Sunday, January 20, 2008

UMA POETISA ARGENTINA

SÚPLICAS
Maria Pugliese
Al principio un incendio
dispersa la tinta en el papel
tibia madeja
que disemina lenguas entre llamas.
No hablamos.

Otro fuego
descorre velos
cada mañana
arrea por la casa
el olor de las manos
los pliegos en la ropa
pan agua.
Que no quede nada.

Un principio un incendio.
Es de noche.
Cae en su peso
la pluma de pájaro.
Agoniza.
Su hálito humea
el cristal de la cárcel
centelleo de brasas
de cenizas

Eso.

¿Llueve?
Súplicas y viento
eso queda.

Suplicas

No princípio um incêndio
Dispersa a tinta no papel
Tíbia madeixa
Que dissemina línguas entre as chamas.
Não falamos.

Outro fogo
Percorre veloz
Cada manhã
Passeia pela casa
O perfume das mãos
Os pegadores de roupas
Pão água.
Que não fique nada.

Um princípio um incêndio.
É de noite.
Cai em seu peso
A pluma do pássaro.
Agoniza.
Seu hálito umedece
O cristal do cárcere
Centelhas das brasas
de cinzas
Isto.
Chove?
Suplicas e ventos.
Isto fica.

Saturday, January 19, 2008

UM POETA ESPANHOL

YO CANTARÉ DE AMOR TAN DULCEMENTE

Gabriel Bocángel

Yo cantaré de amor tan dulcementeel
rato que me hurtare a sus dolores,
que el pecho que jamás sintió de amores,
empiece a confesar que amores siente.

Verá como no hay dicha permanente
debajo de los cielos superiores,
y que las dichas altas o menores
imitan en el suelo su corriente.

Verá que ni en amar alguno alcanza
firmeza (aunque la tenga en el tormento
de idolatrar un mármol con belleza).

Porque si todo amor es esperanza,
y la esperanza es vínculo del viento,
¿quién puede amar seguro en su firmeza?


Eu Cantarei o Amor Tão Docemente

Eu cantarei o amor tão docemente
Com o fito de me furtar as suas dores,
Que o peito que jamais sentiu amores
Comece a confessar que amores sente.

Verá como não há sorte permanente
Debaixo dos céus superiores,
E que as felicidades maiores ou menores,
Imitam os céus, no solo, em sua corrente.

Verá que em amar ninguém alcança
Firmeza (ainda que a tenha no tormento
De idolatrar um mármore com beleza).

Porque se todo amor é esperança,
E a esperança é vinculo de vento,
Quem pode amar seguro em sua fortaleza?

Friday, January 18, 2008

OUTRA POESIA DE HUERTA

TE SIENTO

Renato Alejandro Huerta

Te siento cada día rozándome invisible
sutilmente impalpable.
Y aunque sé que siempre te he llevado conmigo
eres siempre la suave, dulcemente imposible
lejanía luminosa...
Te siento cada día cantar, mas no sé donde.
Eres algo que vive más allá de mí mismo
y aunque siempre eres nube y horizonte lejano
sentí tu beso sobre mi alma!
Mi espíritu solitario te sueña en todas las cosas
Mi alma te busca tras toda emoción¡
Mi camino está lleno de tu nombre!¡Lejana!...
¿Dónde estás?...¿Dónde estás?Te Sinto

Te sinto

Te sinto cada dia roçando-me invisível
Sutilmente impalpável.
E ainda sei que sempre havia te levado comigo
E eras sempre a suave, docemente impossível
Distante luminosa....
Te sinto cada dia cantar, mas não sei onde.
És algo que vive além de mim mesmo
E ainda que sempre sejas a nuvem e o horizonte distante
Senti teu beijo sobre a minha alma!
Meu espírito solitário te sonha em todas as coisas
Minha alma te busca por trás de toda emoção
Meu caminho está repleto de teu nome!
Distante? Onde estais? Onde estais?

Thursday, January 17, 2008

MAIS UM POETA CHILENO

AMAME

Renato Alejandro Huerta

Amame, como aquellos que se amaron sin límites.
como aquellos que se salvaron por el Amor.
como aquellos que se iluminaron por el Amor.
como aquellos que se transmutaron por el Amor.
Amame, sin prejuicios ni condiciones.
sin esperas ni reservas.
sin egoísmos ni sombras.
sin cadenas ni sumisiones.
Amame, con la profundidad insondable del océano.
con la claridad del Sol de las montañas.
con la fuerza suprema de vientos huracanados.
Amame, con la blanca llama de tu alma despierta.
con la alegría de cielos infinitos.
Porque sólo por el Amor peregrinamos juntos
hacia la dicha divina e inmortal.

AMA-ME

Ama-me como aqueles que se amaram sem limites.
Como aqueles que se salvaram por amor.
Como aqueles que se iluminaram por amor.
Como aqueles que se transformaram por amor.
Ama-me sem prejuízos nem condições.
Sem esperas nem reservas.
Sem egoísmos nem sombras.
Sem cadeias nem submissões.
Ama-me com a profundidade insondável do oceano.
Com a claridade do sol das montanhas.
Com a força suprema dos ventos de furacões.
Ama-me com a chama branca de tua alma desperta.
Com a alegria de céus infinitos.
Porque somente por amor caminharemos juntos
Até nosso destino divino e imortal.

Wednesday, January 16, 2008

OUTRO POETA DO CHILE

Enamorado

Alejandro Latorre

Yo te amo corazón de agua
Soy prisionero de tu cascada de sonrisas.
Tu nombre llueve en mi piel
Como una cadena de flores.
Sólo tú suspendes mi voz en tus suspiros
Y en tu suave tiempo imaginario
Rumorea una bandera de rosas.
La transparencia de tus sueños
Galopa en mi camino de sombras
Yo te amo corazón de agua.

Enamorado

Eu te amo coração de água
Sou prisioneiro de tua cascata de sorrisos.
Teu nome chove em minha pele
Como uma cadeia de flores.
Só tu suspendes minha voz em teus suspiros
E no suave tempo imaginário
Rumoreja uma bandeira de rosas.
A transparência de teus sonhos
Galopa em meu caminho de sombras
Eu te amo coração de água.

Tuesday, January 15, 2008

UM POETA CHILENO

Soneto VI

Pedro Prado

Todo en mi vida es un presentimiento.
Soy como hoja medio desprendida
Que ya la agita, sin llegar el viento;
Una hoja temblorosa y conmovida.
Amo, sin verla, clara imagen pura;
Y mis ansias, mi angustia y mi tristeza,
Sólo escupen y buscan en la dura
Realidad de la vida a la belleza.
Yo sabré quién espera y quién llama,
Animando el misterio y escondida,
Cuando esta fiebre que a mi ser inflama,
Ciña, por fin, la forma apetecida.
De amor humano hacia el amor divino,
Voy labrando, sin tregua, mi camino.


Soneto VI

Tudo na minha vida é um pressentimento.
Sou como uma folha meio desprendida
Que já agora se agita antes de chegar o vento;
Uma folha temerosa e comovida.

Amo, sem vê-la, clara imagem pura;
E minhas ânsias, angústias e tristezas
Só esculpi e busca na matéria dura
A realidade da vida, a sua beleza.

Eu saberei o que espera e o que chama,
Animando o mistério e escondida,
Quando esta febre que meu ser inflama,

Consiga, por fim, a forma apetecida
Do amor humano até o amor divino,
Vou traçando, sem trégua, a minha estrada.
(Ilustrado com escultura de Manuel Belarmino).

