nada me importa:
me gusta en cualquier caso.

Pero hay algo que intriga.

¿Cómo
solar tan diminuto
puede ser compartido
por una población tan numerosa?
¿Qué estatutos regulan el prodigio?


Canção, glosa e questões

Este lugar que tens,
ceúzinho lindo,
entre as pernas,
este lugar tão íntimo
e querido,
é um lugar comum.

Por tão citado e concorrido.

Ao fim, nada me importa:
Eu gosto em qualquer caso.

Porém, algo me intriga.

Como
um local tão diminuto
pode ser tão compartilhado
por uma população tão numerosa?
Que leis regulam este prodígio?

Tuesday, October 11, 2011

Angel González

Epílogo

Angel González


Me arrepiento de tanta inútil queja,
de tanta
tentación improcedente.
Son las reglas del juego inapelables
y justifican toda, cualquier pérdida.
Ahora
sólo lo inesperado o lo imposible
podría hacerme llorar:

una resurrección, ninguna muerte.


Epílogo

Me arrependo de tanta queixa inútil,
de tanta
tentação improcedente.
São as regras do jogo, inapeláveis
e justificam toda, qualquer perda.
Agora
só o inesperado ou o impossível
poderia me fazer chorar:
uma ressurreição, nenhuma morte.

Monday, October 10, 2011

Juan Gelman

su
Madrugada

Juan Gelman

Jugos del cielo mojan la madrugada de la ciudad violenta.
Ella respira por nosotros.

Somos los que encendimos el amor para que dure,
para que sobreviva a toda soledad.

Hemos quemado el miedo, hemos mirado frente a frente al dolor
antes de merecer esta esperanza.

Hemos abierto las ventanas para darle mil rostros.

De: Velorio del solo

Madrugada

Sucos do céu molham a madrugada da cidade violenta.
Ela respira por nós.

Somos os que acendemos o amor para que dure,
para que sobreviva a toda solidão.

Queimamos o medo, nós olhamos face a face para a dor
antes de merecer esta esperança.

Abrimos as janelas para lhes dar mil rostos.

Sunday, October 09, 2011

E Borges outra vez


Ewigkeit

Jorge Luis Borges

Torne en mi boca el verso castellano
a decir lo que siempre está diciendo
desde el latín de Séneca: el horrendo
dictamen de lo que todo es el gusano.

Torne a cantar la pálida ceniza,
los fastos de la muerte y la victoria
de esa reina retórica que pisa
los estandartes de la vanagloria.

No así. Lo que mi barro ha bendecido
no lo voy a negar como un cobarde.
Sé que una cosa no hay. Es el olvido;

sé que en la eternidad perdura y arde
lo mucho y lo preciso que he perdido:
esa fragua, esa luna y esa tarde.

De: El otro, el mismo (1964)

Ewigkeit (Eternidade)

Torne em minha boca o verso castelhano
para dizer o que sempre está dizendo
desde o latim de Sêneca: a horrível
opinião de que tudo é terrível.

Torne a cantar a pálida cinza,
as pompas da morte e da vitória
desta rainha retórica que pisa
os estandartes da vanglória.

Não é assim. O que o barro tem abençoado
Não vou eu negar como um covarde.
Eu sei que uma coisa não há. É o esquecimento;

Sei que na eternidade perdura e arde
O muito e o preciso que hei perdido:
esta forja, esta lua e esta tarde.

E de volta o grande Borges


Cuarteta

Jorge Luis Borges

Murieron otros, pero ello aconteció en el pasado,
que es la estación (nadie lo ignora) más propicia a la muerte.
¿Es posible que yo, súbito de Yaqub Almansur,
muera como tuvieron que morir las rosas y Aristóteles?


Del Diván de Almotásam el Magrebí (siglo XII).

Quadra

Morreram outros, porém, isto aconteceu no passado
que é a estação (ninguém ignora) mais propícia à morte.
È possível que eu, súdito de Almansur Yaqub,
morra como tiveram que morrer as rosas e Aristóteles?

Novamente Ezra Pound


Song Of The Degrees

Ezra Pound


I
Rest me with Chinese colours,
For I think the glass is evil.

II
The wind moves above the wheat-
With a silver crashing,
A thin war of metal.

I have known the golden disc,
I have seen it melting above me.
I have known the stone-bright place,
The hall of clear colours.

III
O glass subtly evil, O confusion of colours !
O light bound and bent in, soul of the captive,
Why am I warned? Why am I sent away?
Why is your glitter full of curious mistrust?
O glass subtle and cunning, O powdery gold!
O filaments of amber, two-faced iridescence!

Canção dos graus

I
Encontro-me com as cores da China,
Para que ache que o vidro é ruim.

II
O vento move-se por cima do trigo
Com um prateado farfalhar,
Uma fina guerra de metal.

Eu conheci o disco de ouro,
Eu já vi esta mistura sobre mim.
Eu conheci o lugar da pedra brilhante,
O salão das cores claras.

III
O vidro é sutilmente ruim, Ó confusão de cores!
A luz amarra-se e dobra-se em, a alma do cativo,
Por que estou procurando? Por que sou mandado embora?
Por que seu brilho é repleto de curiosa desconfiança?
O vidro sutil e astuto, Ó poeirento ouro!
Os filamentos de âmbar, de duas faces incandescentes!

Saturday, October 08, 2011

Ezra Pound


A Girl

Ezra Pound

The tree has entered my hands,
The sap has ascended my arms,
The tree has grown in my breast -
Downward,
The branches grow out of me, like arms.

Tree you are,
Moss you are,
You are violets with wind above them.
A child - so high - you are,
And all this is folly to the world.

Uma menina

A árvore entrou nas minhas mãos,
A seiva subiu pelos meus braços,
A árvore cresceu no meu peito -
Para baixo,
Os galhos cresceram para fora de mim, como braços.

A árvore que você é,
O musgo que é você,
Você que é as violetas dançando ao vento.
Uma criança - tão alta - você é,
E tudo isto é uma tolice para o mundo.

Ginsberg outra vez


An Eastern Ballad

Allen Ginsberg

I speak of love that comes to mind:
The moon is faithful, although blind;
She moves in thought she cannot speak.
Perfect care has made her bleak.

I never dreamed the sea so deep,
The earth so dark; so long my sleep,
I have become another child.
I wake to see the world go wild.

Uma balada do Leste

Eu falo do amor que me vem à cabeça:
A lua é fiel, apesar de cega;
Ela se move no pensamento e não fala.
O cuidado perfeito tem feito sua desolação.

Eu nunca sonhei com o mar tão profundo,
A terra tão escura, tão longo o meu sono,
Eu me tornei uma outra criança.
Eu acordo para ver o mundo ir à loucura.

Friday, October 07, 2011

Allen Ginsberg, my brothers


Sunflower Sutra

Allen Ginsberg-Berkeley, 1955

I walked on the banks of the tincan banana dock and
sat down under the huge shade of a Southern
Pacific locomotive to look at the sunset over the
box house hills and cry.
Jack Kerouac sat beside me on a busted rusty iron
pole, companion, we thought the same thoughts
of the soul, bleak and blue and sad-eyed,
surrounded by the gnarled steel roots of trees of
machinery.
The oily water on the river mirrored the red sky, sun
sank on top of final Frisco peaks, no fish in that
stream, no hermit in those mounts, just ourselves
rheumy-eyed and hungover like old bums
on the riverbank, tired and wily.
Look at the Sunflower, he said, there was a dead gray
shadow against the sky, big as a man, sitting
dry on top of a pile of ancient sawdust--
--I rushed up enchanted--it was my first sunflower,
memories of Blake--my visions--Harlem
and Hells of the Eastern rivers, bridges clanking Joes
Greasy Sandwiches, dead baby carriages, black
treadless tires forgotten and unretreaded, the
poem of the riverbank, condoms & pots, steel
knives, nothing stainless, only the dank muck
and the razor-sharp artifacts passing into the
past--
and the gray Sunflower poised against the sunset,
crackly bleak and dusty with the smut and smog
and smoke of olden locomotives in its eye--
corolla of bleary spikes pushed down and broken like
a battered crown, seeds fallen out of its face,
soon-to-be-toothless mouth of sunny air, sunrays
obliterated on its hairy head like a dried
wire spiderweb,
leaves stuck out like arms out of the stem, gestures
from the sawdust root, broke pieces of plaster
fallen out of the black twigs, a dead fly in its ear,
Unholy battered old thing you were, my sunflower O
my soul, I loved you then!
The grime was no man's grime but death and human
locomotives,
all that dress of dust, that veil of darkened railroad
skin, that smog of cheek, that eyelid of black
mis'ry, that sooty hand or phallus or protuberance
of artificial worse-than-dirt--industrial--
modern--all that civilization spotting your
crazy golden crown--
and those blear thoughts of death and dusty loveless
eyes and ends and withered roots below, in the
home-pile of sand and sawdust, rubber dollar
bills, skin of machinery, the guts and innards
of the weeping coughing car, the empty lonely
tincans with their rusty tongues alack, what
more could I name, the smoked ashes of some
cock cigar, the cunts of wheelbarrows and the
milky breasts of cars, wornout asses out of chairs
& sphincters of dynamos--all these
entangled in your mummied roots--and you there
standing before me in the sunset, all your glory
in your form!
A perfect beauty of a sunflower! a perfect excellent
lovely sunflower existence! a sweet natural eye
to the new hip moon, woke up alive and excited
grasping in the sunset shadow sunrise golden
monthly breeze!
How many flies buzzed round you innocent of your
grime, while you cursed the heavens of the
railroad and your flower soul?
Poor dead flower? when did you forget you were a
flower? when did you look at your skin and
decide you were an impotent dirty old locomotive?
the ghost of a locomotive? the specter and
shade of a once powerful mad American locomotive?
You were never no locomotive, Sunflower, you were a
sunflower!
And you Locomotive, you are a locomotive, forget me
not!
So I grabbed up the skeleton thick sunflower and stuck
it at my side like a scepter,
and deliver my sermon to my soul, and Jack's soul
too, and anyone who'll listen,
--We're not our skin of grime, we're not our dread
bleak dusty imageless locomotive, we're all
beautiful golden sunflowers inside, we're blessed
by our own seed & golden hairy naked
accomplishment-bodies growing into mad black
formal sunflowers in the sunset, spied on by our
eyes under the shadow of the mad locomotive
riverbank sunset Frisco hilly tincan evening
sitdown vision.

Sutra de girassol

Eu andava nas margens das docas de bananas nanicas
sentado sob a profunda sombra de uma locomotiva do Pacífico
Sul olhando para o por do sol sobre
o quadrado das casas nas colinas e chorei.
Jack Kerouac, sentado ao meu lado sobre um robusto pólo
de ferro enferrujado, me acompanhava, pensamos os mesmos pensamentos
de alma, sombria e azul e de olhos tristes,
cercados pelas raízes de aço retorcidos das árvores de
máquinas.
A água oleosa no rio espelhava o céu vermelho, o sol
afundava-se no topo de picos nos confins de Frisco, nenhum peixe nos
córregos, nem eremita naqueles montes, apenas nós mesmos
úmidos de olhos de ressaca e como velhos vagabundos
nas margens do rio, cansados e astutos.
Olhei para o girassol, ele disse, que era uma sombra
cinza morta contra o céu, grande como um homem, sentado
seco sobre uma pilha de antiga serragem -
- Corri encantado - foi o meu primeiro girassol,
memórias de Blake - minhas visões - Harlem
e Hells dos rios do Leste, pontes Joes rangendo
Sanduíches gordurosos, carrinhos de bebê morto, preto
piso de pneus esquecidos e não recuperados, o
poema da margem do rio, preservativos e panelas,
facas de aço, nada inoxidável, só a sujeira desagradável
e os artefatos afiados passando para o
passado -
e o girassol cinzento reclinado contra o pôr do sol,
densamente sombrio e ressecado pela fuligem e pela fumaça
das velhas locomotivas no seu olho -
corola de turvas pontas retorcidas e quebradas
como uma coroa arrebentada, de sementes roladas,
boca precocemente desdentada ao ar ensolarado, raios solares
se apagando na sua cabeça peluda como uma teia de fios secos de aranha,
folhas tesas como braços presos ao tronco, gestos
enraizados na serragem, quebrados pedaços de gesso
caídos dos galhos negros, uma mosca morta no seu ouvido,
Ímpia coisa velha arrebentada,você estava, meu girassol Ó
minha alma, como te amei, então!
A sujeira não era sujeira humana, mas, morte e humanas
locomotivas,
todas vestidas de poeira, esse véu de pele escurecida
da estrada, de fumaça da bochecha, de pálpebra de miséria
preta, essa fuliginosa mão ou falo ou protuberância de algo
artificial pior do que a sujeira - industrial -
moderna - toda a civilização manchando sua
louca coroa dourada -
e todos esses remelentos pensamentos de morte e olhos empoeirado
do desamor e tocos e raízes distrocidas embaixo,
dentro de seu monte de areia e serragem, notas de borrachas falsas de dólar,
pele de máquinária, as tripas e as vísceras
do carro que tosse chora, as latas vazias e abandonadas
com suas línguas enferrujadas de fora, o que
mais eu poderia nomear, a cinzas queimadas de algum
charuto galo, conas de carrinhos de mão e as
mamas leitosas de carros, bundas usadas em cadeiras
e esfíncteres dos dínamos - tudo isto
enredado nas suas raízes mumificadas- e você aí postado
diante de mim no pôr do sol, em toda a sua glória
em toda sua forma!
A beleza perfeita de um girassol! uma excelente e perfeita
existência de um adorável girassol! um doce olho natural
para uma nova quadra da lua, acordei vivo e excitado
agarrando na sombra o nascer do sol dourado
das brisa mensais!
Quantas moscas zumbiram ao seu redor inocente de sua
fuligem, enquanto você amaldiçoava os céus da
ferrovia na sua alma flor?
Pobre flor morta? Quando você se esqueceu que era uma
flor? Quando você olhou para a sua pele e
decidiu que era uma velha locomotiva impotente e suja?
o fantasma de uma locomotiva? o espectro e
a sombra de uma outrora poderosa locomotiva louca americano?
Você nunca foi uma locomotiva, girassol, você era um
girassol!
E você locomotiva, você é uma locomotiva, não esqueça
não!
Então eu peguei o duro esqueleto do girass e o finquei
ao meu lado como um cetro,
e entreguei o meu sermão à minha alma, e a alma de Jack
também, e quem iria ouvir,
- Nós não somos nossa pele de sujeira, nós não somos o nosso horrível
locomotiva sem imagem empoeirada e desolada, por dentro , somos todos
belos girassóis dourados, somos abençoados
por nosso própria semên & dourados corpos peludos e e nus
de realização, corpos em crescimento dentro dos loucos
girassóis negros e formais no pôr do sol, espiados pelos nossos
olhos sob à sombra da locomotiva louca
do cais na visão do poente de latas e colinas de Frisco
sentados ao anoitecer.