Monday, January 14, 2008

DOIS POEMAS DE ALEJANDRA PULTRONE

Bañistas de 1904

Alejandra Pultrone

los niños marineros
revisten la playa
donde no hay piel
para zozobrar

la imagen de este rostro
invadido
por la infancia
no cede

juegos de arena
encuentros del azar

vuelvo por un par
de ojos

un aviso de retorno
que asegure

pero las olas
se desatan
borrando

Banhistas de 1904

As crianças marinhas
revestem a praia
onde não há pele
para afundar

a imagem deste rosto
invadido
pela infância
não cede

jogos de arena
encontros de acaso

volto por um par
de olhos

um aviso de retorno
que assegure,

porém, as ondas
se desatam
em espumas

Playa de los Pescadores (1915)

las sogas
apuntalan
a los bañistas de las buenas costumbres

extendidos por el mar
se afianzan

apoyo
lugares firmes
donde la arena
hunde

Praia dos Pescadores (1915)

As cordas
suportam
os banhistas de bons costumes

estendidas pelo mar
asseguram

apoio
nos lugares firmes
aonde a areia
se afunda

Sunday, January 13, 2008

DOIS POEMAS DE LUISA FUTORANSKY

Estofado

Luisa Futoransky

Escribir con la paciencia de un
entomólogo, la displicencia de un dandy
y la febrilidad del buscador de oro.

El poema, la más frágil transparencia
nupcial.

Estofado

Escrever com a paciência de um
entomólogo, a displicência de um dandí
e a febre de ouro de um garimpeiro.
O poema, a mais frágil transparência
nupcial.

Slow

Lo más atroz de la infancia es
la sumisión.

Casi al filo de lo irreparable.

Lento

O mais atroz da infância
é a submissão.

Quase na margem do irreparável.

LIVRE PENSAR


Viagem

Tudo, ao fim e ao cabo,
Inútil salta
Ainda que o dizer verbalizado
Tente dar sentido
Ao resguardado
No fundo da alma,
No longínquo sentimento
Que em tristeza só se manifesta.

Hoje com o tempo livre
enrodilho-me no espaço das lembranças
como quem folheia
um manuscrito de outrora

um objeto do passado

procurando explicações,
chaves, formulas secretas,
reconstituições
do que já se perdeu....

Vago no olhar e no tocar

imóvel

pelos mistérios
de silêncio e paz

e contudo

Só me encontro
quando paro,
me deparo
com a sensação inexprimível
do nunca mais.

Saturday, January 12, 2008

UMA POETISA ARGENTINA

Cantos del Purgatorio I

María del Carmen Colombo

infinitas agujas
alzan las costureras
para coser el ruedo
del reino
de los cielos

creo en la gran
gallina
viuda de toda madre

creo en
la Ponedora
purísima del casto
huevo celestial

telarañas de tela del
peso de la culpa
caen
en la sintaxis

y el alma se me vuela
por la boca
y el cuerpo
se me pudre

hay hueco en el vacío es
la pérdida intacta
de los que aúllan como yo
porque nunca llegaron a incubarse

alzan las costureras
infinitas agujas
para coser el ruedo
del reino
de los cielos

(Do Anuario de Poetas Argentinos, selección
1989)

Cantos do Purgatório I

Infinitas agulhas
Levantam as costureiras
Para coser as voltas
do reino
dos céus

Creio
na grande galinha
viúva de toda a mãe

Creio na
Poedeira puríssima
do mais puro
ovo celestial

Redes de tela
do peso da culpa
caem
na sintaxe

e a alma me sai
pela boca
e o meu corpo
apodrece

Há um oco no vazio
da perda intacta
dos que uivam como eu
porque nunca chegaram
a incubar-se

Infinitas agulhas
Levantam as costureiras
Para coser as voltas
do reino
dos céus

Friday, January 11, 2008

A MÃE DA CULTURA PARAGUAIA

Las Puertas

Josefina Plá

Um cerrarse de puertas,
a derecha e izquierda;
un cerrarse de puertas silenciosas,
siempre a destiempo
siempre un poco antes
o un momento demasiado tarde;
hasta que solo queda abierta una,
la única puntual,
la única oscura,
la única sin paisaje y sin mirada.

As Portas

Um fechar-se de portas,
À direita e à esquerda;
Um fechar-se de portas silenciosas,
Sempre fora de hora
Sempre um pouco antes
Ou um momento depois demasiado tarde;
Até que só uma fica aberta, uma,
A única pontual,
A única escura
A única sem paisagem e sem futuro.

Wednesday, January 09, 2008

UM GRANDE POETA MEXICANO


EL BRINDIS DEL BOHEMIO


Guillermo Aguirre y Fierro


En torno de una mesa de cantina,
una noche de invierno,
regocijadamente departían
seis alegres bohemios.
Los ecos de sus risas escapaban

y de aquel barrio quieto
iban a interrumpir
el imponente y profundo silencio.
El humo de olorosos cigarrillos



en espirales se elevaba al cielo,
simbolizando al resolverse en nada,
la vida de los sueños.
Pero en todos los labios había risas,
inspiración en todos los cerebros,
y, repartidas en la mesa,

copas pletóricas de ron, whisky o ajenjo.
Era curioso ver aquel conjunto,
aquel grupo bohemio,
del que brotaba la palabra chusca,
la que vierte veneno,
lo mismo que, melosa y delicada,
la música de un verso.
A cada nueva libación,



las penas hallábanse más lejos del grupo,
y nueva inspiración llegaba a todos los cerebros,
con el idilio roto
que venía en alas del recuerdo.

Olvidaba decir que aquella noche,
aquel grupo bohemio celebraba entre risas,
libaciones, chascarrillos y versos,
la agonía de un año que amarguras
dejó en todos los pechos,
y la llegada, consecuencia lógica,
del “Feliz Año Nuevo”...


—Brindo, dijo otra voz, por la esperanza
que a la vida nos lanza,
por la esperanza, nuestra dulce amiga,
que las penas mitiga
y convierte en vergel nuestro camino.

Brindo porque ya hubiese a mi existencia
puesto fin con violencia
esgrimiendo en mi frente mi venganza;
si en mi cielo de tul limpio y divino
no alumbrara mi sino
una pálida estrella: Mi esperanza.

—¡Bravo! Dijeron todos,
inspirado esta noche has estado
y hablaste bueno, breve y sustancioso.
El turno es de Raúl; alce su copa
Y brinde por... Europa,
Ya que su extranjerismo es delicioso...

—Bebo y brindo, clamó el interpelado;
brindo por mi pasado,
que fue de luz, de amor y de alegría,
y en el que hubo mujeres seductoras y frentes soñadoras
que se juntaron con la frente mía...

Brindo por el ayer que en la amargura
que hoy cubre de negrura mi corazón,
esparce sus consuelos trayendo
hasta mi mente las dulzuras de goces, de ternuras,
de dichas, de deliquios, de desvelos.

—Yo brindo, dijo Juan, porque en mi mente brote
un torrente de inspiración divina y seductora,
porque vibre en las cuerdas de mi lira
el verso que suspira,
que sonríe, que canta y que enamora.
Brindo porque mis versos cual saetas
Lleguen hasta las grietas
Formadas de metal y de granito
Del corazón de la mujer ingrata
Que a desdenes me mata...
¡pero que tiene un cuerpo muy bonito!

Porque a su corazón llegue mi canto,
porque enjuguen mi llanto
sus manos que me causan embelesos;
porque con creces mi pasión me pague...
¡vamos!, porque me embriague
con el divino néctar de sus besos.

Siguió la tempestad de frases vanas,
de aquellas tan humanas que hallan en todas partes acomodo,
y en cada frase de entusiasmo ardiente,
hubo ovación creciente,
y libaciones y reír y todo.

Se brindó por la Patria, por las flores,
por los castos amores
que hacen un valladar de una ventana,
y por esas pasiones voluptuosas
que el fango del placer llena de rosas
y hacen de la mujer la cortesana.

Sólo faltaba un brindis, el de Arturo.
El del bohemio puro,
De noble corazón y gran cabeza;
Aquél que sin ambages declaraba
Que solo ambicionaba
Robarle inspiración a la tristeza.

Por todos estrechado, alzó la copa
Frente a la alegre tropa
Desbordante de risas y de contento;
Los inundó en la luz de una mirada,
Sacudió su melena alborotada
Y dijo así, con inspirado acento:

—Brindo por la mujer, mas no por ésa
en la que halláis consuelo en la tristeza,
rescoldo del placer ¡desventurados!;
no por esa que os brinda sus hechizos
cuando besáis sus rizos
artificiosamente perfumados.

Yo no brindo por ella, compañeros,
siento por esta vez no complaceros.
Brindo por la mujer, pero por una,
por la que me brindó sus embelesos
y me envolvió en sus besos:
por la mujer que me arrulló en la cuna.