Thursday, October 06, 2011

Como se fosse Santo Agostinho


Minha vida é feita
das coisas mais mínimas
de quem crê num deus pequeno
e, impuro, reza, com sua fé derramada,
e a ajuda inesperada de um anjo errado,
com uma história de ovelha desgarrada.
E, por mais que negue meus pecados,
usando uma máscara de inocência,
nada encobre minha culpa
E a mim nada me basta
Nem a sombra que me deixa,
nem o corpo que se afasta,
nem a vontade de amar,
que só me faz pecar e prometer,
que, um dia, ainda, um santo hei de ser...

Delírios


este incessante querer
que não aceita o não ter
e vive a me empurrar
não tem como se acalmar

este sentir-se subir,
no momento de cair,
me faz permanecer no ar

este não ser e não estar
que se transforma em sonhar
que se afoga em sentir

este teimoso insistir
que é o meio de resistir
e inconsciente vagar

este imenso saber
de ignorância solar
É que me faz delirar

Wednesday, October 05, 2011

Trair Lord Byron? Minha professora de inglês há de me matar...


STANZAS FOR MUSIC

Lord Byron

I speak not - I trace not - I breathe not thy name,
There is grief in the sound - there were guilt in the fame;
But the tear which now burns on my cheek may impart
The deep thought that dwells in that silence of heart.

Too brief for our passion, too long for our peace,
Were those hours, can their joy or their bitterness cease?
We repent - we abjure - we will break from our chain;
We must part - we must fly to - unite it again.

Oh! thine be the gladness and mine be the guilt,
Forgive me adored one - forsake if thou wilt;
But the heart which I bear shall expire undebased,
And man shall not break it - whatever thou may'st.

And stern to the haughty, but humble to thee,
My soul in its bitterest blackness shall be;
And our days seem as swift - and our moments more sweet,
With thee by my side - than the world at our feet.

One sight of thy sorrow - one look of thy love,
Shall turn me or fix, shall reward or reprove;
And the heartless may wonder at all we resign,
Thy lip shall reply no to them - but to mine.

Estâncias para a música

Eu não falo. Não desenho. Respiro apenas o teu nome
Não há tristeza no som - nem havia culpa na fama;
Mas, a lágrima que agora arde no meu rosto pode dar conta
Do pensamento profundo que habita no silêncio do coração.

Muito breve para a nossa paixão, muito longa para a nossa paz,
Foram aquelas horas- pode cessar sua alegria ou sua amargura?
Nós nos arrependemos -abjuramos - desejamos romper nossas cadeias;
Devemos partir - é preciso voar- para nos unir novamente.

Oh! Que seja tua a alegria e minha a culpa,
Perdoa-me adorada- abandona-me se assim o desejais;
Mas o coração que carrego expirará sem ser rebaixado,
E os homens não o quebraram- o que só tu podéis.

E firme e altivo, porém, humilde diante de ti,
Há ser minh’alma na sua mais amarga escuridão;
E nossos dias hão de ser mais rápidos-e nossos momentos mais doces,
Contigo ao meu lado- mais que com o mundo aos teus pés.

Uma visão de tua dor-uma imagem do teu amor,
Haverá de me mudar ou confirmar-me, de castigar ou reprovar;
E os sem coração poderão maravilhar-se do tanto que renunciamos
E os teus lábios não responderão a eles- mas, aos meus.

Ilustração: http://ladydark-darkness.blogspot.com/

Lord Byron


SO, WE'LL GO NO MORE A ROVING...

Lord Byron

So, we'll go no more a roving
So late into the night,
Though the heart be still as loving,
And the moon be still as bright.
For the sword outwears its sheath,
And the soul wears out the breast,
And the hearth must pause to breathe,
And love itself have rest.
Though the night was made for loving,
And the days return too soon,
Yet we'll go no more a roving
By the light of the moon.

Não, não voltaremos mais a vagar

Assim é, não voltaremos a vagar
tão tarde dentro da noite,
ainda que o coração siga amando
e a lua continue a ter o mesmo brilho.

Pois, a espada se gasta em sua bainha,
e a alma se desgasta no seu peito,
e o coração deve deter-se para respirar,
e até mesmo o amor deve descansar.

Ainda que a noite tenha sido feita para amar,
e os dias retornem demasiadamente cedo,
ainda assim não voltaremos a vagar
sob a luz do luar.









Ilustração: aquelaquenaoeperfeita.blogspot.com

Tuesday, October 04, 2011

Frederico Rivas Frade


Postal

Frederico Rivas Frade

No sé si me engañaste, más fingiste
tan bien tu amor y tu entusiasmo loco,
que hoy, aunque nada entre los dos existe,
aún me parece que me amaste un poco.

Y si hoy, otra mujer, una alegría
dejar quisiera en mi existencia triste,
para hacerme feliz le pediría
que me engañara como tú lo hiciste.


Postal

Eu nem sei se me enganastes, mas, fingistes
tão bem o teu amor e o teu entusiasmo louco
que, hoje, ainda que nada entre nós dois existe,
ainda me parece que me amastes um pouco.

E se hoje, outra mulher, uma alegria
deixar quisera em minha existência triste
para me fazer feliz lhe pediria
que me enganasse como tu o fizestes.


ILustração: fanzineversoslivres.blogspot.com

Aprimorando a tradução do poema de Carlos Bousoño


Eres feliz

Eres feliz. Saber no quieras
lo que brilla en los ojos humanos.
Sonríe tú como mañana fresca,
como tarde colmada en su ocaso.
Porque eres eso, sí: la tarde pura
en que a veces yo mojo mis manos,
en que a veces yo hundo mi rostro.
¡La tarde pura en su placer dorado!
La savia dulce de la primavera,
toda la luz de la tarde en un cántico,
sube entonces feliz y presurosa
desde tu corazón hasta mis labios.

És feliz

És feliz. Saber não queiras
o que brilha nos olhos humanos.
sorria tu como a manhã fresca,
como a tarde gloriosa no seu ocaso.
Porque és isto sim, a tarde pura
em que, às vezes, molhei minhas mãos,
em que, às vezes, afundo meu rosto.
A tarde pura no seu prazer dourado!
A doce seiva da primavera,
toda a luz da tarde num cântico,
sobe, então, feliz e pressurosa
desde teu coração para os meus lábios.