Por la mujer que me enseño de niño
lo que vale el cariño
exquisito, profundo y verdadero;
por la mujer que me arrulló en sus brazos
y que me dio en pedazos,
uno por uno, el corazón entero.

¡Por mi Madre! Bohemios, por la anciana
que piensa en el mañana
como en algo muy dulce y muy deseado,
porque sueña tal vez, que mi destino
me señala el camino
por el que volveré pronto a su lado.

Por la anciana adorada y bendecida,
por la que con su sangre me dio vida,
y ternura y cariño;
por la que fue la luz del alma mía,
y lloró de alegría, sintiendo mi cabeza en su corpiño.

Por esa brindo yo, dejad que llore,
que en lágrimas desflore
esta pena letal que me asesina;
dejad que brinde por mi madre ausente,
por la que llora y siente
que mi ausencia es un fuego que calcina.

Por la anciana infeliz que sufre y llora
y que del cielo implora
que vuelva yo muy pronto a estar con ella;
por mi Madre, bohemios,
que es dulzura vertida en mi amargura
y en esta noche de mi vida, estrella...

El bohemio calló;
ningún acento profanó el sentimiento
nacido del dolor y la ternura,
y pareció que sobre aquel ambiente
flotaba inmensamente
un poema de amor y de amargura.


O Brinde do Boêmio

Em torno de uma mesa de cantina
Numa noite de inverno,
Satisfeitos conversavam
Seis alegres boêmios.

Os ecos de suas risadas escapavam
Daquele quieto bairro
Indo interromper o imponente
E profundo silencio.

O fumo de saborosos cigarros
Em espirais se elevavam ao céu
Simbolizando o resolver-se em nada,
A vida e os sonhos.

Porém, em todos os lábios havia risos,
Inspirações em todos os cérebros,
E, repartidos pela mesa, os copos
Repletos de rum, uísque ou aguardente.

Era curioso ver aquele conjunto,
Aquele grupo boêmio,
Do qual brotava a palavra engraçada,
A que verte veneno,
Ainda que melosa e delicada,
A música de um verso.

A cada nova rodada, as penas
Elevavam-se mais longe do grupo
E nova inspiração chegava
A todos os cérebros,
Com o idílio roto que vinha
Dos lados da recordação.

Esqueci-me de dizer que aquela noite,
Aquele grupo boêmio
Celebrava entre risadas, bebidas,
Chistes e versos,
A agonia de um ano que amarguras
Deixou em todos os peitos,
E a chegada, conseqüência lógica,
Do “Feliz Ano Novo”...

Uma voz varonil disse de pronto:
-As doze, companheiros,
Digamos o “réquiem” pelo ano
Que passou a fazer parte dos mortos.
Brindemos o ano que começa!
Porque nos traz sonhos;
Para que não seja sua bagagem um acúmulo
De amargos desconsolos...

-Brindo, disse outra voz, pela esperança
Que a vida nos lança,
De vencer os rigores do destino,
Pela esperança, nossa doce amiga,
Que as penas mitiga
E converte em vergel nosso caminho,

Brindo porque se já houvesse a minha existência
Posto fim com violência
Esgrimindo em minha frente minha vingança;
Se em meu céu de tule limpo e divino
Não iluminasse meu destino
Uma pálida estrela: minha esperança

-Bravo!Disseram todos, inspirado
Esta noite tens estado
E falastes bem, breve e substancioso.
A vez é de Raul; levanta teu copo
E brinde pela...Europa,
Já que seu estrangeirismo é delicioso....

-Bebo e brindo, clamou o interpelado;
Brindo por meu passado,
Que foi de luz, de amor e de alegria,
E em que tive mulheres sedutoras
E frontes sonhadoras
Que se juntaram com a fronte minha...

Brindo pelo passado que na amargura
Que hoje cobre de negrura
Meu coração, espalhou seus consolos
Trazendo até minha mente as doçuras
De gozos, de ternuras,
De sortes, de delírios, de desvelos.

-Eu brindo, disse João, porque na minha mente
Brota uma torrente
Divina e sedutora,
Porque vibra nas cordas da minha lira,
O verso que suspira,
Que sorri, que canta e apaixona.
Brindo porque meus versos qual setas
Chegam até as gretas
Formadas de metal e de granito
Do coração da mulher ingrata
Que de desdém me mata...
Porém que tem um corpo muito bonito!

Porque a seu coração chega meu canto
Porque enxugam meu pranto
Suas mãos que me enlevam;
Porque cresces com a paixão com que me pagas...
Vamos!Porque me embriaga
Com o néctar divino de seus beijos.

Seguiu a tempestade de frases vãs,
Daquelas tão humanas
Que se acham em todas as partes e se acomodam,
E a cada frase de entusiasmo ardente,
Houve uma ovação crescente
E libações e risos de todos.

Se brindou pela pátria, pelas flores,
Pelos castos amores
Que são uma barreira as ventanias
E por essas paixões voluptuosas
Que o barro do prazer enchem de rosas
E fazem da mulher uma cortesã.

Somente faltava um brinde, o de Arturo.
Ele, o boêmio puro,
De nobre coração e grande cabeça;
Aquele que sem papas declarava
Que apenas ambicionava
Roubar inspiração da tristeza.

Por todos incitado, elevou o copo
Perante a alegre tropa
Transbordante de risadas e contentamento;
Os inundou de luz num olhar apenas,
Sacudiu suas melenas alvoroçadas
E disse assim, com inspirado acento:

-Brindo pela mulher, mas não por essa
Que da qual falais que dá consolo na tristeza,
Rescaldo do prazer. Desventurados!
Não por essa que os brinda com seus encantos
Quando beijam seus risos
Artificiosamente perfumados.

Eu não brindo por ela, companheiros,
Sinto por esta vez não comprazê-los,
Brindo pela mulher, porém por uma,
Pela que me brindou com sua beleza
E me envolveu em seus beijos:
Pela mulher que me acolheu em seu ventre.

Pela mulher que me ensinou menino
O que vale o carinho
Belo, profundo e verdadeiro;
Pela mulher que me envolveu em seus braços
E que me deu seus pedaços,
Um a um, o coração inteiro.

Por minha mãe! Boêmios, pela anciã
Que pensa na manhã
Como em algo muito doce e desejado,
Porque sonha talvez que meu destino
Me assinala o caminho
Pelo qual voltarei para o seu lado.

Pela anciã adorada e bendita,
Pela que com seu sangue me deu vida,
E ternura e carinho;
Pela que foi a luz de minha alma,
E chorou de alegria,
Sentindo minha cabeça em seu corpinho.

Por esta brindo eu, deixando que chore,
Que as lágrimas desfolhe
Esta pena letal que me assassina;
Deixem que brinde por minha mãe ausente,
Pela que chora e sente
Que minha ausência é um fogo que calcina.

Pela anciã infeliz que sofre e chora
E que o céu implora
Que volte eu logo para estar com ela;
Por minha mãe, boêmios, que é doçura
Vertida em minha amargura
E nesta noite de minha vida estrela....

O boêmio calou; nenhum acento
Profanou o sentimento
Nascido da dor e da ternura,
E pareceu que sobre aquele ambiente
Flutuava imensamente
Um poema de amor e de amargura.

Saturday, January 05, 2008

UM POETA CUBANO


MI CASA

Felix Pita Rodriguez

Una de cal y otra de luna,
esta es la fórmula precisa,
una de cal y otra de luna.

Sobre la puerta, la divisa
en el escudo del frontón.
Sobre la puerta la divisa:

“En lo más alto el corazón.”
Nada lo estorbe ni lo impida:
En lo más alto el corazón.

Que él ponga el precio y él decida
- si es contra mí, tanto peor -,
que él ponga el precio y él decida:

Siempre diré: tuvo razón.

(De: Tarot de la poesia, 1971-1972)

A Minha Casa

Uma de cal e outra de lua,
esta é a fórmula precisa,
uma de cal e outra de lua.

Sobre a porta, a divisa
Um escudo no portão.
Sobre a porta a divisa:

"No mais alto o coração."
Nada o estorve nem o impeça:
no mais alto o coração.