Ilustração: http://poesiaemuitoamor.blogs.sapo.pt

Saturday, October 01, 2011

Mais de José Luis García Martins


Elogio del olvido

José Luis Garcia Martins

¿A qué grabar un nombre en las paredes,
manchar con torpes trazos la blancura
deslumbrante, impoluta, de la nada?
¿A qué este vano empeño de ir dejando señales,
de escribir en la arena, a resguardo del viento,
las triviales miserias que conforman tu vida?
Sobre las tercas líneas que dibujan un rostro
ha de pasar la mano piadosa de los años
borrando letras, sílabas, palabras sin sentido.
El papel en que escribes volverá a estar en blanco.
¿Y habrá dicha mayor que no haber sido?

De "El pasajero" 1992

Elogio ao esquecimento

Por que escrever um nome nas paredes,
manchar com torpes traços a brancura
deslumbrante, impoluta, do nada?
Por que este vão empenho de ir deixando sinais,
de escrever na areia, protegido do vento,
as misérias triviais que fazem sua vida?
Sobre as tenuês linhas que desenham um rosto
hão de passar a mão piedosa dos anos
apagando as letras, sílabas, palavras sem sentido.
O papel em que escreves voltará a ficar em branco.
Haverá sorte maior do que haver sido?

Ilustração: ultradownloads.uol.com.br

José Luis Garcia Martins


Al acecho

José Luis Garcia Martins


¿No oyes sus jadeos? Cada vez
yo los oigo más cerca: solo,
contigo, en medio del verano,
entre los gritos de la multitud,
junto al fuego, en invierno,
con un hermoso libro,
en el crujido de la nieve,
en el estruendo de la lluvia,
cuando enciendo las luces de mi casa,
cuando el mar, cuando llegas,
cuando alargo la mano
hacia los rojos frutos palpitantes.
Está ahí, al acecho,
alza la zarpa, espera.
Tú no la ves, sonríes,
sonrío yo también.
Déjame que te bese una vez más
antes de que su aliento nos alcance.

De "Material perecedero" 1998

À espreita

Não ouves sua respiração ofegante? Cada vez
eu ouço mais próximo: só,
contigo, no meio do verão,
entre os gritos da multidão,
junto ao fogo no inverno
com um belo livro,
com o ruído da neve,
o barulho da chuva,
quando acendendo as luzes de minha casa,
quando ouço o mar, quando chegas,
quando estendo as mãos
aos frutos vermelhos palpitantes.
Está lá, à espreita,
levanta a foice, espera.
Tu não a vês, sorri,
sorrio também.
Deixa que te beije uma vez mais
antes que sua respiração nos alcance.

Ilustração: D. Siqueira (jdbsiqueira.blogspot.com).

Friday, September 30, 2011

Ainda Eliseo Diego


COMIENZA UN LUNES

Eliseo Diego


La eternidad por fin comienza un lunes
y el día siguiente apenas tiene nombre
y el otro es el oscuro, al abolido.
Y en él se apagan todos los murmullos
y aquel rostro que amábamos se esfuma
y en vano es ya la espera, nadie viene.
La eternidad ignora las costumbres,
le da lo mismo rojo que azul tierno,
se inclina al gris, al humo, a la ceniza.
Nombre y fecha tú grabas en un mármol,
los roza displicente con el hombro,
ni un montoncillo de amargura deja.
Y sin embargo, ves, me aferro al lunes
y al día siguiente doy el nombre tuyo
y con la punta del cigarro escribo
en plena oscuridad: aquí he vivido.


Começa na segunda

A eternidade, por fim, começa na segunda-feira
e, no dia seguinte, só tem um nome
e é outro é o escuro, quando abolido.
E nele se apagam todos os sussurros
e aquele rosto que amávamos está desaparecido
e em vão é a espera, ninguém vem.
A eternidae ignora os costumes,
lhe dá o mesmo o vermelho ou o azul terno,
se inclina ao cinza, à fumaça, as cinzas.
Nome e data tu gravas no mármore,
os roça displicente com o ombro,
nem um montículo de amargura deixa.
E sem embargo, vês me aferro à segunda-feira
e ao dia seguinte dou o nome teu
e com a ponta do charuto escrevo
em plena a escuridão: aqui eu vivi.

Eliseo Diego


CALMA

Eliseo Diego


Este silencio,
blanco, ilimitado,
este silencio
del mar tranquilo, inmóvil,

que de pronto
rompen los leves caracoles
por un impulso de la brisa,

Se extiende acaso
de la tarde a la noche, se remansa
tal vez por la arenilla
de fuego,

la infinita
playa desierta,
de manera

que no acaba,
quizás,
este silencio,

nunca?

Calma

Este silencio,
branco, ilimitado,
este silencio
do mar tranqüilo, imóvel,

que de pronto
rompe os leves caracóis
por um impulso da brisa,

Se estende acaso
da tarde à noite, se remansa
talvez pelas areiazinhas
de fogo,

a infinita
praia deserta,
de maneira

Que não acaba,
talvez,
este silencio,

nunca?

Wednesday, September 28, 2011

Os versos que não fiz


Soneto dos versos que não te fiz

Eu fiz uns versos para ti tão bobos..
Versos que, na verdade, pouco dizem.
Eram só palavras sobre o quão felizes
São meus dias contigo, todos, todos...

Não consegui os versos lindos, raros,
Que na mente sonhei pra te dizer !
Postos no papel já nem são claros
Como os que pensava pra te oferecer.

Mas, se bons versos não te digo ainda...
E que me pareces cada vez mais linda
Como nenhum um verso meu bem diz !

Talvez é que te amo tanto ! E nem mais sei...
Se esta falta não é que todo amor já dei
E até sem versos me sinto mais feliz!

Monday, September 26, 2011

Ainda Pedro Salinas


DON DE LA MATERIA

Pedro Salinas

Entre la tiniebla densa
el mundo era negro: nada.
Cuando de un brusco tirón
—forma recta, curva forma—
le saca a vivir la llama.
Cristal, roble, iluminados,
¡qué alegría de ser tienen,
en luz, en líneas, ser
en brillo y veta vivientes!
Cuando la llama se apaga,
fugitivas realidades,
esa forma, aquel color,
se escapan.
¿Viven aquí o en la duda?
Sube lenta una nostalgia
no de luna, no de amor,
no de infinito. Nostalgia
de un jarrón sobre una mesa.
¿Están?
Yo busco por donde estaban.
Desbrozadora de sombras
tantea la mano. A oscuras
vagas huellas, sigue el ansia.
De pronto, como una llama
sube una alegría altísima
de lo negro: la luz del tacto.
Llegó al mundo de lo cierto.
Toca el cristal, frío, duro,
toca la madera, áspera.
¡Están!
La sorda vida perfecta,
sin color, se me confirma,
segura, sin luz, la siento:
realidad profunda, masa.

O dom da matéria

Entre as densas trevas
o mundo era negro, nada.
Quando um brusco safanão
-de forma reta e curvada-
acende de vez a chama.
Cristal, carvalho, iluminados,
que alegria de ser tem
em luz, em linhas, ser
vivendo em brilho e grãos!
Quando a chama se apaga,
fugitivas realidades,
essa forma, aquela cor,
se escapam.
Vives aqui ou na dúvida?
Adicione lentamente uma nostalgia
não de lua ou de amor,
nem de infinito. Nostalgia
de um jarro sobre uma mesa.
Onde estão?
Eu busco por onde estavam.
Desbravadora de sombras
tateia a mão. Às escuras
traços vagos, segue a ânsia.
De repente, como uma chama
sobe uma altíssima alegria
de preto: a luz do tato.
Chego ao mundo do certo.
Toca o cristal, frio, duro,
toca a madeira, àspera.
Onde estão!
A surda vida perfeita
sem cor, só me confirma,
seguro, sem luz, a sinto:
realidade profunda, massa.