Que ponha o preço e o decida
- se é contra mim, tanto pior-,
que ponha o preço e o decida:

Sempre direi: teve razão.

Tuesday, December 18, 2007

UMA POETISA DO PERU



VICTORIA

Blanca Varela

Volver el rostro,
no por demasiado tiempo.

¿Fue el ocaso de siempre
O um alba dejada atrás?

Amor,
paisaje que el tiempo corrige sin tregua.

La primavera es breve
a ambos lados del camino.

Vitória

Voltar o rosto,
Não por demasiado tempo.

Foi o ocaso de sempre
Ou o amanhecer deixado para trás?

Amor,
paisagem que o tempo corrige sem trégua.

A primavera é breve
em ambas as margens do caminho.

Monday, December 17, 2007

A ESCOLHA DO NOSSO GUIA


Quando esteve em Porto Velho Jorge Mautner, no seu show no Teatro Um do Sesc, me deu a honra de recitar uma poesia minha. Claro que fiquei muito feliz com o fato embora todo errado. Algumas pessoas me pediram para colocar a poesia disponível o que faço agora neste blog:

POESIA DA DANÇA

Vê é tão simples. De repente a mão
Na mão, o olhar no olhar, uns beijos.
Por que complicar? Não exija a razão.
De todo modo virá com o tempo.

Mas, com o tempo, virão outras coisas
Como a perda da magia, a dor e até
O tédio. De repente não há remédio
E, se tivermos, o mal não tem mais cura.

Segura o tempo!Segura! A mão agora
Oferece tanto. Não deixa de ser belo
O canto porque cessa. É tão lindo
Enquanto dura. Vamos, minha mão segura.

Por que temer ou colocar obstáculos
Contra o desejo que é tão natural?
Não contrarie a Natureza. Sê a presa
E a caçadora do prazer, que é tudo

Que nos resta quando o canto acaba.
A música da vida é feita de tais notas
E, se não se dança, no tempo certo,
Sobrevém o deserto e, também, se dança.

(De A Alquimia da Vida,1999)

Sunday, December 16, 2007



CANTO AO AMOR OCULTO

Como um passarinho vivo
Criando um ninho para o meu amor...

Hei de fazê-lo com as mais belas flores da floresta
e envolvê-lo com os mais doces cantos de outros pássaros
para cantar com os mais suaves sons que há.

Nem me importo de voar mais alto
Ou, de por longas distâncias, me cansar
Ou, se, na busca, venha a me machucar
Se os melhores e saborosos frutos recolher.

Só me importo, antes do luar aparecer, olhar seus olhos,
e cantar, no por do sol, o meu canto de glória,
pelo imenso amor que só posso ter

Que é mais belo ainda por ninguém perceber ....

Saturday, December 15, 2007

DOIS POEMAS DE UNGO



A PESAR DE TODO

Carlos Enrique Ungo

He sido despojado de la luz y la sonrisa
y avanzo lentamente
buscando un futuro que no me pertenece
pero que me aguarda
a pesar de todo.


APESAR DE TUDO

Fui despojado da luz e do sorriso
e avanço lentamente
buscando um futuro que não me pertence
porém que me aguarda,
apesar de tudo.

DESPEDIDAS

No desperdicies tu noche
el puño desafiante de mi odio.

Retrocede
y llévate contigo los poemas de amor
las miradas
las caricias
los secretos
compartidos a voces y en silencio.

Déjame completar el ritual del condenado
y compartir con aquellos
los ausentes
ese futuro que exige con premura
su cuota de presente.
Déjame ofrecer este último poema
con la cara al sol
y sonriente
para que luego
con el fusil al hombro y el odio en un bolsillo
me apreste a afinar la puntería.

DESPEDIDAS

Não desperdices tua noite
Com o punho desafiante de meu ódio.

Retrocede
e leva contigo os poemas de amor
os olhares
as carícias
os segredos
compartilhados a dois e no silêncio.

Deixe-me completar o ritual do condenado
e dividir com os ausentes
esse futuro que exige prematuramente
sua cota de presente.
Deixe-me oferecer este último poema
com o rosto ao sol
e sorridente
para que logo
com o fuzil no ombro e ódio no bolso
me apresse em acertar a pontaria.

Wednesday, December 05, 2007

UM POETA ESPANHOL


CAMPO

Antonio Machado

La tarde está muriendo
como un hogar humilde que se apaga.

Allá sobre los montes,
quedan algunas brasas.

Y ese árbol roto en el camino blanco,
hace llorar de lástima.

¡Dos ramas en el tronco herido, y una
hoja marchita y negra en cada rama!

¿Lloras?... Entre los álamos de oro,
lejos, la sombra del amor te aguarda.

(de Soledades, Galerías y otros Poemas, 1919)


CAMPO

A tarde está morrendo
como uma fogueira humilde que se apaga.

Além, sobre os montes,
restam algumas brasas.

E esta árvore rota no caminho branco,
faz chorar de pena.

OS Dois ramos no tronco ferido e uma
folha murcha e negra em cada ramo!

Choras? ... Entre os álamos de ouro,
longe, a sombra do amor te aguarda.

Tuesday, November 27, 2007

UMA POETISA DO URUGUAI


Decisión

Tirzah Ribeiro

Todo lo que haces o no haces
(al filo de la navaja decidiéndolo)
compromete el girar del mundo

hilo invisible
transparenta sin embargo
lo ingrato de cargar un mundo sobre el
hombro
cuando todo lo que de verdad quieres
es que el mundo se encargue
de llevarte
decidiendo por ti
lo que tú quieres

Decisão

Tudo o que fazes ou não fazes
(no fio da navalha decidindo)
compromete o girar do mundo

fio invisível
transparece sem embargo
o ingrato fardo de carregar um mundo
nos teus ombros
quando tudo o que de verdade queres
é que o mundo se encarregue
de levar-te
decidindo por ti
o que tu queres

UM POETA URUGAIO


DESPEDIDA

Líber Falco

La vida es como un trompo, compañeros,
la vida gira como todo gira,
y tiene colores como los del cielo.
La vida es un juguete, compañeros.

A trabajar jugamos muchos años,
a estar tristes o alegres, mucho tiempo.
La vida es lo povo y lo mucho que tenemos;
la moneda del pobre, compañeros.

A gastarla jugamos muchos años
entre risas, trabajos y canciones.
Así vivimos días y compartimos noches.
Mas, se acerca el invierno que esperó tantos años.

Cuando el sol se levanta despertando la vida
y penetra humedades y delirios nocturnos,
cómo quisiera, de nuevo, estar junto a vosotros
con mi antigua moneda brillando entre las manos.

Mas se acerca el invierno que esperó tantos años.
Adiós, adiós, adiós, os saluda un hermano
que gastó la moneda de un tiempo ya pasado.
Adiós, ya se acerca el invierno que esperó tantos años.

Despedida

A vida é como um pião, companheiros.
A vida gira como tudo gira,
e tem as mesmas cores do céu.
A vida é um brinquedo, companheiros.

De trabalhar brincamos muitos anos,
de estar tristes ou alegres, muito tempo.
A vida é o pouco e o muito que nós temos;
a moeda do pobre, companheiros.

De gastá-la brincamos muitos anos
entre risos, trabalhos e canções.
Assim vivemos dias e compartilhamos noites.
Mas se acerca o inverno que esperou tantos anos.


Quando o sol se levanta despertando a vida
e penetra umidades e delírios noturnos,
quisera novamente estar junto convosco
com minha antiga moeda a brilhar entre as mãos.

Mas se acerca o inverno que esperou tantos anos.
Adeus, adeus, adeus, os saúda um irmão
que gastou a moeda de um tempo já passado.
Adeus, já chega o inverno que esperou tantos anos.

Monday, November 26, 2007

UM POETA DE COSTA RICA



La contemplación de las horas.

César Gonzalez Granados

El insomnio es una casa abierta,
una recopilación de goteras golpeteando contra el piso,
la pena capital para Morfeo,
la reina incertidumbre, el peso por lo hecho,
el miedo por lo muerto, el tiempo para anhelarte,
el precio por tus besos.