Ilustração: Umberto Boccionni

Pedro Salinas


LA VOZ A TI DEBIDA

Pedro Salinas

La forma de querer tú
es dejarme que te quiera.
El sí con que te me rindes
es el silencio. Tus besos
son ofrecerme los labios
para que los bese yo.
Jamás palabras, abrazos,
me dirán que tú existías,
que me quisiste: jamás.
Me lo dicen hojas blancas,
mapas, augurios, teléfonos;
tú, no.
Y estoy abrazado a ti
sin preguntarte, de miedo
a que no sea verdad
que tú vives y me quieres.
Y estoy abrazado a ti
sin mirar y sin tocarte.
No vaya a ser que descubra
con preguntas, con caricias,
esa soledad inmensa
de quererte sólo yo.

A voz a ti devida

Tua forma de querer
é deixar-me que te queiras.
E assim que tu me rendes
com o silêncio. Teus beijos
são oferecerem-se aos lábios
para que os beije eu.
Jamais palavras, abraços,
me dirão que tu existias,
que me quisestes, jamais.
Me dizem as folhas brancas
mapas, augúrios, telefones;
tu, não.
E eu estou abraçado a ti
sem te perguntar, de medo,
que isto não seja verdade
que tu vives e me queres.
E estou abraçado a ti
sem olhar e sem tocar-te.
Não pode ser que descubra
com perguntas, com carícias,
esta solidão imensa
de querer-te somente eu.

Ilustração: http://navegandonotempo.blogspot.com/2005/08/os-namorados.html

Saturday, September 24, 2011

Mais uma vez Concha Garcia


Leve delicadeza

Concha García

No sé. Abro el buzón. Llegan
aquellas cosas mal puestas
en una silla o sobre ella.
Aturdirme de letras,
vivir tardíamente dos pasos
lo justo para intransitar lo cotidiano.
Verme en el espejo: sí, otro día.
Sí, son varios. Sí, fueron muchos.
No sé. Llegar, doblar la ropa
otear la casa, el interior de la casa,
de soslayo, y a veces de frente
sin dejar de examinarme. Es eso.
Sí es eso. La felicidad no tiene temblores
ni arquea días. Es eso. Fíjate
qué cotidiano. Qué leve delicadeza
casi a solas.

Leve delicadeza

Não sei. Abro a caixa de correio. Chegam
aquelas coisas mal postas
numa cadeira ou sobre ela.
As letras me atordoam
vivo tardiamente os passos
justo para intransitar o cotidiano.
Olho-me no espelho: sim, outro dia.
Sim, são vários. Sim, foram muitos.
Não sei. Chegar, dobrar a roupa
passear pela casa, no interior da casa,
de lado, e às vezes de frente
sem deixar de examinar-me. É isto.
Sim, é isto. A felicidade não tem tremores
nem escolhe os dias. É isto aí. Fixa-se
no cotidiano. Numa leve delicadeza
quase a sós.

Concha García


Alegoría del tiempo

Concha García

Somos moderadamente felices,
los dos vivíamos en una afinidad
absoluta: las palabras
no pueden expresar la experiencia.
Yo tampoco.

Alegoria do tempo

Somos moderamente felizes,
Nós dois vivemos numa afinidade
Absoluta: as palavras
Não podem expressar a experiência.
Eu tampouco.

Wednesday, September 21, 2011

Gabriel Celaya



AVISO

Gabriel Celaya

La ciudad es de goma lisa y negra

pero con boquetes de olor a vaquería,

y a almacenes de grano, y a madera mojada,

y a guarnicionería, y a achicoria, y a esparto.



Hay chirridos que muerden, hay ruidos inhumanos

hay bruscos bocinazos que deshinchan

mi absurdo corazón hipertrofiado.

Yo me alquilo por horas; río y lloro con todos;

pero escribiría un poema perfecto

si no fuera indecente hacerlo en estos tiempos.

Aviso

A cidade é de borracha e preta,

mas, com bocas de lobo com odor de leite,

e de armazenamento de grãos, e de madeira molhada,

e de material de couro, chicória e esparto.


Há gritos que mordem, ruídos desumanos,

Há afiados chifres que desinflam

meu insensato coração hipertrofiado.

Eu me alugo por horas; rio e choro com todos;

porém, escreveria um poema perfeito

se não fosse indecente fazê-lo nestes tempos.

Ilustração: ajaxianos.com.br

Borges


La Lluvia

Jorge Luis Borges

Bruscamente la tarde se ha aclarado
Porque ya cae la lluvia minuciosa.
Cae o cayó. La lluvia es una cosa
Que sin duda sucede en el pasado.

Quien la oye caer ha recobrado
El tiempo en que la suerte venturosa
Le reveló una flor llamada rosa
Y el curioso color del colorado.

Esta lluvia que ciega los cristales
Alegrará en perdidos arrabales
Las negras uvas de una parra en cierto
..
Patio que ya no existe. La mojada
Tarde me trae la voz, la voz deseada,
De mi padre que vuelve y que no ha muerto.

A Chuva

De repente a tarde se há aclarado
Porque já cai a chuva minuciosa.
Cai ou caiu. A chuva é uma coisa
Que, sem dúvida, sucede no passado.
.
Quem a ouve cair há recobrado
O tempo que a sorte venturosa
Lhe revelou uma flor chamada rosa
E de uma curiosa cor avermelhada.
.
Esta chuva que cega os cristais
Alegrará em perdidos bairros mais
As uvas pretas de uma videira em certo

Pátio que não existe mais. A molhada
Tarde me traz a voz, a voz desejada,
Do meu pai que volta e não está mais morto.

Saturday, September 17, 2011

Epitáfio para Neide Barros


A morte escolheu a flor mais bonita
E, sem pena, ceifou a rosa
Que mesmo assim deixou seu perfume
E a lembrança da sua imagem
Povoando o mundo de poesia.

Rosa, branca e doce Neide, a vida, agora, parece mais vazia.

Thursday, September 15, 2011

Miguel Hernández


TODO ESTÁ LLENO DE TI

Miguel Hernández

Aunque tú no estás, mis ojos
de ti, de todo, están llenos.
No has nacido sólo a un alba,
sólo a un ocaso no he muerto.
El mundo lleno de ti
y nutrido el cementerio
de mí, por todas las cosas,
de los dos, por todo el pueblo.
En las calles voy dejando
algo que voy recogiendo:
pedazos de vida mía
perdidos desde muy lejos.
.
Libre soy en la agonía
y encarcelado me veo
en los radiantes umbrales,
radiantes de nacimientos.
Todo está lleno de mí:
de algo que es tuyo y recuerdo
perdido, pero encontrado
alguna vez, algún tiempo.
Tiempo que se queda atrás
decididamente negro,
indeleblemente rojo,
dorado sobre tu cuerpo.
Todo está lleno de ti,
traspasado de tu pelo:
de algo que no he conseguido
busco entre tus huesos.

Tudo está pleno de ti

Ainda que tu não estejas, meus olhos
de ti, de todo estão plenos.
Não nasceu nem uma manhã
nem um só sol se deitou.
O mundo pleno de ti
e nutrido o cemitério
de mim, por todas as coisas,
dos dois, por todas as pessoas.
Nas ruas eu vou deixando
algo que vou recolhendo:
pedaços da minha vida
perdidos muito distante.

Livre sou na agonia
e encarcerado me vejo
nos radiantes umbrais,
radiantes de nascimentos.
Tudo está cheio de mim
de algo que tiver e recordo
perdido, porém, encontrado
alguma vez, em algum
tempo que ficou atrás
decididamente negro,
indelevelmente vermelho
dourado sobre teu corpo.
Tudo está pleno de ti,
repleto de teus cabelos:
de algo que não consegui
e que busco entre teus ossos.

Tuesday, September 13, 2011

Outra vez Eliseo Diego


CANCIÓN PARA TODAS LAS QUE ERES

Eliseo Diego

No solo el hoy fragante de tus ojos amo
sino a la niña oculta que allá dentro
mira la vastedad del mundo con redondo
azoro, y amo a la extraña gris que me recuerda
en un rincón del tiempo que el invierno
ampara. La multitud de ti, la fuga de tus horas,
amo tus mil imágenes en vuelo
como un bando de pájaros salvajes.
No solo tu domingo breve de delicias
sino también un viernes trágico, quien
sabe, y un sábado de triunfos y de glorias
que no veré yo nunca, pero alabo.
Niña y muchacha y joven ya mujer,
tu todas, colman mi corazón, y en paz las amo.

Canção para todas que és

Não só, é hoje, flagrante que os teus olhos amo
como também a menina oculta lá dentro
que olha para a vastidão do mundo, com um olhar redondo,
confuso, e eu amo o cinza estranho que me lembra
um pedaço do tempo de inverno.
Amparo. A multidão de ti, a fuga de tuas horas,
amo as tuas mil imagens em vôo
como um bando de pássaros selvagens.
Não só teu domingo, breve de delícias,
mas, também a sexta-feira trágica, quem
sabe, e um sábado de triunfos e glórias
que não verei eu nunca, porém, louvo.
a menina e a moça e a jovem e a mulher,
tu, que és todas, enche meu coração e, em paz, as amo.

Ilustração: http://maisfilme.blogspot.com/2011/01/grande-menina-pequena-mulher.html

Sunday, September 11, 2011

Lina Zerón


CALENDARIO

Lina Zerón

Entre gritos y suspiros aprehendí tu alfabeto.
Hiedra en el muro
me sustento.
Construí secretos pasadizos hacia ti.
A mi acantilada soledad le diste aliento,
pasión a mis indescifrables instintos,
dicha a mis trozos de invierno.
Fui presente que tu boca delineó en el paraíso,
en el pasado tu cuerpo agua fue en mi cuerpo,
de tristezas compartidas construimos un futuro.
Hoy emergen los murmullos...
calendario de recuerdos.
zumbido de la abeja.

Calendário

Entre gritos e suspiros aprendi teu alfabeto.
Erva no muro
Me sustento.
Construi secretos paraísos até a ti.
A minha acantonada solidão destes alento,
Paixão a meus indecifráveis instintos,
Sorte a meus pedaços de inverno.
Fui presente que tua boca desenhou no paraíso,
No passado teu corpo foi água no meu corpo,
De tristezas compartilhadas construímos um futuro.
Hoje emergimos dos murmúrios....
Calendário de recordações.
Zumbido de abelha.

Ainda Eliseo Diego


CALMA

Eliseo Diego

Este silencio,
blanco, ilimitado,
este silencio
del mar tranquilo, inmóvil,

que de pronto
rompen los leves caracoles
por un impulso de la brisa,

Se extiende acaso
de la tarde a la noche, se remansa
tal vez por la arenilla
de fuego,

la infinita
playa desierta,
de manera

que no acaba,
quizás,
este silencio,

nunca?

Calma

Este silencio,
branco, ilimitado,
este silencio
do mar tranqüilo, imóvel,

Que de pronto
rompe os leves caracóis
por um impulso da brisa,

Se estende acaso
da tarde a noite, se remansa
talvez pelas areiazinhas
de fogo,

A infinita
praia deserta,
de maneira

Que não acaba,
talvez,
este silencio,

nunca?

Eliseo Diego


TESTAMENTO

Eliseo Diego

Habiendo llegado al tiempo en que
la penumbra ya no me consuela más
y me apocan los presagios pequeños;

habiendo llegado a este tiempo;

y como las heces del café
abren de pronto ahora para mí
sus redondas bocas amargas;

habiendo llegado a este tiempo;

y perdida ya toda esperanza de
algún merecido ascenso, de
ver el manar sereno de la sombra;

y no poseyendo más que este tiempo;

no poseyendo más, en fin,
que mi memoria de las noches y
su vibrante delicadeza enorme;

no poseyendo más
entre cielo y tierra que
mi memoria, que este tiempo;

decido hacer mi testamento.

Es este:
les dejo

el tiempo, todo el tiempo.

Testamento

Tendo chegado ao tempo
em que as penumbras já não me confortam mais
E me apoucam os presságios pequenos;

tendo chegado neste momento;

como, às vezes, as sementes de café
se abrem, de repente, para mim agora
as suas redondas formas amargas;

tendo chegado neste momento;

e perdida toda a esperança de
alguma merecida ascensão, de
ver o fluir sereno da sombra;

e não possuindo mais do que este momento;

não possuindo mais, finalmente,
que minha memória das noites e
e sua vibrante e enorme delicadeza;

não possuindo mais,
entre o céu e a terra que
minha memória, que este tempo;

decidi fazer meu testamento.

É este:
lhes deixo

o tempo, todo o tempo.

Miguel Arteche Salinas


DAMA

Miguel Arteche Salinas

Esta dama sin cara ni camisa,
alta de cuello, suave de cintura,
tiene todo el temblor de la hermosura
que el tiempo oculta y el amor desliza.
Esta dama que viene de la brisa
y el rango lleva de su propia altura,
tiene ese no sé qué de la ternura
de una dama sin fin, bella y precisa.
Aunque esta dama nunca duerma en cama
parece dama sin que sea dama
y domina desnuda el mundo entero.
Esta dama perdona y no perdona.
Y para eso luce una corona
esta dama que reina en el tablero.

Dama

Esta dama sem rosto nem camisa,
Alta de colo, suave de cintura,
Tem todo o esplendor da formosura
Que o tempo oculta e o amor desliza.
Esta dama que flutua com a brisa
E tem o tamanho de sua própria altura,
Tem este não sei o quê da ternura
De uma dama sem fim, bela e precisa.
Ainda que esta dama nunca durma na cama
Parece uma dama sem que seja dama
E domina desnuda o mundo inteiro.
Esta dama perdoa e não perdoa.
E para isto ilumina uma coroa
Esta dama que reina no tabuleiro.

Friday, September 09, 2011

Paolo Ruffilli


L’INTANTO

Paolo Ruffilli

L’origine segreta
la fessura
la scaturigine
la fonte, di un proiettarsi
al meglio, al positivo.
In ciò che, stante,
creduto per durare
diventa poi stato
inamovibile cessato.
Ma, intanto, è geiser
soffione boracifero
spumante.