El tiempo de algunas noches parece muerto,
y hay que velarlo en la contemplación de las horas
soñando despierto,
inventándome tonos similares a los tuyos
que me arrullen con su canto, para soñar con tu cuerpo.

El insomnio es el trance delicioso del recuerdo,
el trago de vinagre por miedo a morirse seco,
el resonar del reloj
con arritmia en los minutos,
las cataratas del cuerpo
y vos en un barril;
como decir, es el sueño…

A Contemplação das horas.

A insônia é uma casa aberta,
Uma compilação das goteiras golpeando de encontro ao assoalho,
A pena capital para Morfeu,
O reino da incerteza, o peso do fato,
O medo pelos mortos, o momento para desejar-te,
O preço por seus beijos.

O tempo de algumas noites parece morto,
E é necessário velá-lo na contemplação das horas
Sonhando desperto,
Inventando tons similares aos teus
Que sejam no seu canto, para sonhar com teu corpo.

A insônia é o momento delicioso da recordação,
O trago do vinagre pelo medo de morrer a seco,
O ressonar do relógio
Com arritmia nos minutos,
As cataratas do corpo
E duas vozes num tambor;
como a dizer, é o sonho.

Monday, November 19, 2007

NOVAMENTE CANESE



¡A CALLAR!

Jorge Canese

Aprendí a callar,
a sonreír
cuando era absolutamente necesario,
a correr, a no sentir,
a amar sin que se note,
a comer sin placer,
a olvidar pronto,
a vivir solo,
a pensar en los demás
para no pensar en uno mismo
y a rezar para no despertarme,
porque a veces
(aún a pesar de todo)
a uno le entran ganas de vivir
y como el monstruo sigue firme
a nuestro lado
no nos queda más remedio que olvidar
y recurrir a la oración,
al maratonismo y al silencio
para seguir huyendo y temiendo,
para no pensar
que algún día
las cosas puedan ser de otra manera.

( El trino soterrado, vol. II, 1986)

A Calar

Aprendi a calar,
a sorrir
quando era absolutamente necessário,
a correr, a não sentir,
a amar sem que se note,
a comer sem prazer,
a esquecer logo,
a viver só,
a pensar nos demais
para não pensar em si mesmo
e a rezar para não despertar,
porque, às vezes,
(ainda apesar de tudo)
surge um desejo de viver
e o monstro segue firme
ao nosso lado
mesmo se resta apenas o remédio de esquecer
e recorrer à oração,
ao maratonismo e ao silêncio
para continuar fugindo e temendo,
para não pensar
que outro dia
as coisas podem ser de outra maneira.

Saturday, November 17, 2007

UM POETA DO PARAGUAI


PARABOLA DE LA ROSA

Rubén Bareiro Saguier

Anoche un guardia,
un hombre con el rostro
oculto por una máscara de sombra,
entre las rejas me pasó una rosa
cortada de algún jardín público.
"Viene de afuera", me dijo,
y sentí que un hálito de vida
me invadía.
Supe que en el fondo del pozo,
en el charco de un pecho
puede florecer una rosa.
Aunque la felidez
la marchitó enseguida,
la rosa existe.
(De: Estancias, errancias, querencias, 1985)

A PARÁBOLA DA ROSA A noite um guarda,
um homem com o rosto
oculto por uma máscara de sombra,
entre os grades me passou uma rosa
cortada de algum jardim público.
“Vem de fora”, me disse,
e senti um hálito de vida
me invadir.
Supus que no fundo do poço,
No charco de um peito
pode florescer uma rosa.
Embora com o tempo
Tenha murchado em seguida,
a rosa existe.

NEM TE ENGANANDO...



Coraçãozinho ateu

Eu não sei não
Como foi que perdi
teu coração.
Ainda agora o tive
tão vivido.
na minha mão.

Não se pode nem dizer
Que não o tratei com carinho
Que não lhe dei ilusão.
Até dei uma pancadas nele
Tentando injetar adrenalina
pensando que tivesse salvação.

Ó coraçãozinho sem-vergonha!
Voou feito um passarinho
E nem cantou nem gemeu
Deve ser um coração ateu
nem acreditou
quando lhe disse
que era Deus!

Friday, November 16, 2007

AS FILHAS TAMBÉM SÃO DIFERENTES



SUSTINHO

Mamãe,
Tenho um breve comunicado:
-Fiz algo muito errado.
Tomei seu namorado.

Sei. É um homem muito mais velho do que eu,
Mas, quem, numa noite, já não se perdeu?
E, convenhamos, pagando tantas despesas
Deve ter uma boa conta bancária.
Posso ser jovem, porém não otária.
Aprendi a lição de tanto repetir
Não seria qualquer um
Que iria me seduzir.


Mamãe,
Repito o que me disse:
-Seja uma mulher de classe!
Se errei-tudo bem- valorizei meu passe.
O resto é tolice e se ajeita.
Só abusei de sua receita.

Não fique triste à-toa.
Depois da notícia ruim
Tenho uma boa:
-Parabéns, coroa!
Ou será melhor dizer vovó!

De "Poemas Mal Comportados"

AS MÃES JÁ NÃO SÃO AS MESMAS



Super-filha

Sinto lhe comunicar
Que, ontem, a senhora foi demais!
Fez coisas da quais nunca lhe julguei capaz.

Nunca critiquei seu desejo de ser moderna,
Mesmo quando abria as pernas
Para rapazes de dezesseis anos
Que podiam ser seus netos
E bêbada me embaraçava
Querendo dançar
Quando não conseguia se equilibrar.

Meu pai, que era acusado de ser sem-vergonha,
Sempre me aconselhou a contemporizar.
Me alertava: -Sua mãe é ótima.
Só tem o defeito de não saber amar
E das besteiras que faz
Costuma os outros culpar.

Até agüentei que me tomasse os namorados
E, se passasse, apesar dos risos, por minha irmã
Com a esperança sempre vã
De que uma hora fosse sossegar.
Afinal a idade sempre traz sabedoria.
E esperava, paciente, quem sabe...um dia.

Infelizmente preciso lhe informar com urgência
Que seu caso está tendendo para a demência;
Que não é bom nem delicado
Dizer que não tem homem na mesa
Por não querer pagar sua despesa
Nem lhe levar para a cama.
Afinal só a filha tem obrigação
De cuidar da mãe bêbada e insana.
Aconselho a não sair esta semana.

De "Poemas Mal Comportados"

Thursday, November 15, 2007

UMA POETISA DO PARAGUAI


UNA VEZ

María Luisa Artecona de Thompson

Hoy anduvimos celosamente humanos,
rescatando el idilio de las horas.
Por eso fui buscando un lapso claro
para ofrecerte mi vendimia simple.
Pero tú, generoso hasta el convite del vino
de mi agrazón oscura, hiciste uvas doradas,
y un poco deslumbrado
de pronto, todo lo cambiaste
y se tiñeron tus ojos de dulzura
y nada más que así fue nuestro encuentro.
Había una vez. No.
Erase una vez. No.
Que fueron muy felices. No.
Ya lo sé, amor,
son los tenaces juegos de tu ausencia.
(1984)

De: El canto a oscuras

Uma Vez

Hoje nós andamos zelosamente humanos,
resgatando o idílio das horas.
Por isso fui buscando um lapso claro
para oferecer-te minha vindima simples.
Porém, tu, generoso até o convite do vinho
escuro da minha amargura, fizestes uvas douradas,
e um pouco deslumbrado
de pronto, tudo mudastes
e se tingiram teus olhos de doçura
e nada mais que assim nosso encontro.
Houve uma vez. Não
Apague uma vez. Não
Que foram muito felizes. Não
Eu sei- era o amor,
são os tenazes jogos de tua ausência.