Enquanto isto

A origem secreta
a fissura
a abertura original
A fonte de um projetar-se
na melhor das hipóteses, para o positivo.
Na qual, pois,
creio perdurar
tornando-se um estado
inamovível e imóvel.
Mas, enquanto isto, os gêiseres
se põem a borrifar
vinho espumante.

Thursday, September 08, 2011

Canção da Ausência


O tempo não se mede mais senão pela saudade...
Inútil as palavras para preencher
este vazio que se alonga além do mar e do infinito.
Claro que ninguém ouve,
mas, meu grito, tem subtons e densidades que os ouvidos não escutam,
silencioso, na sua forma bruta de cortar a carne sem deixar sinais visíveis.
Por um momento a ilusão de que estais aqui
é mais forte que tua ausência,
então, percebo que é fruto exclusivo da demência,
deste querer que o tempo ou a desesperança não extingue
e transformo em canto
como única forma de mostrar
que o meu amor ainda está vivo.

Toni García Arias


Ausencia

Toni García Arias

Qué poco dura
la huella de una página
o el sabor de un verso,
o el saber de tan débil arquitectura;
poesía;
mezcla de tejidos y piel y memoria,
alquimia de fluidos y sangre y fotos y nada
sobre la palma inerte de esta hoja
que mide su tiempo
en ausencias al cuadrado.

Ausência

O pouco que dura
o traço de uma página
ou o sabor de um verso,
ou o saber de tão débil arquitetura;
poesia;
mistura de tecidos e de pele e memória
alquimia de fluidos e sangue e fotos e nada
sobre a palma inerte desta página
que mede o seu tempo
em ausências ao quadrado.

Ilustração: http://devaneiosepoemas.blogspot.com/2010/06/meu-desassossego-e-do-tamanho-da-tua.html

E Borges sobre o mesmo tema


Ausencia

Jorge Luis Borges

Habré de levantar la vasta vida
que aún ahora es tu espejo:
cada mañana habré de reconstruirla.
Desde que te alejaste,
cuántos lugares se han tornado vanos
y sin sentido, iguales
a luces en el día.
Tardes que fueron nicho de tu imagen,
músicas en que siempre me aguardabas,
palabras de aquel tiempo,
yo tendré que quebrarlas con mis manos.
¿En qué hondonada esconderé mi alma
para que no vea tu ausencia
que como un sol terrible, sin ocaso,
brilla definitiva y despiadada?
Tu ausencia me rodea
como la cuerda a la garganta,
el mar al que se hunde.

Ausencia

Hei de levantar a vasta vida
que ainda agora é o teu espelho:
Cada manhã irei reconstruí-la.
Desde que te fostes,
quantos lugares se tornaram inúteis
e sem sentido, igual
à luz durante o dia.
As tardes foram nichos de tua imagem
músicas com que sempre me aguardavas,
são palavras daquele tempo,
eu terei que quebrá-las com as minhas mãos.
Como poderei esconder a minha alma vazia
para que não veja a tua ausência
que, como um sol terrível, sem ocaso,
brilha definitiva e desapiedadamente ?
Tua ausência me rodeia
como a corda na garganta,
e o mar que se afunda.

Ilustração: http://menosehdmais.wordpress.com/page/72/

Neruda para alegrar a quinta-feira



AUSENCIA

Pablo Neruda

Apenas te he dejado,
vas en mí, cristalina
o temblorosa,
o inquieta, herida por mí mismo
o colmada de amor, como cuando tus ojos
se cierran sobre el don de la vida
que sin cesar te entrego.
Amor mío
nos hemos encontrado
sedientos y nos hemos
bebido toda el agua y la sangre,
nos encontramos
con hambre
y nos mordimos
como el fuego muerde,
dejándonos heridas.
Pero espérame,
guárdame tu dulzura.
Yo te daré también
una rosa.

Ausência


Apenas te havia deixado,
segues em mim, cristalina
ou temerosa
ou inquieta, ferida por mim mesmo
ou repleta de amor, como quando teus olhos
se fecham sobre o dom da vida
que sem cessar te entrego.
Meu amor
nos temos nos encontrado
sedentos e não temos
bebido toda a água e sangue,
nos encontramos
famintos
e nos mordemos
como o fogo morde,
deixando-nos feridos.
Porém, espera-me
guarda-me tua doçura.
Eu te darei também
uma rosa.

Ilustração: corujicesnoturnas.blogspot.com

Tuesday, September 06, 2011

Marié Rojas Tamayo


Cita a ciegas

Marié Rojas Tamayo

Anuda una venda alrededor de tus ojos
Déjate guiar por el aroma de la hierba buena
Colócate de espaldas al viento adverso
Siente el sol en la frente
Desdeña los caminos
Los campos de amapolas
Sumérgete en el bosque
Persigue el canto de las aves que huyen a tu paso
Sigue más allá de tu cansancio
Hasta hollar la línea del horizonte.
Allí donde el mar se une con el cielo
Donde cada noche aguardo tu presencia
Te daré mis amores.

Encontro às cegas

Amarra uma venda ao redor dos teus olhos
Deixa-te guiar pelo cheiro de menta
Coloca-te de costas contra o vento
Sente o sol de frente
Desdenha das estradas
Os campos de papoula
Mergulha na floresta
Persegue o canto dos pássaros que fogem de teu passo
Continua para além do seu cansaço
Até pisar a linha do horizonte.
Ali onde o mar encontra o céu
Onde a cada noite aguardo tua presença
Eu te darei meus amores.

Como uma criança


Cansaço

Bem que eu queria te dizer coisas doces
Te falar que os tempos que virão
Serão bem mais felizes,
Mas, no meu caminho, foram tantas cicatrizes
Que não sei mais da cor ou do perfume das flores.

Bem que queria soar nos teus ouvidos
Como uma música suave,
Um som de velhos filmes,
Uma sonata de Chopin,
Porém, me encontro assim desanimado
Tão sem sonhos
Que só posso dizer que sou teu fã
Que só quero descansar
Sempre a teu lado
E, se possível, te amar
Como uma criança
Sem pecado.

Monday, September 05, 2011

Mónica Silvia Ugobono


INTRÍNSECA INCOMPATIBILIDAD

Mónica Silvia Ugobono

Si yo fuese de mar
envolvería tu cuerpo
con la espuma de mis venas.
Tus caricias naufragarían en mis labios.
Si tuviese el mar entre los huesos
construiría arrecifes para tus voces;
con corrientes variables,
abatiría tu mundo de escombros,
llevándome en todo regreso
una partícula de tus ruinas.
Si mi cuerpo fuera
un suave vaivén de transparencias
bañaría tus anhelos
y en cada uno de sus muelles
haría desembarcar a la confianza extraviada.
Pero mis miembros están rígidos
por la constante contemplación de las mareas.
Mi única fe se llama resignación.
Mi cuerpo ... duro estaño.

Intrínseca incompatibilidade

Se eu fosse de mar
envolveria teu corpo
com a espuma de minhas veias.
Tuas carícias naufragariam nos meus lábios.
Se tivesse o mar entre os ossos
construiria recifes para tuas vozes;
com correntes variáveis,
abateria teu mundo de escombros,
levando-me em todo regresso
como uma partícula de tuas ruínas.
Se meu corpo fosse
um suave vai e vem de transparências
banharia teus desejos
e em cada um dos pilares
desembarcaria a confiança perdida.
Porém, meus membros estão rígidos
pela constante contemplação das marés.
Minha única fé se chama resignação.
O meu corpo ... duro estanho.