DEVANEIOS JUVENIS



ORIGEM

Um dia a loucura de ser Ninguém
Assumi sem medo.
Transformando as regras mais elementares
Fiz de cada anúncio um segredo,
De cada momento, um alarde.
Criei uma ilusão que, de furiosa, arde,
Uma paixão que, de violenta, fere,
Porém que esconde, por mais que revele,
O egoísmo que me impele.
E como a Ninguém se nega o sentimento,
Pois o real sempre lhe é negado,
Reclamei, num gesto tresloucado,
Como único legado dos que, igual a mim,
nada são,
O direito de sonhar.
Abri, então, as porteiras da fantasia
E os cavalos da ilusão
Num tropel louco
Espalharam na cidade
Um vendaval de sonhos
E os sonhos de Ninguém
Povoaram o mundo todo
E de tudo, então,
O sonho, agora, é parte.
(De Viagem aos Sonhos de Ninguém)

Monday, November 12, 2007

UM POETA URUGUAIO


RESPIRACIONES

Saúl Ibargoyen

La piel de esta bestia posible
acumula deshojadas láminas
y un hálito herrumbrado
se apega a sus raíces.
Esta piel que cruje así
entre ínfimas tormentas de sal
viene quizá
desde las primeras respiraciones
de una larva enroscándose
en sutiles gelatinas.
Un animal de las aguas
gira otra vez sobre el eje
de su cuerpo incompleto:
así prepara la disolución de su cola
el tamaño negro de sus hígados
el advenimiento de patas y pulmones.
Una atmósfera estremecida
le cierra las narices:
son burbujas y espumas sin olor
sólo son una cifra de sustancias
un ronquido un ahogo
que los aires de afuera
tendrán que beber.
Y aquella piel repite
la ausencia del oxígeno
la falta del silbido
del estertor de la queja:
aquella piel como una lengua
mezclándose ya
a un silencio de ceniza
y de canciones vacías.

RESPIRAÇÕES

A pele desta besta possível
acumula desfolhadas lágrimas
e um hálito oxidado
se uniu as suas raizes.
Esta pele que cruzas assim
entre ínfimas tempestades de sal
vem talvez
das primeiras respirações
de uma larva enroscando-se
em sutil gelatinas.
Um animal das águas
gira outra vez sobre o eixo
de seu corpo incompleto:
assim prepara a dissolução de sua cauda
o tamanho negro de seus fígados
o advento dos pés e dos pulmões.
Uma atmosfera agitada
fecha-lhe as narinas:
são bolhas e a espuma sem cheiro
é somente um número de substâncias
um ressonar um afogamento
que os ares externos
terão que beber.
E aquela pele repete
a ausência do oxigênio
a falta do assobio
do estertor da queixa:
aquela pele como uma língua
mesclando-se já
a um silêncio de cinzas
e de canções vazias.

UMA POETISA DO URUGUAI


LUPAS

Sylvia Riestra

es como una obligación
es a pesar mío
seguir las huellas digitales
de los sucesos
fijarlos
hacerlos tinta en papel
seudópodos alfabetarios
desde la gota de la fruta
a la sangre del corte -
para que se estén ahí
y entonces sí
que aparezca la certeza
de que existieron

LUPAS

São como uma obrigação,
para o meu pesar,
seguir as impressões digitais
dos eventos
fixá-los
fazê-los tintas nos alfarrábios
de papel dos pseudópodos
desde a gota da fruta
ao sangue do corte -
de modo que estejam aí
então sim
que apareça a certeza
de que existiram

Wednesday, November 07, 2007

GRANDEZA


Sinto que o amanhã
Não mais será
Capaz de nos legar
A grandeza que tentamos alcançar.

Infelizmente os caminhos
Que trilhamos foram traiçoeiros.
No fim perdi toda delicadeza
E flor que trago
Perdeu sua beleza.

Ainda posso dizer
Todas as palavras de amor
Que decorei para dizer,
Porém,eu já não sou eu,
Você não é você
E é bem possível
Que nem escute
O que tenho pra dizer.

Talvez o tempo tenha levado o momento
Ou o vento leve as palavras
Porque afinal tudo passa,
Inclusive o amor,
No longo palco do esquecimento.

E, quem sabe, fique a lenda ou mito
De como o nosso amor foi tão bonito!

Sunday, November 04, 2007

EMILY DICKINSON


XXVII

Emily Dickinson

I ’M nobody! Who are you?
Are you nobody, too?
Then there ’s a pair of us—don’t tell!
They ’d banish us, you know.

How dreary to be somebody!
How public, like a frog
To tell your name the livelong day
To an admiring bog!


XXVII

Eu não sou ninguém! Quem são vocês?
São ninguém, também?
Então há um par de nós-não me digam!
Eles nos baniram, vocês sabem.

Como secamente ser alguém!
Como ser público, como um sapo
Para dizer o seu nome ao longo do dia
Feito um idiota se auto-elogiando!

Saturday, November 03, 2007

UM POETA DE COSTA RICA


La contemplación de las horas.

César
Gonzalez Granados


El insomnio es una casa abierta,
una recopilación de goteras golpeteando contra el piso,
la pena capital para Morfeo,
la reina incertidumbre, el peso por lo hecho,
el miedo por lo muerto, el tiempo para anhelarte,
el precio por tus besos.

El tiempo de algunas noches parece muerto,
y hay que velarlo en la contemplación de las horas
soñando despierto,
inventándome tonos similares a los tuyos
que me arrullen con su canto, para soñar con tu cuerpo.

El insomnio es el trance delicioso del recuerdo,
el trago de vinagre por miedo a morirse seco,
el resonar del reloj
con arritmia en los minutos,
las cataratas del cuerpo
y vos en un barril;
como decir, es el sueño…

A Contemplação das horas.

A insônia é uma casa aberta,
Uma compilação das goteiras golpeando de encontro ao assoalho,
A pena capital para Morfeu,
O reino da incerteza, o peso do fato,
O medo pelos mortos, o momento para o desejar-te,
O preço por seus beijos.

O tempo de algumas noites parece morto,
E é necessário velá-lo na contemplação das horas
Sonhando desperto,
Inventando tons similares aos teus
Que sejam no seu canto, para sonhar com teu corpo.

A insônia é o momento delicioso da recordação,
O trago do vinagre pelo medo de morrer a seco,
O ressonar do relógio
Com arritmia nos minutos,
As cataratas do corpo
E duas vozes num tambor;
como a dizer, é o sonho

Friday, November 02, 2007

UM POETA PARAGUAIO


EL FUGITIVO

Luis bravo

Están vacíos, la vía láctea, el andén,
el gran reloj que sostiene.
Alguien que no se ve conduce la huida de la estrella,
el artefacto.
El tren que cae por la pendiente.

Entre las sombras una rebelión,
dicen, que ya no eres, sino
sólo una foto de ti sobre el espejo
harto de sí, su mismo igual, repetitivo.

El pez que grita bajo el agua infinita.

Congelado pasajero en el andén, al oído
el Olvido te susurra : "podrías morir ahora
y ningún dios negociará tus suertes".

Cobarde y seductor el fino puñal de atrás empuja.
No se ve la mano, la tuya, que lo sostiene.

O Fugitivo

Estão vazios, a Via Láctea, a plataforma,
O grande relógio que sustenta.
Alguém que não se vê conduz a queda da estrela,
o dispositivo.
O trem que que cai pela ladeira.

Entre as sombras uma rebelião,
diz, que já não é você, mas sim
só uma foto tua no espelho
farto de ti, a tu mesmo igual, repetitivo.

O peixe grita sob a água infinita.

O congelado passageiro na plataforma, escuta
o esquecimento que te sussurra: “poderias morrer agora
e nenhum deus negociará teu destino?”.

Covarde e sedutor o fino punhal por trás entra.
Não se vê a mão, a tua, que o sustenta.

SIAMESES


Há um anjo em mim que toca banjo
Que voa, voa, baila e não tem asas.
Há um anjo em mim que vê nas casas
só prisão
E quer a liberdade, a liberdade, a amplidão
dos campos.

Há um anjo em mim que é um demônio
Que acendeu o fogo no meu coração
E faz da minha vida um inferno
Fingindo-se de doce e terno
Quando somente quer voar liberto
E, eternamente esperto, quer só
Possuir toda mulher.

Há um anjo e um demônio em mim
Que são assim irmãos siameses,
Violentos e corteses,
E se dão as mãos, os pés, o sangue, as veias
E se alimentam com a insofismável aveia
Da sensualidade imaterial da ilusão
E brincam de esconder o que, de fato, são.

Wednesday, October 31, 2007

MUITAS VEZES É SÓ....

IDIOSSINCRASIA

As palavras pendem como pétalas mortas
Sem significados e sem perfume.
Até mesmo as paredes parecem tortas
Agora que esgotei o amor, a raiva, o ciúme.

Poderia, num acesso de enorme egoísmo,
Pedir, mais uma vez, que permaneça.
Seria, sei, um imenso ato de cinismo
Da mesma forma que pedir que esqueça.

No entanto nós sabemos muito além
De todas as palavras como nos queremos bem,
Mas também o quanto mais nos odiamos:
-Somos cônscios do ardor com que pecamos.

Nenhum de nós irá pensar em pedir perdão
Nem voltar atrás na maior motivação
Que é o de sermos, ambos, tão libertos
Que nem a quem amamos gostamos de ter perto.

Ilustração de http://www.perisse.com.br/

Tuesday, October 30, 2007

UM POETA DA VENEZUELA

BIEN FRITO EN EL PLATO

Gustavo Pereira

A mí que me dejen bien frito en el plato
Con mi ojo dorado, listo para el corte
Y con los dedos ensartados en el puré con adornos.

Después que condimenten, vainilla y vinagre
Hagan lo normal
y hablen todo el tiempo sobre el discurso del presidente
tan bien hecho
tan formidable.

A mí que me pongan un color de salsa de tomate
Me huelan profundo
y me dejen sonriendo sobre el plato
como una cabeza de puerco a la que todo el mundo
ve con deleite.

BEM FRITO NO PRATO

A eu que me deixem bem frito no prato
Com meu olho dourado, pronto para o corte
E com os dedos desfiados no purê com adornos.

Depois que condimentem, baunilha e vinagre
Façam o normal
E falem todo o tempo sobre o discurso do presidente
Tão bem feito
tão formidável.

A eu que me ponham a cor de extrato de tomate
Me cheirem profundamente
e me deixem sorrindo sobre o prato
como uma cabeça de porco a que todo mundo
vê com deleite.

Monday, October 29, 2007

OS DOCES CANTOS DA ANTIGUIDADE

AQUÍ SE DICE COMO DON SANCHO TORNÓ SU IRA EN GOZO Y SU TRISTURA EN CÁNTIGO, CÁNTIGA Y DULZOR DEL CIELO

Álvaro Miranda

Sea que sí, sea que no, brínquese por la cola,
cójase por el cuello, apriétese el pispirispi,
húndasele el gaznate, muérdasele el juanete,
aquíy allá, en la hora en que el sinsonte se vuelca
en el mar, silba la iguana, silba el carmín, arde
el cotudo, se amasa la bilis, come mi risa puerro y orín.

Va la vieja, viene la niña, vende que vende,
grita que grita, ofrécese aquí, desnúdase allá,
lluvia tras lluvia la mar no se va, sea que sí,
sea que no, váse la huella con el caracol y el
sueño que vela, infla la música, cristal
de la aurora, barco que aflora allá en el confín,
muralla que arpegia la luna y la aurora.

AQUI SE DIZ COMO DOM SANCHO TORNOU SUA IRA EM GOZO E SUA TRISTEZA EM CÂNTICO, CANTIGA E DOÇURA DE CÉU
Seja porque sim, seja porque não, brinca-se pelo rabo,
pega-se pelo colo, aperta-se a preciosinha,
junta-se a garganta, morde-se o joanete , aqui
e ali, na hora em que o pássaro se volta
do mar, silva a iguana, silva o carmin, arde
a papada, se amassa a bilís, come meu riso, amarga e oxida.

Vai a velha, vem a menina, vende que vende,
grita que grita, oferecesse aqui, desnudasse ali,
chuva após chuva o mar não se vai, seja porque sim,
seja porque não, siga a trilha com o caracol e
o sonho que guarda, infla a música, cristal
da aurora, barco que se levanta atrás da beira,
muralha que harmoniza a lua e o aurora.

Saturday, October 27, 2007

UM POETA DE COSTA RICA


DESTELLOS DE AMOR

[Abril de 1962]



José Eliseo Valverde Monge


Amada,esta noche
tu perfume en mi cuerpo,
derramará el amor
encarcelado.

En mi vida
disciernes alegremente;
tu seducción,
perdurará
las caricias.

Amada!..
Tu preciosa existencia,
emotiva
el paso por esta tierra,

a veces sola,
a veces triste…

Centelhas de amor

Amada,
Esta noite,
Teu perfume em meu corpo,
Derramará o amor
Encarcerado.

Em minha vida
Discernes alegremente;
Tua sedução
Perdurará
As caricias.

Amada!
Tua preciosa existência
Emotiva
Passou por esta terra

Ás vezes só....
Às vezes triste....

SEMPRE BORGES

El laberinto

Jorge Luis Borges

Zeus no podría desatar las redes
de piedra que me cercan. He olvidado
los hombres que antes fui; sigo el odiado
camino de monótonas paredes
que es mi destino. Rectas galerías
que se curvan en círculos secretos
al cabo de los años. Parapetos
que ha agrietado la usura de los días.
En el pálido polvo he descifrado
rastros que temo. El aire me ha traído
en las cóncavas tardes un bramido
o el eco de un bramido desolador.
Sé que en la sombra hay Otro, cuya suerte
es fatigar las largas soledades
que tejen y destejen este Hades
y ansiar mi sangre y devorar mi muerte.
Nos buscamos los dos. Ojalá fuera
éste el último día de la espera.

O Labirinto

Zeus não podia desatar as redes
De pedra que me cercam. Ele há esquecido
Os homens que antes fui. Sigo o odiado
Caminho de monótonas paredes
Que é meu destino. Retas galerias
Que se curvam em círculos secretos
Ao cabo dos anos. Parapeitos
Que aprisionarama a usura dos dias.
Na pálida poeira há decifrado
Rastros que temo. O ar me há traído
Nas côncavas tardes um bramido
Ou o eco de um bramido desolado.
Sei que na sombra há outro, cuja sorte
É fatigar as solidões no eterno
Que tecem e destecem este inferno
E anseia por meu sangue e devorar minha morte.
Nós buscamos os dois. Que bom que era
Se fosse este o último dia da espera

Thursday, October 25, 2007

UM POETA CUBANO INDICADO POR SARAMAR


Poema a Capablanca

Nicolás Gullén


Así pues, Capablancano
está en su trono, sino que anda,
camina, ejerce su gobierno
en las calles del mundo.

Bien está que nos lleve
de Noruega a Zanzíbar,
de Cáncer a la Nieve.

Va en un caballo blanco,
caracoleando
sobre puentes y ríos
junto a torres y alfiles,

el sombrero en la mano
(para las damas)
la sonrisa en el aire
(para los caballeros)

y su caballo blanco
sacando chispas puras
del empedrado...

Poema para Capablanca

Assim Capablanca
não está em seu trono, mas anda,
caminha, exerce seu governo
nas ruas do mundo.

É bom que nos leve
da Noruega a Zanzíbar,
do Cancer à Nieve.

Que vá no seu cavalo branco,
caracoleando
sobre pontes e rios
junto das torres e dos bispos,

o chapéu na mão
(para as senhoras)
o sorriso no ar
(para os cavalheiros)

e seu cavalo branco
extrai chispas puras
do pavimento....

Retalhos

Não esperarei mais por tua volta.
A porta está aberta, a fechadura destravada,
Mas as dores do passado estão mortas.

Nem sei se terei mais alegria
Na tua companhia. E se chegas serás uma incógnita
Depois de tantos dias de silêncio e esquecimento.

Serás, por acaso, a mesma nos carinhos e beijos?
Ou, pelos caminhos, na busca de esperança,
Em imaginários desejos e lábios outra se fez?

Nem sempre depois da tempestade a vida recompõe
O que as águas e os ventos destruiu. São fatos.
A passagem pode não ser visível e ser mortal.

Na realidade do viver se afoga a utopia
E o ponto na distância some, ou se agiganta,
Dependendo do olhar. Talvez não haja o que restaurar...

Talvez quando voltares se rasgue a fantasia,
Todo o passado, seja um mundo fictício; o amor, um vício.
Nosso romance, uma mera ilusão.