Luis Fernando Moran


Feel love?

Luis Fernando Moran

Vamos se como el alcohol
quema mis labios
mientras las diosas ovulan su ultma oportunidad
juntate a la danza sensual de crear amor en lecho de sexo
mientras nos lanzamos a la perdicion de ser lo que somos
seres necesitados de algo a que amar
para hacerlo mierda ...

Sentir amor?

Vamos como o álcool
que queima os meus lábios
enquanto as deusas ovulam sua última oportunidade
junta-te à dança sensual de criar amor no leito de sexo
enquanto nos lançamos à perdição de ser o que somos
seres necessitados de algo a que amar
para fazer do amor o nada ...

Ainda Manuel González Navarrete


FINAL DE DÍA

Manuel González Navarrete

A veces, al terminar el día,
dejo esta flaca indumentaria
en un sillón tan viejo como yo.

Desde aquí miro la vida,
mis ojos se pierden tras la ventana
y se me clava la noche
por una costilla.

Mi mujer, cuando quiere,
se sienta a mi lado;
habla sin informarme de nada,
yo río al enterarme de todo.

Siempre es posible oír a Bach
desde el sillón, y
es posible también extender la mano,
tocar la piel deseada.

A veces, al terminar el día,
pongo mis huesos en este sillón
y el amor y la vida transcurren
frente a la ventana.

Final de Dia

Às vezes, ao terminar o dia,
deixo esta fraca indumentária
numa cadeira tão velha quanto eu.

Daqui olho para a vida,
meus olhos se perdem por trás das janelas,
e me fixo na noite
por uma pequena réstia

Minha mulher, quando quer,
senta ao meu lado,
fala sem me informar de nada,
eu rio ao me inteirar de tudo.

Sempre é possível ouvir Bach
da cadeira, e
também estender a mão
e tocar a pele desejada.

Às vezes, ao terminar o dia,
ponho meus ossos nesta cadeira
e o amor e a vida transcorrem
em frente a esta janela.

Manuel González Navarrete



NO ME CABE LA NOCHE
A Kiauitzin
Y la muerte no tendrá senorío
Dylan Thomas

Manuel González Navarrete


Miré tu rostro de sol moreno,
tu piel nocturna,
poblada de flores y mariposas,
esperaba...
Te llevaron a guardar,
no supe dónde.
¿ A qué esconderte ? pensé,
¿ En qué lugar del mundo depositarte ?
Será como envolver la luna
en tus cabellos,
cubrir el Valle de Anáhuac
con tus manos,
sembrar un cempoalzuchitl
en su seno.
No podrán, concluí,
no me cabe la noche
en tanta vida.
En estos días lluviosos,
la muerte cumple con su deber,
quejumbrosa, compungida;
lleva a cuestas un pueblo,
de flores y mariposas,
anochecido.

A noite não me cabe

Mirei teu rosto de sol moreno,
tua pele noturna,
povoada de flores e borboletas,
que esperava....
Te levaram a guardar
não sei aonde.
Por que te esconder? Pensei.
Em que lugar do mundo te depositar?
Será como envolver a lua
em teus cabelos,
cobrir o Vale de Anáhuac
com tuas mãos,
semear um campo de trigo
no teu seio.
Não poderão, conclui,
não me cabe a noite
em tanta vida.
Nestes dias chuvosos,
a morte cumpre com o seu dever,
queixosa, compungida;
leva nas costas um povo,
de flores e borboletas,
anoitecido.

Ainda José Martí


EN UN DULCE ESTUPOR

José Martí

En un dulce estupor soñando estaba
Con las bellezas de la tierra mía:
Fuera, el invierno lívido gemía,
Y en mi cuarto sin luz el sol brillaba.
La sombra sobre mí centelleaba
Como un diamante negro, y yo sentía
Que la frente soberbia me crecía,
Y que un águila al cielo me encumbraba.
Iba hinchando este gozo el alma oscura,
Cuando me vi de súbito estrechado
Contra el seno fatal de una hermosura:
Y al sentirme en sus brazos apretado,
Me pareció rodar desde una altura
Y rodar por la tierra despeñado.

Num doce estupor

Em um doce estupor doce sonhando estava
Com as belezas da minha terra:
Lá fora, o inverno lívidogemia
E no meu quarto sem luz o sol brilhava.
A sombra sobre mim brilhava
Como um diamante negro, e eu sentia
que o orgulho na frente me crescia,
E que uma águia no céu me acobertava.
Inchava de alegria este gozo em alma escura,
Quando me vi de súbito abalado
Contra o seio fatal de uma formosura:
E ao sentir-me em seus braços apertados,
Me pareceu rodar lá das alturas
e a rodar e cair pelo penhasco.

Friday, September 02, 2011

José Martí

Y TE BUSQUÉ José Martí Y te busqué por pueblos, Y te busqué en las nubes, Y para hallar tu alma, Muchos lirios abrí, lirios azules. Y los tristes llorando me dijeron: – ¡Oh, qué dolor tan vivo! ¡Que tu alma ha mucho tiempo que vivía En un lirio amarillo! – Mas dime – ¿cómo ha sido? ¿Yo mi alma en mi pecho no tenía? Ayer te he conocido, Y el alma que aquí tengo no es la mía. in Versos de Amor E eu te busquei E eu te busquei nas pessoas, E eu te busquei nas nuvens E para encontrar a tua alma Muitos lírios abri, lírios azuis. E os tristes chorando me disseram: - Oh, que dor tão viva! Que a tua alma já vivia a muito tempo Num lírio amarelo! - Mas diga-me - como foi? Eu, minha alma, no meu peito não tinha? Ontem eu te conheci, E a alma que eu tenho aqui não é a minha.

Thursday, September 01, 2011

YET I DO MARVEL Countée Cullen I doubt not God is good, well-meaning, kind And did He stoop to quibble could tell why The little buried mole continues blind, Why flesh that mirrors Him must some day die, Make plain the reason tortured Tantalus Is baited by the fickle fruit, declare If merely brute caprice dooms Sisyphus To struggle up a never-ending stair. Inscrutable His ways are, and immune To catechism by a mind too strewn With petty cares to slightly understand What awful brain compels His awful hand. Yet do I marvel at this curious thing: To make a poet black, and bid him sing! Ainda posso me maravilhar Eu não duvido que Deus é bom, bem-intencionado, gentil, E que Ele não se inclina a dizer por que A toupeira um pouco enterrado continua cega, Por que a carne que O reflete deve morrer algum dia, Ou qual a razão de seu plano de torturar Tantalus E, atingido pelo fruto volúvel, declarar Por um mero e bruto capricho a pena de Sísifo De lutar eternamente numa escada sem fim. Inescrutáveis os Seus caminhos são, e imune Ao catecismo para uma mente muito estreita Com pequenos cuidados pode-se entender um pouco O que compele o cérebro e Sua mão terrível. Ainda que possa me maravilhar com esta coisa curiosa: Que crie um poeta negro que lhe ofereça o seu cantar!