Não esperarei tua chegada... partido estou na partida.

Wednesday, October 24, 2007

SE NÃO FOR ASSIM, ASSIM FOI

What We Are

William Bronk

What we are? We say we want to become
what we are or what we have an intent to be.
We read the possibilities, or try.
We get to some. We think we know how to read.
We recognize a word, here and there,
a syllable: male, it says perhaps,
or female, talent -- look what you could do --
or love, it says, love is what we mean.
Being at any cost: in the end, the costis terrible
but so is the lure to us.
We see it move and shine and swallow it.
We say we are and this is what we are
as to say we should be and this is what to be
and this is how. But, oh, it isn’t so.
O Que Nós Somos

O que nós somos? Nós dizemos o que queremos ser
Aquilo que somos ou que temos intenção de ser.
Nós lemos as possibilidades, ou as tentativas.
Nós obtemos algumas. Julgamos saber ler.
Nós reconhecemos uma palavra, aqui e ali,
Uma sílaba: masculino, que diz talvez,
Ou feminino, talento - veja o que poderia fazer-
Ou amor, se diz, o amor é o que nós significamos.
Sendo a todo o custo: no final, o custo
É terrível, mas é assim que a isca para nós.
Nós a vemos se mover e brilhar e ser engolida.
Nós dizemos que somos e é isto que somos
Como se dizer o que deveríamos ser e ser fosse o mesmo
E é assim. Mas, ah, não é assim.

Tuesday, October 23, 2007

AINDA BORGES

AUSENCIA

Jorge Luis Borges

Habré de levantar la vasta vida
que aún ahora es tu espejo:
cada mañana habré de reconstruirla.
Desde que te alejaste,
cuántos lugares se han tornado vanos y sin sentido,
iguales a luces en el día.
Tardes que fueron nicho de tu imagen,
músicas en que siempre me aguardabas,
palabras de aquel tiempo,
yo tendré que quebrarlas con mis manos.
¿En qué hondonada esconderé mi alma
para que no vea tu ausencia
que como un sol terrible, sin ocaso,
brilla definitiva y despiadada?
Tu ausencia me rodea
como la cuerda a la garganta,
el mar al que se hunde.
Ausência

Haverei de levantar a vasta vida
Que ainda agora é teu espelho:
Cada manhã haverei de reconstruí-la.
Desde que te fostes
Quantos lugares se hão tornado vão
E sem sentido, iguais
As luzes do dia.
Tardes que foram nicho de tua imagem,
Musicas em que sempre me aguardavas,
Palavras daqueles tempos
Eu terei que quebrá-las com as minhas mãos.
Em que profundeza esconderei minha alma
Para que não veja tua ausência,
Que como um sol terrível, sem ocaso,
Brilha definitiva e desapiedada?
Tua ausência me rodeia
Como a corda à garganta
Como o mar ao que se derrete.

Monday, October 22, 2007

BORGES

CERCANÍAS

Jorge Luís Borges

Los patios y su antigua certidumbre,
los patios cimentados en la tierra y el cielo.
Las ventanas con reja
desde la cual la calle
se vuelve familiar como una lámpara.
Las alcobas profundas
donde arde en quieta llama la caoba
y el espejo de tenues resplandores
es como un remanso en la sombra.
Las encrucijadas oscuras
que lancean cuatro infinitas distancias
en arrabales de silencio.
He nombrado los sitios
donde se desparrama la ternura
y estoy solo y conmigo.

Vizinhanças

Os pátios e sua antiga certeza,
Os pátios cimentados
Na terra e no céu.
As janelas com grades
Desd’a qual a rua
Se faz familiar como uma lâmpada.
As alcovas profundas
Onde ardem em quieta chama o lampião
E o espelho de tênues resplendores
É como um remanso na sombra.
As encruzilhadas escuras
Que lançam quatro infinitas distâncias
Para os subúrbios de silêncio.
Ele nomeara os sítios
De onde se esparramara a ternura
E estou só eu comigo.

Tuesday, October 16, 2007

DE NOVO VALEJO


XXXIV

Cesar Valejo

Se acabó el extraño, con quien, tarde
la noche, regresabas parla y parla.
Ya no habrá quien me aguarde,
dispuesto mi lugar, bueno lo malo.

Se acabó la calurosa tarde;
tu gran bahía y tu clamor; la charla
con tu madre acabada
que nos brindaba un té lleno de tarde.

Se acabó todo al fin: las vacaciones,
tu obediencia de pechos, tu manera
de pedirme que no me vaya fuera.

Y se acabó el diminutivo, para
mi mayoría en el dolor sin fin,
y nuestro haber nacido así sin causa.


XXXIV

Se acabou o estranho, com quem, tarde
A noite, regressavas a falar e falar.
Já não haverá quem me aguarde
Disposto meu lugar, bem ou mal.

Se acabou a calorosa tarde;
Tua grande baía e teu clamor, a conversa
Com a tua mãe terminada
Por nos brindar com um chá pleno de tarde.

Se acabou tudo ao fim: as férias,
Tua obediência de fachada, tua maneira
De pedir-me que não fosse embora.

E se acabou o diminutivo, para
Mim maioria na dor sem fim,
E nosso haver nascido assim sem causa.

UM POETA ESPANHOL

SE EQUIVOCÓ LA PALOMA

Rafael Alberti

Se equivocó la paloma.
Se equivocaba.
Por ir al norte, fue al sur.
Creyó que el trigo era agua.
Se equivocaba.

Creyó que el mar era el cielo;
que la noche, la mañana.
Se equivocaba.

Que las estrellas, rocío;
que la calor; la nevada.
Se equivocaba.

Que tu falda era tu blusa;
que tu corazón, su casa.
Se equivocaba.

(Ella se durmió en la orilla.
Tú, en la cumbre de una rama.)

Se Equivocou a Pomba

Se equivocou a pomba.
Se equivocava.
Queria ir ao norte, foi para o sul.
Acreditou que o trigo era água.
Se equivocava.

Acreditava que o mar era o céu;
Que a noite, manhã.
Se equivocava.

Que as estrelas, eram o orvalho;
Que o calor, era a nevada.
Se equivocava.

Que tua saia era tua blusa,
Teu coração, tua casa .
Se equivocava.

(Ela dormiu na praia.
Tu, no alto de um galho.)

UM POETA ARGENTINO

Soneto erótico

Julio Cortazar

A sonnet in a pensive mood.

Para C.C., que paseaba por las calles de Nairobi

Su mono azul le cine la cintura,
le amanzana las nalgas y los senos,
la vuelve um muchachito y le da plenos
poderes de liviana arquitectura.

Al viento va la cabellera oscura,
es toda fruta y es toda venenos;
el remar de sus musclos epicenos
inventa uma fugaz psicultura.

Amazona de mono azul, el arte
la fija en este rito paralelo,
cambiante estela a salvo de mudanza;

viejo poeta, mirala mirarte
con ojos que constelan otro cielo
donde no tiene puerto tu esperanza.

Soneto erótico

Um laço azul lhe cinge a cintura,
Amansando as nádegas e os seios
Numa fileira que lhe dá plenos
Poderes de cristalina arquitetura.

Ao vento a cabeleira escura,
É toda fruta e é toda venenos;
No remar de seus músculos epicenos
Inventa uma fugaz psicultura.

Amazona de laço azul, a arte
A fixa neste rito paralelo,
Estrela mutável sem mudança;

O velho poeta olha, e ao olhar-te,
Com olhos que imaginam outro céu
Aporta onde não tem sua esperança.

Saturday, October 13, 2007

DICKSON OUTRA VEZ

XXIV

Emily Dickson

WHETHER my bark went down at sea,
Whether she met with gales,
Whether to isles enchanted
She bent her docile sails;

By what mystic mooring
She is held to-day,—
This is the errand of the eye
Out upon the bay.


XXIV

SE meu barco foi ao fundo do mar,
Se soçobrou com vendavais,
Ou com ilhas encantadas
Que dobraram seus dóceis marinheiros.

Por qual mística amarração
Ela está presa hoje,
Com este errante olhar
Por fora e acima da baía.